
Bloqueio total foi imposto em quatro cidades no Maranhão (Divulgação / Agência São Luís)
O 5 de maio é o Dia Mundial da Língua Portuguesa. Lembrei a data logo que iniciei a apresentação do Jornal da CBN, nesta terça-feira. Para que o dia criado pelo Unesco fizesse algum sentido, tomei cuidado em ler “bloqueio total” todas às vezes que o redator usou “lockdown” para identificar as medidas restritivas que se iniciavam em quatro cidades do Maranhão, incluindo a capital. Era o mínimo que podia fazer para não estragar a festa dedicada ao idioma de Camões.
Intriga-me desde o início desta pandemia a preferência que se tem dado nos textos jornalísticos e na fala de autoridades a expressão “lockdown” — que na origem era usada para o ato de manter os presos confinados nas celas enquanto se buscava restaurar a ordem no presídio durante rebelião. Passou a ser aplicada em diversas situações de emergência nas quais as pessoas devem permanecer em casa para preservar sua segurança — e se aproximou ainda mais da gente quando o Sar-Cov-2 desembarcou em nossas bandas.
Por coincidência, sobre a mesa que apresento o Jornal da CBN aqui em casa, estou com um dos livros que reencontrei na tentativa de reorganizar a biblioteca durante este confinamento que já dura 46 dias —- tarefa mal-acabada. “A Imprensa e o caos na ortografia — com um pequeno dicionário de batatadas da imprensa” (Editora Record), foi escrito pelo jornalista Marcos de Castro, em 1998. O livro reúne uma série de textos nos quais o autor descreve sua implicância com a maneira descuidada com que tratamos a língua portuguesa —- especialmente nós jornalistas. O livro é coisa fina, “caviar e salmão do Mar do Norte”, apenas para repetir a maneira como ele define um texto refinado. Deveria ser servido a todos que trabalhamos nas redações.
Um dos capítulos é dedicado ao uso do termo americano “slow motion” para identificar o que em bom português tinha nome e sobrenome: câmera lenta.
Escreve Marcos de Castro:
“É preciso ser muito colonizado culturalmente para desprezar uma expressão tão nossa, já integrada no tempo em nosso modo de dizer, em nosso modo de ser. É preciso ser muito macaquito”.
O incômodo do autor se dá pela barreira que o estrangeirismo cria entre quem diz e quem ouve:
“…é evidente que usar o que é nosso, ‘câmera lenta’, facilita muito para a comunicação com o telespectador ou com o leitor, de espírito evidentemente mais receptivo a uma expressão familiar do que ao pedantismo de slow motion.”
Para Marcos de Castro, o uso da palavra estrangeira diante de uma versão brasileira, conhecida e de fácil entendimento, prejudica a comunicação.
Se tem uma arma que se deve usar para combater o atual coronavírus é a comunicação eficiente. Deixar claro às pessoas o risco que corremos, o desafio que a comunidade médica e científica enfrenta e as dificuldades que as autoridades públicas têm para administrar essa crise. Informar, sem barreiras, a importância de lavar bem as mãos, evitar colocá-las no rosto, tossir e espirrar no antebraço, ficar em casa se possível e manter o distanciamento social.
Nos estados e nas cidades em que a situação é ainda mais grave, é preciso dizer de maneira simples, direta e objetiva que a circulação de pessoas e carros será proibida, com permissão apenas para os trabalhos essenciais, a busca de ajuda médica e a compra de comida e remédio. Ou seja, em lugar de “lockdown” dizer em bom português que o bloqueio é total.