Da Nau dos Loucos ao tanque de roupa suja: “soluções” para os transtornos mentais

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Pixabay

 

Na obra o Alienista, de Machado de Assis, o médico Simão Bacamarte retorna à sua terra natal e constrói um manicômio, chamado Casa Verde, para abrigar os loucos da cidade e região. No início, as internações eram apoiadas pela sociedade, mas com os avanços de sua teoria, o médico chega a internar 75% da população, que se revolta. Então, Bacamarte revê seus estudos, liberta essas pessoas que estavam internadas e confina a outra parcela da população, invertendo seu conceito sobre a loucura: louco seria quem se mantinha estável em suas ações.

 

A busca por explicações sobre comportamentos estranhos ou anormais sempre esteve presente na história da humanidade. Documentos mostram que em 3.500 a.C., na Babilônia, já havia relatos do que hoje chamamos de transtornos mentais. Para os povos primitivos, a “loucura” não era vista como doença, mas como espíritos do mal que dominavam a pessoa e deveriam ser expulsos em rituais espirituais. Na cultura greco-romana, a loucura era decorrente do desequilíbrio de fluídos corporais. Na Idade Média, a ideia de que a doença mental era algo místico e religioso é retomada. Nessa época, a Igreja criou duas formas de controlar e isolar aqueles que apresentavam opiniões contrárias às doutrinas estabelecidas, chamados hereges: a inquisição, na qual o herege era cruelmente morto para que suas ideias não fossem difundidas; e a Nau dos Loucos, embarcações nas quais os loucos eram colocados, vagando pelos rios europeus.

 

No renascimento, a loucura passou a ser explicada de forma filosófica e o louco passa a ser visto como uma pessoa desadaptada e insignificante. Após a Revolução Industrial, o conceito de normalidade foi vinculado ao trabalho e a produtividade. O louco era visto como ocioso e improdutivo. Na tentativa de recuperação, o louco era internado, para aprender um ofício e torturado. No final do século XVIII, Pinel, médico francês, se deteve ao estudo da anormalidade, vinculando a loucura com cuidados médicos. A loucura passou a ser vista como doença mental, passível de tratamento, mas ainda reclusa aos manicômios. Após a II Guerra Mundial, o desenvolvimento da indústria farmacêutica e a descoberta de medicações permitiram o tratamento ambulatorial, ou seja, fora das instituições.

 

Se por um lado o interesse com a doença mental, especialmente na última metade do século passado, despertou o avanço de estudos científicos, como o desenvolvimento das neurociências; por outro lado, os estigmas associados aos doentes mentais sofreram mudanças menos acentuadas. Explicações reducionistas sobre as causas, mitos sobre a doença e soluções de tratamento pouco embasadas em métodos científicos, continuam a exigir das pessoas que sofrem com esses transtornos ter que lidar com o sofrimento e incapacidades decorrentes da própria condição e ainda ter que lidar com o preconceito e a discriminação.

 

Apesar dos transtornos mentais atingirem pessoas de diferentes idades, gênero ou nível socioeconômico, as representações sobre a doença e o doente ainda são permeadas de estigmas. Além das associações inadequadas às causas, o mesmo acontece em relação ao tratamento. Concepções sem embasamento científico ou mesmo preconceituosas, como aquelas que sugerem que ter uma doença mental é “falta de um tanque de roupa suja para lavar”, reforçam as crenças de que ter um transtorno mental é uma escolha e permanecer nele, uma decisão.

 

Ter um transtorno mental não é escolha, mas também não é punição ou castigo. Punição é não termos um sistema que permita o diagnóstico adequado e um tratamento eficaz que possa trazer menos sofrimento à vida de tantas pessoas. Estimativas da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam que, no mundo todo, menos de 10% das pessoas com transtorno mental têm acesso a tratamento.

 

Enquanto não mudamos esse cenário, compreender a doença mental pode nos aproximar do exercício da nossa humanidade, aceitando as diferenças, imperfeições, anormalidades de cada um de nós mesmos. Dr. Bacamarte tinha o propósito de encontrar, definitivamente, a diferença entre o normal e o patológico. Acabou descobrindo apenas em si características de perfeito equilíbrio mental e moral. Diante disso, liberou todo mundo do manicômio e lá se internou. “Fechando a porta da Casa Verde, entregou-se ao estudo e a cura de si mesmo”. Dr Bacamarte deixou um legado: ensinou que de médico e louco, todos nós temos, de fato, nem que seja um pouco!

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

De ser assim

 

Por Maria Lucia Solla

 

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um dia atrás do outro
vida

 

um homem atrás do outro
bandido

 

Um trem atrás do outro
atraso

 

Um carro atrás do outro
São Paulo

 

um olhar atrás do outro
saudade

 

e eu o que faço agora?
conto gotas de chuva que choram no jardim
se você olhar para fora
vai pensar em mim?

 

ingênua por não antever
teu momento de ir embora
ou ficar de vez pra sempre
sem se preocupar com a hora

 

Faz tempo que quero escrever minha história. Completa. Sem corte. Para ninguém elogiar, mas para que eu mesma possa lembrar.

 

Será que me lembro de tudo? Serei injusta com olhares que não percebi, com palavras que deixei de ouvir e com tudo o que se eternizou em mim, nas rugas, na artéria interrompida, nas lágrimas que ainda escapam dos meus olhos, e que nem lembro de onde vieram nem o que fizeram para chegar, mas assim mesmo eu as deixo rolar.

 

Será que ainda me lembro de mim? História, na verdade, é um resto de saudade. Mas quem é que sabe, se nem eu mesma sei, enfim.

 

Vida é eterno começo para nunca mais terminar, o que me assusta e me encanta, e eu me entrego à loucura, onde não há ranger de dentes, mas um bouquet imaginário e lendário de muita ternura.

 

Um dia, quem sabe, agarro a caneta e digo tudo, do meu jeito. Mas para isso tem que ter muito peito.

 

Hoje, envolta na solidão, ameaçada pela depressão, não tenho mais medo de nada, não. Fiz o que pude, disse o que sabia e o que podia dizer, timidamente no início, no meio e no fim, porque só sei ser assim.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

A foto deste post é do álbum de Ana Guzzo no Flickr

Teoria da conspiração perdeu a graça

 

Antes de entrar no ar no Jornal da CBN sou provocado pela Ceci Mello, âncora do CBN Primeiras Notícias, a opinar sobre algum tema que ela considere relevante ou interessante. Hoje, motivada por reportagem de primeira página de O Globo (Agentes da ditadura criam rede de arapongas), trouxe o tema da teoria da conspiração que move grupos e pessoas no decorrer da história.

Houve uma época em que nossa imaginação era rica e ao vermos (não, eu não havia nascido ainda) Yuri Gagari no espaço teimávamos em dizer que ele não era o primeiro a chegar lá. Teria sido o primeiro a voltar vivo, pois a Agência Espacial russa teria enviado outros tantos que morreram no meio do caminho, em histórias que somente seriam encontradas em documentos ultra-secretos.

A mesma desconfiança levou milhares a imaginar exatamente o contrário quando a televisão mostrou Neil Armstrong pisar a lua. Até hoje é possível ler na internet textos que põem em dúvida esta façanha, alegando que teria sido apenas uma estratégia americana para tentar superar o feito da inimiga Rússia e justificar os milhões de dólares gastos pela Nasa.

Por estes devaneios, muitos mataram e muitos morreram. Encontraram inimigos onde eles não existiam. Sofreram uma espécie de esquizofrenia enrustida. Indivíduos deixaram de aproveitar a vida com medo de armadilhas que estariam sendo colocadas em seu caminho e destruíram relações pela falta de confiança.

Atualmente, nossas caixas de correio eletrônico têm sido alvo de muitas dessas teorias.

Há quem diga que a “casa caiu” após se descobrir manipulação no sorteio da Mega-Sena conforme reportagem publicada na televisão; fala-se da morte de empresário, pai de famosa modelo, após pegar grave doença em lata de cerveja contaminada; escreve-se sobre isenção fiscal que beneficia empresa de comunicação que promove arrecadação para organização internacional; e mais um monte de baboseira que não se sustenta no primeiro Google.

Mesmo que perca meu tempo respondendo às mensagens, há quem prefira acreditar nestas fantasias. Sinal claro da falta de confiança em instituições e em nós mesmos. Ou do tamanho da loucura que toma a sociedade.

Ao menos, no passado, as teorias eram mais bem elaboradas, criativas. Hoje nem isso acontece. Perdemos até a riqueza de nossas alucinações.

De febre e loucura

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Quero tanto falar de sentimento, de emoção, sempre; e me pergunto, às vezes, se eu não deveria reclamar de o prefeito não prefeitar como deveria ele, se eu não deveria policiar as polícias por não policiarem como policiam os policiais nos filmes de bandido e mocinho. Se acaso eu não deveria vasculhar a vida pessoal dos senadores só de birra, por eles nunca senadorarem, como manda o figurino. Penso se não deveria choramingar mais, em vez de aguentar o tranco. Me pergunto, às vezes.

E acabo rindo! De mim. Que nem sei bem quem sou; que nem percebo, tantas vezes ainda, quando erro, quando sou inconveniente. Rio de mim, sim, que tenho uma dificuldade danada para administrar a vida na matéria, na emoção e na razão. Quem sou eu para criticar qualquer coisa no outro. Quem sou eu para dizer se seus hábitos são saudáveis, se eu estou doente de novo, com uma faringite de fazer dó aos meus inimigos. Quem sou eu para criticar quem quer que seja; e como faria isso? Com que autoridade, sob a batuta de que cartilha? Do Ocidente ou do Oriente? Do norte ou do sul? Do reinado ou da democracia? Eu mediria o outro usando a minha fita métrica?

Não posso. Não quero. E vou dizer mais, quero me livrar da crítica pequena, diária. Não quero mais nada que não seja simplesmente. Não quero nada mais que não seja honestidade, comprometimento, amizade, alegria, companheirismo, generosidade e amorosidade; começando por mim. No dia a dia da minha vida. Não quero mais nada que não tenha um sabor agradável. Não quero não aceitar a vida como ela é. Não quero aceitar a minha não participação no que estiver ao meu alcance. Afinal, não dizemos que a vida é curta? No entanto, vivemos amargos, de dedo em riste, de costas para a parede, o tempo todo. Todo o tempo. E queremos a paz! Como? se a guerra tornou-se senhora dos lares, corações e mentes de todos nós? Como? se ela permeia palavras, gestos e olhares de eterna acusação porque ele não é assim, porque ela é assado. Como? se cada um de nós vive fechado num exército de uma pessoa só, e somos bilhões de exércitos? Querendo ser o senhor de tudo e de todos, acabamos nos tornando senhores muito crueis de um único vassalo, você de você, e eu de mim. E dizemos que queremos paz. Mentira; somos dependentes da guerra da picuinha diária, onde temos absoluta certeza de sermos sempre melhores do que o outro. O malandro se servindo do bacana, que sai todo pimpão achando que se está servindo do primeiro.

Então, falo de mim; de como vejo e sinto a vida; já que esta é a minha viagem, a que me foi oferecida, de algum modo, pelo Criador de tudo isto e de muito mais. Sou meu objeto de pesquisa, mas foco em mim e no outro, que ele é vivente feito eu.

A vida fica muito solitária quando acreditamos ser melhores do que todos os outros; e mesmo assim, preferimos passar mais tempo da vida atacando e nos defendendo do outro, a viver vivendo, amando, amizadeando, trabalhando, criando, ouvindo e, quase sempre sendo ouvido, dançando, passeando, aprendendo, ajudando, apoiando, compreendendo, amando, amando, amando.

Se estou ficando louca, então, me agrada, a loucura.
Confesso.
E me despeço.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung