Grêmio 3×1 Juventude Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)
Carlos Vinícius, o artilheiro, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Foi antes do desastre do fim de semana passado que tive a oportunidade de conversar com Luciano Périco e Diori Vasconcelos, no Show dos Esportes, da Rádio Gaúcha. Ainda embalados pela vitória anterior na Nossa Arena, foi uma verdadeira colher de chá que os dois jornalistas me ofereceram, numa sexta-feira à noite. Havia motivo de sobra para estar animado com o que víamos, especialmente pela performance de Arthur, o maestro que fez o Grêmio renascer no Campeonato Brasileiro.
No bate-papo radiofônico, falei sobre a transformação que o time vem apresentando desde a vitória no Gre-Nal — o renascimento de alguns jogadores, o domínio da bola (olha o Arthur aí, gente!) e a consistência defensiva. Difícil prever, naquele momento, o que nos aguardava no domingo seguinte, em Salvador.
Durante a conversa, um dos colegas me perguntou se eu via semelhanças entre Carlos Vinícius e Jael, o Cruel — aquele centroavante que marcou época no Grêmio entre 2017 e 2019, com 14 gols em 67 jogos. Concordei. Fisicamente, são parecidos. Encaram a pancada do zagueiro com um sorriso maroto no rosto. Têm gana pelo gol. E carisma para conquistar o torcedor.
Mas, com todo o respeito e carinho que Jael sempre merecerá, há diferenças que jogam a favor de Carlos Vinícius. Mesmo corpulento, ele se movimenta mais entre os zagueiros. Consegue equilibrar o jogo pesado da marcação adversária com a leveza de quem sabe conduzir a bola em direção ao gol. Em resumo: combina força e talento — e isso complica a vida de qualquer marcador.
O atacante nascido em Bom Jesus das Selvas (MA), que rodou por diversos clubes no exterior antes de voltar ao Brasil, chegou recentemente ao elenco gremista. Em sete partidas, marcou seis gols — o primeiro deles em um Gre-Nal, o que por si só já carrega um peso especial para o torcedor. Contra o São Paulo — aquele jogo que motivou minha conversa na Gaúcha — fez os dois da vitória.
E hoje, Carlos Vinícius voltou a mexer com nossa memória afetiva. Não pela semelhança com Jael, mas por algo ainda maior. Com os três gols que garantiram a vitória sobre o Juventude, o “Vini da Pose” — apelido que ganhou pelo gesto característico nas comemorações — nos fez lembrar de Luis Suárez, o último atacante gremista a anotar um hat-trick (ou, em bom gauchês, um TRI-GOL).
A bela foto de Lucas Uebel/GremioFBPA registra o gol de Gustavo Martins
Foram 44 dias desde a última vez que vi o Grêmio jogar. Que jogo! Lembra? Impossível esquecer: foi a despedida de Suárez, que marcou dois gols no Maracanã, na vitória sobre o campeão da Libertadores.
Desde lá, a bola só rolou em campos alheios e por aqui deu espaço para o irritante jogo das especulações. Vende um, contrata outro e negocia com um terceiro. O torcedor se ilude com a promessa do craque, se decepciona com a transferência do ídolo e tem pouco a comemorar com renovações de contrato nem sempre inspiradoras.
Ao mesmo tempo, o coração, acostumado ao sofrimento do jogo jogado, dói pela ausência do futebol de verdade. Como se sofresse com a abstinência da adrenalina que somente nosso time é capaz de nos fornecer. A ansiedade faz tabelinha com a saudade. E as duas dominam o peito e a mente do apaixonado que somos.
Até que o árbitro trila o apito e a bola começa a rolar novamente. O Campeonato Gaúcho começa. E começa em um dos estádios mais tradicionais do interior. O Centenário, palco de pelejas das mais duras e emocionantes já disputadas no Sul do País, oferece à vizinhança vista privilegiada, em camarotes improvisados nos telhados das casas, e aos torcedores, arquibancada de cimento, contrastando com as arenas do Campeonato Brasileiro.
Fiz alguns jogos na Serra Gaúcha, em um tempo no qual os repórteres de rádio tinham acesso ao gramado e correr atrás do craque do jogo era obrigação ao fim da partida — não existia essa coisa de assessor de imprensa escolher quem vai falar e entrevista com palco cheio de patrocinadores. Sinto saudade daqueles momentos, o que não significa que queira voltar.
Foi com saudade e sem pretensão que me sentei à frente da TV para assistir à transmissão do jogo desta tarde de sábado. Sei que o Grêmio está apenas iniciando a temporada. A reapresentação foi há 12 dias e tem jogador com a perna dura para correr — tem também os pernas de pau que nunca vão aprender. A vontade é muito maior do que o fôlego e o que a cabeça pensa nem sempre o corpo é capaz de executar.
Para minha surpresa foram necessários apenas seis minutos para matar a saudade do grito de gol, que surgiu em um cruzamento após cobrança de escanteio e no cabeceio de Gustavo Martins, zagueiro jovem e uma das boas promessas para a temporada. A lastimar que foi aquele o único gol que marcamos, insuficiente para impedir uma derrota logo na abertura da competição.
Para os saudosos, como eu, de um ponteiro esquerdo driblador e atrevido, o recém-chegado Soteldo deu sinais de que poderá ser um dos pontos fortes do time na temporada. O venezuelano de pernas pequenas e ágeis passou com facilidade por seus marcadores – perdão, pelo tanto que apanhou não foi tão fácil assim. Fiquei com a impressão de que não nos fará sentir saudades dos ponteiros que se foram. Mas é melhor não se precipitar.
Contemporizando as ausências no time e as lacunas no elenco; o pouco tempo de treino e a preparação física precária; a falta de entrosamento e a carência tática de início de temporada; ao fim dos 90 e tantos minutos, uma última saudade ainda permanecia em mim. Uma saudade que jamais serei capaz de deixar para trás: a de Luis Suárez. Que baita saudade de ti!
Suárez prestes a marcar em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Era a última dança. Assim os cronistas esportivos se referiam a partida final de Luis Suarez no futebol brasileiro. Do Grêmio e seus torcedores, Luisito despediu-se no fim de semana, na Arena. Foi uma festa muito particular, Linda e emocionante! Para nunca mais esquecer! Havia, porém, um último ato a ser realizado e este deveria ser no maior palco do futebol mundial: o Maracanã.
É uma daquelas coincidências que somente os deuses, que interferem nos destinos deste esporte, são capazes de desenhar. O gramado em verde e bola jamais havia assistido a um gol de Suárez. E estava lá, disposto a lhe dar essa oportunidade na hora do adeus.
A música que as torcidas cantavam, a voz ao fundo dos locutores esportivos e a batucada proporcionada pela chuteira em choque com a bola estavam sintonizadas para acompanhar o ritmo imposto por Suárez. Aos 36, véspera dos 37 anos, consagrado por todos os lugares que jogou, o craque uruguaio demonstrava um desejo que somente os apaixonados pelo futebol são capazes de ter. Quase juvenil!
Era o jogo derradeiro do nosso craque, aquele que com seus pés fez poesia, que com dribles delineou sonhos no campo, que com gols escreveu história — algo que ele não se cansa de repetir a despeito de um joelho que teima em doer. Foi a superação desta dor, somente possível pelo prazer que tem em jogar, que o permitiu chegar até o espetáculo final.
Ele não desperdiçaria as circunstâncias.
O passe que recebeu de Villasanti e a posição dos seus marcadores pareciam sincronizadas para permitir que o campo ficasse livre para Suárez correr em disparada ao gol, aos 43 minutos do primeiro tempo. Em uma jogada que há algum tempo tem evitado para não aumentar o desgaste físico, ele escapou dos marcadores e, em uma corrida cadenciada pela bola que conduzia, foi se aproximando da área. Quando todos esperavam um chute à distância, Suárez imaginava um lance ainda mais lindo. Driblou o goleiro e chutou com precisão para deixar definitivamente sua marca nas redes do Maracanã.
Ele queria mais. E os deuses voltaram a interferir. No segundo tempo, quando o Grêmio já havia virado o placar a seu favor, um novo lance para o estádio. Um pênalti! Um dos raros momentos do futebol em que todos são convocados a assistir. Como se estivesse no roteiro deste filme, o Maracanã se perfila para ver Suárez brilhar. Ele brilha e se diverte com a bola. Dá uma cavadinha, tira o goleiro de cena, e sai para beijar seus três dedos pela última vez jogando no Brasil.
A última dança termina! Mas a memória desse momento permanecerá para sempre. No olhar de cada um de nós, torcedores e apaixonados pelo futebol, havia um brilho de lágrimas nos olhos e um sorriso de agradecimento pela jornada que compartilhamos nestes últimos 11 meses.
E se não bastasse a beleza desta dança final, Suárez antes de soltar nossa mão nos deixou um presente inesperado: o vice-campeonato brasileiro!
Luis Suárez comemora o gol na despedida da Arena, em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Eu vi Anchieta e Tarciso.
Vi Iura e André Catimba.
Eu vi Danrlei e Baltazar.
Vi Jardel e Paulo Nunes.
Eu vi Renato jogar.
Vi o Grêmio campeão gaúcho de 1977. Brasileiro, em 1981 e 1996. Vi a Batalha dos Aflitos; os cinco títulos da Copa do Brasil, os três da Libertadores e o Mundial de 1983.
Quando imaginava já ter visto muito mais do que mereceria ver, eis que deparo com 2023: o Ano de Suárez! Por onze meses, me permiti sonhar assistindo a um dos maiores jogadores do futebol mundial em atividade vestindo a camisa do meu Grêmio.
Na estreia, um hat-trike como cartão de visita. Repetiria o feito no Campeonato Brasileiro. Nas duas finais que disputou, a confirmação da nossa hegemonia regional. Em três Gre-nais, marcou duas vezes. Da primeira, um gol que ficará para sempre na nossa lembrança. O movimento do corpo, o forjar do passe que ludibriou seus marcadores e um chute à distância no ângulo do goleiro adversário.
A cada partida, a identificação de Suárez com a torcida e com o time só se fazia maior. A luta para fazer do Grêmio o melhor que poderia ser feito, o esforço para superar as dores no joelho, a irritação com a jogada desperdiçada e o incentivo ao colega que sofria algum revés, se somaram a gols e assistências. Participou de quase metade dos gols marcados pelo Grêmio, nesta temporada. E não foram poucos.
Nos momentos mais difíceis, Suárez chamou para si a responsabilidade. Liderou o Grêmio em algumas viradas expressivas. Arrancou gols de onde sequer se esperava que pudesse surgir. E graças a sua dedicação manteve o Grêmio competitivo por toda a temporada nos devolvendo a Libertadores.
Sempre a altura de sua história, não se contentou em apenas receber as homenagens em sua despedida da Arena do Grêmio. Queria retribuir a tudo e a todos. Como se ainda fosse preciso fazer mais.
Fez mais um gol. E um daqueles gols que os mortais não seriam capazes de fazer. Com a frente tomada de jogadores, pouco espaço para a bola passar e o ângulo fechado pelos zagueiros e goleiro. Foi lá, de fora da área, com um toque refinado, assim como seu futebol, que Suárez encontrou o caminho para mais uma vitória gremista, que nos coloca no G4 a uma rodada do fim do campeonato brasileiro.
Para todo e sempre, vamos lembrar de 2023, o Ano de Luis Suárez, o Imortal!
Botafogo 3×4 Grêmio Brasileiro — São Januário, Rio de Janeiro/RJ
Suárez comemora o terceiro gol em foto de Alexandre Durão / Grêmio FBPA
Foi pura magia. Do desencanto ao encantamento. Do revés à reação. Do time que sabe onde pode chegar a um craque que joga uma bola descomunal. Cada nuance da partida desta noite, em São Januário, foi parte de um roteiro forjado pelo sofrimento e êxtase, na típica narrativa da jornada do herói, desde a passagem pelo tempo comum até a ressurreição, da travessia do primeiro limiar ao elixir da conquista.
E se havia um personagem a ser o herói, claro, só poderia ter sido Luis Suárez, o atacante que aceitou a missão de recuperar a história do Grêmio nos gramados brasileiros e nos devolver a Libertadores. Mais do que isso: resgatou o orgulho de um torcedor ferido nos percalços das duas últimas temporadas. Um torcedor que tem levado seu grito a todos os estádios onde o Grêmio joga. Que canta satisfeito por seu próprio valor.
Luis Suárez foi gigante no gramado de São Januário. E no instante em que o Grêmio mais precisava dele, quando estávamos perdendo por 3 a 1. Em que parecíamos vencidos pelas circunstâncias, resignados por aquilo que o destino havia nos reservado, sermos coadjuvantes nesta competição. O maior atacante que já vestiu nossa camisa nos devolveu o direito de sonhar. De acreditar que não é impossível. Ele foi o responsável pela virada de um placar que parecia definitivo, dadas as condições do jogo e a pressão da torcida adversária.
Heróis como Luizito não se entregam jamais. Acreditou e lutou enquanto pôde. Foi auxiliado por um endiabrado Ferreirinha, que entrou no segundo tempo e infernizou quem se atreveu a marcá-lo. Em um dos primeiros lances, cruzou e, com o desvio do zagueiro, fez a bola chegar aos pés de Suárez, que diminuiu o placar. Na segunda, o cruzamento foi na medida certa e nosso atacante não perdoou, fazendo o gol de empate. A virada foi obra dele novamente, que buscou a bola na intermediária, tabelou e recebeu em condições de passar no meio dos zagueiros e estufar a rede.
Diante da obra construída por Suárez, só restava agradecer àquele que me deu a oportunidade de vivenciar esse momento. Levantei as mãos aos céus e agradeci: obrigado, Meu Deus Suárez!
Grêmio 1×0 Bahia Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre/RS
Foto Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Maratonei diante da televisão neste sábado. Comecei com a disputa da Libertadores, Copa para a qual não precisamos de apresentação, somos apaixonados por ela e já vencemos três vezes. Ao contrário do que costumo fazer quando não é o meu Tricolor que está em campo, não me contentei em apenas assistir à partida. Torci pelo Tricolor carioca. Não vou dizer que sofri, porque tendo a acreditar que só sofremos por amor. Mas torci muito!
Havia uma memória afetiva em campo.
A grená, branca e verde foi a primeira camiseta de jogador de futebol que ganhei. Após um Grêmio e Fluminense, no saudoso estádio Olímpico, o pai apareceu em casa com esse presente em mãos, obtido por um dos repórteres da rádio Guaíba e me entregou. Tinha o número 11 nas costas e ainda estava molhada de suor. Infelizmente, não lembro quem era o ponta esquerda da época. Era pesada, feita com um tecido grosso e costuras salientes. Antigamente, as camisetas não tinham a tecnologia atual nem a mesma qualidade. No primeiro banho, as listras brancas verticais ganharam manchas grená.
Aquele “troféu” se manteve no meu armário por muitos anos ao lado de uma do América do Rio, com o número 3 do zagueiro gaúcho Alex nas costas — outro “troféu” que me foi entregue pelo pai. Ambas, infelizmente, se perderam em uma dessas mudanças que fazemos na vida. A lembrança permaneceu, e até hoje, quando vejo aquela Tricolor em campo, a memória reacende. Portanto, era natural de minha parte querer muito a vitória do Fluminense na final desta Libertadores. E fiquei feliz pela conquista. Merecida conquista!
Sabemos como poucos neste Brasil o significado desta Copa na vida do torcedor e do clube. Fomos forjados na busca deste troféu, que vencemos pela primeira vez em 1983, época em que meu armário já estava dominado pela nossa Tricolor azul, preta e branca. Gostamos tanto de Libertadores que, apesar do sonho de ser campeão ainda existir, garantir a vaga direta à maior competição sul-americana valerá festa e muita cantoria (Libertadores vamos vencer / Por essa Copa / Eu te daria minha vida, campeão).
A vitória, mesmo difícil da segunda partida que assisti neste sábado, nos mantém na disputa pelo título, mas muito mais ainda dentro da Libertadores, e essa classificação terá sabor especial. Primeiro, porque poucos apostavam nas possibilidades de o Grêmio disputar vaga no topo da tabela após recém-subir da Série B. Mais do que essa reversão de expectativa, porém, é assistir em campo a Luis Suárez com a Tricolor. Essa imagem ficará para a história e na memória afetiva de todos nós torcedores gremistas.
Hoje, mais uma vez, Suárez decidiu na única bola que lhe chegou aos pés em condições de chutar a gol. Mérito também de Lucas Besozzi, esse garoto argentino que, se permanecer no time, tenderá a crescer na próxima temporada. Foi dele a jogada pela esquerda pouco depois de entrar no segundo tempo, com dribles curtos e um passe na medida para nosso atacante.
O gol fortaleceu o grito de “Fica Suárez” que já estava na garganta de todos os torcedores. E ecoou nas arquibancadas da Arena na comemoração da vitória. Sabemos que esse é um desejo quase impossível de ser cumprido. Mas o torcedor não está preocupado com isso. “Fica Suárez” é muito mais do que um pedido, é um grito de orgulho que temos por saber que um dos maiores nomes do futebol mundial veste a nossa Tricolor.
Suárez comemora mais um gol em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA
Vou te contar uma coisa. Há muito tempo não tinha tanto prazer em assistir ao Grêmio em campo. Nem é porque estamos jogando o melhor futebol do Brasil. Até porque não estamos. Esboçamos um bom jogo mas ainda há a necessidade de azeitar a máquina. Vemos a tentativa de um toque de bola mais refinado — e às vezes esse toque até aparece —, mas ainda tropeçamos na finalização do passe, do movimento ou do chute.
Defensivamente também pecamos como no gol que abriu o placar e nos colocou em risco, nesta noite de quinta-feira. A bola foi cruzada no meio da pequena área e não havia razão de deixamos o zagueiro deles cabecear daquela forma contra as nossas redes. Foi o décimo sexto gol que tomamos em 11 partidas disputadas. É gol demais. E isso não me dá prazer.
O prazer está mesmo em assistir a Luis Suárez com a camisa do Grêmio. Vê-lo caminhando com nosso grupo de jogadores pelo túnel que leva ao gramado da Arena é algo que ainda tenho dificuldade em acreditar.
Quando a bola começa a rolar, desejo que haja uma câmera que apenas mire os movimentos do quarto maior atacante do mundo em atividade — sim, infelizmente, neste momento em que temos um Craque (assim mesmo, com letra maiúscula) em campo, só tenho a possibilidade de ver o Grêmio pela televisão. Se morasse em Porto Alegre, não faltaria um só dia de futebol na Arena.
Em tempo: por que a Arena não estava lotada nesta retomada do Campeonato Brasileiro?
Pela TV, fico à espreita de Suárez. Quero entender o movimento que fará a medida que o time avança. Espero seu deslocamento e torço para que nossos jogadores o enxerguem e sejam capazes de colocar a bola no espaço em que ele ocupa. Vibro quando a bola chega aos seus pés e me deleito com a tentativa de drible, com o passe rápido, com a entrega de corpo, alma e dor que o nosso atacante oferece em cada lance que protagoniza.
Suárez conseguiu fazer do lateral — a jogada mais desperdiçada do futebol mundial —- um lance de perigo, seja porque se desloca com rapidez para receber a bola, geralmente de Reinaldo, seja porque cobra a lateral, como fez na partida de hoje, se assim for necessário para agilizar o jogo. Sim, pode me chamar de deslumbrado, mas vibro até com a cobrança de lateral.
Tu podes até achar exagero de minha parte. Não é!
Quando tu vês um cara com a estatura de Suárez cobrando lateral é porque esse cara está realmente muito comprometido com os objetivos do seu time. Claro que não é essa a diferença dele em campo. O que o faz genial são lances como o do segundo gol em que mete a bola do outro lado do ataque no pé de Reinaldo, que cruza para Villasanti cabecear e marcar. Ou o do terceiro em que ele recebe a bola e de primeira encontra novamente Reinaldo (esse também esta jogando muito) do lado esquerdo. Imediatamente, corre em direção a área e se coloca em posição de receber, por trás da marcação, e bater forte em direção às redes.
Sei lá por quanto tempo Suárez conseguirá vestir a camisa do Grêmio. Tentaram nos convencer de que o tempo já havia se esgotado. E ele, em campo, provou que é capaz de superar a dor que sente no corpo e que causa nos invejosos. A expressão do seu rosto é reveladora. Não há como negar as dificuldades físicas que enfrenta. Até aqui, porém, se mostrou muito maior do que qualquer revés que surja no seu caminho.
A despeito do tempo que possa permanecer em campo ou na ativa, Suárez já cumpriu sua missão ao aceitar o convite de vestir o manto tricolor: nos deu o prazer de assistir a um dos maiores jogadores do planeta com a nossa camisa. E isso, caro e raro leitor desta Avalanche, não tem preço. E é para poucos!
Suárez comemoara gol no clássico em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Toda vez que o Grêmio entra no gramado minha incredulidade é posta à prova. Ver a passagem de jogador por jogador pela câmera da TV e encontrar Luis Suárez perfilado e vestindo a camisa tricolor era inimaginável até pouco tempo. A despeito das ilusões que me dei o direito de ter com meu time, nunca fui dos torcedores que se entusiasmaram com as notícias de bastidor sobre a contratação de um craque mundial. Muitas vezes passamos por isso e na maioria delas era apenas um manjar de cartolas para adocicar a boca da “gente do Grêmio” entristecida por resultados mal alcançados.
Quando o nome dele foi confirmado evidentemente que comemorei e sonhei com seus gols e jogadas. Era o quinto maior goleador do mundo chegando à Arena. Vínhamos de uma temporada difícil apesar do título gaúcho e da ascensão à primeira divisão, em 2022. Merecíamos a alegria de uma jogada audaciosa por parte da diretoria e seus apoiadores. Ter Suárez no elenco era muito mais do que poderia querer naquelas circunstâncias.
Na primeira partida marcou três gols — o adversário não era de se levar a sério, disseram alguns, apesar de o jogo valer troféu. Seguiu fazendo dos seus, mas era Campeonato Gaúcho comentavam os despeitados. Vencemos o primeiro clássico gaúcho que ele disputou, porém nosso atacante não marcou e logo correram para lembrar a promessa que havia feito assim que chegou ao clube. Na oportunidade, com o sorriso largo e marcado pelos dentes que lhe são peculiares, Suárez lembrou ao torcedor que sempre deixou sua marca nos clássicos que disputou pelo mundo da bola. E não foram poucos.
Vieram as competições nacionais. Um jogo sem gol de Suárez abria a estatística da “seca” que o uruguaio iniciava, mesmo que seguisse sendo ele o goleador do tricolor. Mais do que isso: mesmo sendo ele o jogador que abria caminho para os companheiros marcarem, que chamava atenção dos zagueiros liberando a chegada do nosso meio de campo e que buscava tabelas improváveis — às vezes não completadas porque alguns de seus colegas de time, assim como eu, parecem incrédulos frente a possibilidade de tê-lo como parceiro.
Diante da escassez de talento e da baixa performance da equipe nas últimas partidas, Suárez seguia seu esforço em mostrar ao torcedor os motivos que o levam a ser um dos maiores jogadores do mundo. No meio da semana, foi dele o gol (de trivela) que nos manteve vivo na disputa por uma vaga às quartas de final da Copa do Brasil, quando muitos não viam alternativas para o empate. Hoje, foi dele o gol que deu início a história do Gre-nal 439 — o clássico que será lembrado para todo e sempre como o Gre-nal de Suárez.
O gol aos seis minutos foi lindo. Começou com a bravura de Kannemann que, na linha do meio do campo, antecipou-se, venceu a disputa da bola e a entregou para Suárez. Havia três marcadores no entorno dele. Colocou todos no bolso, os fez correrem atrás de uma bola imaginária ao ameaçar um passe de calcanhar, seguiu livre para o outro lado e de fora da área meteu no ângulo. Um golaço! Um golaço de Suárez!
No segundo tempo, quando já estávamos com um a menos em campo —- Kannemann foi expulso aos oito minutos —, escapamos em um contra-ataque puxado pelo próprio atacante que depois de tabelar com Galdino lançou no pé de Bitello, que completou no ângulo. Àquela altura, aos 19 do segundo tempo, o clássico já tinha um nome para chamar de seu: Luis Suárez!
Nosso atacante completou 23 partidas pelo Grêmio, marcou 14 gols e deu sua quinta assistência. Fez até aqui um gol a cada 137 minutos jogados (obrigado pelos dados Marcos Bertoncello). E um desses gols foi o golaço no clássico gaúcho neste fim de domingo – é o décimo clássico mundial no qual ele deixa sua marca.
Acho que já dá para começar a acreditar que vivi para ver Luis Suárez com a camisa do Grêmio! Obrigado pela graça alcançada!
Luis Suárez comemora o gol de empate em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Aos 16 do primeiro tempo, a bola foi no travessão e estivemos prestes a assistir a um dos mais belos gols da Arena. Já estávamos correndo atrás do placar —- e dos atacantes adversários, também — quando Carballo lançou por cima da zaga em direção a Luis Suárez. Nosso atacante dominou e ficou de costas para o zagueiro e para a goleira. Esboçou uma bicicleta, único recurso que ainda lhe restava naquele momento dentro da área. Lamentou-se Luisito e todos nós torcedores, pelo gol que não se fez e pela obra prima que não se completou.
Aos 35 do segundo tempo, a perfeição se realizou. A jogada teve como coadjuvantes Galdino e Bitello que apareceram no corredor direito para conduzir a bola que vinha da defesa. Galdino, recém-entrado, encostou para Bitello, naquela altura deslocado para a lateral em lugar de Fábio, que havia cansado. Luis Suárez se desprendeu dos dois marcadores, recuou um pouco e livre recebeu a bola.
Nesse momento, a pressão sobre ele era inevitável, mas Luisito é Luisito e tem muito mais recursos à disposição do que a maioria dos jogadores deste planeta. Fez uso de um deles. Raro no futebol como se pode ver na descrição que copio a seguir, do Wikipedia:
“Trivela é um tipo de passe/remate aplicado no futebol. É uma técnica de passe/remate pouco utilizada pela generalidade dos futebolistas, pois exige uma particularmente elevada capacidade técnica. Executado com a parte exterior do pé, é de difícil execução, mas também de grande espetacularidade e imprevisibilidade”.
Sim, foi de trivela. Lá de fora. Com lado externo do pé direito. A bola saiu veloz e com direção certeira: o ângulo esquerdo da goleira adversária. O goleiro parecia não acreditar, enquanto os marcadores dele assistiam de uma posição privilegiada o lance mais lindo da partida e um dos mais bonitos já protagonizado na Arena.
Um presente para o torcedor que sofria frente ao futebol mal jogado, a falta de repertório na movimentação e o alto risco que corremos durante toda a partida — haja vista o lance em que Kannemann mais uma vez expressou sua bravura e insistência em permanecer vivo ao evitar o segundo gol, ao fim do primeiro tempo. Uma alegria que o time nos deve há alguns jogos e só foi paga pela genialidade de nosso atacante.
Suárez cercado pelos marcadores em foto de Lucas Uebel/GrêmioFBPA
Um jogo inteiro jogado se fez necessário para que os quase 30 mil torcedores que foram à Arena, no fim da noite de quarta-feira, tivessem a oportunidade de explodir em festa com o gol de Luis Suárez. Até aquele instante de felicidade, assistíamos à uma partida truncada, catimbada e violenta. Enquanto o adversário tinha como única intenção impedir que o futebol se realizasse, o Grêmio tentava, com paciência e pouco repertório, impor a sua superioridade.
Ao longo dos 90 minutos —- usar o tempo de jogo é apenas força do hábito, porque com tantas paralisações, sequer os 12 minutos de acréscimo no segundo tempo devem ter sido suficientes para completar a hora e meia regulamentar —-, o Grêmio era mais esforço do que entrosamento, o que se justifica diante da necessidade de o técnico reconstruir a equipe. Nem todo o esforço, porém, tornava o gol mais próximo.
Aos torcedores restava-nos, mais uma vez, esperar pela bola fatal, aquela que seria entregue a Suárez para que ele resolvesse, como já havia feito no fim de semana, em Caxias do Sul. Mas como fazer a bola chegar até ele, se o atacante uruguaio estava cercado por marcadores? Tentou-se de diversas formas e sem muito sucesso.
Às vezes, Suárez deixava a área em busca dos companheiros, mas por enquanto, ele dança milonga e os colegas vanerão. Os passos não estão suficientemente coordenados. A tabela não sai com a precisão que a retranca adversária exige. Restava ao atacante lamentar a falta de entrosamento. Para ter ideia da dificuldade gremista de chegar ao gol, até o gol propriamente feito, Kannemann era quem mais havia finalizado, graças a cabeceios sem muita direção, em lances de escanteio.
O primeiro tempo já havia ido embora —- em meio a um entrevero envolvendo Suárez e Piton, o goleiro adversário —, e o segundo recém estava de volta, quando uma falta dura ainda na nossa defesa, resultou em cartão vermelho e expulsão, deixando o Grêmio com vantagem numérica em campo. Nem isso foi suficiente para mudar a cara da partida.
Das muitas tentativas de trocas na equipe — as cinco substituições foram feitas —, a presença do estreante argentino Franco Cristaldo foi a que mais fez diferença, dando um outro ritmo para o nosso ataque. O meio de campo ganhou talento, o passe melhorou e a velocidade aumentou. Mas nada de o gol sair.
Nas arquibancadas, o incômodo se expressava em reclamações e vaias ensaiadas contra um ou outro jogador. A maioria de nós, porém, ainda estávamos a espera do lance genial. O problema é que o cronômetro seguia correndo contra nossas pretensões e o jogo parando diante da nossa indignação. Temíamos que o prazo de validade de Suárez fosse expirar antes do fim.
Com as dificuldades impostas, o atacante que demonstra um comprometimento contagiante com o time, desta vez, seria mantido até o apito final. E com isso nossa esperança se estendia mesmo com a partida quase se encerrando.
Os acréscimos começariam a ser contados no relógio do árbitro quando Bruno Alves, nosso zagueiro, fazendo às vezes de meio-campo, lançou para Ferreirinha que entrava pelo lado esquerdo da área. O ponteiro foi um dos jogadores mais acionados na partida e quase havia marcado um gol um pouco antes. Desta vez, em lugar de chutar direto, depois de vencer com velocidade o marcador, passou para Suárez.
O tempo, então, parou!
E fomos recompensados àquela hora da noite. Tivemos o privilégio de apreciar o que estaria por vir. O que aconteceu naquele pequeno espaço de grama, dentro da pequena área adversária, com marcadores por todos os lados e o goleiro quase aos pés de Suárez, foi esplêndido. Ele dominou a bola e tabelou com ele próprio, trocando a bola de pés, duas vezes, e impedindo com o corpo o assédio dos adversários. Com uma barreira de homens à sua frente, ele recorreu ao bico da chuteira para elevar a bola o mínimo possível para escapar das mãos do goleiro, o máximo necessário para não se chocar contra o travessão.
O estufar da rede acionou o botão euforia na Arena — aqui onde eu estava, também — e ofereceu aos torcedores o prazer que somente os craques são capazes de saciar. Uma alegria muito além da importância do jogo, do resultado e da competição. Que se expressava como êxtase pela presença de um dos gigantes do futebol mundial que agora é o dono da camisa 9 do Grêmio.
Adjetivos não faltariam para definir o que representa Suárez para os gremistas. Poderíamos explorar as hipérboles da língua portuguesa para descrever o sentimento de assistir à Suárez em campo. Quis, porém, a ironia que o destino oferecesse a uma das vítimas do atacante e protagonista do antijogo que imperava na Arena a oportunidade de melhor descrever, naquele instante, o fenômeno Suárez: : “o bicho é bom mesmo!”, disse o goleiro Marcelo Pitol, do Brasil de Pelotas.