Conte Sua História de São Paulo 465 anos: na porta do Mappin, o encontro dos jovens negros da cidade

 


Por Antonio Carlos Arruda
Ouvinte da CBN

 

 

Tenho 66 anos. Sou paulistano da Vila Guarani, no Jabaquara. Negro, advogado formado pela PUC. Quero contar um fenômeno da década de 1970: o encontro da juventude negra, toda sexta-feira, na porta do Mappin, a grande loja de departamentos paulista.

 

Era uma coisa mágica, uma expectativa e uma ansiedade que mexia com o nosso sentimento, jovens negros, de todos os lugares de São Paulo. Sem que ninguém marcasse nada, comparecíamos ali espontaneamente. Sexta, sim, e a outra, também. Não havia motivação política, muito embora pude entender tempos depois, que havia de maneira subliminar a procura por uma situação de igualdade — infelizmente, ainda não alcançada pela nossa gente.

 

Mas o importante aqui é que íamos para a porta do Mappin para encontrar jovens, negras e negros, onde rolavam por certo as paqueras –- muitos casamentos saíram dali. Mas, especialmente, para saber onde seriam as festas, os bailes de fim de semana, nas casas de família e nos salões da cidade. Falávamos de música, dos últimos lançamentos e dos sucessos dos nossos ídolos brasileiros e americanos. Desfilávamos com nossas melhores roupas —– calças bocas de sino; as meninas com suas blusas colantes, saltos altíssimos e cabelos afros mais incríveis e grandes que pudéssemos armar.

 

Algumas explicações para esse fenômeno:

 

Éramos o segmento mais pobre da população, raríssimos tinham telefone em casa. Se uma garota passava o número, era uma referência de “gente fina”, coisa que só os brancos tinham. Desde muito jovens trabalhávamos de office-boys, auxiliares de escritório, bancários. As meninas também em escritório, poucas lojas as aceitavam como vendedoras; eram faxineiras nas empresas do centro e, outras tantas, empregadas domésticas nos Jardins.

 

Também porque festa de preto não era igual festa de branco. Não gostávamos de Jovem Guarda. Nossas referências eram Wilson Simonal e sua pilantragem; Jorge Ben com seu samba-rock; Tim Maia com seu soul americanizado e parecido com James Brown, Billy Stuart, Aretha Franklyn, o exotismo de Miriam Makeba; os sambas de Elza Soares, Elis Regina, Originais do Samba e por aí afora.

 

Eram tantos negros naquele espaço, que se estendia por um pedaço do Viaduto do Chá defronte a antiga Light até a Galeria Nova Barão, num vai e vem que ia das seis da tarde às dez da noite.

 

Além de quase todos sermos clientes do Mappin e aproveitarmos para pagar nossos carnês e fazer novas compras, outra explicação para o local do encontro era a facilidade para depois cada um tomar o rumo do seu destino.

 

Foi tão marcante a presença de negras e negros, que as escadarias do Teatro Municipal foram o local de lançamento do Movimento Negro Unificado, numa sexta-feira, dia sete de julho de 1978.

 

Antonio Carlos Arruda é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: minha irmã foi registrada dia 25 de janeiro por amor à cidade

 

Por Mara Rocha
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

 

Minha história com São Paulo começa antes mesmo de minha família e eu morarmos aqui. Em 1952, meus pais viviam em Presidente Epitácio e só tinham dois filhos. Meu pai vinha a São Paulo comprar tecidos para minha mãe fazer as roupas da casa, dos filhos … ela costurava pra fora, também. Meu pai adorava São Paulo e voltava pra casa todo feliz contando para os amigos o que tinha visto por aqui: falava dos cartazes de filmes, teatro e shows musicais.

 

Em 16 de fevereiro de 1953, nascia minha irmã. Meu pai esperou um ano só para poder registrá-la com a data de 25 de janeiro. Em 1955, foi minha vez de vir ao mundo e meu nome Mara foi em homenagem a atriz de teatro de revista Mara Rubia. Em 1957, nascia outra irmã e o nome foi (completo) Dalva de Oliveira. Dispensa apresentação. Em 1960 nascia o coitado da turma feminina, porque depois dele vieram mais três meninas e formamos o time de nove, mas essas já são paulistanas.

 

Chegamos em São Paulo em 1961, minha mãe ficou encantada com o tamanho da cidade. Fomos morar no bairro Taboão em São Bernado do Campo e a minha rua chama-se São Paulo. O pai era motorista de ônibus na linha São Bernardo – São Paulo, passando pelo Zoológico, Jardim Botânico e, finalizando, na Praça da Árvore onde tinha o Cine Estrela. Nossos finais de semana eram nesses lugares. Adorava passear no Jardim Botânico onde fazíamos piquenique, jogávamos bola, peteca e nos divertíamos comoutros brinquedos da época. Visitámos com frequência também o Zoológico.

 

Minha irmã mais velha Wandy, trabalhava como modelo dos maiôs Cenimar ou Celimar (não lembro ao certo), as mulheres eram esculpidas pela natureza porque tudo era feito a pé ou de bicicleta. Ela foi a primeira a ter carro em casa e isso demorou um bocado. Ela fazia também as feiras do Ibirapuera. E a que eu mais gostava era o Salão da Criança porque brincava muito, e bebia muito iogurte Paulista, no estande onde ela trabalhava.

 

Nas férias íamos de trem para a casa do meu tio em Santa Fé do Sul. Ficava encantada com a Estação da Luz e a viagem de muitas horas passava rápido porque era divertidíssimo dormir nas camas da cabine com o balanço do trem. E durante o dia passeávamos pelos vagões.

 

Só comecei a frequentar o Cine Estrela quando fiquei adolescente (na época: mocinha). Daí foi um passo pra conhecer outros lugares, como o Cine Ipiranga e o Cine Ópera, esses dois no Centro. Ficava até difícil escolher pra onde ir nos finais de semana. Pedalinhos no Parque do Ibirapuera, tardes deliciosas no Museu do Ipiranga, encontro com a galera no Pilequinho, um bar em Moema que fazia deliciosos sucos e batidas de frutas. Sem deixar de frequentar o Jardim Botânico, meu lugar predileto.

 

 
Nossas compras eram feitas no Mappin e adorava ver o ascensorista descrevendo tudo que tinha nos andares. Minha loja predileta chama-se Piter, próxima do Teatro Municipal e o vestido verde água que comprei no crediário, é inesquecível!

 

Tinha 24 anos (1979) quando nos mudamos para Moema, a 50 metros do Shopping Ibirapuera, inaugurado em 1976. Os trilhos do bonde ainda estavam na Avenida Ibirapuera e minha vida não mudou nada porque desde sempre eu fui paulistana de corpo e alma. Casei, tive filho e neta. Passei pra eles tudo isso, o que ficou, claro! Meu filho e minha neta amam parques, piqueniques, bicicleta, patins e, principalmente, amam São Paulo.

 

Mara Rocha é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br. Este texto foi ao ar, em 2013, no CBN SP, mas ainda não havia sido reproduzido aqui no Blog.

Conte Sua História de SP: o apito dos afiadores de faca

 

 

Por Wagner Nobrega Gimenez

 

Nasci no bairro do Brás, na Almirante Barroso, 838, em junho de 1954 – ano do IV Centenário de São Paulo. Essa casa não existe mais. Pertence a uma igreja evangélica. Naquela época se fazia partos em casa, como o meu. Dona Cândida, a parteira portuguesa, assistiu minha mãe, dona Luzia, em sete partos, um infelizmente de um natimorto, dois anos após o meu nascimento. Eu, filho temporão, o caçulinha,  brincava só com os moleques na rua: era jogo de bola, figurinha, cowboy, pega-pega, taco – brincadeirinhas que não acontecem mais.

 

Fiz o primário no Grupo Escolar Eduardo Prado, acho que ainda está lá; o ginásio no Colégio São João (que foi demolido; é sede de outra igreja evangélica). Cursei o Senai e me formei Técnico Têxtil em fiação, profissão e indústrias quase em extinção no Brasil.

 

Minhas recordações do centro de São Paulo, quando pequeno e jovem, incluem, entre outras, o Mappin, as Lojas Americanas – que bauru gostoso se fazia ali, será que ainda tem hoje? – a Pirani, na Av. Celso Garcia, onde no terraço havia um parquinho de diversões no qual eu brincava quando pequeno, levado pela Cida, minha irmã.

 

As recordações desses locais hoje inexistentes fazem às vezes eu me sentir como se tudo aquilo tivesse se passado em outro século, que de verdade foi, não é mesmo.

 

Se não vejamos:  tempo em que a TV era em branco e preto e existia o televizinho; que a vitrola, nos bailinhos aos sábados, tocava músicas gravadas em LPs; que existia namoro, noivado e casamento; que a minissaia e o biquíni eram novidades; que o Brasil tinha o melhor futebol do mundo, tinha o rei Pelé. Tempo em que passavam homens pelas ruas vendendo bijous e afiadores de facas e tesouras – ambos faziam barulhos para chamar a atenção dos moradores: os primeiros com uma matraca;os outros com um apito característico. Lembram desse som?

 

Poderia ficar recordando outras tantas cenas desta cidade, mas, não se engane, não sou saudosista. Emociono-me toda vez que recorda daqueles velhos tempos, mas sou muito feliz vivendo na São Paulo atual.

 

Para participar do Conte Sua História de São Pauo, envie seu texto para milton@cbn.com.br. O quadro vai ao ar aos sábados, logo após às 10h30, no CBN SP. A sonorização é do Cláudio Antonio.

Conte Sua História de SP: a boneca que o Seu João comprou no Mappin

 

Por Luiz Silva

 

 

E assim que desembarcou na antiga rodoviária da estação da Luz, dentro do ônibus observou uma grande movimentação de pessoas que passavam rapidamente com enormes malas pra lá e pra cá.

 

O motorista abriu o compartimento que ficava na parte debaixo do ônibus, colocou as enormes malas do Senhor João no chão, conferiu o bilhete e fechou rispidamente o enorme “maleiro”:
 

 

– Felicidades e muito sucesso nesta grande metrópole!disse em tom de despedida.
 

 

O senhor João, sua esposa Maria e os seis filhos pequenos pegaram as enormes malas e saíram silenciosamente pelas ruas da redondeza sem destino, entraram num pequeno boteco e pediram alguns pastéis e duas tubaínas e lá ficaram a degustar os pastéis e olhando toda aquela movimentação da rua com muito receio da grande metrópole São Paulo.

 

Após saciarem a fome de todos, saíram ainda em silêncio olhando para o chão, enquanto as crianças admiravam com muita alegria e ansiedade tudo e todos.

 

Embarcaram em um ônibus lotadíssimo com destino a zona Leste onde poderiam rever um compadre que tinha vindo para a cidade há muitos anos e prontificou-se a recebê-los até que arranjassem um cômodo por lá mesmo, um emprego e a vida pudesse ganhar o seu rumo na cidade.

 

Durante o café da manhã o compadre disse ao senhor João:
– Olha compadre, vocês podem ficar aqui na nossa casinha morando conosco até “aprumarem”. Enquanto isso, tenho um pequeno serviço para o senhor!
O senhor João olhou para o compadre e foi logo perguntando:
– Mas que tipo de serviço eu poderia fazer se só sei capinar roçado, cuidar de gado e cortar lenha?

 

 
O compadre foi logo explicando que conhecia um senhor que trabalhava numa agência de publicidade e sempre estava precisando de pessoas para carregar algumas placas com propagandas pelo centro de São Paulo.
 

 

O senhor João um pouco receoso perguntou:
– Mas, Compadre, será que eu sirvo pra este tipo de serviço? Afinal nem ler e escrever eu sei!
– Ora compadre, é só carregar a placa pra lá e pra cá e ficar orientando o pessoal para ir até a loja, muito fácil o serviço e nem é necessário ser “letrado”.
 

 

      
No outro dia lá estavam os compadres descendo do ônibus no centro da capital e entrando numa agência de publicidade. O senhor João foi apresentado para um senhor obeso que fez algumas perguntas. E sem perder tempo, o levou até a frente da grande loja de departamento, chamada Mappin.

 

 
Após algumas orientações. o senhor João foi “abandonado” em frente a loja  com uma enorme placa que cobria todo o seu esquelético corpo e seguiu caminhando pela rua Sete de Abril com destino a Praça da República.

 

O senhor João muito apreensivo andava pela praça toda e sempre o seu olhar parava naquela enorme loja de departamento. Ficava imaginando o que poderia ser encontrado ali, na loja com aquele  enorme relógio e muitas letras, que ele não sabia o que dizia.

 

 
Pessoas passavam apressadas e a maioria nem parava para observar a insignificante presença do senhor João. No finalzinho da tarde quando a chuva despencou, todos correram para baixo de um toldo. E lá o senhor João coçou a barba e ficou morrendo de vontade de entrar na loja.

 

 
O senhor obeso apareceu e depositou uma quantia em dinheiro na mãos do senhor João. Desejou  boa noite e pediu que na manhã seguinte ele se apresentasse no mesmo lugar em seguida saiu apressado pelo viaduto do Chá.

 

 
O senhor João tomou coragem e entrou na loja. Vagarosamente atravessou o andar térreo, repleto de pessoas olhando tudo, e ficou a imaginar na grandiosidade daquela cidade. Foi andando entre alguns esbarrões, parou diante da vitrine que vendia brinquedos e perguntou, com sua humildade de praxe, quanto custava aquela boneca com um lacinho na cabeça. Atenciosa, a vendedora disse o preço, o senhor João enfiou a mão no bolso da carcomida calça e retirou a quantia exata para comprar o presente para a filhinha caçula.

 

 
Chegou em casa após viagem de duas horas dev ônibus, entrou sorrateiramente e depositou a bonequinha ao lado da filha que já estava dormindo. Tomou banho e foi dormir ao lado da esposa.

 

 
Adormeceu muito feliz com a imagem da grande loja de departamentos na cabeça e sonhando com o rosto de felicidade da filhinha no dia seguinte, quando abriria os olhos diante da linda boneca comprada no Mappin.

 


O Conte Sua História de São Paulo tem a sonorização do Cláudio Antonio. Você pode participar, enviando seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: saudades da Tia Ilze

 

Por Maria de Lourdes Figueiredo Sioli

 

 

Tia Ilze era a única irmã de mamãe. Era um pouco mais moça e fisicamente bem diferente dela. Mais clara, de cabelos cacheados e olhos grandes … muito bonita afinal.

 

Pelas fotos vejo-a muito ligada a minha infância, de primeira neta e sobrinha, lugar engrandecido na pequena família materna.

 

Casou-se com um americano – tio Mitchel – teve duas filhas, foi morar no Rio de Janeiro e na década de 50 voltou a São Paulo, onde nos encontramos novamente, pois eu terminara o ensino médio e frequentava um cursinho para o vestibular.

 

Foi morar na Rua Morás, uma rua calma e arborizada no Alto de Pinheiros, com um lindo jardim onde havia um pé de cerejas, que me encantava!

 

Um dia telefonou-me dizendo “Vou levá-la a um lugar que será inesquecível para você…” Nos encontramos na Praça Patriarca, na frente da Igreja de Santo Antonio e fomos de braços dados pelo Viaduto do Chá até ao Mappin para o chá das cinco!

 

Quando entramos no salão pensei assim como se fosse Alice entrando no País das Maravilhas tal o impacto sentido! Mesinhas redondas amparavam toalhas de fino tecido, em tons claro de azul, que iam até o chão. Sobre a mesa, xícaras de fina porcelana, talheres e demais objetos, tudo discreto e chique.

 

Compunha ainda o cenário, vários arranjos de flor natural que  enfeitavam o ambiente. Em um canto do salão um pequeno conjunto tocava músicas suaves e o violino passeava pelo recinto detendo-se minutos em cada mesa, que tornava-se no momento, alvo de todos os olhares. E que olhares! A fina flor da sociedade paulistana ali se encontrava para o chá das cinco!

 

Os garçons elegantemente vestidos, com luvas brancas, trouxeram inúmeros pratinhos com petit four variados, a chavena de chá, leite e chocolate quente, que tomei deliciada!

 

Conversamos sobre várias coisas e o tempo passou como por encanto.
 

 

Voltei ainda algumas vezes ao Mappin para o chá, agora sem hora marcada e sem o encanto da primeira vez.

 

Assisti à decadência do ritual, o empobrecimento dos detalhes e a mudança da clientela, os músicos desapareceram e glamour acabou! Mas na memória ficou mesmo inesquecível aquela tarde mágica, a companhia querida da tia Ilze e uma grande saudade!

 

Maria de Lourdes Figueiredo Sioli e a tia Ilze são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você pode contar também mais um capítulo da nossa cidade: envie seu texto para milton@cbn.com.br

Conte Sua História de SP: As toalhas de dona Maria Elisa

 

Maria Elisa Martins da Costa Câmara nasceu em Açu, no Rio Grande do Norte. Passou a infância na cidade mineira de Nova Era. Foi aluna interna no Rio e voltou para Minas após concluir o curso. Na capital, Belo Horizonte, conheceu o marido com quem veio para São Paulo onde, juntos, montaram uma empresa de alumínio. Daqui e do passado, Dona Maria Elisa tem muitas histórias para contar. No depoimento ao Museu da Pessoa, fala de quando o presidente Getulio Vargas visitou a fazenda do avô, no interior do Rio Grande do Norte. Curiosamente, a primeira lembrança que Maria Elisa tem da cidade de São Paulo é da avenida 9 de Julho, inaugurada em 1941, por Prestes Maia, e assim batizada em homenagem a dada do início da Revolução Constitucionalista, quando milhares de paulistas se rebelaram contra o governo Getulio Vargas, em 1932. Quando ela chegou por aqui, era uma avenida imponente e com vários casarões recém-construído, cercados de belos jardins. Com o marido e mais um casal, foram morar em um apartamento da Barão de Limeira, de onde saia para passear e tomar chá no Mappin:

 

 

Maria Elisa Martins da Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio e o depoimento foi registrado pelo Museu da Pessoa. Você também pode contar mais um capítulo da nossa cidade. Marque uma entrevista em vídeo pelo e-mail contesuahistoria@museudapessoa.net. Ou mande sua história para mim: milton@cbn.com.br. Se você quiser ouvir outros textos, visite meu blog miltonjung.com.br

Conte Sua História de SP: O manequim do Mappin

 

Alex Periscinoto nasceu em 1925 na cidade de São Paulo e, após passar por vários empregos e funções, se tornou publicitário. Um dos lugares onde trabalhou foi a antiga loja de departamentos – famosa na capital paulista – Mappin. Foi nessa fase de sua carreira que ele viveu a história que contou ao Museu da Pessoa, em 1994, e se transformou em mais um capítulo do Conte Sua História de São Paulo, na CBN:


Ouça esta história que foi ao ar no CBN SP, sonirada pelo Cláudio Antônio

Eu já era casado e tinha um cunhado – tinha muitos cunhados, se você precisar de cunhados fala comigo. E cunhado, você sabe: acho que Deus inventou cunhado para jogar buraco, porque todos os cunhados se reúnem para jogar buraco. Ele era um deles. Era muito linguarudo e via publicidade na televisão, via a Sandra Bréa e cutucava a minha esposa. Ele achava que, como eu trabalhava em publicidade, tinha chance de sair com a Sandra Bréa. Vê se a Sandra Bréa ou qualquer atriz ia dar confiança. Não tinha relação nenhuma, mas ele era diabólico. 



Eis que um dia eu estou no Mappin trabalhando e estava chovendo. Chuva miúda e inclinada. Eu tinha um Coupê Mercuri 48. Todo mundo, na época, tinha carro usado, não podia comprar carro novo. Meu carro era velho. O vidro oposto ao motorista virava a manivela, mas não subia, estava quebrado. E eu não tinha dinheiro para consertar, ficava assim mesmo. Nesse dia, eu saio do Mappin e a Sônia, uma funcionária, irmã de um diretor do Mappin: 



– Alex, você vai lá para a Vila Clementino?


– Vou.


- Você me leva?


- Claro, vamos, está chovendo…



Então, eu subo a rua Augusta e paro no sinal. Chovendo. Eu ouço:



- Fiu, fiu!



Quando eu olho, a Sônia falou:



- É com você!



Era meu cunhado, que sempre inventou histórias. Eu transpirei: “mas, meu Deus do céu, todos menos esse”. Eu olhava e ele fazia um gesto, com a Gazeta Esportiva feito telhado na cabeça, como quem diz: “Abre aí que eu pulo, abre a porta”. E a Sônia:



- Abre, porque senão ele vai fazer todos os gestos possíveis – ela meio tonta, já limpando a chuva onde ele ia sentar.



Falei:



- Não, não, esse não!



Abriu o sinal e eu fui embora, deixei ele lá. Você imagina a situação que eu criei. Deixei a Sônia e ela falou:



- Alex, mas você está preocupadíssimo, vou lá falar com a tua mulher, eu conheço tua mulher, você estava me levando pra casa!


- É, Sônia, isso aí é uma outra história.



Eu deixei a Sônia, peguei o carro e voltei para o Mappin. Cheguei lá e falei para o Zé Paródia – ele era o meu subordinado na área de vitrine: 



– Zé, coloca um desses manequins de gesso, vestido, no assento da frente do meu carro.


Sabe esses manequins que ficam na vitrine com dedos tortos, de gesso, peruca de naylon? Ele pôs um bicho de gesso e eu fui segurando para casa. Caía aquilo, e eu segurando até chegar em casa. Mais tarde, eu falei pra minha mulher: 



– Olha, eu demorei porque eu tenho que comprar um manequim lá para o Mappin, umas duas dúzias de manequim e tem um mostruário aí. Ela, pela janela da cozinha, olhou e falou: 



– Bonitinho, né? Eu acho bom você tirar isso daí senão vão dizer que você ‘tá’ andando com mulher no automóvel…

Eu falei:
– Boa ideia. 



Ela me ajudou a desatarraxar e botamos tudo atrás do carro. Jantamos, e eu falei:



- Vamos jogar buraco lá na casa do Sabião?


- Vamos. 



Nem deu outra, ela entrou na minha frente, estava um passo na minha frente, quando eu vi…



– O Alex…

Louco, ele contou tudo, com todos os detalhes, entregou mesmo. Ele acabou de falar, a minha mulher nem sequer olhou para ele. Olhou para a irmã, que nós somos casados com duas irmãs, e falou assim:



- Você fala pro seu marido tomar cuidado, porque ele é muito linguarudo. Era um manequim, eu ajudei a tirar do carro… Ele fica inventando essas histórias do Alex… Agora eu tive provas que ele inventa.

Ele olhava para mim e dizia assim:



- Como é o negócio?



Nós jogamos buraco naquela noite, ele dava a carta para mim assim: “O manequim”.

Passados dois anos, eu estava pescando no barco dele, no clube Samambaia, no Guarujá. Eram dez horas da noite, estava sentado no barco, pescando sossegado, ele meteu o pé nas minhas costas e me jogou na água. E eu só ouvi: 

- Manequim, é?



Ficou atravessado dois anos aquele negócio. Foi engraçado. Quando eu levei a história para os meus colegas do Mappin, que conheciam a Sônia, o caso ficou famoso.


O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar, aos sábados, no CBN SP. Você pode contar a sua história, também. Ou procura o Museu da Pessoa e grava em áudio e vídeo, ou manda por escrito para mim no milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: Cidade conquistada

 

Celina Fernandez

No plano de viagem, Celinda Fernandes Aguillera ficaria com o marido e os filhos não mais do que três anos no Brasil, país no qual se refugiou da violência da Ditadura Militar no Chile. Os ditadores demoraram um pouco mais para ser banidos do mapa e a vida desta enfermeira criou raízes na capital paulista, onde vive até os dias de hoje. Tem saudades de Santiago, não o suficiente para fazê-la retornar ao país de origem.

No depoimento ao Museu da Pessoa, Celinda conta como chegou ao Brasil e registra algumas de suas primeiras lembranças na capital paulista que passam pelos encontros na Catedral da Sé às compras no Mappin:

Ouça trechos do depoimento de Celinda Fernandes Aguillera sonorizados por João Amaral

O Conte Sua História de São Paulo reúme depoimentos sobre a cidade gravados especialmente para o programa pelo Museu da Pessoa. Para participar, agende uma entrevista pelo telefone 011 2144-7150 ou acesse o site do Museu da Pessoa. O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, logo após às 10 e meia da manhã.