Avalanche Tricolor: xô, zica!

Botafogo 2×5 Grêmio

Brasileiro – Nilton Santos, RJ/RJ

Matheus comemora o 5º gol, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

Fizemos 5 gols. Tomamos 2. Fizemos de bola tocada, de bola colocada e de falta cobrada. Teve gol de Churín. Gol de pênalti. Gol de Jean Pyerre. De falta. Teve o primeiro do Alisson. E os dois últimos do Matheus Henrique. Do último, tiro inspiração para esta crônica. 

Já com a braçadeira de capitão —- legado de Maicon que havia saído mais cedo —-, nosso camisa 7 marcou o quarto gol gremista depois de uma assistência de Isaque, aos 27 do segundo tempo. Da entrada da área e com a defesa no meio do caminho, encontrou um espaço para colocar a bola com classe na rede adversária. Foi um gol importante porque pouco antes havíamos levado o primeiro e, apesar de ainda estar 3 a 1, a saga de empates que marcou nossa jornada na temporada voltava a fazer sombra.

Se no primeiro que fez a comemoração foi tímida, no segundo, Matheus revelou o peso que estava sobre os seus ombros —— o mesmo que pesa nos ombros de toda a equipe. Aos 32, após mais uma assistência de Isaque, desta vez de calcanhar, Matheus entrou na área conduzindo a bola até encontrar o gol. Na festa, fez aquele movimento com as mãos sobre o próprio corpo que, em bom português, significa: “xô, zica!”

Zica tem diversos significados aqui no Brasil.

É nome do vírus que nos assustou anos antes da Covid-19. É como, em alguns estados, descrevemos jovens descolados, com estilo próprio, que têm a capacidade de fazer coisas que fogem do nosso comum. Matheusinho —- é assim que locutores de futebol gostam de chamá-lo para revelarem uma intimidade inexistente —- pode ser considerado um moleque zica ou um guri zica, apesar de a gíria não ser própria do Rio Grande. Naquele momento do gol, do seu segundo gol, a zica que Matheus queria afastar nem era uma nem era outra. Era a zica que vem acompanhada pelo azar, pelos lances de infortúnios, pelo tanto de coisa ruim que se acumula em um determinado momento de nossa vida.

O quinto gol gremista definiu o placar e encerrou uma interminável trajetória sem vitórias neste ano de 2021. Já passava de um mês desde a última conquista, em 6 de janeiro. De lá para cá, além de resultados doloridos e pênaltis esquisitos, tivemos um amontoado de empates que nos fizeram patinar na subida ao topo da tabela do Brasileiro, momentos depois de uma arrancada que chegou a nos dar alguma esperança.

A despeito da capacidade do adversário,  tão abatido quanto rebaixado, que os gols de Alisson, de Jean Pyerre, de Churín, de Matheus Henrique, de pênalti, de falta, de bola passada e bola colocada, nesta noite de segunda-feira, sejam os gols que nos livraram da zika que carregamos nesta ano e marquem a virada de expectativas para as três rodadas finais do Brasileiro —- que ainda podem nos devolver, pela porta da frente, a Libertadores —- e nas duas partidas finais da Copa do Brasil.

Xô, Zica!

Avalanche Tricolor: respeita essa camisa!

 

 

América de Cali 0x2 Grêmio
Libertadores — Cali/Colômbia

 

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Ao iniciar a partida desta noite na Colômbia, o Grêmio dava início a sua 12a. participação em Libertadores, apenas nos anos 2.000. A contar desde a primeira vez que chegamos à competição, em 1982, foi a 20a vez. Nenhum outro time brasileiro jogou mais do que nós. Nenhum outro brasileiro venceu mais vezes do que nós — campeões que fomos em 1983, 2005 e 2017.

 

Com um currículo desses, jogamos Libertadores com autoridade. Ao entrar no gramado, o tricolor de nossa camisa é reconhecido por todos os nossos adversários. E respeitado. Mesmo que esse adversário tenha sido uma espécie de calo nas nossas caminhadas. A saber: o América de Cali foi o único que conseguiu nos vencer, na campanha de 1983, ano que conquistamos a primeira Libertadores e levamos o Mundial na sequência.

 

Nossa história contada em azul, preto e branco, nos permite estrear fora de casa jogando com a mesma personalidade com que jogamos quando estamos diante da nossa torcida — como ocorreu nesta noite.

 

O Grêmio foi superior do início ao fim.

 

Correu poucos riscos. Teve paciência para roubar a bola quando o adversário ensaiava jogadas no nosso ataque e força para afastá-la da área sempre que necessário — tendo nesta função, Geromel, o camisa 3, como o maior destaque.

 

Foi preciso ao chegar na área adversária. Insistiu por um lado e por outro. E mais uma vez pode contar com o talento de Everton, o camisa 11, que com boa movimentação, escapou pelo meio da marcação até ser derrubado, provocando uma falta que abriu caminho para a vitória.

 

O primeiro gol teve participação de Diego Souza (29), Lucas Silva (16) e Victor Ferraz (2), que completou a jogada aos 15 minutos do primeiro tempo. Sim, a Libertadores 2020 mal havia se iniciado e o Grêmio já anunciava à América porque é TRI da Libertadores.

 

Não precisou mais de cinco minutos, no segundo tempo, para sacramentar o resultado, após nova jogada de Everton — esse endiabrado — que levou três marcadores atrás dele, para dentro da área, e deixou Matheus Henrique livre para receber. O guri não apenas limpou a jogada como teve talento suficiente para colocar a bola fora do alcance do goleiro.

 

Na comemoração, Matheus voltou a chamar atenção para o valor de nossa camisa. No caso uma camisa ainda mais especial, pois tinha o número sete nas costas, o mesmo sete consagrado por Renato, na Libertadores de 1983, e reverenciado por Luan, na Libertadores de 2017.

 

Sim, essa camisa tem peso. E tem de respeitar!

Avalanche Tricolor: ver o Grêmio é um convite irrecusável

 

Pelotas 0x2 Grêmio
Gaúcho – Boca do Lobo, Pelotas/RS

 

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Matheus Henrique conduz a bola, em foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Renato não estava no banco. Os titulares não estavam em campo. Classificado antecipadamente e em primeiro, sem qualquer risco, o placar em nada mudaria nossa história neste campeonato — a não ser pela possibilidade de vencê-lo de maneira invicta. Nem a TV ajudava muito: foi preciso perspicácia e troca de informação em rede social para descobrir a partida; aqui em São Paulo, somente seria transmitida em um canal analógico do PPV. Nestes tempos de TV 4K, teríamos de nos contentar com imagem borrada, de baixa qualidade e recursos de câmeras restritos.

 

Convenhamos, o cenário era um convite para deitar mais cedo, recuperar energia para o dia seguinte, quem sabe acordar até mais disposto. Mas relutei em aceitá-lo. Afinal, era o Grêmio que estaria em campo. E, atualmente, com as exceções de praxe, assistir ao Grêmio é sempre muito agradável.

 

Tem um guris que pintam e bordam em campo.

 

Assistir a Matheus Henrique e Jean Pyerre, por exemplo, é genial. Eles conduzem a bola com facilidade, se livram dos marcadores como se estivessem passeando, passam com qualidade e abrem espaço para novas jogadas mais à frente. O baixinho Matheus ainda tem uma capacidade de marcação de dar inveja em qualquer brutamonte que tente passar por ele. E o esguio Jean Pyerre, corre com a elegância dos antigos craques do futebol brasileiro.

 

Se conseguem fazer isso é porque seus colegas estão a altura do futebol jogado por eles e são capazes de reproduzir o modelo de jogo desenhado por Renato, com muita movimentação, deslocamentos para facilitar o passe de primeira, dando seguimento à jogada com toques rápidos, driblando quando é necessário e virando o jogo quando o espaço parece restrito.

 

Resultado: mesmo que o time não seja o titular — e de todas as condições descritas no primeiro parágrafo desta Avalanche –, ver o Grêmio em campo é um convite irrecusável, motivo de alegria para este torcedor e, imagino, para todos vocês torcedores gremistas e amantes do bom futebol.

 

Na noite dessa quarta-feira, além de todas as boas notícias, foi muito legal ver Galhardo de volta no lado direito e, especialmente, Thaciano jogando com vitalidade e esbanjando talento no meio, a ponto de ter sido o autor do primeiro gol, participado do arranque para o segundo e quase tendo marcado um outro que seria antológico.

 

Foi tão legal assistir ao Grêmio na noite de quarta, que acordar de madrugada nesta quinta-feira chuvosa em São Paulo tornou-se fácil.