Do que não foi

 


Por Maria Lucia Solla

Dos pés de meias que perdi dentro de casa, na máquina de lavar e na de secar, perdi o interesse e perdi a conta também. Quem é que se preocupa, hoje, com meias? Meias você compra como fraldas, em pacotes, praticamente descartáveis.

Desencanada das meias, hoje me pergunto: para onde vão os sonhos que não se realizam, os beijos que permanecem na boca de origem, os abraços que deixam inertes, os braços?

Vêm de onde? vão para onde? para a Terra do Nunca? do Sonho, da Esperança, do Desejo?

Moram juntos os Sonhos de amor e os de desamor, de construção e de desconstrução, de vida e de morte?

Cheios de nós mesmos, e vazios de vida, nos tornamos veículo conveniente de sonho, esperança e desejo, que nos seduzem projetando imagens do que poderia ser, para depois nos deixar com o gosto amargo na boca, daquilo que poderia ter sido.

Onde nascem? Morrem?

Circulam em nós como se fôssemos bondes antigos, abertos, e seguem pendurados, rindo ou chorando, mas vendo a paisagem do caminho e deixando cada um de nós, lotado, sobrecarregado, e cada dia mais e mais sozinho.

E nós nos viciamos neles. É só um sonho acenar, que a gente breca desesperado, descartando na estrada, outro sonho desencantado.

Aprendemos que esperança e sonho mantêm a gente vivo.

Discordo.

Sonho e esperança escondem de nós, a vida. O que mantém a gente vivo é o estar no aqui, no agora, é o aceitar que esse lugar é o lugar onde chegamos, pegando carona com o imponderável. Só isso.


Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung