Quem você vê quando se olha no espelho?

Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay
Foto de michael.handsome.gaida no Facebook/Pixabay

No conto “O espelho”, de Machado de Assis, durante uma reflexão filosófica sobre a existência, Jacobina — o protagonista — revela uma situação ocorrida na sua juventude para elucidar suas concepções sobre o tema abordado, alegando que os seres humanos teriam duas almas: uma interior, que olha de dentro para fora e outra exterior, que olha de fora para dentro.

  Jacobina conta que fora nomeado alferes da Guarda Nacional, causando muito orgulho a seus familiares e amigos. Eis que é convidado a passar uns dias no sítio de sua tia, sendo solicitado que leve sua farda, recebendo inúmeras cortesias por conta do cargo ocupado. 

No entanto, a tia precisa viajar às pressas e, em seguida, há uma fuga dos escravos. Na ausência das bajulações, Jacobina olha-se no espelho e não se reconhece na imagem refletida: danificada, com contornos imprecisos. Somente tem a sua imagem integralmente refletida quando se veste novamente com a farda.

A astúcia – ou provocação – de Machado de Assis nos aproxima de inquietações sobre nós mesmos: quem realmente somos?

Essa questão que poderia ser simples, a princípio, já que temos uma série de informações a nosso respeito, torna-se desafiadora quando compreendemos que a nossa identidade é construída diariamente, ou seja, apesar de sermos a mesma pessoa, estamos em constante transformação.

A construção da identidade envolve aspectos permanentes, como nome, parentescos, nacionalidade; além dos subjetivos, que permitem a compreensão de si mesmo e a consciência enquanto ser único, tais como os pensamentos, sentimentos e valores.

Entretanto, nossa identidade não está limitada apenas a esses aspectos subjetivos; compreende a relação constituída entre a subjetividade e as interações sociais.

É no processo de socialização, no encontro com o outro, com a sociedade, com a cultura, que a autoimagem vai se consolidando, permitindo a construção da nossa identidade social. 

Somos as características biológicas herdadas, somadas e transformadas pelas experiências vividas, como as oportunidades sociais, a profissão, os relacionamentos afetivos… Numa combinação que promove mudanças constantes e que guardamos na memória para nossa autorreferência.

Poderíamos então dizer que somos as memórias que temos sobre nós? O professor e cientista Ivan Izquierdo costuma dizer: 

“Somos o que lembramos e o que decidimos esquecer”

As memórias pessoais ou autobiográficas, de certo modo revelam nossas experiências de vida e permitem essa construção da nossa imagem; no entanto, pesquisas têm mostrado que não acessamos ou usamos todas as memórias disponíveis ao criarmos narrativas pessoais. 

Selecionamos como memória pessoal aquilo que de certo modo se ajusta à ideia atual que temos de nós mesmos, numa fusão entre memórias de quem fomos no passado e quem somos no presente, envolvendo a autoimagem, necessidades e objetivos. 

Somos aquilo que está dentro de nós e aquilo que o outro nos permite ser. 

Não podemos apenas ser. Mas também não podemos vincular quem somos exclusivamente ao desempenho de papéis estabelecidos e de atividades desempenhadas, que por vezes nos sufocam, nos engessam em cargos, títulos e organizações. Como numa engrenagem, as duas partes constituem um mecanismo que permite um movimento coerente e contínuo. Se uma das partes falhar, não conseguiremos nos reconhecer. Nossa imagem estará distorcida em formas e contornos.

Machado de Assis estava certo! 

“Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro (…). Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência”.

Resolvo encerrar o texto e ir para o espelho… Quem será que vejo?

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Espírito Natalino: resgate de memórias e renovação da esperança

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Imagem de Jill Wellington no Pixabay

 

Num ano marcado pelo cancelamento de tantos eventos e rituais comemorativos, de casamentos a jogos olímpicos, a celebração do Natal parece ser um momento propício para a confraternização e o resgate de memórias que podem contribuir positivamente para a nossa saúde mental e bem-estar.

O clima de Natal ou o espírito natalino é um fenômeno observado há séculos, mesmo entre pessoas que não são cristãs ou que não têm religião, e engloba uma variedade de sentimentos, como alegria e nostalgia, e comportamentos positivos que são vividos de maneira coletiva, como maior altruísmo e generosidade. Essas ações se manifestam no enfeite das casas, na troca de presentes, no preparo de comidas típicas e nas ações solidárias.

Em 2015, um grupo de pesquisadores dinamarqueses procurou identificar a localização do espírito de Natal no cérebro humano. Através do exame de ressonância magnética funcional, eles mapearam quais regiões do cérebro foram ativadas enquanto os participantes da pesquisa assistiam à uma série de imagens que evocavam o Natal. Metade dos voluntários era de pessoas que celebravam o Natal desde a juventude e a outra metade, pessoas sem tradições natalinas. Os participantes que disseram comemorar a data demonstraram maior atividade em áreas cerebrais associadas à espiritualidade, ao reconhecimento da emoção facial e ao compartilhamento de emoções. 

Esses resultados devem ser analisados com cautela, uma vez que a principal diferença entre os dois grupos pode acontecer em função do significado atribuído ao Natal, ou seja, pelas representações e memórias construídas acerca da data.

Repetir as tradições de Natal faz com que as memórias afetivas sejam ativadas. Quando enfeitamos a árvore de Natal, por exemplo, nossas memórias de situações semelhantes vêm à tona e nosso cérebro dispara sentimentos festivos armazenados.

O sociólogo Émile Durkeim usou o termo “efervescência coletiva” para descrever o humor positivo que sentimos quando participamos de atividades sociais que trazem alegria coletiva e nos fazem sentir parte de uma comunidade maior. Embora Durkheim se referisse a grandes reuniões religiosas, atualmente, pesquisadores indicam que esse mesmo sentimento pode ser experimentado em grupos menores, como entre familiares ou amigos.

Em 2020, tivemos que adotar novo repertório de atitudes para as mais diversas situações. Infelizmente, não será diferente para as comemorações do Natal. Apesar de não podermos celebrar da mesma forma, manter as tradições natalinas e se conectar à família e aos amigos, ainda que virtualmente, nos permitirá compor essa “efervescência”.

Então use a criatividade! Enfeite a casa, prepare a comida e conecte-se. Com esperança em dias melhores… Feliz Natal!

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sua Marca: “…longe delas há um sentimento de desterro”

 

“As marcas que entram nas nossa vidas falam para nós mesmos quem nós somos, longe delas há um certo sentimento de desterro” — Jaime Troiano

Lilian Calabria, ouvinte da CBN, relatou sua experiência no exterior em busca de marcas e produtos que tinham significado para ela no Brasil e inspirou nossa conversa no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso. Jaime Troiano e Cecília Russo também viveram algum tempo nos Estados Unidos e compartilhavam do mesmo sentimento de vazio quando deparavam com a ausência de produtos —- especialmente alimentos —- que consumiam no Brasil.

“Era um sentimento de vazio. É a questão de olhar para uma gôndola de supermercado e se sentir um estrangeiro: eu não sou daqui”, disse Jaime.

Além disso, há uma “pitada de nostalgia” que as marcas podem proporcionar nos consumidores. Cecília Russo lembra da falta que fizeram jabuticaba e manga, comuns no mercado brasileiro; ou produtos que vêm agregados à marca como Requeijão Poços de Caldas, Biscoito Globo e  chocolates Sonho de Valsa, apenas para citar alguns que fazem parte da memória do brasileiro.

“Mostra um sentimento de nostalgia, mas é uma memória. E marcas que são relevantes para nós geram essa memória”, diz Cecília Russo 

Se geram saudade, nostalgia ou aguçam a memória é sinal de que se tornam em oportunidade de negócio, por isso, empreendedores que moram no exterior podem investir em lojas de varejo importando produtos brasileiros —- algo que já é possível de encontrar em várias cidades de outros países, especialmente onde há maior presença de brasileiros ou hispânicos.

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, às 7h55 da manhã, no Jornal da CBN. O programa pode ser ouvido também em podcast.

Olhar para trás e seguir em frente!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa 

Foto: Pixabay

“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”

Belchior

 

Segundo o dicionário Aurélio, passado significa aquilo que passou. Antiquado, obsoleto. Portanto, algo antigo, que caiu em desuso e que não existe mais. Apesar dessa definição, um comportamento comum para muitas pessoas é o apego a lembranças do passado, de forma tão intensa, capaz de produzir emoções no momento presente.

Recordar momentos que nos foram agradáveis ou utilizar experiências vividas para resolver problemas podem ter efeitos benéficos, inclusive para elaborarmos um planejamento para o futuro. Porém, quando ficamos presos a pensamentos negativos e repetitivos, fazemos o que em psicologia é chamado de ruminação mental.

O processo de ruminação é caracterizado por pensamentos persistentes, geralmente com conteúdo negativo, autocríticos e relacionados a acontecimentos do passado. 

Os pensamentos ruminativos tendem a gerar perguntas feitas a si mesmo:

  • Se eu não tivesse feito aquilo?
  • Se eu tivesse me comportado de outra forma?
  • O que eu poderia ter feito para que isso nunca tivesse acontecido?

Esses pensamentos repetitivos e contínuos tendem a produzir emoções negativas, como tristeza, culpa e arrependimento, favorecendo o círculo vicioso da ruminação, apontado como fator de agravamento ou manutenção de sintomas depressivos.

Avaliar situações do passado e pensar como poderiam ser diferentes é o mesmo que tentar correr na vida adulta com o calção que usávamos na infância: não serve mais. Aperta, incomoda, aprisiona a uma condição que não mais nos pertence. 

Desejamos modificar eventos ou ações praticadas no passado e ignoramos que são justamente nossas vivências, nossas experiências, as memórias construídas sobre nós e sobre o mundo que nos constituem.

Aceitar aquilo que não podemos mudar não significa resignação. Pelo contrário, envolve um conhecimento amplo de quem somos, da nossa história, e com olhar refinado, experiente e menos crítico; nos permite construir metas direcionadas à mudança, não do passado, mas de quem somos hoje, de quem desejamos ser amanhã. Não é voltar e percorrer o mesmo caminho. É olhar para trás, mas para seguir em frente.

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Sobre memórias, doces e afetos

 

Por Simone Domingues
@simonedominguespsicologa

 

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Foto: Abigail Costa

 

“O valor das coisas não está no tempo que elas duram,
mas na intensidade com que acontecem.
Por isso existem momentos inesquecíveis,
coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”
Fernando Pessoa

 

 

Você se recorda onde estava no dia 11 de setembro de 2001 ou o que estava fazendo quando soube que Ayrton Senna havia sofrido um acidente automobilístico e tinha morrido? Essas perguntas são frequentemente feitas para elucidar como as emoções influenciam os processos de memorização, aumentando a probabilidade de se recordar uma experiência ou um evento vivido.

 

Diversos estudos em neurociências evidenciam o papel das emoções e os mecanismos fisiológicos envolvidos na formação de memórias, sugerindo que no momento da aquisição das informações, o organismo ativa uma série de neurotransmissores e hormônios, como adrenalina e corticoides, que agem sobre o cérebro e modificam a ação dos neurônios. Quanto maior a intensidade da emoção, mais essas substâncias serão liberadas e vão agir sobre os neurônios responsáveis pelos processos de memória.

 

Não são apenas os conteúdos negativos ou eventos trágicos que serão mais facilmente armazenados. As memórias carregadas de emoções positivas também permanecerão por mais tempo no cérebro.

 

Proponho, então, novas perguntas: como é o lugar que você mais gostou de conhecer? Onde fica? Qual a música que te remete às boas lembranças da infância? Qual o cheiro mais gostoso que vinha lá da cozinha da sua avó ou da sua mãe? Qual o sabor daquela comida que para você é especial? Qual situação foi a mais divertida ou romântica que você passou com a pessoa amada?

 

Essa coletânea que guardamos sobre nossas experiências pessoais e conta sobre nós mesmos em tempos e lugares chama-se memória autobiográfica. Recorda a nossa história, as pessoas com as quais convivemos e o que vivemos.

 

Popularmente, quando essas lembranças são repletas de carga emocional positiva, são chamadas de memórias afetivas. São lembranças fortemente associadas a estímulos sensoriais, como estímulos visuais, auditivos, táteis e olfativos. Recordamos o local onde estávamos, com quem estávamos, a música que tocava ao fundo enquanto o jantar acontecia, o friozinho que vinha pela porta de entrada e o cheiro bom do chá para encerrar a noite… A música ou o cheiro do chá, em outras situações, serão estímulos suficientes para que as lembranças sobre aquele evento sejam ativadas. Evocar memórias que são emocionalmente significativas confere vivacidade às nossas experiências, resgata um pouco (ou muito) de nós mesmos.

 

Minhas filhas dizem que gosto de fazer doces e oferecer às pessoas para registrar a importância que elas têm para mim. Concordo. Um brigadeiro gostoso tem textura, cor, cheiro de chocolate e um sabor único. Memória salva com sucesso! Lá vou eu pensando nas memórias e nos afetos… Faço uma caixa com brigadeiros e envio para um casal de amigos. Apoiada nas palavras de Fernando Pessoa, demonstro meu afeto para essas pessoas incomparáveis e espero que seja intenso o suficiente para construir memórias que tornem esse momento inesquecível.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

 

No rebobinar da memória, lembranças de meu cotidiano matinal no rádio

 

 

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Foto: Pixabay

 

 

Era cedo — mais uma vez. Tudo parece acontecer logo cedo comigo. Não só parece. Acontece mesmo, porque cedo é que o meu dia começa. Começou, nesta quarta-feira, em 15 de julho de 2020 com as principais notícias do dia. Para logo em seguida uma estranha reversão do tempo atingir minha mente.

 

 

Às 6h45 da manhã, voltei dois ou três anos ao informar que no centro da cidade a temperatura era de 14°C. Nem a sede da rádio, em São Paulo, está por lá — é na zona Sul — nem meu estúdio avançado da quarentena fica na região — é na Oeste. Costumava usar a expressão quando trabalhava no tradicional endereço da rua das Palmeiras, no bairro de Santa Cecília — este sim no Centro —, onde ficavam os estúdios da CBN e da rádio Globo. Foi lá que comecei a trabalhar. Onde cometi meus  erros e enganos. Onde também tive experiências profissionais memoráveis. Onde pratiquei jornalismo por 20 anos.

 

 

Imagino que tenha sido reflexo de outro recuo que minha memória me proporcionou um pouco mais cedo — não disse que tudo acontece muito cedo comigo?

 

 

Ainda eram 6h15 da manhã quando voltei mais de 30 anos no tempo. Já no bom dia da Aline Tochio, que atualiza a previsão do tempo no Jornal da CBN, e sempre recebe os ouvintes com muita simpatia e precisão, em vez de falar de São Paulo — como fazemos todos os dias —, resolvi perguntar sobre a temperatura em Porto Alegre, onde havia visto, minutos antes, que fazia um frio de renguear cusco — perdão pelo gauchismo.

 

 

Nossa meteorologista, sempre atenta aos monitores e radares, além de bem informada, confirmou que o frio era intenso: “neste momento, temos 5°C no Aeroporto Salgado Filho”.  Foi a senha para a fita rebobinar uns 30 e pouco anos. E eu me enxergar com 23 ou 24 anos de idade, época em que trabalhava na rádio Guaíba, e era o primeiro repórter a entrar no ar no programa matinal — sim, lá também as coisas aconteciam muito cedo para mim. Os termômetros do aeroporto de Porto Alegre faziam parte da minha fala na rádio, assim como as condições dos voos e uma ou outra notícia que surgisse no saguão do Salgado Filho.

 

A Cássia Godoy logo me cobrou que contasse essa história no ar. Não tive tempo. Preferimos tratar de coisas mais relevantes para os ouvintes.  Aqui no blog o espaço é livre e pode ser ocupado com reminiscência, por isso, reproduzo trecho de texto que publiquei no início desta pandemia, quando fui levado à reclusão. No qual comparava o momento que estou vivenciando com a apresentação do Jornal da CBN de casa e aquele tempo em que, de casa, entrava ao vivo na Guaíba:

“É estranho mas não inusitado. Em meus primeiros anos de rádio, nos anos de 1980, tive uma experiência curiosa. Na época, trabalhava na rádio Guaíba de Porto Alegre e fazia minha primeira participação, logo depois das seis da manhã, com informações do aeroporto Salgado Filho. Diante da necessidade de reduzir custos, a rádio combinou que eu continuaria atualizando as notícias do aeroporto — condições para voar, voos atrasados, lotação dos aviões entre outros assuntos —, mas diretamente de casa.

 

Era fim de madrugada quando acordava e ligava para os balcões das companhias aéreas — Varig, Vasp e Transbrasil —, para a torre de controle e para o telefone do ponto de táxi que ficava em frente ao aeroporto. Os motoristas descreviam o movimento de passageiros e informavam a temperatura registrada pelo termômetro de rua. Com esse arsenal de informações, me preparava para entrar no ar na Guaíba.

 

Encerrava meus boletins informando a temperatura na cabeceira da pista, uma forma que encontrei para dar um pouco mais de realidade aos fatos, quando de verdade eu estava falando, ao vivo, da cabeceira da minha cama. Registre-se que
em nenhum momento, no bate-papo com o âncora do Jornal, dizia que estava no aeroporto para não perder a confiança do ouvinte assim como não comentava que estava em casa — algumas vezes fui traído pelo nosso cachorro de estimação, que latia “diretamente do pátio”.

 

Se no ar tudo transcorria normalmente e a prestação de serviço atendia a expectativa do público, lá na minha casa, em Porto Alegre, eu me tornei um estorvo para meu irmão. Imagine que nós dividíamos um quarto e, portanto, todos os dias, às seis da manhã, ele era acordado aos berros por minhas notícias sobre saídas e chegadas de aviões e, claro, a temperatura na cabeceira da pista. Foi difícil para ele e constrangedor para mim, mas nada que estragasse nosso companheirismo, mantido até os dias de hoje”

Tantas lembranças, tão cedo e em tão pouco tempo talvez se justifiquem pelo que a psicóloga Simone Domingues nos ensinou recentemente em outro texto publicado neste blog. Escreveu que diante das restrições que vivemos, com o mundo praticamente parado, incapazes que estamos de projetar o futuro, tendemos a resgatar o passado. Um cenário de saudades que põe nossa memória em ação.

 

Ao menos desta vez, a memória levou-me a momentos felizes que vivenciei. Nem sempre tem sido assim.

Conte Sua História de São Paulo: cheguei cego e menino na cidade que me acolheu

 

Por Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho
Ouvinte da CBN

 

 

O dia 2 de março de 1965, uma terça-feira, constituiu-se num marco definitivo em minha vida, pois naquela manhã um tanto assustadora desembarquei juntamente com meu saudoso pai, na antiga rodoviária de São Paulo, no bairro da Luz, procedente de minha cidade de origem no Estado do Paraná, a cidade de Maringá, visando iniciar meu ciclo de formação escolar fundamental no instituto de cegos Padre Chico, no bairro do Ipiranga.

 

Inicialmente, para mim que contava então com a idade de seis anos, considerando ainda que jamais deixara minha cidade a não ser para tratamento médico, abria-se um mundo sombrio e totalmente desconhecido onde a profusão de sons que se misturavam em uma sinfonia severa, num primeiro momento muito mais assustavam e constrangiam do que arrebatavam.

 

Logo ao desembarcar, o ruído quase uníssono e o odor que entorpecia de dezenas de veículos da marca DKW Vemago, que naquela época eram utilizados como táxis, iam aos poucos absorvendo minha percepção, demonstrando de forma avassaladora a austeridade e o domínio implacável da cidade-gigante que me recebia.

 

E foi assim sob este misto de temor e expectativa que chegamos ao instituto Padre Chico, a escola que eu tanto aguardava, porém nos moldes da rotina de minha irmã mais velha, na escola que ela já frequentava há algum tempo lá em minha longínqua cidadezinha e que me despertara para aquela ansiosa expectativa da escola; porém, quando meu pai me deixou no internato em um ambiente inovador mas totalmente estranho, ao cair na realidade da distância e da falta da família, sobretudo de minha mãe, passei por um período de difícil adaptação, mas gradativamente fui desvendando, através da dinâmica eloquente das atividades desenvolvidas no Instituto, os enigmas e a magia da cidade que me acolhera, convertendo mais e mais todo aquele temor inicial em conquistas que iam sedimentando meu apreço e admiração por seus valores, sons que me conquistavam, sua história e sua potencialidade predominante de proporcionar inovações, mutações e conquistas diante de desafios inimagináveis para uma criança cega como o meu caso e também para minha família.

 

Embora as atividades da dinâmica escolar absorvessem parte substanciosa de minha vida como aluno interno do Instituto, paralelamente fui sendo cada vez mais inserido no âmbito das novidades peculiares à cidade de São Paulo, ensejando assim cada vez maior enquadramento e uma crescente afeição aos seus valores, que me envolviam em uma verdadeira magia de sons que, se inicialmente assustavam e até constrangiam, iam consubstanciando em meus sentimentos um apreço cada vez mais vinculante e também fascinante em face a esta cidade que me acolhera, e ia definindo um futuro moldado por aspirações e expectativas.

 

Um dos primeiros sons que me encantou por sua característica estridente e o tilintar do seu sinalizador sonoro de alarme foi o inesquecível bonde, que ligava o Ipiranga à praça João Mendes; muitas vezes aos finais de semana, aos sábados eu era retirado do Instituto para passar o domingo com uma família de amigos de meu pai que residira em Maringá no passado, quando então tomávamos o bonde cujo ponto inicial era em frente à portaria do Instituto, descíamos na praça João Mendes, seguíamos pela rua Direita, atravessávamos o viaduto do Chá e seguíamos para a praça Ramos de Azevedo, lá tomávamos o ônibus para a vila Leopoldina onde residiam. A vila Leopoldina era provinciana, parecia mesmo uma cidadezinha do interior; ali me encantava com o ruído emitido pelos subúrbios da antiga Sorocabana, a sineta de sinalização da cancela da estaçãozinha por onde transitavam os trens.

 

O Museu do Ipiranga também tornou-se reduto de visitas frequentes dos alunos internos do Instituto, percorríamos aos domingos, seus extensos jardins adornados por vastos gramados, ouvindo os sons inconfundíveis dos realejos e a nostalgia de suas melodias, sempre repetitivas e no mesmo ritmo como a acalentar nossas imaginações sonhadoras de criança.

 

Ainda envolto pelas recordações singelas daquele período inicial, o parque Xangai, na baixada do Glicério, com seus brinquedos exóticos e muitas vezes temerosos para mim em razão da confusão dos sons estridentes que emitiam, tornou-se um dos nossos ambientes preferidos de diversão, conquanto me intimidassem até que superasse a barreira severa da primeira experiência.
No rádio da época a Jovem Guarda ousava confrontar a explosão dos Beatles, da onda avassaladora das canções italianas e norte-americanas, proporcionando neste devaneio sonoro a nova característica da música jovem brasileira.

 

O rádio fazia fluir por pontos diversos da cidade os toques soturnos e melancólicos do carrilhão do mosteiro de São Bento, irradiados hora a hora pela extinta rádio Piratininga, uma espécie de clamor do coração paulistano que até hoje e creio que para sempre, persistirá latente em minhas recordações mais sutis desta cidade-gigante que jamais perderá sua magia de encantar.

 

Todos os anos no mês de outubro, na semana da criança, visitávamos o inesquecível salão da criança que era instalado no Ibirapuera, que nos acolhia em um recanto de singelas imaginações e sonhos acalentadores e sublimes.

 

A biblioteca infantil Monteiro Lobato na vila Buarque era frequentada pelos alunos do Instituto todas as quintas-feiras. Naquele ambiente saudoso e inesquecível, tínhamos acesso a um acervo de livros em Braille, discoteca com um diversificado repertório de canções e histórias infantis, sala de jogos e brinquedos pedagógicos, teatrinho de fantoches e até academia infanto-juvenil de letras fazendo-me já naqueles tempos imemoriais, usufruir das nuances culturais de São Paulo, cujos preceitos e riquezas prevalecentes prosseguem emoldurando minha vida com intensidade e nobreza.

 

E foi assim, envolto por esta trajetória evolutiva da cidade que me acolheu, me encaminhou e me formou que fui transpondo todas essas etapas precedentes, deixei o Instituto após ter concluído o primeiro grau, prossegui meus estudos no ensino médio ainda no bairro do Ipiranga, ingressando por fim no curso de direito da PUC-SP, onde me formei em 1984.

 

Como se pode depreender desta singela síntese histórica, não mais me afastei desta cidade, que um dia foi até designada por alguém que não me lembro quem como (selva de pedra) mas que para mim foi e sempre será o símbolo da nobreza, da cultura, da conquista da inclusão e do sucesso decorrente da valorização profissional.

 

São Paulo em minha opinião é mais mãe do que pai, pois tal qual um coração de dimensões imensuráveis, sabe acolher, confortar e amar, sem abdicar da prerrogativa de exigir e valorizar seus filhos, sejam naturais ou adotivos, todos na mesma amplitude de amor maternal, por isso São Paulo, quero exprimir meu amor filial delineado neste abraço supremo e eterno.

 

Geraldo Pinheiro da Fonseca Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Envie a sua história, também: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br

Capriche na letra porque escrever à mão ajuda na memória e desenvolve o pensamento

 

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Sobre a mesa do estúdio sempre tenho papeis em branco ou um caderno em mãos à espera de anotações. Começo a entrevista e copio o nome do entrevistado. Ouço uma resposta, uma palavra dita me pega e logo é reproduzida na folha. Penso em dizer algo e algumas palavras-chave são registradas à caneta. Capricho na letra, prefiro a de forma em lugar da cursiva. Capricho tanto que às vezes exagero e a letra se torna ilegível. Escrever é hábito que tenho há algum tempo, mesmo que aquela escrita se transforme apenas em rabisco sem sentido e acabe no lixo.

 

O exercício de escrever à mão foi tema do Jornal da CBN a partir da foto registrada por uma ouvinte, que ficou impressionada com o que considerou uma raridade: um curso de caligrafia. A placa na fachada de um prédio com cara antiga, em São Paulo, leva o nome da família mais conhecida dessa arte, a De Franco, que mantém a escola que hoje está sob a responsabilidade de Antonio De Franco Neto — que persistiu na história iniciada pelo avô, em 1915. O dono da marca garante que, mesmo diante da frequência com que se usa computadores e outros equipamentos digitais, não faltam alunos interessados em melhorar a caligrafia.

 

Os ouvintes foram convidados a escrever à mão e publicar seus textos nas redes sociais —- por sugestão de outra ouvinte, Rosana Hermann. Pela quantidade de mensagens recebidas, curtiram a brincadeira. J.F.Trolezzi disse que fez aulas de caligrafia na infância por imposição da mãe. Léa Assis, além de dar uma “cornetada” neste apresentador, usou o próprio caderno de caligrafia —- muito comum na minha época para darmos um contorno melhor à letra. Alguns preferem —- e eu estou nesta turma — escrever em letra de forma, como é o caso da Soraia Mergulhão, aliás quem provocou toda essa conversa ao fotografar a placa das aulas de caligrafia.

 

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Por mais que você considere a prática da caligrafia antiquada, novas evidências sugerem que escrever à mão facilita o aprendizado das crianças, além de desenvolver a capacidade delas gerarem ideias e reterem mensagens. Para adultos, ao mesmo tempo em que digitar é mais rápido e eficiente, essa prática diminui a capacidade de processar as informações. Ao anotar em um papel, criamos novas vias neurais no cérebro.

 

Diz, em artigo, o Dr Sheldon Horowitz:

“A caligrafia é uma atividade multissensorial. Conforme você forma cada letra, sua mão compartilha informações com áreas de processamento de linguagem em seu cérebro. Enquanto seus olhos acompanham o que você está escrevendo, você envolve essas áreas.”

Pam A. Mueller, da Universidade de Princeton, e Daniel M. Oppenheimer, da Universidade da California, concluíram que escrever à mão ajuda a pensar:

“Quando os alunos param de escrever, param de processar e tornam-se receptores passivos de informação. Quando eles se tornam receptores passivos de informação, eles também se tornam pensadores passivos”.

Outra boa justificativa para continuarmos rabiscando, é que o simples ato de olhar para o papel nos obriga a se concentrar no que é importante. E a busca do foco é dos maiores desafios na sociedade contemporânea diante da quantidade de estímulos que estão soltos por aí seduzindo nossa atenção.

Mundo Corporativo: Rodrigo Cogo fala de storytelling e a importância dos funcionários na memória da empresa

 

 

A memória registrada pela experiência dos funcionários ajuda na construção da história da própria empresa. Esse conjunto de narrativas tem o potencial de encantar o outro, aproximar as partes e criar um diálogo que pode diferenciar sua empresa das demais, em um cenário no qual o público é bombardeado de informação. Rodrigo Cogo, pesquisador no tema do storytelling no contexto da comunicação empresarial e das relações públicas, explica como as empresas podem usar esta técnica de maneira estratégica, em entrevista ao jornalista Milton Jung, no programa Mundo Corporativo, da rádio CBN.

 

Cogo é gerente de inteligência e mercado da Aberje – a Associação Brasileira de Comunicação Empresarial e autor do livro “Storytelling, as narrativas da memória na estratégia da comunicação” (Aberje Editorial).

 

O Mundo Corporativo é apresentado, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site e na página da rádio CBN no Facebook. O programa é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN, e tem a participação de Alessandra Dias, Wagner Guimarães e Débora Gonçalves.

De memória e da falta dela

 

Por Maria Lucia Solla

 

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Memória? Sim, assunto corriqueiro no papo com amigos e, pasmem, com filhos e netos.

 

Desço as escadas, decidida, e quando chego lá em baixo: o que é mesmo que eu vim fazer aqui?

 

São mínimos segundos de branco, mas incomodam. Fica um ranço de será?

 

Quem ainda não passou por algo parecido, com certeza vai passar.
Estamos sendo atualizados com uma frequência nunca imaginada, e nossa memória dá sinais de sobrecarga. Vai rateandoo.

 

Mas enquanto tem ainda alguma função, quero contar que ontem assisti a Para Sempre Alice, com Julianne Moore, (que atriz!) por sugestão de um amigo. Bah! Faz muito tempo que um filme não consegue fazer isso comigo. Biba Mello, você concorda comigo? Você assistiu? É um arraso, do começo ao fim, não é?

 

Me organizei: café, água, celular por perto. Acontece que a cada tanto eu punha o filme no pause. Assistia até onde dava para assimilar a emoção, punha no pause de novo e ia fazer outras coisas. Sim, no plural. Aí voltava com um café e um petisco, e lá ia mais uma dose de filme. Assim passei o dia todo.

 

É um filme com efeito prolongado, que desperta sem jogar água fria. Mostra a tristeza e o desalento que tomam conta de uma família, quando a mãe é diagnosticada com Alzheimer precoce. Ela é jovem, tem 50 anos. Não vou contar mais nada, além de que ela é professora/doutora universitária, na área das letras. Apaixonada pelas palavras, vai perdendo uma a uma. Perde o contato com o mundo do modo como o conhecemos. Tudo parece ir se escoando por um ralo.

 

Será que esse é o momento em que superamos a barreira do tempo? Ou é o tempo que se afasta e leva consigo as antigas regras?
Será?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung