Por Erony Marcellino
Ouvinte-internauta
Ouça o texto “Hoje eu vi um menino”, sonorizado por Cláudio Antoniop
Hoje eu vi um menino sozinho brincando na rua. Não deveria ter mais do que quatro anos.
O menino, lindo, estava sujo, imundo, nariz escorrendo, pés descalços, usava roupas maiores do que o seu magro corpo.
Hoje eu vi um menino brincando com o lixo jogado sobre a calçada numa rua localizada na zona “nobre”, ou “jardins”, na Capital de São Paulo.
Hoje senti bem de perto o quanto o abandono pode destruir um pequeno e indefeso ser humano.
Perguntei seu nome. Ele respondeu com naturalidade: “Não tenho nome”.
Insisti e falei, todos os meninos tem nome. A frágil criaturinha respondeu com voz de quase bebê:
“Minha mãe me chama de peste”.
Engoli em seco e perguntei: “Quer que eu brinque com você?”
Ele levantou os olhos por um instante e respondeu:”Sim”
Perguntei o que ele queria que eu fizesse. Pediu que o ajudasse a colocar um cone de papelão dentro do outro – muitos deles estavam misturados a outras espécies de lixo descartável. Em nenhum momento sorriu.
Passei algum tempo com o garotinho fazendo de conta que aquela brincadeira era muito interessante para mim.
E era. E foi. E será.
Hoje eu vi um lindo menino abandonado e sujo numa rua que não fica na periferia.
Hoje brinquei, com o coração machucado, com um menino que aprendeu a repetir que seu nome é “peste”.
Quando ele se afastou e foi procurar outra brincadeira, como faz qualquer criança de sua idade, me senti abandonada.
Perdi o rumo.
Hoje brinquei na calçada apoiando cones de papelão para valorizar um menino que desconhece seu nome.
Parada na calçada pensei, dentro de alguns minutos será noite: onde irá se abrigar o menino sem nome que tem como referência de identidade uma mãe que o chama de “peste”?
Neste bairro chamado “jardins”, nesta cidade denominada capital financeira de um país chamado Brasil, conheci um dos muitos brasileirinhos reféns da mais absoluta miséria física e moral.
Hoje eu vi um menino condenado pelo crime de ter nascido!
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