Adote um Vereador: a um ano das eleições, em busca da certeza de que não estaremos sozinhos

 

2015-10-10 15.51.12

 

Um encontro em meio ao feriado é sempre arriscado, pois tende a frustrar a intenção de quem espera o segundo sábado do mês para compartilhar experiências no trabalho que desenvolvemos no Adote um Vereador. Perceba que eu escrevi a intenção e não a expectativa, pois esta, confesso, não era grande diante exatamente da data em que nosso encontro caiu no calendário. De qualquer forma, lá estava eu logo cedo como sempre costumo fazer sentado à mesa do Pateo do Collegio, em São Paulo, e com uma xícara de café esfriando a espera dos comparsas (não me leve a mal, uso a expressão apenas de brincadeira).

 

Demorou pouco para receber a companhia dos dois primeiros: o Alecir e a Sílvia, ambos velhos companheiros de guerra (e aqui, mais uma vez, apenas uma expressão divertida, sem nenhuma conotação a idade dos colegas, menos ainda à minha). Cada um deles com sua preocupação e história a ser contada e compromissos e lutas agendados. O bate-papo às vezes soa indignado por causas não alcançadas mas logo migra para o entusiasmo da luta diária contra aqueles que fazem a má-política na nossa cidade.

 

Alguns assuntos entrecortados e desvios de tema depois, outros se aprochegaram à mesa. A camisa do Adote um Vereador vestida denunciava a presença nos encontros recentes, pois temos distribuído as camisetas com a nova marca do movimento há apenas dois meses. Entre os presentes, havia antigos parceiros, gente que já esteve conosco há dois ou mais anos e decidiu voltar nem que fosse só de passagem. Outros já tinham estado por lá para levar sua queixa e pedido de orientação. A cada um dedicamos alguns minutos de atenção para que todos se sintam atendidos.

 

Quando menos se percebe, café e água estão relegados a segundo plano, pois nos servimos mesmo é da conversalhada que toma conta da mesa. Um fala com o outro, o outro fala com dois e assim por diante, em um barulho que soa entusiasmado e nos faz esquecer do medo que tínhamos da solidão, lá no início da tarde.

 

As dicas vão desde procurar um vereador da região para ter a reivindicação atendida até uma reorganização na conversa que mantemos pelas redes sociais. Falou-se também da insegurança e das estratégias para atender ao ladrão de bairro, que costuma passar a mão no celular alheio. Fiquei impressionado com a criatividade de ambos: vítima e algoz. Esse se adapta à vida da cidade e usa bicicleta para bater-celular; o outro, esconde o aparelho bom na meia e deixa um “frio” no bolso, sem esquecer de carregá-lo com crédito para o ladrão não reclamar.

 

O Alecir, aquele que chegou lá no início da conversa, nos lembrou que seria interessante compararmos a Câmara eleita em 2012 e a atual formação, pois desconfiava que, hoje, tínhamos muitos suplentes na casa, gente que entrou na vaga de parlamentares que decidiram seguir outros rumos: ou concorreram nas eleições para Assembleia Legislativa e Câmara dos Deputados, em 2014, ou deixaram o cargo para assumir secretarias de Governo. Fiz as contas e salvo engano, dos 55 vereadores, 10 são suplentes, ou seja, pouco mais de 18%. Se é muito ou pouco? Talvez o que interessa mesmo é saber se são eficientes.

 

Havia tanta coisa para ser contada que até esqueci de destacar a todos que estamos a um ano das eleições municipais e talvez seja momento de olharmos com mais apuro o que cada um dos vereadores realizou em seu mandato.

 

Alguma sugestão? Registre aqui ou leve no nosso próximo encontro, assim ficamos com a certeza de que não estaremos sozinhos.

Como é a sua mesa de trabalho?

Notícias importantes, cadernos de jornal, anotações feitas durante o programa, recados do produtor, Ipad e celular se confundem sobre a mesa do estúdio onde apresento o Jornal da CBN. Além de ser uma contradição à organização que mantenho no meu espaço de trabalho no escritório de casa, também se transforma em uma incógnita diante da pesquisa apresentada pelo Gilberto Dimenstein, no quadro Capital Humano. Conforme estudo publicados na revista Psychological Science deescobriu-se que estar cercado por desordem pode promover o pensamento e estimular novas ideias. Em contraste, trabalhar em uma mesa limpa pode promover a alimentação saudável e a generosidade. O estudo foi conduzido pelo psicólogo Katleen Vohs e os colegas dele da Universidade de Minnesota, Minneapolis, nos Estados Unidos. De uma maneira geral, os participantes expostos a uma quarto bagunçado geraram o mesmo número de ideias para novos usos como os que estiveram em uma sala limpa, mas as ideias deles foram classificadas como mais interessante e criativas. Em compensação, a turma da sala organizada doou mais do seu próprio dinheiro para a caridade. Os cientistas querem transferir o estudo para a internet, pois os resultados preliminares sugerem que a arrumação de uma página web prevê o mesmo tipo de comportamento.

Certa ou não, falar da pesquisa no jornal e publicar a foto da minha mesa na CBN no Twitter provocou uma série de participação de ouvintes-internautas que compartilharam as imagens de seus locais de trabalho – inclusive no helicóptero. Os bagunceiros, comemoraram, pois agora têm uma boa desculpa. Os arrumadinhos se defenderam dizendo que foram criativos ao cuidar de suas mesas ou que ao limpar a área, abrem espaço para a criatividade. Como fiquei no meio do caminho, vou considerar que sou criativo na rádio e generoso em casa. Cada um na sua. E curta as fotos.

Ao olhar para aquele gramado

 

Milton Ferretti Jung

Lembrei-me do meu avô por parte de pai ao olhar para aquele gramado (?) no qual a seleção brasileira perdeu, nos pênaltis, para a paraguaia. Derrota, seja no tempo regulamentar, na prorrogação ou numa série de penalidades máximas, ainda mais quando o perdedor é o time do nosso coração ou a seleção nacional, sempre é algo profundamente desagradável.

O amigo, que porventura leu o início desta postagem, deve estar se perguntando por que me recordei do vô Adolfo Pedro Jung e o liguei ao gramado da nossa desdita futebolística na Copa América. A questão, se levantada, é pertinente. Meu avô, que eu saiba, não dava a mínima atenção para o futebol. Ocorre, porém, ter sido ele, com seus dotes de carpinteiro, o fabricante dos mais queridos brinquedos da minha infância: um carrinho em que me empurravam; um indestrutível caminhãozinho de madeira, que tirava pedaços dos de meus amigos em todas as colisões; e uma mesa em que jogávamos futebol de botões. Ficou nisso a ligação dele com este esporte ou muito me engano.

A mesa, por incrível que pareça, ainda existe. Está aqui em casa. E resiste ao tempo. É perfeita. E tinha que ser. Até hoje guardo três times, mesmo sem ter com quem jogar. Os botões e a bolinha – e isso é fundamental neste tipo de jogo – deslizavam e ainda deslizam maravilhosamente, como se a mesa fosse nova em folha. Novos ou reformados são os estádios nos quais a Copa América está sendo disputada. Naquele em que alguns dos caríssimos jogadores da seleção brasileira desperdiçaram decisivos chutes da marca do pênalti, a grama deveria possibilitar que a bola não apenas deslizasse quando fosse esta a intenção de quem a passasse a um companheiro ou que, num chute em que a precisão é necessária – a cobrança de tiros da marca de 11 metros, por exemplo – tomasse rumos inesperados. O capricho do meu avô ao fazer a mesa de botão não foi, entretanto, o mesmo dos responsáveis pelo piso do estádio em que o Brasil perdeu para o Paraguai. Não estou tentando desculpar nossos desastrados representantes, mas não deixa de ser uma vergonha que, apenas no futebol, a cancha na qual este é praticado, não seja, como a minha mesa de botão, absolutamente perfeita.

Milton Ferretti Jung é jornalista, radialista e meu pai. Às quintas-feiras, escreve no Blog do Mílton Jung (o filho dele).

De móveis

Por Maria Lucia Solla

Móveis, mesa e refeição

Ouça este texto na voz e sonorizado pela autora

Noutro dia, falando com um amigo, sobre um evento de 1982, me dei conta de que os móveis falam. Não falam como fala o carrinho no filme Se o Meu Fusca Falasse; móveis, assim como os ambientes onde moram, gravam acontecimentos, registram tudo: imagem, som, emoção, colorido, o tempo todo e depois repetem tudo, inaudível mas claramente, se você se dispuser a ouvir. Vou mais longe: além de falar são discretos a toda prova, só se abrem para aqueles que viveram os momentos em que registrou os fatos. São aliados; não espiões.

Minha mesa de jantar morreu não faz muito tempo. Essa sim, manteve um arquivo expressivo e impressionante; tão impressionante que basta que eu me conecte com ela em pensamento, que ela desfia o seu rosário de histórias. Quando veio morar comigo já era bem antiga. Foi amada por todos, os de casa e os de fora. Vestida das mais lindas flores, portava dignamente vinhos e queijos, e farelos de pão. Em volta dela, em mais de um endereço, comia-se bem e principalmente comia-se junto na maioria das vezes. Era grande, e ainda assim se desdobrava para acolher com conforto família e amigos. Acolhia grupos dos bons, e chegou a acolher inimigos declarados, com a sabedoria diplomática de sempre. E se mantinha firme, oferecendo tudo e exigindo muito pouco. Teve discussão, em volta daquela mesa, que acabava neutralizada por amor, por amizade, e cumplicidade regada de muita risada.

A morte da mesa da sala me pegou de surpresa, mas na verdade foi morrendo pouco a pouco, e eu não queria ver. Uma mudança aqui, um armazenamento acolá, um marceneiro intervinha com um parafuso maior do que a encomenda, o outro, preguiçoso, incompetente, cravava nela um prego assassino. E eu, envolvida com idas e vindas, a lida e a vida, dava por certa a sua imortalidade. Amarga ilusão. Ela arriou aos meus pés. Esperou um momento em que estava vazia, a fiel companheira, e não quebrou um prato, não desperdiçou uma folha de alface. Fez ginástica para não me machucar fisicamente, e caiu tão elegantemente quanto se manteve em pé.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung. Este artigo foi escrito durante as férias do Blog, por isso está sendo publicado apenas hoje.