O aplauso como ferramenta de acolhimento e poder

Por Christian Müller Jung

Foto de RDNE Stock project on Pexels.com

O ato de bater palmas é um dos gestos humanos mais antigos e universais. No entanto, “pedir uma salva de palmas” carrega camadas que misturam etiqueta, psicologia e, claro, estética. Essa atitude viaja pelo tempo através das mais diversas formas de reverência. Transita pela religião como louvor e aclamação de profundo significado espiritual, atuando como uma “tecnologia vibracional” que limpa o ambiente e quebra energias densas — algo muito presente em rituais como os da Umbanda e do Candomblé. É um ato de saudação, reverência e celebração.

No teatro grego, o aplauso servia para pedir aos deuses proteção para as artes. Séculos depois, Nero criou a famosa “Claque”: pessoas pagas para aplaudi-lo e garantir que sua entrada fosse triunfal — o que hoje poderíamos interpretar, de certa forma, como as “bolhas” e os exércitos de seguidores das redes sociais.

Centrando o assunto na atividade do Mestre de Cerimônias (MC), entendo que o aplauso é um alimento emocional.

Não só o ser humano merece ser aplaudido; a própria vida merece igualmente.

O MC não é meramente um anunciador de nomes; ele é o “anfitrião da energia” do ambiente. Ele não é o anfitrião do evento — papel que cabe à autoridade específica, como o Governador —, mas é quem conduz o clima da sala.

Via de regra, quando o MC pede uma salva de palmas para alguém que não está habituado ao palco, esse ato funciona como um abraço sonoro; um acolhimento acalorado que preenche o silêncio. É uma forma de dizer: “Eu te vejo e reconheço seu valor”. Em muitos momentos, o bater das palmas centra a plateia, cessa as conversas paralelas e volta a atenção para o palco. Nas entrelinhas, o Mestre está legitimando a fala que virá a seguir. Ele atua como um “Regulador Emocional”, assumindo a responsabilidade pela energia do recinto e tirando esse peso das costas do convidado.

O trajeto da cadeira ao microfone pode parecer infinito, gerando agonia e nervosismo. É aqui que surge o que a fonoaudióloga Leny Kyrillos explica com propriedade: a ativação do Sistema Límbico, a parte mais primitiva do nosso cérebro. Esse sistema, presente nos animais e em nós, ativa-se em momentos de desafio e oferece três caminhos: lutar, fugir ou congelar. Imagine-se em frente a um cão feroz; para algumas pessoas, o “silêncio” da plateia é esse predador.

Cabe ao Mestre avaliar o momento e deixar de ser uma estrutura estática para utilizar sua experiência como suporte psicológico. Para que não soe cafona ou artificial, o segredo está na justificativa.

Pedir palmas para si mesmo? Sim, isso é cafona.

Mas quando se sabe o que está fazendo, o pedido traz acolhimento térmico, redução da tensão e aprovação antecipada ao orador.

Tudo isso acontece rápido e, muitas vezes, intuitivamente. Acolher com empatia é uma das qualidades os que ainda persistem em nossa sociedade. Pedir palmas transforma o ambiente em um espaço amigável e seguro, disparando gatilhos cerebrais positivos.

As palmas preenchem o vazio acústico.

A elegância está na naturalidade.

O silêncio é “frio” e intimidador; o aplauso é “quente” e acolhedor.

Como gosto de dizer: “Evento bom é quando a autoridade se sente segura e a plateia se sente convidada”.

Por favor, uma salva de palmas para o nosso convidado!

Christian Müller Jung é publicitário de formação e mestre de cerimônia por profissão. Colabora com o blog do Mílton Jung (de quem é irmão).

Vai passar e pessoas sempre serão essenciais

 

Por Christian Müller Jung

 

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Foto: Pixabay

 


Texto escrito originalmente para o site Coletiva.net

 

Quando a notícia sobre a pandemia da COVID-19 chegou ao Brasil, escrevi artigo sobre os impactos no mercado de eventos — foquei o olhar na área em que mais atuo: o cerimonial público. Refleti sobre a mudança do comportamento nas solenidades e o emprego do protocolo respiratório.

 

Não tinha a mínima ideia, naquele momento, assim como a maioria da população, o quanto essa pandemia impactaria não apenas o meu setor, mas toda a nossa vida —- e, provavelmente, toda a dinâmica da sociedade no futuro.

 

A Covid-19 é um mistério para os médicos e cientistas. Sua influência no comportamento humano é uma dúvida para todos nós. Ao mesmo tempo em que priorizamos a saúde e a sobrevivência diante dos riscos que o vírus nos impõe, um vazio se apresenta no horizonte.

 

A empresária Luiza Trajano, do Magazine Luiza, que liderou a transformação digital da empresa nos últimos anos, iniciativa que permitiu que a sua rede de varejo sobrevivesse à crise e fortalecesse parceiros de negócios, micro e pequena empresários, é uma das primeiras a alertar: “ninguém sabe o que realmente vai acontecer no pós-Covid-19. Quem disser quer sabe, escreva um livro porque se acertar, vai ganhar muito dinheiro”.

 

No setor em que atuo, assistimos ao cancelamento de todos os eventos presenciais, esvaziando a agenda de trabalho da maior parte dos profissionais — a minha, inclusive —-, e atingindo nossa principal fonte de renda. Em poucos dias, o caos estava estabelecido.

 

A necessidade de se reinventar transformou-se em questão de sobrevivência tanto quanto uma barreira para muitos de nós que atuamos há anos nesse segmento. Uns não sabiam fazer além do que já faziam; outros não desenvolveram as habilidade exigidas nesse novo cenário; e todos —- ou quase todos —-, mesmo aqueles que acreditavam estarem prontos para as mudanças, não encontrávamos oportunidade de trabalho.

Agenda sem evento é como cabeça vazia: oficina do diabo. Na mesma velocidade em que o vírus contaminava as pessoas, uma avalanche de informações predizendo o futuro se espalhava entre profissionais do setor de cerimonial. Muitos apontando para o fim das atividades presenciais —- mensagem que potencializava a sensação de medo que a pandemia por si só já provocava em cada um de nós pelos riscos à saúde.

A previsão de que a função exercida por vários dos profissionais que conheço estava em extinção colocava em xeque tudo que se aprendeu até hoje —- a percepção é de que a experiência acumulada ao longo da jornada teria perdido seu valor.

 

Uma onda de novas formas digitais para realização de eventos nos atingiu. Além de exigir investimento pesado em infra-estrutura tecnológica —- computador de ponta, placa de vídeo poderosa, câmera e microfone de qualidade, espaço em casa adequado e sinal de internet eficiente e estável —, o profissional acostumado às solenidades analógicas, trocou o calor proporcionado pela presença do público por uma sala fria e distante; e o olhar antes voltado às pessoas na plateia e no palco, fixou-se em uma câmera à sua frente.

 

Como uma cura para uma doença, ainda que fosse um propósito para um novo mercado de trabalho, a quantidade de informações reescrevendo o futuro, muitas delas repetitivas e sem consistência e outras tantas apenas para preencher o conteúdo vazio de uma live, criaram um cenário apocalíptico. E quanto mais informações e previsões, mais excluídos parecíamos deste novo mundo dos eventos.

 

Com que autoridade deram um ponto final à nossa história —- e profissão?

Quem é capaz de acreditar na ideia de que pessoas não mais precisarão de outras pessoas? Que eventos presenciais deixarão de existir? Que estamos dispostos a abrir mão da troca de experiência, conhecimento e networking proporcionados por seminários? Que ninguém mais deseja celebrar com seus pares uma formatura ou a conclusão de um período da vida? Você realmente acredita que a política só se fará no palanque eletrônico?

Sinceramente, a despeito da mudança de comportamento que teremos, especialmente em relação a proteção à saúde, não me ocorre que deixaremos de ter uma vida presencial e os eventos, na forma como tínhamos até o início deste ano, nunca mais se realizarão. Creio que, a partir do momento em que os países se estabilizarem e tivermos acesso a uma vacina ou alguma outra forma efetiva de controle da doença, o mercado voltará à ativa.

 

Pode demorar, precisaremos ser resistentes e ter fôlego para suportar essa passagem. Da mesma maneira que precisaremos nos adaptar como já fizemos tantas outras vezes na história da humanidade. Atente-se para o tanto que você aprendeu em tão pouco tempo isolado dentro de casa. E o quanto se descobriu produtivo em atividades às quais talvez jamais se imaginou capaz de realizar.

 

Podemos, sim, realizar eventos conectados com o mundo! Nossa experiência e o conteúdo desenvolvido até aqui serão necessários para este novo momento —- seja ele qual for. A bagagem acumulada nessa viagem não será um peso no caminho que teremos de percorrer. Nela está a riqueza do repertório que nos trouxe até aqui.

Os tropeços diante do microfone, o sistema de som falhando, o vídeo que não roda, os textos modificados em cima da hora, o roteiro sendo adaptado às circunstâncias e a plateia nem sempre disposta a ouvir o conteúdo preparado pela organização. Tudo isso foram desafios que você já venceu. E motivos para encorajá-lo a seguir em frente sem medo de ser engolido por essa garganta gigante que se chama evolução.

Sinceramente meus amigos que tão bem representam o nosso setor de eventos, por mais que o mundo virtual seja uma ferramenta produtiva de multiplicação da informação, nunca substituirá por completo o real. Em diversas outras atividades já vimos que esses dois mundos se complementam.

 

Nesses meses de pressão psicológica com bombardeio de mensagens negativas, não nos deixemos contaminar por prognósticos que — convenhamos —- se baseiam em suposições, sem nenhuma garantia do que nos aguarda ali na esquina ou no próximo evento. A incerteza que nos cerca não dá a ninguém a autoridade para decretar o fim de uma atividade.

 

Vamos aproveitar este momento para aprender um pouco mais, desenvolver habilidades que se não nos ajudarem profissionalmente nos elevem como seres humanos. Lembre-se: se tem uma coisa que jamais vai mudar no mundo dos eventos é que ele continuará sendo feito por pessoas.

 

Christian Jung é publicitário, locutor e mestre de cerimônias