Conte Sua História de São Paulo: transportes são nossas metáforas coletivas

Por Fabio Monastero

Ouvinte da CBN

Photo by Andre Moura on Pexels.com

 

Um táxi ou um caminhão de mudanças; um ônibus, um trem ou mesmo uma pequena motoneta, não parecem ser capazes de nos transmitir ideias muito complexas; entretanto – a aceitar o que me disse um nativo grego, amigo com nome de um deus – são verdadeiras e bem concretas metáforas; isto se dá porque, em sua língua milenar, essa palavra indica – entre outras coisas  e simplesmente – a condução ou o transporte diário de conceitos, coisas ou pessoas de um lado para o outro, um levar além…

Os gregos, portanto, usam metáforas diariamente e, mais, os transportes coletivos são suas metáforas coletivas. Com essa informação na cabeça, torna-se quase impossível entrar num vagão de metrô em São Paulo, por exemplo, sem uma atitude respeitosa, pois, afinal, estamos penetrando parte de uma enorme metáfora das grandes cidades.

O moderno Metropolitano paulistano corre, surreal, nas profundezas…

Dentro do casco metálico, a mente viaja para dimensões inesperadas; o trem é realmente uma grande metáfora da vida – as pessoas nele entram e saem sem que as demais tenham a menor ideia se, porque ou quando isto se dará.

Cada vagão, em cada composição, pode ser uma vida ou uma vila, cidade ou país, onde cada um sabe apenas de si.

Cenas que se repetem por toda a cidade.

Nas várias paradas, existem ansiosos quase arrombando as portas, querendo fazer parte da viagem ou dela sair a qualquer custo.

Para entrar, uns vem a passos lentos e seguros, aparentando jogar com o tempo, atentos, entretanto, ao rápido fechamento das portas. Raros bloqueiam ou reabrem – com ou sem ajuda – as portas logo que estas se fecham, ainda com o trem parado e entram à força na vida, quero dizer, no trem. Quando o trem demora a partir, os apressados tornam-se prematuros; pode ocorrer que alguém se sinta desconfortável e saia antes do que previra.

Se alguma gente passa a viagem em paz, umas outras evidenciam algum tipo de sofrimento na alma e por vezes no corpo – aqui tem uma dor de cabeça; ali, cólicas.

Devaneios…

Velhos serenos e jovens angustiados; deficientes corajosos e pessoas normais e covardes; há mesquinhos, heróis, santos, dementes e gênios, de tudo nessa vida.

Lá na frente, um casal se beija como se o trem estivesse vazio e congelado pela eternidade. Prestando mais atenção, poderemos ouvir uma família coreana discutindo um assunto misterioso; talvez, ainda, observar duas meninas surdas-mudas, conversando e rindo animadamente numa alucinante e eloquente dança de gestos.

Um policial barrigudo boceja, calmo e tranquilo, pois, neste momento, sua vida não corre os riscos baratos que corre na vida exterior; um raro padre de batina, incoerente com os chamados novos tempos, parece orar baixinho, feliz com seus sedativos alienantes. Aqui ao lado, um senhor grisalho, com um sugestivo perfil grego, com certeza, nem está pensando nas metáforas da eventual terra ancestral.

As mulheres misturam seus perfumes e suas cores, avaliadas e desejadas em sonhos ou evocando mães, filhas ou amantes distantes; os homens, em geral menos exuberantes, mexem com a imaginação dessas mulheres da mesma forma.

A cada parada, o quadro muda, dinâmico, sem deixar vestígios do fotograma anterior; tudo recomeça a cada momento.

Um súbito tumulto lá longe, na frente do vagão, assusta os que não sabem do que se trata; um jovem tenta puxar a cordinha de emergência, mas só consegue entreabrir a porta, com um pequeno solavanco no trem; logo se vê, no espaço aberto pelas pessoas agitadas, um homem se levantando, constrangido, depois do que pareceu um rápido ataque epiléptico. Na parada, alguém desce com ele, decidindo interromper a própria viagem para ajudá-lo.

Numa percepção extrema, podemos até entender as manoplas das saídas de emergência como alavancas de suicídio, pois uma vez acionadas, deve haver a saída imediata – dessa vida metroviária.

A implacável composição prossegue veloz, indiferente, firme em seus trilhos de aço – completamente fria. Não interessa ao trem quem nele entra ou sai; aparenta conduzido por uma entidade invisível que, periodicamente, projeta sua voz dos céus ou do teto de um salão de Ezequiel – por vezes ininteligível, pelo menos aos não-iniciados. Essa entidade superior, em sua desconhecida sabedoria, determina condições como paradas, tempos e velocidades – desde que o grande computador central o permita. Essa divindade maior está em local desconhecido pelos passageiros e sabe coisas que eles ignoram existir; só a grande máquina conhece o que vai acontecer, o passado, o presente e o futuro, a cada minuto da viagem.

É possível cogitar se existe vida em outras linhas, ainda que, por definição suprema e para que não se destruam – paralelas euclidianas, gregas – as linhas, planos e dimensões dos trens nunca poderão se cruzar sob pena de mútua extinção. Tudo correrá de acordo com o planejado, desde que os sacerdotes do templo – os funcionários – continuem seu rígido culto diário.

Surpreendentemente, não existe condutor…

Enfim, a pergunta: Existirá outra vida no além-metáfora?

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Fabio Monastero é personagem do Conte Sua História de São Paulo.  A sonorização é do Claudio Antonio. Para ler o texto completo do Fabio, visite agora o meu blog miltonjung.com.br. Você também pode participar: envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Quer conhecer outros capítulos da nossa cidade, coloque entre os seus favoritos o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

As estações que nos habitam

Por Juliana Leonel

@profa.julianaleonel

Foto de Andre Furtado

Já parou para pensar que nossas emoções são como as estações do ano… épocas estamos alegres e cheios de anseios, épocas, introspectivos e com medo, encantados ou nostálgicos.

Outono, estação de transição entre o calor e o frio, período de colheita, tempo de mudança, cores vividas e momento de preparação para dias frios/difíceis. No outono, nos sentimos em transformação, cheios de esperança advindas do ano novo e ressabiados em relação ao frio que virá.

Inverno, estação de noites mais longas e dias mais curtos. Estação onde as plantas adormecem, época de recolhimento, introspecção, conservação das energias e esperança de renovação. Comparo aos períodos de melancolia e tristeza, necessários para o crescimento e fortalecimento.

Primavera, minha estação preferida. Estação que as cores voltam a aparecer, céu azul, sol e brisa fresca. Período de renovação, as flores começam a florescem. Estação do romance, da esperança, da felicidade e da ansiedade pelo o que está por vir. Dias primaveris acordamos alegres, com capacidade de criar; os pensamentos fluem de forma livre e a resiliência se reforça.

Verão, a estação das estações, o momento de excitação pelos dias longos e quentes. Período do desejo, da satisfação, de empatia e de esperança. A vontade de fazer acontecer. O sentimento de encantamento com o novo, criança descobrindo um novo sabor de sorvete.

As estações do ano acontecem por períodos e nossos sentimentos são diários, mas metaforizar nos permite entender que dias coloridos, nos transformam; dias tristes existem, passam e nos fortalecem; dias românticos nos permitem desejar e dias quentes consentem a descoberta.

Não se aflija com raiva, tristeza, alegria, medo, nojo, ansiedade, tédio, vergonha, inveja, surpresa, felicidade, excitação, anseio, diversão, estranhamento, desejo, temor, horror, calma, empatia, duvida, encantamento, nostalgia, satisfação, adoração, admiração, apreço, inveja, romance, tristeza, surpresa, simpatia, triunfo, interesse … todas as emoções são necessárias para seu viver.

Procure conhecer suas estações, assim você não correrá o risco de necessitar de adubos tóxicos …  não sofrerá com medo da incerteza ou ausência … e sim, se tornará em um indivíduo resiliente, descobridor … um ser desejante e desejado.

Juliana Leonel, psicóloga pela Universidade Paulista, mestre em Psiquiatria e Psicologia Médica pela Universidade Federal de São Paulo e professora universitária em tempo integral. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

O Panamá, na Copa do Mundo, é uma metáfora da sua vida

 

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Gol de Baloy, do Panamá, em foto do site oficial da FIFA

 

A Copa já está em sua segunda metade, seleções já se despediram e outras estão com as malas prontas para voltar para casa. Teve gente perdendo pênalti, levando frango e dando de bico ou de três dedos para marcar gols. Teve gente que perdeu as estribeiras e outros a oportunidade de calar a boca. Teve gente que brilhou e me emocionou — eu choro muito fácil e o esporte tem esse predomínio no meu coração.

 

À medida que os dias se passavam e os jogos aconteciam, arriscava escrever algumas linhas porque gosto de futebol e adoro assistir à Copa. Procrastinar, porém, foi o exercício que mais pratiquei nessas duas semanas. Posso elencar alguns motivos para isso: estou em fase de finalização de um novo projeto que me impôs muita pressão e emoção — sim, não é só o esporte que me emociona —- assim como tive de dedicar algumas horas do dia para recuperar-me fisicamente de uma lesão que não estava no meu roteiro.

 

Nenhuma desculpa, porém, se sobrepõe ao fato de que bastava colocar a cabeça no lugar, ensaiar alguns pensamentos e soltar a palavra revelando meu sentimento por essa competição singular que é o mundial de futebol. Não sei se você — caro e raro leitor deste blog —- concorda comigo, mas a Copa não se compara a nenhuma outra disputa — desculpe-me se entre os poucos e bons que me leem existem aqueles que preferem a NBA, se entusiasmam com a velocidade da Fórmula 1 ou têm predileção pelos Jogos Olímpicos. Gosto de todos eles, mas a Copa é do Mundo.

 

Onde mais presenciaríamos a alegria contagiante de torcedores do Panamá? Uma alegria que se expressou no primeiro gol marcado pela sua seleção em um Mundial, mesmo diante da estrondosa goleada que levava da Inglaterra, na manhã de domingo. Comemoraram como se fosse o gol da vitória. Verdade seja dita, era o gol da vitória. Era a vitória de uma nação que já havia assistido ao grande feito de conquistar o direito de estar entre as maiores do mundo. A vitória de quem se dá o direito de ser feliz.

 

O gol marcado pelo zagueiro Felipe Baloy, 37 anos — de passagem claudicante pelo meu Grêmio de Porto Alegre, no início desse século –, foi a melhor metáfora que poderíamos ter assistido sobre a vida que vivenciamos. Somos useiro e vezeiro em reclamar das coisas que acontecem em nosso entorno: é o vizinho barulhento, é o ônibus que atrasou, é o chefe que reclamou, é a equipe que não produziu, é o cliente que não comprou e é o parceiro que partiu. É um 7 a 1 todo o dia.

 

Dedicamos tanto tempo em praguejar aqui e lamentar ali que nos esquecemos de comemorar nossas conquistas. Sim, elas acontecem a todo instante, mas somos incapazes de enxergá-las seja porque supervalorizamos os males seja porque almejamos o sucesso alheio. Queremos uma casa do tamanho da do primo rico da família; um carro mais novo do que o do amigo no clube; um crachá mais poderoso do que o colega da firma; um salário maior do que o “daquele incompetente que não faz nada na vida”.

 

Queremos o que é dos outros e desdenhamos nossas conquistas pessoais. Deixamos de saborear o prazer de acordar ao lado da mulher amada, de beijar os filhos que ainda dormem quando estamos saindo de casa, de cumprimentar o motorista do ônibus com um sorriso no rosto e de perguntar ao porteiro da empresa como andam as coisas. No trabalho, menosprezamos o poder do “bom dia”, do “por favor” e do “obrigado”. Não conjugamos os verbos agradecer e elogiar. Desperdiçamos a chance de comemorar o gol nosso de cada dia, porque estamos mais preocupados com o placar do adversário.

 

Se essa Copa nos deu alguma lição até aqui foi que, na vida, nem sempre podemos ser a Inglaterra; na maior parte das vezes nos é reservado o papel de Panamá — coadjuvante no cenário, mas protagonista de sua própria história.