Por Carlos Magno Gibrail

Cinquenta anos após o dia 31 de março de 1964 constatamos a ocupação dos principais espaços na mídia com notícia e comentários sobre o movimento civil e militar que desencadeou a destituição de Jango. Sinal que a lição que não foi apreendida em 1964 com os fatos de 1961, 1954 e 1937 finalmente foi entendida. Se a ditadura de Getúlio Vargas no período do Estado Novo de 1937 a 1945, o suicídio de Vargas 19 dias após o atentado a Carlos Lacerda em 1954, e a renúncia de Jânio Quadros em 1961, não capacitaram a nação, em 1964, a repudiar ditaduras, desta vez a memória está preservada. Inclusive sobre os episódios mais extremos, não escapando atos e autores dos piores crimes cometidos. E não foram poucos.
Nesta imensa massa de informações, opiniões e versões compraz-me a tarefa de externar meu ponto de vista como testemunha no papel de estudante universitário na época. Ao menos sobre dois aspectos: a origem e a data.
Antes de 1964, já tinha bagagem política de assistente e ouvinte assíduo de comícios e debates eleitorais, pois o discurso político e partidário era intenso no país. Fato que me possibilitou a identificar claramente uma pressão civil para chamar os militares a agir, dada a agressividade dos partidários de Jango às “reformas de base”, cujo ápice ocorreu no discurso da Central do Brasil. Um punhado significativo de empresários, assustados com a quebra de hierarquia nas forças armadas e sintomas de anarquia geral, reagiu, e junto a políticos conservadores como Carlos Lacerda, Magalhães Pinto e Adhemar de Barros pressionaram os militares a agir. Como hoje está claro o desastre social, político, moral e econômico do período ditatorial, é importante ressaltar que na origem não era essa a expectativa. Mesmo porque o que se solicitou foi uma intervenção temporária o suficiente para novas eleições, onde estaria concorrendo além de Lacerda, Magalhães, Adhemar, o ex-presidente JK.
De outro lado, é comum ver jornalistas e historiadores se referindo ao golpe de 1º de abril, tentando identificá-lo como algo mentiroso. Acho um erro, pois é perigoso considerá-lo uma mentira, tal os danos causados. Além de não ser verdade, pois Olímpio Mourão Filho começou a movimentar suas tropas em 31 de março, assim como nesta mesma data o Senador Auro de Moura Andrade notificou no Congresso a vacância de Jango pela ausência do país, nomeando Ranieri Mazzilli como sucessor. Esta sim uma grande mentira.
Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Milton Jung, às quartas-feiras, excepcionalmente publicado nesta segunda-feira devido a propriedade da data.