Triste de quem é refém de heróis e mitos

 

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Site CBN/Foto: Pablo Jacob, Agência O Globo

 

As últimas horas têm sido intensas. Mais intensas do que as anteriores. Seja porque a extensão do confinamento nos exige mais da mente, do corpo e da alma, seja porque a cada dia, o número de mortos aumenta e esses mortos ganham nome e sobrenome —- às vezes, muito mais próximos de nós do que desejaríamos.

 

Fosse apenas o risco que a doença nos traz, já seria suficiente para termos dias com sofrimento e preocupação. Soma-se a esse cenário inédito nas nossas vidas, porém, comportamentos estranhos de autoridades públicas e cidadãos anônimos.

 

No Palácio, o discurso do confronto prevalece, independentemente de quem seja o inimigo. A impressão que tenho é que o Governo tomou das mãos da oposição a bandeira  do “quanto pior, melhor”. Se não, o que foi este início de semana, em que o Presidente — às vésperas de assistir à ampliação de brasileiros infectados e mortos, e hospitais lotados —- ameaça demitir o líder da equipe que combate a doença, em mais um declaração marcada pelo desatino, no domingo.

 

A turma do deixa disso entrou em ação, na segunda-feira. O STF falou. O Congresso ameaçou. Os generais apaziguaram. E o Presidente recuou fazendo cara de mau — de criança que foi contrariada. Em seguida, e já era noite em Brasília, o Ministro da Saúde Luis Henrique Mandetta fez um pronunciamento com críticas veladas e ironia em relação ao Presidente. Até ao sugerir leitura para acalmar, mandou recado: disse que leu o Mito da Caverna, de Platão — e não entendeu. Nós entendemos o recado dele.

 

O inacreditável é que o Presidente e o Ministro são partes de um mesmo Governo que diz ter um só inimigo com “nome e sobrenome”: Sars-COV-2. Não têm, não. Sinalizam o tempo todo que um é inimigo do outro, nenhum aceita ser coadjuvante, enquanto o novo coronavírus protagoniza uma devassa na vida dos brasileiros.

 

Em meio a tudo isso, a massa se digladia na praça pública que se transformou as redes sociais. Agride com palavras, usa informações falsas, ataca sem dar atenção à lógica e enxerga em qualquer análise que se faça uma teoria da conspiração.

 

Nesta terça-feira, das mensagens que recebi, várias alertavam para o risco de quem defende o Ministro da Saúde, que não seria flor que se cheire, estaria comprometido com manobras políticas e planos de saúde. Seu herói tem pés de barro, dizia uma delas. Outros traziam críticas ao Presidente e vinham acompanhadas de coisas do tipo: “vocês é que elegeram o Mito, agora embalem”.

 

Como jornalista, cubro fatos, apuro a verdade e contextualizo o cenário. Não tenho ídolos, menos ainda mitos e heróis. Se o caminho percorrido é o certo, relato; se é o errado, denuncio. Se usa a ciência como pauta, pergunto para esclarecer. Se usa as crenças, questiono. Evito confundir mensagem e mensageiro. E se esse aponta o rumo certo pela maneira errada, digo o que entendo ser o certo e o errado. Não tenho compromisso com personagens nem narrativas. Se acerto, cumpro minha obrigação; se encerro, peço desculpas.

 

Herói? Mito? Triste de quem vive em busca de um. Vai se frustrar, com certeza; e afundar na ilusão. Vai se transformar em refém de sua idolatria. Perder a capacidade de discernimento e a análise crítica. Desperdiçar a beleza do livre pensar. De sonhar!

 

Mundo Corporativo: Newton Campos fala dos mitos do empreendedorismo

 

 

O dono de um carrocinha de cachorro quente pode ser um empresário ao oferecer seu produto no ponto de venda, mas somente será empreendedor se inovar no seu negócio, seja na maneira de fazer a salsicha, de vender o cachorro quente ou de atender seus clientes. Essa é uma das formas encontradas pelo professor Newton Campos, da IE Business School, em Madri, e da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo, para mostrar o que é essencial para que você realmente seja considerado um empreendedor, conceito que, segundo ele, vem sendo avaliado de forma distorcida nos últimos tempos. A intenção dele é combater os mitos que existem em torno do assunto e mostrar que “você não é empreendedor, você está empreendedor ao menos enquanto a inovação que você se dispôs a implementar estiver sendo percebida como inovação pelos demais”. Autor do livro “The Myth of the Idea and the Upsidedown Startup”, Campos foi entrevistado pelo jornalista Milton Jung, no Mundo Corporativo, da rádio CBN.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no site cbn.com.br. O quadro é reproduzido aos sábados, no Jornal da CBN.

De semente


Por Maria Lucia Solla

Zeus at Versailles

Ouça De Semente na voz e sonorizado pela autora

Estamos muito afastados do divino, e é urgente que esse elo seja restabelecido. Eu não saberia dizer como nem quando começamos a nos afastar, mas tenho pistas do afastamento, e pistas da reaproximação.

Para começar, há muito ignoramos os mitos; a ponto de lançarmos olhares enviesados, quando alguém fala de Afrodite, Atena, Cronos ou Hermes. Desprezamos o passado como se fosse bagaço, sem perceber que é na estrada esculpida por ele que eu e você caminhamos aos tropeços, por não conhecer seu traçado.

Atena é intelectual; mais cabeça do que corpo. Afrodite, ou Vênus, tem o cetro do amor e da beleza, enquanto Apolo é um deus artista que se guia pela intuição. Só para dar uma provinha do que é o Panteão.

Deletamos os deuses e usurpamos seus atributos, como crianças mimadas que roubam o Ferrari do papai e se esborracham na primeira curva. Substituímos os deuses que nos serviam de bússola, por máquinas e outras traquitanas.

Conhecendo deuses, seus mitos, suas histórias encontramos as pistas que procuramos para compreender os nossos homens, e eles podem entender a que viemos, nós as mulheres, se conhecerem um pouco das deusas.

A mulher esqueceu que representa a vida, para onde ela traz o homem, e quer ser reconhecida por algo que nem mesmo sabe o que é. Assim segue cambaleando, batendo a cabeça, feito galinha-sem-cabeça zanzando pelo terreiro, antes de mergulhar na panela. Segue sem decidir se se orgulha de ser o que é ou se quer parecer ser o que não é.

Os povos que nos precederam criaram mitos e os presentearam de geração em geração, como mantras, como oração; e nós, com toda a modernidade, esquecidos do Paraíso, em vez de abraçarmos uns aos outros, espalhamos pela Terra incompreensão e ganância, desde a mais tenra idade. Sonegamos amor; e amor é como água, se não deságua inunda, e se inunda mata.

Ah, Zeus, pai de deuses e homens, aí do teu trono no Olimpo, olha por nós que nos colocamos assim, de próprio desejo, em total abandono.

Ah, Cronos, deus do tempo e da responsabilidade, faz que percebamos da vida a finalidade.

Netuno senhor dos mares, faz que entendamos que a turbulência é só na superfície; nas profundezas de mares e amares há mais beleza que tristeza.

Somos universos em miniatura; contemos tudo, o universo inteiro, o mesmo celeiro que encontraríamos, se tivéssemos acesso aos universos fora de nós.

e na chegada do natal

agradeço pela vida

pelas vidas que gerei

pelas geradas por elas

e por todas as que fisicamente

não conhecerei

as vidas que geraram a minha

quero também agradecer

pelo que desde o início dos tempos

me permitiram perceber

Παν = todo – θεοσ =deus – Pan + Téos = Panteão.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung