Conte Sua História de São Paulo – 461 anos: da Serra Pelada ao Jardim Filhos da Terra

 

Por Clair Ramalho

 

 

Quando era pequena, ouvia dos velhos moradores algumas passagens históricas da conquista desse morro. No meu imaginário infantil, essas passagens eram tão fantásticas que me pareciam verdadeiras epopeias. Então, com o passar do tempo, eu quis recontar o que ouvi.

 

O pessoal daqui é gente simples! A riqueza está em nossa origem e em quem somos.

 

Construímos um patrimônio no alto do morro, carpindo o mato, limpando o terreno, martelando pregos em madeiras, colocando telhas de barro sobre a estrutura de paus, formando barracos.

 

Cada morador, ainda que não fosse muito escolarizado, escreveu a história desse lugar através da oralidade. Uma multiplicidade vozes sob uma arquitetura improvisada, no subir e descer das ladeiras, escadarias e becos.

 

Minha mãe também me contava, que o Jardim Filhos da Terra* (bairro localizado na região do Jaçanã, Zona Norte de São Paulo), a Serra Pelada, como ficou conhecido após a limpeza do mato, surgiu em um movimento de ocupação. Esse movimento foi iniciado pela igreja local na metade da década de 80, após a construção de um barraco à margem do córrego, abaixo da serra, para uma moça chamada Maria, vinda do nordeste com três filhos pequenos sem um lugar para moradia.

 

A notícia desse fato se espalhou rapidamente e trouxe inúmeras Marias e Josés, com histórias parecidas. Então, a igreja liderou a busca de terra e moradia.
Um terreno foi encontrado, estava desocupado e sem uso, no topo do morro íngreme e sinuoso. A estratégia de abrigar quase mil famílias foi desenha em cartolinas brancas que receberam grafites e riscos com a divisão do terreno para cada família. Tudo estava organizado.

 

Há 30 anos, no cair da noite, a ladeira foi tomada por um longo tapete de pessoas. Era quase cinco mil! Estavam com tochas, foices, martelos e enxadas as mãos. Mulheres grávidas e crianças à frente do grupo, formando um cordão, para repreender confronto policial, caso houvesse. O restante do grupo viera depois. Os policiais não usaram seus revólveres, e nem a multidão usou suas foices. A ocupação foi pacífica, com reza, com canto e com a lua testemunhando essa chegada.

 

A Pracinha, lugar que preserva o verde de nossa origem, foi o primeiro lugar a ser ocupado. Depois formaram ruas estreitas, ao lado, barracos de madeira ligeiramente construídos. Surgiu a periferia! A informalidade urbana na metrópole paulistana. Nasceram os “Filhos da Terra”.

 

O tempo trouxe a evolução de nossas casas. Agora tijolo, cimento e laje.

 

O bairro foi edificado e vive nas lembranças doces dos antigos moradores que viveram essa conquista. E, hoje, a história perpetua em suas vozes, nas vozes de seus filhos e nas de tantas outras crianças, que assim como eu cresceram e continuam contando, aqui, no alto do morro.

 

Clair Ramalho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br

De favela

 

Por Maria Lucia Solla

Favela no horizonte

Ouça “De Favela” na voz e sonorizado pela autora

Quando a gente não consegue mudar a realidade, muda o termo, torce a língua, tira e põe acento, mexe, remexe, e nada acontece. Favela é um bairro pobre, criado sem permissão nem conhecimento de órgão público que, recheado de servidor público, não percebe quando um morro começa a ser ocupado irregularmente, ilegalmente, por gente que prefere comprar terreno e casebre, de bandido declarado, a comprar de bandido amoitado.

Uma palavra nasce com DNA próprio; tem suas razões para nascer e vingar. Favela nasceu e vingou, correu mundo, e em cada rincão foi cantada em verso e prosa, nos mais diferentes sotaques. Hoje a palavra é considerada politicamente incorreta porque dá nome a um bairro pobre, criado clandestinamente à luz do sol e da lua, por gente e mais gente que descia e subia o morro carregando cimento, tijolo, folha de zinco, panela, pote e pinico, criança, velho, sem que ninguém visse!

Enquanto a instituição pública e seus motorneiros fingiam que não viam, e os futuros favelados fingiam que não eram vistos, tudo corria solto. Enquanto o mundo se encantava com a criatividade do homem sem diploma, sem carteira de trabalho e sem estudo, esse mesmo homem, calejado e malhado pela subida e descida do morro, foi percebendo que a instituição pública lhe voltava as costas à medida que ela, a favela, crescia, formava corpo; criava raiz, a pústula. O negócio ilegal também crescia e se organizava, pelo mesmo homem sem lenço nem documento que enfim conseguia morar, acampado entre bons e ruins, no mesmo canto do mundo onde morava o homem estudado, entre bons e ruins.

Quando o mundo inteiro já estava voltado para aquilo que a instituição local não via, procurou-se esconder o fardo, e o homem público gaguejou e ainda gagueja ao tentar explicar como bairros de proporções municipais tinham sido plantados, regados, cultivados, sem serem notados, dentro de bolsos e debaixo de narizes que se regalavam com o produto da ilegalidade.

mas o bicho homem é poeta por natureza
e cantava a favela em verso e prosa
sua alegria
colorido
o homem de coração sofrido

Tentou então a instituição cobrir o sol com a peneira e ergueu uma barreira de prédios horrendos, levando um punhado de favelados a habitarem seus cubículos empilhados, a fim de esconder a poesia nefasta.

E a gente foi levando: um fingindo que não via, o outro que não era visto, até que os bairros-municípios não pararam de crescer, de tomar espaço de quem podia e queria pagar, e o bicho começou a pegar. O ilegal começou a matar a se armar, e o legal a se armar a matar. Arma mata mata arma, e o mundo todo a olhar. A ilegalidade não se escondia mais, já que o jogo de ver e não ver já não dava mais prazer. Estávamos tão craques no jogo da cegueira coletiva e seletiva, que os legais e ilegais trocavam de lugar, num tira-põe-deixa-ficar, e a gente nem notava.

foi então preciso
como faz ladrão
e bandido
mudar o nome para camuflar a identidade
e favela virou comunidade

favela rima com amor por ela
favela rima com batuque na panela
e eu o que faço
vou lavar minha louça e
no cordão do tênis
do pé esquerdo
dar um laço

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicação e expressão. Aos domingos, escreve no Blog do Mílton Jung