A boiada de Salles também passa por São Paulo

Por Carlos Magno Gibrail

Manguezais correm risco; São Paulo, também – Foro JULIOCALMON/CBN

Os ambientalistas além de vivenciarem uma semana de luto pela liberação de áreas preservadas, através de quatro resoluções do Conama, órgão do Ministério do Meio Ambiente, estão assistindo ao triste espetáculo das justificativas. 

Pelo menos ninguém pode alegar surpresa, pois o anúncio foi feito em Brasília naquela reunião em que o menos chocante foram os palavrões.

Entenda a história das resoluções do Conama que foram suspensas, temporariamente, pela Justiça

Também não se pode atribuir originalidade quanto ao desrespeito ao meio ambiente. Afinal, a degradação ambiental é um processo extenso e intenso que vem ganhando conotação política e principalmente econômica.

A cidade de São Paulo, por ocasião do dia da árvore, evidenciou as queimadas no Pantanal, na Amazônia e na Mata Atlântica com fantásticas imagens projetadas em edifícios na área urbana. 

Atitude positiva que pecou por não enfatizar o quanto as árvores da cidade também são derrubadas por interesses econômicos. 

A analogia entre as árvores da cidade e da Amazônia, por exemplo, desconsiderando o volume, é válida pela causa e efeito, ou seja, pelo interesse pecuniário e pela degradação. Além disso, enquanto Salles argumenta que as resoluções aprovadas modernizarão o sistema, na capital paulista o Zoneamento é colocado com o mesmo tom de modernidade, alegando que é uma leitura contemporânea para acompanhar o fato da cidade viva.    

Não é preciso, portanto, ir à Amazônia ou ao Pantanal para identificar a agressão ao meio ambiente. Como sentenciou Nelson Rodrigues, basta observar o quarteirão onde você mora, para identificar todos os tipos humanos e a potencialidade e diversidade de relações entre si. O próprio Nelson era uma prova, pois sua primeira viagem ao exterior se deu quando já tinha se consagrado como jornalista. Dramaturgo retratando “a vida como ela é” não precisou sair de sua cidade para entender o ser humano nas emoções e motivações.

É intrigante e até assustador como se pode eliminar um ordenamento que preserva os mangues e aplicar uma fala justificando obsoletismo das normas vigentes. 

Nesse caso, talvez haja necessidade realmente de sair do seu quarteirão e ir até um mangue para atestar a enorme quantidade de vida nessas áreas.

No contexto urbano, temos uma cinzenta cidade como São Paulo em termos de arborização, que só conseguiu manter uma área verde residencial em apenas 1% de sua área total. 

O absurdo é que este 1% está permanentemente sendo vítima do setor imobiliário.

Por exemplo, inserida neste 1% está a região do Morumbi, cuja urbanização original obedeceu ao molde da Cia. City de Londres. A Av. Morumbi, guardando ainda várias áreas arborizadas, foi descaracterizada no recente Zoneamento realizado pelo Município, com aprovação da Câmara de Vereadores — atendendo à solicitação dos proprietários de terrenos, sob a alegação que não havia demanda. A avenida ficou cadastrada como ZCOR 3, isto é, corredor comercial.  

Hoje, diante do Palácio dos Bandeirantes, ainda preservado, resta apenas a Fundação Oscar Americano. O terreno ao lado, ex-Pignatari, teve 70% da arborização derrubada. A uma quadra do Palácio foram cortadas aproximadamente 100 árvores.   

À essa devastação autoral não precisou de índios nem caboclos desconhecidos. Os beneficiários têm seus nomes expostos em placas. E sem vergonha.

Carlos Magno Gibrail é consultor, autor do livro “Arquitetura do Varejo”, mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung.