Mundo Corporativo: as lições de empreendedorismo de Flávio Augusto, da Wiser

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“É importante ter um plano, sim, mas é importante a gente estar sempre sensível para novas oportunidades” 

Flávio Augusto da Silva, empresário 

Nem o Estado nem as multinacionais. O maior empregador no Brasil é o pequeno e o médio empreendedor, responsável pela contratação de 70% dos profissionais que ocupam uma vaga de trabalho de maneira formal. Isso significa  que quanto mais a mentalidade empreendedora se espalhar mais empregos serão gerados. Apesar disso, é bem provável que você não encontre na área da educação, escolas dispostas a levar para o currículo essa mentalidade —- seja por preconceito seja por falta de visão seja por total desconexão com as possibilidades que a vida oferece aos jovens. Para o empresário Flávio Augusto Silva, entrevistado do Mundo Corporativo da CBN, o ensino tem de ir além dos caminhos convencionais:

“Não existe apenas um caminho, existem vários caminhos. Nossos jovens podem ser um atleta, um sacerdote, um artista, e, também, ser um empreendedor. Ele pode também no futuro ser aquele cara que vai investir o seu o dinheiro, o dinheiro dele, que ele economizou com muito sacrifício, com o objetivo de realizar um sonho e com isso gerar emprego”.

Flávio Augusto tem uma história que vai além do clichê “o vendedor de curso que virou dono do curso”, apesar de ter iniciado assim sua trajetória quando fundou a rede de idiomas Wise Up, em 1995. Quatro anos antes começou a trabalhar “casualmente” como vendedor de um curso de inglês, no Rio de Janeiro e, graças aos bons resultados, logo ascendeu na empresa, até entender que havia uma enorme oportunidade no ensino do idioma para adultos. Arriscou ao usar o cheque especial e os juros de 12% ao mês para abrir 24 escolas próprias nos primeiros três anos — o que não recomenda para ninguém. Em 18 anos, a rede se expandiu para 396 escolas. Um sucesso que foi vendido para a Abril Educação por R$ 877 milhões, em 2013. E recomprado, dois anos depois, pela metade do preço. Sim, ele voltou a ser o dono da Wise Up.

Antes de seguir nessa história, é bom saber o que leva um empresário a vender um negócio que está dando certo. Flávio Augusto recorre a metáfora do construtor de prédio: 

“Não é muito da cultura brasileira entender que um construtor constrói um prédio para vender os apartamentos. Você não vai ver um construtor de repente olhar para o prédio e pensar: ‘eu vou ficar com esses 200 apartamentos para mim porque eu gostei muito’. O ápice do sucesso de um empreendedor é quando ele constrói um negócio a ponto do mercado desejar aquele negócio e pagar por ele. A venda de um negócio, é uma métrica de sucesso de um empreendedor”.

Para o empresário existem três possíveis destinos para uma empresa, dois deles deveriam ser evitados. O primeiro é o negócio quebrar; o segundo, o dono morrer;  e o terceiro é ser vendido. Por isso, diz que, sempre quando tem um negócio, tem um plano de saída. Não entramos no tema, mas reportagens em sites de finanças e negócios dizem que Flávio Augusto estaria preparando a Wiser, empresa que comanda e investe na área da educação e da tecnologia, para um movimento estratégico que poderia ser tanto um IPO quanto a venda do grupo — plano de saída ou de expansão?

Verdade que, nos últimos anos, apesar e por causa da pandemia, Flávio Augusto e a Wiser têm se dedicado muito mais a entrar em novos negócios. Para ter ideia, comprou a Conquer, escola de negócios, e a AprovaTotal, plataforma que prepara estudantes para o vestibular, entre outros investimentos. Ter percebido o movimento que o mercado fazia em direção ao ensino online, antes do fechamento das escolas físicas, por causa da crise sanitária, permitiu que a Wiser se fortalecesse e se colocasse no mercado como “compradora”. 

De volta as lições que aprendemos ao ouvir a entrevista de Flávio Augusto ao Mundo Corporativo. Ele recomenda muito cuidado na elaboração do plano de negócios da empresa, que pode ser impactado por questões tributárias, fiscais e trabalhistas. 

“O erro mais comum que cometemos quando entramos no mundo do empreendedorismo é não fazer o plano de negócio ou subestimar o plano ou superestimar o plano, porque o plano vem com a necessidade de se ter um capital junto. E aí se você subdimensionar o capital no seu plano e demorar demais para chegar no seu ponto de equilíbrio, vai te faltar o capital de giro. Essa é aquela hora que o empresário, às vezes, começa a se endividar mais do que deveria. Ou aquele momento que ele vai ficar desesperado procurando um sócio. E de repente pode falir”.

Alerta aos novos empreendedores, que a empresa não é apenas uma planilha de Excel, transações financeiras ou desenvolvimento de produto. Antes de qualquer coisa —- palavras dele —  é preciso saber gerir pessoas, se é que o empreendedor tenha a intenção de expandir seu negócio. 

“Gente tem suas contradições, tem suas dificuldades, tem suas traições, tem um pouco de dor de cabeça, tem! Mas, também, gente tem muita alegria. Tem gente boa, tem gente talentosa, gente que quer crescer, gente que vai contribuir com você. Então, tem os dois lados da moeda. Agora, uma coisa é necessária, você tem que aprender a gerir pessoas e, infelizmente, isso não se aprende na escola”. 

E como não se aprende nas escola formais, claro, Flávio Augusto foi lá e transformou isso em mais uma oportunidade.  

Ouça a entrevista completa de Flávio Augusto, fundador da rede de idiomas Wise Up e CEO da Wiser, no Mundo Corporativo: 

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscilla Gubiotti e Rafael Furugen. 

Mundo Corporativo: a comunicação consciente exige escuta genuína, diz a fonoaudióloga Mara Behlau

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“A comunicação profissional é treinada: comece escutando genuinamente o outro; confirme o que você escutou; lembre-se que em toda a comunicação, eu preciso ter um objetivo e um eixo condutor. Valorize quem ouve e faça uma associação entre a sua mensagem verbal e não verbal”

Mara Behlau, fonoaudióloga

A maior parte do tempo que nos comunicamos o fazemos de forma automática. E isso tende a causar uma série de desconfortos. Não por acaso, das reclamações mais ouvidas está a de que o outro não me entende — como se não fossemos os responsáveis pela mensagem transmitida. Comunicação inconsciente gera comunicação inconsistente. Porque não se faz de maneira plena. A começar pelo fato de praticamente eliminarmos dessa jornada o elemento mais importante que é a escuta, como alertou Martha Behlau, fonoaudióloga, entrevistada do programa Mundo Corporativo da CBN:

“Existe uma arquitetura estrutural na comunicação e o terreno dessa construção, dessa arquitetura é a escuta; então, a escuta é a base de uma boa comunicação. Lembrando que o ouvido ouve e quem escuta é o cérebro. A escuta é interpretativa”.

Doutora em distúrbio da comunicação humana e professora de comunicação para negócios e relações interpessoais do Insper, Mara escreveu em co-autoria com Marisa Bárbara, especialista em comunicação corporativa, o livro “Comunicação consciente, o que comunico quando me comunico”. Nesse trabalho, fica evidente a ênfase que devemos dar a prática da escuta, a ponto de terem sido identificados cinco tipos de escuta: 

  1. Passiva — quando escuto alguém que eu gosto, que me conta uma história bonita ou que me conta uma piada, eu não faço nada a não ser apreciar; e o outro gosta de se sentir apreciado.
  2. Empática — quando alguém desabafa, quando alguém conta um problema, o que a pessoa quer é acolhimento; não, necessariamente, a pessoa quer que você resolva o problema dela. 
  3. Organizativa — quando alguém conta uma história difícil, de um acidente, uma tragédia ou de uma crise pessoa, as mensagens vêm confusas e cheias de emoção. Quem ouve tem de parar o falante e organizar o roteiro de sua fala; e a pergunta principal é: de tudo o que você está me dizendo o que é o mais importante, o que eu preciso saber agora?
  4. Perspicaz — é a escuta do aprendizado; que ocorre, por exemplo, quando estamos conversando com a concorrência e avaliamos se aquela informação tem serventia, se é possível aplicá-la em alguma situação e se já ouviu algo semelhante.
  5. Avaliadora — é a escuta de julgamento; quando fazemos uma série de perguntas com objetivos bastante específico de julgar uma pessoa ou um colaborador que, por exemplo, não atingiu a sua meta. É quando escutamos para entender se nosso interlocutor deve ser desculpado, corrigido ou punido.

São fatores de sucesso, também, na comunicação a autenticidade, o respeito às regras, expressão de auto-estima, a atitude de resolução de problema e o foco duplo —- que vem a ser o cuidado que tenho tanto com a mensagem que transmito quanto com quem está recebendo essa mensagem. Mara aproveita para recomendar a você que está preocupado com a mensagem que vai transmitir e com quem vai receber essa mensagem: entre duas palavras, escolha a mais simples; entre duas palavras simples, escolha a mais curta; jamais infira o que o outro entendeu, certifique-se; e, acima de tudo, lembre-se:

“O impacto da comunicação é imediato e é enorme. Eu posso mudar com duas palavras no WhatsApp pressão sanguínea, batimento cardíaco, respiração e o humor de uma pessoa que está em Katmandu, em Nova Iorque ou em outro lugar”.

Ao não entender essa influência que pode ter sobre os outros é que muitos líderes acabam criando ambientes tóxicos de trabalho. Mara diz que esse tipo de liderança muitas vezes não percebe o mal que faz, até porque, por algum tempo, os resultados aparecem na empresa. Porém, costumam ter dificuldade de desenvolver pessoas e geram desafetos ao longo de sua jornada profissional.

Assista ao Mundo Corporativo com a fonoaudióloga Mara Behlau:

Colaboraram com o Mundo Corporativo Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen. 

Mundo Corporativo: Lilian Bertin recomenda que você não deixe que sua idade o defina

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“Desde que a natureza permita tudo é possível e a idade não pode ser um impeditivo na nossa vida pessoal, profissional, corporativa seja qual for”

Lilian Bertin, empresária

Estamos encerrando a semana em que uma senhora de 96 anos morreu em pleno exercício de suas atividades e reverenciada por boa parcela do mundo. Concluiu o ciclo mais longevo para a ocupante do  seu cargo, na atualidade. E quando se fazia referência a sua idade era uma demonstração de valor, jamais depreciação. Claro, falo  da Rainha Elizabeth II que, por rainha que foi, teve privilégios que os “plebeus” nunca terão; e soube usá-los. A despeito das diferentes condições, cada vez mais teremos pessoas com idade avançada —- seja lá quanto isso signifique para você — no mercado de trabalho, ocupando e competindo por espaços com diversas gerações.

A maior longevidade da população, porém, parece que ainda não foi percebida por alguns gestores, líderes e empresas, que teimam em criar barreiras para os profissionais maduros e mais antigos. A prática, baseada em preconceito, tem nome: etarismo. E como todo preconceito precisa ser enfrentado e superado. Falei desse tema com Lilian Bertin, empresária e mentora de profissionais dispostos a se reinventar na carreira e nos negócios, no Mundo Corporativo da CBN:

“Eu vejo muitos jovens que estão iniciando uma carreira corporativa e já estão mortos pra vida. Eles funcionam a base da manivela. E pessoas com mais de 40, 50 anos que têm uma garra, uma vontade .. têm visão, têm experiência. Eu prefiro acreditar que a idade não nos define”.

Em sua carreira, especialmente na função de mentora, Lilian deparou com inúmeras histórias de pessoas que entenderam a necessidade de mudarem suas carreiras para estenderem a jornada profissional. Um dos exemplos é de um engenheiro de sucesso, de perfil sério e apreciador de vinhos que, após os 70 anos, descobriu-se músico e lançou álbum, onde se apresenta com um talento até então desconhecido. Para o cenário ficar ainda mais completo, ganhou a companhia da mulher que o apoia planejando os shows e atuando nos bastidores:

“Eu tenho certeza que em um ano a gente vai colecionar muito mais histórias como essas, inclusive de pessoas que estão saindo do mundo corporativo ou sendo convidadas a sair. Porque isso está sendo muito frequente e pegando toda essa bagagem, imprimindo, empacotando e transformando num produto, num serviço que pode ajudar muitas pessoas”. 

As mudanças na carreira nem sempre são planejadas ou por vontade própria. O profissional é “convidado” a se afastar e isso tem forte potencial para se transformar em  frustração e medo. Uma sensação que se dá especialmente pela crença de que seremos eternos no ambiente corporativo:

“A gente tem que seguir se preparando e cuidando da nossa imagem, da nossa marca, sempre pensando “se isso não der certo, eu vou fazer aquilo”. Ou seja, não é que você vai ter uma uma visão pessimista, mas é que você tem que estar sempre preparado para você se manter. Então, enquanto você tá ali na empresa, você dá o seu melhor, mas você tem que saber que um dia aquilo pode não existir mais”.

O sentimento de estar sendo descartado atrapalha muitos dos planos, por isso em situações como essa é preciso trabalhar a autoestima, explorando seus recursos internos e se reestruturando a partir do que você já sabe:

“Todas as vezes que eu tive um salto, um crescimento na minha vida, foi em momentos de muita dificuldade de muita frustração, mas quando a gente aprende a trabalhar com isso na nossa vida, acredite portas inimagináveis se abrem lá na frente. Enquanto a gente está preso ao que aconteceu de ruim, a gente não vira a página … é importante seguir em frente até para que a gente se libere dessa energia ruim”.

Lilian recorre a história dos dois lobos que convivem dentro de nós para falar do medo de errar, a medida que se tem uma vida mais madura. Ela lembra que medo e coragem estão dentro de nós, sobreviverá aquele (lobo) que nós alimentarmos. Uma das formas de não dar comida para o lobo errado é perceber que a maior parte da nossa insegurança está relacionada a perda de um status profissional que nos põe em situação muito confortável.  Entender que a cadeira da presidência na qual estamos preso, o crachá no peito e o respeito dos colegas do escritório podem ser substituídos por outros prazeres que a nova profissão nos oferecerá. 

“Olha para dentro disso e fala “o que que eu gostaria de fazer?”, “o que eu posso contribuir?”. Porque quando a gente contribui com o planeta quando a gente contribui com as pessoas, quando a gente quer verdadeiramente a felicidade das pessoas, a gente começa a se doar e essa doação se transforma, muitas vezes, num trabalho, num produto. Foi o que aconteceu comigo”.

Assista à entrevista completa com Lilian Bertin, autora do livro “Minha idade não me define”,ao programa Mundo Corporativo da CBN.

Colaboram com o Mundo Corporativo Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Mundo Corporativo: Gilson Magalhães, da Red Hat, defende que a colaboração produz mais que a competição

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“A nossa cultura é inacreditavelmente diferenciada justamente por isso, porque todos temos a liberdade de opinar em qualquer nível. E a colaboração acaba acontecendo e a inovação vem também acompanhando toda essa dinâmica” 

Gilson Magalhães, Red Hat Brasil

O surgimento dos smartphones, que mudaram a sociedade, permitindo que a tecnologia da informação chegasse às mãos de bilhões de pessoas, foi o impulsionador das soluções em código aberto. A opinião é de Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, líder internacional no desenvolvimento de software open source —- perdão, é assim, em inglês, que a turma costuma se referir ao tipo de produto criado em um regime descentralizado em que a empresa não é a única responsável por sua produção.

“A gente não entende, talvez, a dimensão do impacto dessa tecnologia no nosso dia a dia e como ela veio com escala muito maior. Saímos da escala de milhões de pessoas que usavam Tecnologia de Informação para bilhões de pessoas. Foi necessário o uso de novas tecnologias e um dos casos importantes nesse avanço foi justamente a participação das soluções de código aberto como um fomentador da inovação e crescimento da escala”.

Gilson foi criado no ambiente do código proprietário, ou seja, cada um é dono do seu próprio nariz e ninguém põe a mão. Foi há oito anos que se descobriu um apaixonado pelo código aberto provocado pelo que identificou ser um tendência de mercado e se ofereceu para trabalhar na Red Hat Brasil:

“Não só não me arrependo da decisão, como acho que esse é o caminho para as novas gerações, porque é o caminho que garante que haja, na evolução dessa grande indústria, a possibilidade da colaboração das pessoas participarem da estruturação de como vão ser as entregas, as soluções de TI”

Em uma indústria em que a colaboração é a chave que aciona a inovação, a gestão de pessoas tem de ser pautada por essa mesma ideia. As relações têm de ser abertas como os códigos-fontes e o conceito precisa ser exercitado na dinâmica de trabalho das empresas. Para Gilson, o sucesso desse negócio depende de se ter uma cultura que ofereça espaço para a colaboração espontânea. O método tradicional do comando-controle, do “eu mando e você obedece” ou hierarquizado não funciona nessa indústria. Gilson diz que na Red Hat não adianta mandar fazer, porque se a pessoa não concordar com o caminho proposto, não o seguirá. E isso não é um problema. É a solução.

“Nós temos que fazer e trabalhar com convencimento. O poder de influência é muito mais importante nesse sentido. Isso contamina o líder que tem que ser um exemplo a ser seguido e não ser uma eminência a ser satisfeita”.

A pandemia — não seria diferente nesta indústria — tornou-se um desafio a parte na busca da criação de ambientes colaborativos, porque a ideia de ambiente, muitas vezes relacionada ao espaço físico da empresa, deixou de existir. O que falamos ser ambiente — e no meu caso, escrevo muito aqui no blog — na realidade é cultura da empresa. Agora imagine levar essa cultura a todos os colaboradores quando cerca de 30% deles chegaram nos últimos dois anos, ou seja, já dentro do modelo de trabalho à distância. 

Uma das formas de simplificar a adaptação dos colaboradores que chegam é identificar já no recrutamento perfis que estejam de acordo com o pensamento colaborativo e aberto. Essa cultura também impacta nas decisões de promoção que não consideram a senioridade, mas a contribuição ou o poder de influenciar e levar os outros a caminhar em uma direção significativa para o cliente. 

“Aqui é uma outra dinâmica. A gente costuma dizer que nós não temos portas abertas,  nós simplesmente não temos portas. Não tem como dizer que o chefe é intocável. O chefe precisa estar lidando com qualquer questão, da limpeza do escritório a decisão de novos produtos”.

O presidente da Red Hot Brasil diz que essa forma de trabalhar leva à escuta ativa, o que se fazia com maior simplicidade quando todos compartilhavam o mesmo espaço fisico, mas que agora, com o trabalho à distância, exigiu a criação de novos métodos e hábitos como encontros informais e cafés com os líderes. Nessas e nas demais atividades de relacionamento, Gilson afirma que todos são estimulados a falar o que quiserem e sem restrições ou retaliações. 

Provocado por um dos nossos ouvintes, que queria entender se em ambientes colaborativos também haveria espaço para a competição que sempre foi vista como indutora do desenvolvimento e da melhor produtividade, Gilson preferiu colocar essa questão de uma maneira diferente. Começou lembrando que parte dos colaboradores da Red Hat decidiu tatuar a marca da empresa em uma demonstração da admiração por aquilo que fazem; e explicou:

“O que acontece quando a pessoa faz uma tatuagem é que ela está demonstrando que tem um vínculo, uma paixão por aqui. Então, a motivação está mais em fazer parte de alguma coisa transformadora do que você ser melhor do que a outra”. 

Ouça o programa Mundo Corporativo com Gilson Magalhães, presidente da Red Hat Brasil, que também falou sobre oportunidade de emprego nesse setor de soluções de código-aberto e o tipo de profissional que mais buscam no mercado:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Luiz Meyer, diretor de ESG, fala do desafio de cumprir os 16 compromissos públicos assumidos pelo Boticário

Com reciclagem, grupo quer impactar 1 milhão de pessoas (photo by Magda Ehlers on Pexels.com)

“Na velocidade que o mundo hoje avança o grande desafio também é manter esses compromissos atualizados; trazer uma grande governança para esses compromissos de forma que as mudanças da sociedade também possam estar refletidas dentro daquilo que a gente acredita”

Luiz Meyer, Grupo Boticário

“Está no DNA”. Clichê puro no discurso corporativo. Mas vou pedir licença para usá-lo porque me parece que cabe bem no assunto que vamos conversar agora? Sei que empresas não são seres vivos, mas têm nas suas estruturas elementos responsáveis pela transmissão de todas as suas características. No caso do Boticário, a relação com o meio ambiente é um desses elementos. Nem havíamos deparado com a ECO92 no Rio, marco do debate ambientalista, e a empresa que nasceu como uma pequena farmácia de manipulação no centro de Curitiba, capital paranaense, em 1977, já estava debatendo o impacto que gerava no meio ambiente. Isso se expressou quando no início dos anos de 1990, criou a Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que nasceu com a intenção de atuar para proteger a natureza.

No último episódio da série sobre ESG do Mundo Corporativo, nós recebemos Luiz Meyer, diretor de ESG do Grupo Boticário, que falou, em especial, dos 16 compromissos socioambientais assumidos pelo grupo no ano passado que devem ser entregues até 2030. Ué! Coça a cabeça, agora, o caro e raro leitor deste blog. Se o grupo já nasceu com a ideia da sustentabilidade apenas quando completava 44 anos identificou essas metas?

“…  porque trazem por trás desses compromissos uma transparência. É um compromisso que a nossa organização assume perante toda a sociedade … Com certeza esses ideias já estavam dentro da empresa. O que a gente fez nesse momento, lá em 2021, foi empacotá-las em um formato muito claro e transparente para toda a sociedade de forma que a gente conseguisse ter uma comunicação mais efetiva”.

Pelo que entendi, a diferença é que agora não tem como recuar. Se prometeu zerar o balanço hídrico industrial até 2023, vai ter de zerar. Ou será cobrada pela sociedade. Para que esse compromisso seja cumprido, por exemplo, serão destinados cerca de R$ 14 milhões, explica Luiz Meyer:

“Desses 16 compromissos, sete tem um olhar ambiental, dentro das ações que nós vamos tomar para reduzir os impactos para a sociedade e para o meio ambiente que as nossas operações e todo o nosso ecossistema vão gerar. Cinco desses compromissos tem um olhar para a diversidade, inclusão: o que o grupo pode fazer mais, pode ir além. Dentro desses, dois temas de diversidade e de inclusão. Dois deles são sociais: então, de que forma a gente pode reduzir a desigualdade social do nosso país. E dois deles olham para a transparência”.

Por ter a transparência como compromisso assumido, as 16 metas estão explícitas no site “Uma beleza de futuro” Quem visitar o site verá que, até o ano que vem, o Grupo Boticário terá de aumentar em 40% a contratação de talentos negros, alcançando ao menos 50% de representatividade; e 25% de lideranças corporativas negras; e, em dois anos, ter ao menos 50% de mulheres na diretoria. No tema da diversidade são trabalhadas cinco dimensões: gênero, raça, Lgbtqia+ e PCDs:

“Já temos 25% de liderança negra presente dentro da nossa organização; 50% de liderança feminina já presente dentro da nossa organização e 29% das nossas diretoras, do nosso público de diretoria, hoje são mulheres. Então, acho que já é um grande avanço, já são números muito importantes, mas a gente tem a certeza que a gente pode ir além e a gente tem metas mais audaciosas”.

Nas transformações sociais propostas pelo Boticário, existe o projeto de reduzir a desigualdade através de ações de gestão de resíduos sólidos que podem alcançar cerca de 1 milhão de pessoas. Nesse item, busca-se desenvolver programas de capacitação para pessoas em vulnerabilidade social que estão em cooperativas de catadores. Inspirar o empreendedorismo é outro caminho para melhorar a qualidade de vida das pessoas mais vulneráveis. E isso acontece através de cursos que tanto preparam profissionais para o mercado de beleza como para o de tecnologia —- onde há carência de mão de obra no Brasil.

Para Luiz Meyer, em especial, o desafio é fazer com que aquilo que dissemos “fazer parte do DNA da empresa” contagie toda a cadeira produtiva. Antes de assumir a diretoria ESG, ele atuava na área de operação e, principalmente, no setor de compras de suprimento. Foi a experiência nesse relacionamento com os parceiros de negócio que fortaleceu o nome dele para o cargo:

“Trazer para eles também uma realidade que vai além do papel dessa área de suprimentos, mas um um papel transformacional que o grupo pode, através dos seus valores, das suas essências, do seu propósito, chegar também a uma rede de mais de quatro mil parceiros e propiciar essa transformação para lá”.

No último episódio do Mundo Corporativo ESG, Luiz Meyer também falou de oportunidades de emprego, vagas afirmativas e fabricação de produtos que reduzem o impacto ambiental:

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: pessoas com deficiência têm de estar incluídas na agenda ESG, diz o advogado Stefano Maximo

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“Não dá para negar que ainda falta muito para a inclusão acontecer, mas com o diálogo, o que eu pude perceber, é que as empresas estão incluído o tema da pessoa com deficiência nas pautas no ESG e isso me dá um pouco de otimismo”

Stefano Maximo, advogado

A invisibilidade das pessoas com deficiência é uma realidade mesmo em empresas comprometidas com a agenda da governança ambiental, social e corporativa. Diante dos tantos desafios que precisam ser enfrentados, esse segmento — cerca de 46 milhões de brasileiros, conforme o Censo de 2010 — muitas vezes é esquecido na formação dos comitês de afinidade e nas políticas internas de inclusão. Talvez você mesmo, caro e raro leitor deste blog, ao olhar para os lados — no escritório, na escola, nos ambientes que frequenta — vá perceber a ausência dessas pessoas. 

Foi esse incomodo que levou o advogado Stefano Maximo a pesquisar a realidade vivenciada pelas pessoas com deficiência no mercado de trabalho. O conhecimento desenvolvido na área se transformou em dissertação do mestrado realizado na Universidade Federal de Itajubá e o fez perceber que o interesse pelo assunto ganhou nova dimensão, seja pela imposição das leis criadas ao longo das últimas décadas seja pela demanda das próprias pessoas com deficiência que passaram a elevar suas vozes em busca do respeito a que têm direito.

“Isso tem refletido muito na postura das empresas, não só normativamente, não só na questão regulamentar, nas regras as quais as empresas têm que se adequar, mas na cultura mesmo das empresas de entenderem, de buscarem saber qual a demanda dessas pessoas de compra, qual a demanda de atendimento e o que elas querem quando buscam ser parte do mercado de consumo”

Um fato inusitado tanto quanto cruel acabou dando um destaque inesperado ao trabalho de mestrado desenvolvido por Stefano Maximo. Uma imagem dele, durante a apresentação da dissertação, foi alterada e  usada para a disseminação de mentiras — essa coisa aí que você prefere chamar de fake news — com o objetivo de desvalorizar a universidade pública e o trabalho científico. Em lugar do nome oficial da dissertação “A pessoa com deficiência e o mercado de trabalho – Um estudo na microrregião de Itajubá”, os falsificadores escreveram “O uso indiscriminado de figurinhas no WhatsApp e seu impacto social”. A manipulação foi identificada por empresas de checagem de fatos que publicaram o tema correto da dissertação.

No Mundo Corporativo, Stefano Maximo, advogado no escritório Meira Breseghello Advogados e mestre em Desenvolvimento, Tecnologia e Sociedade pela UNIFEL, trouxe uma visão realista da situação enfrentada pelas pessoas com deficiência; mostrou-se otimista em relação a inclusão do assunto na agenda ESG; e sabe que apesar da legislação consistente que o Brasil tem, muitas empresas ainda são reticentes na contratação e na adaptação de seus espaços para uma inclusão plena. Mas enxerga as mudanças que começam a se realizar:

“A partir do momento que a a empresa tiver essa dimensão já ali dentro da cultura dela, ter essa noção integral da deficiência, as coisas vão com certeza melhorar e muito. E eu acho que isso já tá acontecendo”.

O certo é que nenhuma empresa que se preza a dar publicidade às suas práticas ESG pode abrir mão das estratégias de inclusão das pessoas com deficiência. Uma inserção que precisa se realizar na contratação de colaboradores com deficiência, na geração de ambientes inclusivos e, também, no mercado de consumo:

“É preciso entender o que está afastando as pessoas com deficiência do mercado de consumo. Quais são as barreiras que precisam ser ultrapassadas. E as empresas têm buscado fazer isso como uma maneia de mudar a política de atendimento, a política de criação de produtos para poder fornecer mais meios da pessoa com deficiência acessar os produtos”.

Da nossa conversa ficou muito claro que se desperdiça um tremendo potencial a medida que se demora para criar processos de inclusão no mercado de trabalho e de consumo. A começar porque existem talentos que deixam de se expressar toda vez que uma deficiência é vista como barreira para a execução de determinadas funções. O olhar diverso da pessoa com deficiência fará falta na criação de soluções e resposta à sociedade. Assim como a empresa abre mão de uma camada importante dos consumidores ao não integrar no desenvolvimento de seus produtos e serviços o conceito de desenho universal, que assegura que todos possam usar com segurança e autonomia os diversos espaços construídos e objetos.

“A empresa tem que estar preocupada com a inclusão, pronto! Mas a gente tem que entender também do viés mercadológico; que isso é um um caminho para a empresa crescer, se solidificar, para ter uma imagem reputacional cada vez melhor e sem dúvida atender um mercado muito maior”.

Para pequenos e médios empreendedores que não têm os recursos ou estruturas das grandes empresas para implantar estratégias de inclusão, talvez uma ótima saída seja a observação. Assim como no início deste texto, chamei atenção para o fato de ao olharmos para os lados não enxergarmos pessoas com deficiência nos ambientes que frequentamos, é preciso ajustar nosso foco e  buscar essas pessoas. Sempre que deparar com uma delas em especial no contato com o seu negócio, faça questão de conversar e ouvir suas demandas. Uma grande oportunidade pode estar surgindo naquele instante:

“Você tem uma pessoa com deficiência comprando com você: já busca saber com ela o que que está achando do atendimento, o que precisa melhorar, o que não precisa, porque, às vezes, é uma medida simples, de baixo custo, que vai resolver um problema enorme, vai tirar uma barreira enorme da vida dessa pessoa, e vai trazer benefícios para empresa”.

Assista à entrevista completa com Stefano Máximo no Mundo Corportivo ESG:

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: Maurício Adade, da DSM, diz como investimento em nutrição tem reduzido impacto ambiental na pecuária

 

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“Não existe espaço hoje para nenhuma corporação se esconder atrás de vitrines de sustentabilidade. Tem que atuar. E sustentabilidade é um ótimo negócio”.

Maurício Adade, DSM

O segundo e o mais danoso gás emitido no Brasil é o metano. Boa parte — enorme parte — é emitida pelo arroto do boi. Cerca de 72% das emissões de metano vêm da agropecuária, segundo dados do Sistema de Estimativa de Emissões de Remoções de Gases de Efeito Estufa. Se há um desafio para o Brasil alcançar as metas que assumiu na Conferência do Clima (COP-26), eis aí um dos maiores: reduzir a emissão de metano no campo, especialmente pela importância deste setor na economia.

Uma das soluções é o investimento na ciência, na pesquisa. E a nossa conversa no Mundo Corporativo ESG traz um pedaço dessa história que está sendo construída. Entrevistamos Maurício Adade, presidente da DSM América Latina, uma empresa global que surgiu há 150 anos e, atualmente, trabalha com nutrição humana e animal ou, como a própria se define, uma empresa de saúde, nutrição e biociência:

“Nós somos os maiores produtores, por exemplo, de vitaminas do mundo isso faz com que a gente atue no campo de nutrição animal e humana com ingredientes e soluções para os nossos parceiros estratégicos, parceiros comerciais  … e temos um negócio também que está relacionado com cosméticos”.

A marca DSM é pouco conhecida do público em geral. Não está na gôndola do supermercado nem na plataforma de comércio eletrônico. Mas está na margarina da mesa do café da manhã, no omelete e no cafezinho de cada dia. É, também, uma das líderes mundiais no fornecimento de vitaminas para a indústria de cuidados pessoais e cosméticos, estando entre as  principais indústrias em princípios ativos para emulsificantes, filtros UV e cuidado com a pele.

Dito isso, voltemos ao arroto do boi, que abriu a nossa conversa. De acordo com Maurício Adade, a DSM criou um aditivo para ração de vacas, ovelhas e cabras, com o qual é possível reduzir as emissões de metano. O cálculo que Adade faz é que se essa solução alimentar um milhão de animais seria o equivalente a plantar 45 milhões de árvores.

“Em setembro do ano passado, para orgulho nosso, o Brasil foi o primeiro país a registrar essa solução que chama Bovaer, uma solução que reduz pelo menos em 30% do gás metano em gado de leite e no gado de corte chegamos até 90% de redução de emissão de gás metano. E é uma solução muito simples, totalmente segura, ela foi aprovada recentemente pela comissão europeia, agora em fevereiro, e é muito simples”.

Simplicidade é algo que Adade dá sinais de gostar muito. Em meio a entrevista, quando pedi para que ele nos oferecesse outros exemplos de ações relacionadas ao tema da sustentabilidade, o CEO disse o seguinte:

“Eu gosto de coisa simples, porque complexidade normalmente gera custo e algum tipo de problema”.

Deixo a frase aqui registrada como sugestão para quando você estiver falando com outras pessoas ou pensando em soluções na área em que atua: seja simples!

De volta a entrevista.

Além do desenvolvimento de produtos para parceiros de negócio, pautados pelo tripé ESG, a DSM também investe em economia de baixo carbono internamente. Por exemplo, toda vez que surge a ideia da criação de uma nova fábrica ou nova linha de produtos, inclui-se no cálculo a pegada de carbono, usando como preço básico da tonelada o valor de 150 euros. Segundo Adade, sugestões que aparentemente eram boas deixaram de ser consideradas porque a pegada de carbono era muito grande.

Outro parâmetro dentro da economia de baixo carbono: toda inovação proposta têm de ter pegada de carbono menor do que a da tecnologia que será substituída.

Na área da diversidade e inclusão, Adade destaca o programa de combate a desnutrição que se inicia em pequenas regiões do Paraná e próximo de Lima, no Peru. A DSM oferece transferência de tecnologia e conhecimento para pequenos e microfazendeiros, capacitando-os a produzir ovos, que são usados na alimentação própria e para a venda. 

“Nós já conseguimos produzir oito milhões de ovos e esses ovos têm sido consumidos. Estamos fazendo agora um estudo de impacto nutricional. O que isso tem representado nessas pequenas comunidades. E a nossa ambição é ter, quando esse piloto estiver realmente consolidado, uma diminuição de pelo menos uns 30% da desnutrição na América Latina”.

Assista à entrevista completa do Mundo Corporativo ESG com Maurício Adade, CEO da DSM na América Latina:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Débora Gonçalves.

Mundo Corporativo: para Roberto Lunardelli, da Fazenda da Mata, ESG se planta com ‘prosperidade compartilhada’

Foto: divulgação

“Esse é o nosso caminho, né? O nosso grande desejo é esse. É trilhar um novo capitalismo. Um capitalismo muito mais consciente que traz oportunidade para todos” 

Roberto Lunardelli, Fazenda da Mata

Você já ouviu falar em “quebra”? Certamente já, mas talvez não com esse conceito que vou tratar na abertura deste texto para explicar como têm de ser corajoso e idealista o pequeno produtor disposto a ter negócios sustentáveis em todas as dimensões. “Quebra” é como os grandes mercados chamam todos aqueles produtos que estão no estoque e não são vendidos, geralmente porque não estão dentro dos parâmetros considerados ideais, e pelos quais os fornecedores são ressarcidos por valores bem abaixo do negociado (descontos de cerca de 60%). A regra nem sempre é muito clara para o produtor, até porque sabe-se que, parte daquilo que foi considerado “quebra”, segue à venda na gôndola, e sem desconto para o cliente.

Foi contra medidas como essa que o pessoal do Fazenda da Mata decidiu se rebelar e se reinventar, focando outros mercados, especialmente lá fora, e não aceitando negociação a qualquer custo. Por pessoal, estamos nos referindo a Daniella e Roberto Lunardelli, casal fundador da fazenda dedicada a produtos orgânicos, que iniciou o projeto em terras que mantinham na região de Goiânia. No Mundo Corporativo ESG, entrevistamos Roberto que falou da inspiração que tiveram quando trocaram São Paulo por Goiás:

“Logo no início, planejamos a empresa em alguns alicerces básicos. Seria uma empresa que pudesse produzir alimentos íntegros — lógico, orgânicos — a preços acessíveis a todos. E para isso nós tivemos que fazer uma produção em grande escala e preços acessíveis com disponibilidade de produtos de alta qualidade o ano todo”

Dos 400 hectares de terras que tinham à disposição, metade é preservada; a outra é dedicada a plantação dos orgânicos. Para ampliar a capacidade de negócios, se aproximaram de agricultores familiares assentados da reforma agrária, o que abriu para estes a possibilidade de levar seus produtos ao exterior. Para garantir ao mercado que as práticas usadas estão de acordo com as regras internacionais de sustentabilidade, buscaram certificação no Sistema B, a partir de um processo, bastante complexo e minucioso, que identifica se a empresa tem modelo de negócio que visa o desenvolvimento social e ambiental de comunidades e trabalha em soluções para problemas climáticos e ambientais.  

Após a frustração com as negociações feitas com os grandes compradores do país, a Fazenda da Mata entendeu que o tema da sustentabilidade era muito mais desafiador e exigia decisões assertivas. Roberto recorreu, então, a experiência da época em que era executivo de terno e gravata, em terras paulistas, e atuava com comércio exterior para encontrar parceiros lá fora. Segundo ele, especialmente na Europa, no Canadá, nos Estados Unidos e na China, antes de negociarem preços, as empresas querem saber, por exemplo, qual o nível de desmatamento na sua área, quais são os impactos relacionados ao meio ambiente ou quais as ações sociais que você promove:

“Lógico que eles vão sempre buscar a comprar com preços competitivos. Lógico que eles sempre vão buscar a melhor qualidade possível. Essa questão é negocial. Eles não vão fugir disso, mas há uma preocupação muito mais alinhada com uma agenda ESG”.

Na mudança de estratégia, a Fazenda da Mata deixou de entregar orgânicos para 80 pontos de vendas em redes de varejo no Brasil. Hoje, existe um parceiro nacional, em uma rede de mercados que tem quatro lojas, em Brasília, todas abastecidas por um programa batizado Frutos da Mata, graças aquele acordo com os assentados:

“Nós trabalhamos num formato semelhante a cooperativa, onde há um equilíbrio de ganhos. Os assentados são os produtores e nós entramos com uma estrutura que faz toda a gestão comercial, financeira, contábil, logística, etc. É uma alegria enorme dar a oportunidade a esses assentados que produzem com uma qualidade espetacular; e nós conseguimos dar acesso a um mercado que, em outras condições, talvez eles não teriam”. 

Roberto diz que o resultado deste trabalho tem atraído o interesse de gestores no desenvolvimento de politicas públicas que permitam a ampliação dos negócios das famílias de pequenos agricultores, e está sintonizado com o lema da Fazenda: prosperidade compartilhada.

“Você faz negócios com empresas preocupadas com o meio ambiente, preocupadas com questões mais humanizadas, e isso te dá uma um retorno, uma satisfação maravilhosa de você saber que você tá lidando com pessoas que tenham uma preocupação com relação ao impacto ao legado que você vai deixar para o planeta”

Assista à entrevista completa com Roberto Lunadelli, da Fazenda da Mata, ao Mundo Corporativo ESG

Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Mundo Corporativo: pesquisa da Grant Thornton mostra que apenas 8% das empresas divulgam metas de ESG, segundo Adriana Moura

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“Não é mais uma questão de boas práticas, não é mais uma questão é desejável, é uma questão de sobrevivência. Precisamos todos nós fazermos as nossas partes enquanto pessoas, enquanto profissionais, e as empresas estão sendo desafiadas a ter uma maior responsabilidade corporativa”. 

Adriana Moura, Grant Thornton Brasil 

 

As empresas ainda não estão estruturadas para avançar em todos os pilares ESG nem para divulgar os dados de sustentabilidade de maneira a conquistar a confiança de investidores. Essa é uma das conclusões de auditores e consultores da Grant Thornton Brasil após estudo que avaliou as práticas e relatórios de sustentabilidade de 328 empresas de capital aberto. De acordo com a Adriana Moura, líder de governança, riscos e compliance da auditoria, a ideia foi analisar tanto a quantidade quanto a qualidade dos dados divulgados.

No Mundo Corporativo ESG, Adriana disse que pouco menos da metade das empresas pesquisadas divulgaram o relatório anual de sustentabilidade (48%), mas o  que mais chamou atenção foi o fato de apenas 8% desse material ter sido auditado ou revisado por entidades independentes.:

“Isso tem direta relação com a credibilidade que tem esses relatórios. Só para você ter uma ideia da importância dessa questão de credibilidade de uma auditoria por empresa independente: a CVM publicou uma resolução que, a partir deste ano, se as empresas optarem por utilizar um relatório integrado elas têm a obrigatoriedade de submeter esses relatórios a um auditor independente”.

No estudo, vê-se que os temas materiais são divulgados por 31% das empresas em seus relatórios ESG, porém apenas 8% informaram as metas relacionadas a esses temas, com destaque para setores de energia, transporte e saneamento. Diante disso, como saber se o caminho traçado pelas empresas está sendo percorrido na velocidade que planejaram?

“Esse é o questionamento que nós nos fazemos, quando a gente se debruça num resultado de um estudo onde as empresas afirmam o interesse e as iniciativas, publicam que existem iniciativas, que financiam essas iniciativas. Mas por outro lado não determinam metas claras e objetivas em relação as ODS. 35% da nossa amostra se compromete com um ou mais objetivo de desenvolvimento sustentável, porém a gente se questiona: sem as metas, sem as informações específicas, sem quais são os itens materiais, como essas empresas conseguem realmente aderir a esses objetivos, a essas ODS”.

A pauta “trabalho decente e crescimento econômico”  está no topo da lista dos objetivos de desenvolvimento sustentável propostas pela maioria das empresas que tiveram seus dados consultados pela Grant Thornton Brasil . Seguida de “ação contra mudança global do clima” (26%) e “indústria, inovação e infraestrutura”, (25%). 

“Estamos numa fase inicial, mas crescente. Acredito que se fizermos esse estudo no próximo ano, daqui a dois anos, os resultados serão bem diferentes no sentido positivo. Então, é um desafio de todos nós e, especialmente, de nós consultores e auditores que temos aí uma missão em em apoiar nossos clientes dessa jornada”. 

Assista ao Mundo Corporativo ESG com Adriana Moura, da Grant Thorton Brasil:

O Mundo Corporativo tem as participações de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Rafael Furugen e Priscila Gubiotti.

Mundo Corporativo: Leandro Melnick, da Even, diz como construir a ideia de sustentabilidade no canteiro de obras

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“Não é que a gente investe, a gente atua de forma sustentável, porque a gente entende que é o melhor formato. Não somos uma empresa muito preocupada com essa visão do quanto vai ser o retorno para cada projeto; nós olhamos de forma mais amplificada o resultado”

Leandro Melnick, Even

Mão de obra intensa, grande número de fornecedores e um volume considerável de resíduos são apenas alguns dos muitos desafios que o setor de incorporação e construção tem diante das demandas da pauta ESG. No caso de Leandro Melnick, entrevistado do Mundo Corporativo, uma peculiaridade se expressa nessa lista: equilibrar-se na governança de duas empresas que atuam no mesmo segmento e com participação mútua na sociedade. Leandro é CEO da Melnick, criada pelo pai dele, no Rio Grande do Sul, e da paulista Even, com quem fechou sociedade, em 2008. 

“Em um  mercado tão supervisionado e analisado, com vários bancos e entidades que cobrem as empresas de capital aberto, esse assunto tinha que ser muito transparente. Então, a gente foi exaustivo, fomos vigilantes no processo de transparência de relatórios, de comitês de apoio e de governança para dar segurança. E isso foi muito bem aceito por todos os stakeholders, o que deu muita tranquilidade para a empresa seguir o trabalho”.

Outra característica destacada por Leandro, que deve ser consideradas nas boas práticas de sustentabilidade, é o fato de as incorporadoras trabalharem com produtos de vida longa — conforme a qualidade, apartamentos e casas podem durar além dos 50 anos. Ou seja, não basta implantar sistemas que reduzam o consumo de energia ou o volume de resíduos durante a construção, é importante pensar na eficiência energética do ambiente, na arquitetura sustentável e no tipo de material a ser usado, entre outros aspectos.

A política de gestão de resíduos da Even promove o total aproveitamento da madeira que sobra nas obras, que é separada em contêineres  exclusivos, que são coletados por cooperativas, que limpam essa madeira e a fornecem para a indústria novamente para fazer, por exemplo, compensados. De acordo com o relatório de sustentabilidade da construtora e incorporadora, 98% dos resíduos gerados nas obras são reaproveitados de diversas formas. Desse total, 20% entram no ciclo da logística reversa, como é o caso da sucata  oriunda dos blocos de concreto e de cerâmica e das estruturas metálicas:

“Quando ela (a fornecedora do material) vai fazer o fornecimento de uma nova carga, ela traz para sua origem toda a sucata, todo o material que foi gerado por essa mesma industria “.

Leandro Melnick disse que ao longo dos dez anos em que essa estratégia está sendo usada, a Even conseguiu devolver ao mercado 46 toneladas de sucatas de resíduos metálicos, 100 toneladas de blocos de concreto, cinco toneladas da embalagem de papelão das cerâmicas e 15 toneladas de embalagens plásticas.

Na relação com os colaboradores, um dos objetivos é ampliar a diversidade de gênero em um setor com intensa mão de obra masculina.  Atualmente, no escritório e na gestão das obras, já existem 40% das vagas de escritório ocupadas por mulheres e 39% nas obras. Leandro destaca ainda os projetos na área da educação que oferecem ensino básico para todas as pessoas que trabalham no canteiro de obra; cursos técnicos, pelos quais já passaram cerca de 600 profissionais que começam como serventes; e a oportunidade de os colaboradores atuarem na área de voluntariado, onde aplicam o conhecimento desenvolvido dentro da empresa.

“Já temos a adesão de 26% dos nossos profissionais que participam em mutirões para reformar uma escola, para moradias populares e para dar aulas em entidades”.

Para Leandro, o investimento em ESG aumenta o engajamento dos funcionários que tendem a oferecer novas ideias para a evolução do tema no canteiro de obras e nas unidades habitacionais entregues. Uma consciência que é levada para além dos tapumes, construindo uma consciência coletiva que impactará de forma positiva as pessoas que esses colaboradores são capazes de alcançar.

Assista à entrevista completa com Leonardo Melnick, CEO da Even incorporadora e construtora, ao Mundo Corporativo ESG:

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas, no Canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN, aos domingos, às dez da noite e em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.