Cristo Redentor no RJ Foto: Oliver Schmid on Pexels.com
Uma pesquisa nacional com mais de 10 mil entrevistas reforça três forças que organizam a vida do brasileiro: família, fé e música. O tema foi analisado no comentário Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN, a partir de um estudo encomendado pela Globo à Quaest.
O levantamento, batizado de Brasil no Espelho, mostra como esses pilares influenciam decisões, expectativas e vínculos. Para 96% dos entrevistados, a família é a coisa mais importante da vida. O dado não apenas confirma uma percepção comum, como dá escala ao sentimento. Cecília Russo observa que “só constrói marca forte quem entende de gente” e lembra que, quando os números aparecem, “fica ainda mais claro” o peso da família nas relações e escolhas do dia a dia.
Esse centro familiar orienta sonhos e comportamentos. O maior desejo declarado é ver a família feliz. No campo das marcas, a consequência é direta: ignorar esse valor custa caro. “Qualquer marca que fira o sentido de família tem altas chances de ser descartada”, afirma Cecília. Não se trata de romantizar, mas de reconhecer um vetor real de decisão.
Ao lado da família, a fé aparece com força semelhante. Também para 96% dos brasileiros, Deus está no comando da vida; mais de 80% dizem ter fé em algo. A religiosidade ajuda a explicar a positividade apontada pela pesquisa e pede cautela na comunicação. Jaime Troiano reforça que “no campo da fé, as marcas precisam de muito respeito”, sem uso oportunista, traduzindo crença em mensagens de confiança e futuro.
O terceiro pilar é a música. Quase a totalidade da população ouve música, com preferência majoritária pela produção nacional. Aqui, identidade fala alto. “No Brasil, música não é fundo, é protagonismo”, diz Jaime. Quando marcas escolhem trilhas, artistas e ritmos com atenção ao território, comunicam pertencimento: “estão dizendo ‘eu entendo quem você é’”.
Da análise emerge um recado simples e exigente. Marcas não podem ser apenas funcionais; precisam ser simbólicas. “Marcas que entendem o brasileiro não vendem apenas produtos, vendem proteção, cuidado, esperança e pertencimento”, resume Jaime. Por isso cenas de mesa cheia, riso solto e pequenas celebrações funcionam: vendem o que está no coração.
A marca do Sua Marca
Entender pessoas vem antes de vender produtos. O comentário mostra que estratégias eficazes partem do reconhecimento de valores centrais — família, fé e música — tratados com respeito e coerência.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
“Onde há devoção à música, Deus está sempre por perto
com sua presença generosa.”
Johann Sebastian Bach
Antes de iniciar o artigo propriamente dito, vou declarar um conflito de interesse. Sou absolutamente fascinado pela música de Bach desde quando minha memória musical pode alcançar. Ao mesmo tempo, considero-o um dos grandes mistérios da história: como pôde um humano ter feito o que ele fez, na primeira metade do século XVIII, com tanta dificuldade de acesso a informações? Apenas para ilustrar: Bach, com 20 anos, viajou cerca de 400 Km, a pé, de Arnstadt até Lübeck, para ouvir o organista Dietrich Buxtehude. O contato com os compositores italianos, como Vivaldi e Corelli, e franceses, como Couperin e Lully, veio um pouco depois, quando trabalhou na corte de Weimar. Na biblioteca musical da corte, teve acesso a manuscritos de obras desses e outros autores. Como não havia fotocopiadora, teve que transcrevê-las à mão para estudá-las.
Foi justamente o contraste do universo de Bach com o presente, marcado por um acesso quase ilimitado à informação e à escuta, além da facilidade inédita de cruzar estilos, épocas e linguagens e, paradoxalmente, conviver com uma sensação difusa de saturação criativa que gerou a inquietação que motivou este artigo. Mais do que um exercício de nostalgia ou de comparação ingênua entre passado e presente, trata-se de uma tentativa de refletir sobre o que distingue a mera acumulação de conhecimento da verdadeira criação, analisando o papel da intuição, do limite e da profundidade no processo criativo.
A música criada por Bach não rompeu com o passado. Ele absorveu um volume absurdo de informações musicais e o levou ao limite máximo de coerência, complexidade e universalidade. Nisso incluem-se influências de diversos compositores alemães, italianos e franceses, reorganizadas por ele com uma lógica inédita. Todos os elementos musicais já existentes como as tonalidades são explorados até o limite, e dentro de uma estrutura musical onde nenhuma nota é acidental, estando interligadas em uma lógica musical que transcende tudo o que até então havia sido produzido. Nessa lógica, com suas simetrias formais e elementos verdadeiramente matemáticos, a emoção deriva de uma ordem profunda, e não de soluções superficiais. As soluções musicais elaboradas por Bach deram origem a um campo inesgotável de investigação, atravessando séculos de estudos, análises e releituras, irradiando-se como fundamento da tradição ocidental. Bach foi a grande influência de compositores como Mozart, Haydn e Beethoven, além de todas as futuras gerações representantes da música ocidental estruturalmente elaborada.
Mesmo tendo investigado profundamente a música de sua época, Bach não foi apenas um “superprocessador” de estilos existentes. O seu cérebro foi capaz de absorver todo o passado musical, identificar estruturas profundas comuns entre linguagens distintas e reorganizá-las em um sistema muito maior do que o anterior. Ele não foi simplesmente a soma do que já havia; foi o multiplicador exponencial. Do ponto de vista cognitivo, fez muito mais que processamento; criou paradigmas. Não se restringiu a cruzar dados; criou hierarquias. Ele não apenas reconheceu e recombinou padrões. Decidiu quais eram fundamentais e como deveria organizá-los, para que se submetessem a uma lógica interna definida por ele. Podemos agrupar essas capacidades cognitivas dentro de uma função genérica, que aparentemente todos os humanos têm, em geral em pequeno grau, que é a intuição.
O conceito neurobiológico de intuição difere do senso comum. Intuição não é “insight”. Tampouco é uma forma ilógica ou preguiçosa de processar informações. Intuição é lidar com informações sem o uso da linguagem. É o que o cérebro sabe, mas não consegue explicar. Através da intuição nosso cérebro consegue extrair padrões a partir da experiência acumulada, sem inferir conscientemente como se deu o processo.
A neurociência tem identificado redes cerebrais que estão associadas ao processamento intuitivo. Um exemplo é a rede do modo padrão (default mode network) que integra várias regiões do cérebro e é importante para processar informações do passado, fazer simulações, pensamento abstrato e recombinações criativas. Outro circuito essencial no processamento intuitivo é a rede de saliência (salience network), que está envolvida na detecção de padrões relevantes e direcionamento da atenção, interrompendo o processamento automático. Uma área do cérebro importante para a intuição é o córtex pré-frontal, que é relacionado ao controle dos processos cognitivos. Curiosamente, a intuição está associada a menos ativação do córtex pré-frontal lateral e menos controle, permitindo ao cérebro quebrar padrões habituais, fazer associações remotas e encontrar soluções não lineares.
Outros circuitos têm sido associados à intuição, e o que reforça que essa é uma função cerebral peculiar é o fato desses circuitos não serem meros armazenadores de regras explícitas. Ao contrário, na intuição o cérebro reconhece estruturas profundas comuns a contextos diferentes, ignora detalhes superficiais e pode reorganizar sistemas inteiros. E, como isso exige integração global em várias camadas e não apenas uma otimização local, como ocorre na memorização simples, a intuição depende do envolvimento de grandes redes cerebrais.
Perguntei a uma ferramenta de inteligência artificial se seria possível, com os algoritmos modernos, construir modelos de processamento mental intuitivo semelhantes aos de Bach. Ela me respondeu que não, pois se hoje temos mais informação do que Bach jamais sonhou, os algoritmos apenas reconhecem padrões, recombinam estilos e atuam dentro de uma coerência local, em nível horizontal. A intuição de Bach lhe permitiu atuar em um nível vertical de abstração, criando hierarquias. Bach operava por sentidos e não meramente por correlações ou probabilidades.
A criação em Bach não foi apenas uma evolução linear do conhecimento, ele mudou as perguntas, e não apenas as respostas, redefinindo assim o que importava como música. Criar uma relação entre forma e conteúdo não surge automaticamente do cruzamento de dados, mas da capacidade de gerar novos sistemas simbólicos. As IAs não sentem relevância e não sabem quando um sistema precisa ser reinventado. Intuição está ligada a valor e significado, dimensões não pertencentes aos algoritmos. Curiosamente, o excesso de opções, que a infinitude de dados das IAs proporciona, atua contra a intuição, enquanto restrições favorecem a criatividade. Nesse sentido, vale destacar que Bach era um trabalhador contumaz, tinha regras rígidas e demandas semanais. A sua intuição era profundidade e não quantidade. Enquanto a IA amplia o território, Bach redefinia o mapa.
E o que falta à IA para dar esse “salto bachiano” rumo à intuição? Segundo essa mesma ferramenta, os algoritmos ainda precisam aprender a meta-criar os processos estéticos, e não apenas recombiná-los, ou seja, serem capazes de transformar o próprio sistema dentro do qual a criação acontece. Eles precisam aprender a reavaliar seus próprios objetivos musicais, decidir o que deve ser preservado e o que deve ser descartado. Para isso seria necessário operar com intenção simbólica e hierárquica, não só estatística.
Se os algoritmos são absurdamente eficientes para otimizar paradigmas pré-existentes, não são capazes de criar paradigmas novos. E o que torna ainda mais improvável esse “salto bachiano” é que o contexto que permitiu que esse fenômeno da música tenha existido no século XVIII, não existe mais. A tradução luterana, sendo a música parte da teologia, a prática semanal intensa (produção semanal de cantatas e oratórios), educação musical rigorosa e foco em profundidade são elementos estranhos aos nossos tempos.
Bach não fazia música para os homens, mas sendo uma pessoa de profunda fé, compunha uma música de grande profundidade para Deus. E aí talvez resida o grande abismo de paradigmas. A música, as artes e tudo que se produz hoje é feito para uma outra divindade: o mercado. Até a música religiosa é para vender, e vende bem! E para o mercado não há hierarquia ontológica, tudo são dados e estatísticas e não atos estético-filosóficos.
Se vivesse nos dias de hoje, Bach não precisaria viajar 400 Km a pé ou transcrever obras inteiras. Em poucos segundos daria a volta ao mundo e teria acesso a qualquer informação musical já arquivada. Talvez, para encontrar a música que ele buscava, teria que fazer uma outra viagem que a tecnologia não permite: uma viagem no tempo. Ouvir Dietrich Buxtehude improvisando ao órgão em uma igreja, no início do século XVIII, talvez não seja uma experiência alcançável com o Spotify. Digitalizar as partituras dos compositores italianos e franceses talvez nunca se equipare a transcrever, e sentir, cada nota copiada.
Bach, o seu Deus e a sua música residem no século XVIII. E, dentre as coisas boas que a tecnologia e o mercado nos permitem, está a possibilidade de olhar e sentir um pouco desse passado. Se isso não nos possibilita revivê-lo, pelo menos nos proporciona algum descanso para o nosso presente saturado, acelerado e encharcado de informação.
Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung.
São Paulo era minha musa de concreto: poesias, contos e letras de música, enchiam as páginas dos meus cadernos. O amor pela metrópole estava em cada palavra, mesmo quando a abordagem tinha conteúdo crítico.
Na década de 1990 haviam os mesmos problemas de hoje — trânsito intenso, poluição, … — mas sendo paulistana apaixonada, sempre relevei os defeitos da cidade que aprendi a amar desde pequena, ouvindo minha mãe dizer: “Saí do interior da Bahia para nunca mais voltar. Adoro esta cidade que me deu trabalho, casa e estabilidade”
Ao compor a letra de um chorinho, eu necessitava de alguém para musicá-la. Na época pré-virtual, a opção foi colocar anúncio em um jornal. Um compositor entrou em contato comigo e marcamos um encontro na região da Praça Roosevelt. Ele e seu violão levaram poucos minutos para transformar a letra em um belo chorinho. Mas nada ficou registrado ou gravado. O tempo passou, acabamos perdendo o contato e o choro se transformou em lembrança. A letra foi publicada em impressos variados e, hoje, compartilhada com os ouvintes da CBN:
Cinza Agonia
Corta min’alma lhe ver
deixar a calma se perder
por entre carros apressados,
prédios frios,
corações dilacerados.
Ardem meus olhos em seu centro,
talvez pela fumaça ou tormento
que dão vontade de chorar
e bem alto gritar
pois estão lhe transformando
dia a dia,
pintando o seu corpo de cinza agonia
e progredir até parece algo sem valia
Se por isso perde-se a poesia.
Corta minh’alma lhe ver…
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Anita Costa Prado é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
A criatividade está entre os maiores ativos e também os maiores riscos de uma marca. Quando bem dosada, ela alimenta inovação, diferenciação e conexão com o público. Mas, quando aplicada sem pertinência ou desalinhada da identidade, pode comprometer a credibilidade e até exigir um recuo doloroso, como já aconteceu com marcas de prestígio mundial. Esse foi o tema analisado por Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.
Cecília Russo destacou que a criatividade não deve ser gratuita, mas sim pertinente à estatura da empresa. Ela citou a fala de Gustavo Viana, diretor de marketing da Fisia, distribuidora oficial da Nike no Brasil: “Se uma ideia ou projeto não atinge essa barra de qualidade, simplesmente não avançamos. Isso garante que apenas o que realmente brilha siga em frente”. Para Cecília, esse princípio vale tanto para grandes organizações quanto para negócios de médio porte: “Marcas não aguentam desaforos”.
Jaime Troiano lembrou o caso da Jaguar, que em certo momento mudou radicalmente sua comunicação e acabou sendo forçada a voltar atrás. “O limite é aquilo que garante que a marca cresça na direção do que é sua identidade, no que se relaciona ao seu propósito. Fora disso, é pura falta de compromisso”, afirmou. Ele reforçou que ser criativo exige respeito pela empresa, pelas pessoas que nela trabalham e pelo público.
Lembre-se que os cães ladram
Para reforçar sua posição, Jaime citou uma frase atribuída a Truman Capote, escritor americano conhecido por obras como A Sangue Frio. A expressão “Os cães ladram e a caravana passa” tem origem árabe e chegou a Capote em uma conversa com o francês André Gide. Diante das críticas que recebia, o autor se mostrava incomodado, até que ouviu do colega a lembrança de que as vozes contrárias sempre existirão, mas não devem desviar o rumo de quem segue firme no seu caminho. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Troiano recuperou a citação para destacar que, no universo das marcas, críticas também fazem parte, mas o essencial é preservar a identidade e o propósito.
A marca do Sua Marca
A principal mensagem é clara: a criatividade é essencial para fortalecer as marcas, mas deve ser usada com responsabilidade, alinhada ao propósito e à identidade. Caso contrário, pode se tornar um risco de intoxicação em vez de alimento.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
A cassação de prêmios concedidos a uma campanha brasileira no Festival de Cannes deste ano acendeu um alerta sobre os limites éticos e a responsabilidade no uso da inteligência artificial na publicidade. A campanha da marca Consul perdeu o Grand Prix e um Leão de Bronze após denúncias e uma investigação da organização, que concluiu que conteúdos gerados por IA simularam eventos e resultados como se fossem reais.
Esse é o tema do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN. O episódio colocou em xeque não apenas a seriedade de uma peça publicitária, mas atingiu a imagem da publicidade brasileira como um todo. “De certa forma, quase que se confirma uma impressão que se tem de que é uma atividade criativa, mas abre mão de ser séria”, afirmou Cecília Russo. Ela também apontou o impacto na imagem do país: “Colocamos luz em traços da nossa identidade nacional que há anos tentamos afastar — de um país menos sério, não confiável”.
Jaime Troiano vê nessa crise uma possível inflexão positiva, ainda que provocada por um tropeço: “O trabalho ficou mais complexo, mas eu acho que vai ficar muito mais sólido, mais profissional”. Para ele, a partir de agora, os anunciantes estarão mais atentos aos cases enviados a festivais e à comunicação cotidiana, exigindo embasamento e idoneidade. Troiano destaca que a inteligência artificial não é o problema em si, mas sim o uso que se faz dela. “A inteligência humana é hoje mais do que nunca necessária. Esse é um grande alerta que a crise de Cannes acabou por estampar”.
A marca do Sua Marca
A mensagem central do comentário é clara: o uso ético da inteligência artificial é inegociável. A credibilidade da publicidade — e da marca — depende do compromisso humano com a verdade, com o caráter e com a responsabilidade profissional. Como resume Cecília Russo, “isso se tornou mandatório agora”.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
Quando eu tinha por volta de oito anos e começava a tocar violão, aprendi a música “Felicidade”, de Caetano Veloso, e uma frase grudou na minha cabeça: “o pensamento parece uma coisa à toa, mas como é que a gente voa quando começa a pensar.” Desde então, passei a pensar… sobre o próprio pensamento. Talvez isso tenha me levado à neurologia, afinal, o cérebro é o órgão que voa sem sair do lugar.
O que me fascinava? Primeiro, a capacidade de reconstruir o mundo. Dentro da cabeça, eu podia tirar qualquer acorde, inventar amigos imaginários e torcer por um time vitorioso, mesmo depois de 23 anos sem títulos. Segundo, o mistério de não enxergar o que os outros pensavam. Seria possível acessar o pensamento alheio?
A neurociência revelou que tudo começa com minúsculos pulsos elétricos atravessando neurônios, as células mais importantes do cérebro. Cada ideia corresponde a um padrão de ativação em circuitos integrados. Por exemplo, ao imaginarmos uma cachoeira, ativam-se rotas que combinam informações sonoras, visuais e táteis, permitindo “sentir”, “ver” e “ouvir” a água caindo. Sabemos disso graças a tecnologias que mostram quais áreas cerebrais “acendem” durante certas tarefas mentais.
No início dos anos 2000, um grupo coordenado pelo neurologista Marcus Raichle descreveu a rede em modo padrão — um conjunto de circuitos que são ativados quando não estamos focados no mundo externo. É o momento em que divagamos acordados, revisitamos memórias, imaginamos o futuro e tentamos adivinhar pensamentos e emoções dos outros. Embora se “apague” quando partimos para a ação, essa rede é essencial: ajuda a consolidar lembranças de longo prazo, ajustar emoções e planejar o amanhã. Pensamento, portanto, está longe de ser “coisa à toa”.
Mas isso explica o que é o pensamento? Ainda não. Sabemos que ideias dependem de eletricidade, mas não são como faíscas que viram lembranças, cheiros ou saudades. Quando a atividade elétrica cessa, na morte cerebral, a mente se apaga, o que mostra que pensamento precisa de energia. Porém, durante o sono profundo, o cérebro mantém uma elevada atividade elétrica, mesmo sem a consciência desperta. Como brinca a neurocientista e escritora Susan Greenfield, transformar corrente elétrica em pensamentos e sentimentos continua sendo “quase um milagre”.
No romance 1984, George Orwell inventou a Polícia do Pensamento, capaz de punir quem ousasse imaginar algo contrário ao regime. Se essa entidade é fruto da ficção, ela mostra que minha fascinação infantil com o pensamento não era um sentimento exclusivo, mas sim, uma ansiedade coletiva.
Ainda que as imagens de ressonância funcional detectem padrões cerebrais em diferentes categorias de tarefas mentais, estão a anos-luz de decifrar um pensamento específico. No máximo, revelam correlações genéricas, nada próximo da leitura de mentes. Felizmente, a polícia do pensamento segue sendo ficção: só acessamos o que alguém escolhe comunicar.
O pensamento é uma conquista evolutiva espetacular, pois permitiu ao ser humano traçar estratégias, criar arte, antecipar perigos e, no fim das contas, dominar o planeta. Esse poder, porém, tem um preço. Quando despejamos nossas ideias nas redes sociais, oferecemos pistas valiosas a algoritmos que aprendem, cruzam dados e detectam nossos desejos. É quase uma polícia do pensamento, só que movido a cliques, não a ameaças.
Se a polícia do pensamento é invenção literária, os algoritmos são muito reais. Talvez valha lembrar que nossa última fronteira de liberdade continua sendo o voo silencioso do pensamento: preserve-o, cultive-o e compartilhe apenas o que fizer sentido — afinal, a melhor parte de voar é escolher o destino.
Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung.
Quando São Paulo fazia 397 anos, em 1951, Adoniran Barbosa escrevia Saudosa Maloca. Muito tempo depois, foi marcante, ao comemorar meus 20 anos, arriscar-me a cantá-la num karaokê da Liberdade. Era 1985, e Sampa estava com 431 anos. Eu segurava o microfone com a responsabilidade que uma música clássica pede. Mas não imaginava do que falava a música. Curiosamente, quando a “terra da garoa” fez 460 anos, foi que o assunto veio à pauta: a maloca, a saudosa maloca, estava sendo demolida.
Não moro em uma cidade que olha para trás. Lá em 1951, éramos 2,6 milhões de pessoas. Os homens usavam chapéus e os tiravam para acenar em respeito ao funeral que passava. Quem era? O que empreendeu? Que missão teria cumprido neste seu tempo? É possível que se perguntassem em silêncio, enquanto o gesto gentil ainda se sustentava no ar. É o que ainda fazemos — não o gesto, claro, mas as perguntas. Só que nossa cidade não tem vocação para lamentar o que passou.
Seu Antenor nasceu quando São Paulo completava 391 anos — 1945. Sua casa é remanescente de uma incorporadora que lamenta não ter conseguido fechar negócio, e a casa antiga se sustenta espremida entre os muros altos de uma moderna torre de studios. Mas saiba que o Sr. Antenor não vende, contrariando a urgência dos filhos. Este aposentado com problemas de mobilidade crê não precisar de mais nada. Mantém o saudosismo da velha vila e a lembrança dos vizinhos que se foram. Era isso que eu ouvia dele em 2019. Sampa é uma cidade de muitas histórias.
Contudo, sei que, mais do que tudo, lá no fundo, o Sr. Antenor — e tantos outros — mantinha o desconforto de ter vindo do interior de Minas e de ter trabalhado na construção civil, lá nos anos 60, para essa mesma construtora que agora quer seu pequeno pedaço de chão. E foi justamente o rendimento deste trabalho que lhe permitiu comprar seu pequeno lote. Que ironia: hoje, os netos do seu antigo empregador querem que sua casa se transforme numa quadra de beach tennis e agregue valor. São Paulo é uma cidade que olha para cima.
Em 2025, São Paulo fez 471 anos, e eu acabo de me mudar para o vigésimo terceiro andar de um desses prédios que esmagou algumas das antigas casinhas. Me enche de orgulho enxergar tão, tão distante através da grande vidraça. É festa aos olhos observar o céu alaranjado no fim de tarde, contrastando com o fundo escuro das árvores no Ibirapuera. Quantos podem pagar por essa vista? A terra da garoa cobra caro.
Por mais incômodo que pareça, Adoniran falava disso: vamos colocar quem não pode pagar num lugar um pouco mais afastado. Foi esse o motivo da demolição da Saudosa Maloca — e é o motivo pelo qual ela continua sendo demolida até hoje. São Paulo sempre olha para o retorno do investimento futuro.
Quando São Paulo fez 420 anos, fui com meu pai conhecer o metrô, em sua inauguração. Era a promessa sendo cumprida para quem tivesse ido morar longe: o metrô traria com rapidez. São Paulo sempre tem pressa. São Paulo não é unanimidade: é feia para uns — para quem está nas periferias, principalmente. E é bonita para outros — para quem está nos bairros bacanas, principalmente. É a cidade que permite executar novos sonhos ao mesmo tempo em que asfalta suas antigas histórias. São Paulo não tem tempo a perder.
Tenho certeza de que, assim como eu, o Sr. João Rubinato amava de paixão esta cidade de muitas tradições e enormes contradições. Quem é João Rubinato? Sabe não? É o nome de batismo de Adoniran. Já o Sr. Antenor era Antenor mesmo, um vizinho que morreu de Covid. Seu imóvel é hoje uma quadra de beach tennis. Será que os filhos do Sr. Antenor estão mais felizes?
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Vinicius Moura é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Escreva seu texto agora e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
A CCR agora é MOTIVA. O novo nome da concessionária de rodovias foi anunciado em maio, e se soma a uma longa lista de empresas que decidiram rebatizar suas marcas. Mas o que está por trás desse tipo de mudança? Essa é a discussão central do comentário de Jaime Troiano e Cecília Russo no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, do Jornal da CBN.
Segundo Cecília, há diferentes razões para uma companhia adotar um novo nome. “Muitas delas mudam de nome porque querem expressar um novo momento da empresa, um redirecionamento de rota dos negócios. Querem se mostrar mais amplas do que eram antes”, observa. O novo nome pode simbolizar uma nova estratégia, uma nova fase ou uma tentativa de reconexão com o mercado. Em alguns casos, como ela destaca, “há aquelas que mudam para apagar o passado, reverter crises e o novo nome abre possibilidades para recomeçar”.
Jaime Troiano cita o caso emblemático da Odebrecht, que trocou o nome para Novonor após os escândalos revelados pela Lava Jato, mas que agora resgata a marca original. “Cá entre nós, não estamos vendo uma nova razão social. O que estamos vendo é um suposto renascimento do que, na verdade, nunca deixou de existir”, afirma. Ele lembra que, na época da mudança, alertou: “marca identifica, mas não é capaz de esconder, principalmente no mundo de hoje, com janelas digitais absolutamente transparentes”.
A marca do Sua Marca
A principal mensagem do comentário é que a troca de nome, embora muitas vezes necessária, não é suficiente para reposicionar uma marca. “O que você entrega e demonstra no dia a dia, até mais do que seu nome, é o que constrói seu significado no mercado”, resume Cecília. A identidade de uma empresa é feita mais pelas atitudes do que pelas palavras escritas na fachada.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.
“Sem a música, a vida seria um erro.” — Friedrich Nietzsche
Em uma caverna chamada Hohle Fels (tradução: “rocha oca”), no sul da Alemanha, arqueólogos descobriram os mais antigos instrumentos musicais conhecidos até hoje: flautas esculpidas em ossos de pássaros e em presas de mamute, datadas de cerca de 35 mil a 40 mil anos atrás. Esses instrumentos são uma evidência concreta de que os seres humanos já elaboravam música muito antes do surgimento da escrita ou da agricultura. A descoberta sugere que a música já ocupava um papel importante na vida social e cultural dos primeiros Homo sapiens na Europa, possivelmente ligada a rituais e vínculos comunitários. Postula-se que tais vínculos tenham representado uma vantagem evolutiva em relação a outras populações humanas, como os neandertais, que eram mais conservadores e demograficamente mais isolados em suas comunidades.
Apesar disso, a pergunta “por que os humanos fazem e ouvem música?” ainda não tem uma resposta definitiva ou consensual. No livro Como a Mente Funciona (How the Mind Works, 1997), o psicólogo cognitivo Steven Pinker propõe que a música não teria um valor adaptativo direto para a sobrevivência ou reprodução — como têm, por exemplo, a linguagem ou a visão, e a define como uma espécie de “sobremesa auditiva” (auditory cheesecake). Segundo Pinker, a música se aproveita de circuitos cerebrais que evoluíram para outras funções, como a percepção da linguagem, a detecção de padrões e a sensibilidade a ritmos motores, mas não teria surgido por pressão seletiva própria.
Ele compara o fenômeno à sobremesa: nossos cérebros não evoluíram especificamente para desejar cheesecakes, mas esses alimentos ativam intensamente os sistemas de recompensa por combinarem gordura e açúcar, elementos valorizados pela evolução. Da mesma forma, a música seria apenas um subproduto prazeroso — e não uma adaptação evolutiva em si.
Em contraste, outros cientistas destacam evidências de vantagens concretas associadas aos vínculos promovidos pela música. Experimentos mostram que cantar e tocar em grupo aumenta a cooperação e o desempenho coletivo. As interações musicais entre mães e bebês auxiliam na regulação da excitação, induzem o sono e fortalecem os vínculos emocionais, favorecendo o cuidado parental, essencial para a preservação da espécie.
Dona Olívia tem 87 anos e é portadora de Doença de Alzheimer. Ela quase não se comunica mais verbalmente, nem mesmo com a filha. No entanto, ao ouvir as músicas de Cartola, consegue cantar as letras na íntegra, lembrando-se delas com nitidez. A filha frequentemente se une a ela nesse repertório, que a Dona Alzira se lembra melhor do que ela, criando momentos de rara conexão. Neurologicamente, isso é possível porque as áreas cerebrais responsáveis pela memória musical são distintas daquelas ligadas à memória verbal e visual, e estão entre as últimas a serem afetadas pela doença. Isso explica a preservação da memória musical de longo prazo.
Além do evidente benefício para o humor da Dona Olívia, esses momentos são resgates emocionais profundos, como ecos do vínculo musical que a mãe estabelece com o bebê, desde a gestação.
Dona Olívia seria uma evidência de que Steven Pinker está enganado? Talvez. Ela é uma prova viva de que o cérebro reserva um espaço específico da sua memória para a música, e dificilmente esse espaço seria preservado para algo irrelevante. Pinker talvez alegasse que, embora significativa para o indivíduo, a música não seria determinante para a sobrevivência da espécie. Ainda assim, o exemplo da Dona Olívia desmonta ao menos a comparação que ele escolheu: por mais saboroso que seja, o cheesecake não dá sentido à vida e pode ser substituído por outros alimentos doces.
Há 40 mil anos, os humanos buscavam esse estímulo gustativo nas frutas que colhiam da natureza. Mas a música, essa nós inventamos e dela extraímos um pouco do sentido que nossa espécie encontra na existência. Afinal, como Dona Olívia nos mostra, sem a música, a vida seria um erro.
Renan Domingues é neurologista e Doutor pela Universidade de São Paulo (USP), com doutorado pela Universidade do Alabama em Birmingham, EUA e pós-doutorado pela Universidade de Lille, França. É músico e estudioso da neurociência da música. Escreve a convite do blog do Mílton Jung
Durante décadas, marcas brasileiras se moldaram pela lógica da cópia — de filmes publicitários a estratégias de posicionamento — numa tentativa de reproduzir modelos estrangeiros como se a receita funcionasse universalmente. Mas esse cenário começa a mudar. A apropriação legítima da cultura nacional tem ganhado espaço no universo do branding. É o que apontam Jaime Troiano e Cecília Russo no comentário desta semana do quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, no Jornal da CBN.
Jaime Troiano relembra um tempo em que era comum replicar campanhas internacionais, sob a falsa premissa de que o sucesso em um lugar lá fora garantiria o mesmo resultado no Brasil. “A sensação era de que tudo serve para tudo, e não é verdade”, afirma. Ele cita o economista Eduardo Giannetti para explicar a tensão entre o comportamento mimético — o que copia — e o profético — o que nasce das raízes culturais. E vê sinais de reequilíbrio: “Quando eu entro numa loja da Farm ou penso na Embraer, no Itaú, no Boticário, sinto um forte sopro de brasilidade”.
Cecília Russo acrescenta exemplos da valorização da identidade nacional no varejo, na gastronomia e nas expressões culturais. Menciona a marca Misci, que traduz no vestuário o ‘suco do Brasil’, e o caso do chocolate Dengo, que transforma o cacau brasileiro em símbolo de identidade e sofisticação. “A nossa cultura está invadindo o espaço do branding”, diz ela, reforçando que “as marcas se alimentam dessa mesma raiz e do sentido de orgulho que elas inspiram”.
A força dessa mudança está também nas figuras públicas que atuam como marcas vivas da cultura nacional — como Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Raíssa Leal, Rebeca Andrade, Isaquias Queiroz e Bia Haddad. “Essas pessoas são hoje expressões do Brasil que impactam o mundo e inspiram o fortalecimento de marcas com alma brasileira”, afirma Cecília.
A marca do Sua Marca
Marcas que mergulham na cultura brasileira e a celebram genuinamente constroem identidade sólida e alimentam o orgulho coletivo de ser brasileiro.
Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso
O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar aos sábados, logo após às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN. A apresentação é de Jaime Troiano e Cecília Russo.