Um minuto de silêncio

 

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Ocupar-me com o silêncio, por menor que seja o tempo que tiver para essa prática. Esse é o presente que quero me dar a partir deste Natal. Duvido de minha capacidade em atender-me — mas como duvidei da maior parte das coisas que fiz na minha vida, quem sabe mais uma vez não frustro minha expectativa.

 

Hoje ensaiei essa ideia e, confesso, foi muito,  muito difícil mesmo silenciar a mente com tantas vozes falando comigo.

 

Tinham os parentes — e ainda bem que estão em volta da gente —-, que contavam suas histórias, a maior parte já conhecida ou com fim previsível, mas necessárias para nos dar a noção de pertencimento. Pertencer a uma família me ajuda muito a sobreviver. Seria muito triste perder esse sentido. Uma tristeza que tem se construído aos poucos neste fim de ano, desde que percebi que uma das mais marcantes vozes da minha vida está se calando.

 

Aqui ao lado tinha outra família, que conversava na vizinhança, em um diálogo que não conseguia entender, mas também pouco me importava, pois estava ali cumprindo sua única função naquele momento: me azucrinar os ouvidos. Os vizinhos sempre parecem falar mais alto do que deviam e, desconfio, a culpa é da arquitetura de nossas casas e não necessariamente do mal comportamento deles.

 

O cachorro preso em um quintal qualquer da redondeza também faz seu barulho. É um latido seco, contínuo, interminável, irritante — até cair na monotonia e descobrirmos que já não somos mais capazes de distingui-lo em meio a todos os outros barulhos, apesar dele continuar presente.

 

Outras vozes se misturam na minha tentativa de ficar em silêncio —- vozes que se expressam em mensagens que insistem em acender a tela principal do meu celular. Já tirei o som das notificações, mas não tenho coragem de calá-las por definitivo. Bastaria desligar o aparelho. Abandoná-lo em um canto. Às vezes tento, mas quando vejo, lá está o celular novamente nas minhas mãos. Disfarço a mente jogando em uma frenética tentativa de chegar ao fim de um jogo sem fim. Dedilho uma série de informações e busco imagens sem parar. Jogo mais um pouco e se tento iniciar uma leitura, não consigo ir além de alguns parágrafos —- a tela pequena do celular cansa a vista, é a desculpa que me dou. Por que não trocar por um livro? Não dá, as mãos estão ocupadas no celular.

 

Nenhuma voz me incomoda mais do que a minha própria voz — que não se cansa, não cala nunca. Nem quando me ajoelho diante do altar. Ali, quero apenas ouvir a voz de Deus, mas insisto em falar com Ele. Agradeço, peço, me desculpo. E de repente me dou conta que tudo aquilo se transformou em um monólogo onde só minha voz está ecoando dentro da minha cabeça. E o que Deus tem a me dizer? Perdão, não consegui ouvir.

 

Às vezes, enquanto dirijo, penso em ficar quieto comigo mesmo. Desligo o som do rádio, deixo os vidros fechados e conduzo o carro acreditando que estou no piloto automático. Mas o simples fato de parar para pensar, me leva de volta ao barulho das muitas vozes que me envolvem — as minhas, as outras, as da consciência … putz … essas são as piores, pois nos fazem dialogar com os erros do passado, tentam reconstruir conversas que sequer temos certeza que ocorreram algum dia. E o que antes estava ressonando apenas na minha mente, escapa pela boca e torço para que ninguém mais próximo perceba essa loucura.

 

No exercício que fiz hoje, ficou evidente que a tarefa de silenciar não será tão simples assim. Acostumamo-nos aos barulhos internos e externos. Estamos sempre pescando uma voz, um pensamento, uma mensagem ou uma referência —- parece que se encontrarmos a ausência de som nos desligaremos por completo do ambiente em que vivemos e o medo de não saber onde estamos, me causa agonia.

 

Vou insistir neste desafio, mesmo que minha desconfiança fale mais alto. Vou tentar amanhã, depois, outro dia qualquer. Em casa, na Igreja, no carro ou onde eu estiver. Quero me dar o direito a ao menos um só minuto de silêncio. Em vida.

Sua Marca: lembre-se de presentear o seu cliente

 

 

“Esse longo processo (de compra) nem sempre é muito racional; o consumidor não tem essa matemática mental, as coisas vão acontecendo em uma sequência nem sempre muito lógica, obedecemos a impulsos de natureza emocional; então, consumidor, tome cuidado e não seja atraído pelo desejo de uma forma inesperada” — Jaime Troiano

 

As marcas têm forte influência nas escolhas que o consumidor faz, especialmente quando impulsionado por datas como o Natal — sem dúvida a mais importante do comércio no Brasil. O processo de compra se inicia pelo peso da própria marca da loja ou do shopping, o que justifica a série de promoções e prêmios oferecidos nesse período do ano, como forma de atrair as pessoas para o ponto de vendas. Já dentro do estabelecimento, novamente a marca tende a inspirar a decisão final.

 

Para conquistar o consumidor, o comércio costuma usar códigos visuais muito semelhantes que remetem ao Natal como as cores verde, vermelha e dourada, o pinheiro e os presépios, a neve e o Papai Noel. Diante disso, Jaime Troiano e Cecília Russo, sugerem que os gestores levem em consideração não apenas que sua loja ou produto estejam no Natal, mas, principalmente, mostrem como é o Natal da sua marca.

 

Alguns dos exemplos identificados ao longo do tempo, que foram lembrados no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:

 

A Coca-Cola é uma das maiores referências nessa estratégia, pois não bastasse ter sido, no passado, a inspiradora da imagem do Papai Noel, que hoje conhecemos, mais recentemente incluiu, em um cenário onde o padrão eram as renas, a imagem de um urso polar, transformado-o no personagem natalino que identifica a marca.

 

Aqui no Brasil, em anos anteriores, a Nestlé desenvolveu a ideia do Natal Sustentável com ações da marca de água São Lourenço em parceria com a prefeitura da cidade mineira.

 

Enquanto a KML promoveu no saguão do aeroporto de Schiphol, em Amsterdã, uma ceia coletiva para os passageiros, em evento que pode ser assistido no vídeo a seguir:

 

 

Para Jaime e Cecília, o que se aprende com esse exemplo é que, com o devido respeito que o Natal merece, essa pode ser uma boa oportunidade também das marcas darem em troca; presentearem pessoas com o mesmo espírito aberto do Natal – e ainda de quebra, reforçar sua promessa.

Conte Sua História de São Paulo: lembranças de Natal!

 

Por Miguel Chammas
Ouvinte da CBN

 

 

Estamos às vésperas do Natal. A festa em homenagem ao menino Jesus congrega corações, abraça almas fraternas, umedece faces com gotas de lágrimas que por elas rolam, alarga sorrisos de uma perene ou efêmera alegria. Eu, sorumbático no meu quase ostracismo, vejo as horas passarem e busco na lembrança, um tanto ou quanto esmaecida pelo passar dos anos, flashes de Natais anteriores.

 

Primeira lembrança que me vem à mente, eu evito permitir que ela se instale. Fecho os olhos na tentativa de esquecê-la e parece que meu intento tem êxito. Balanço a cabeça para reordenar os pensamentos e nova lembrança me ocorre, procuro não me distrair e a imagem se aproxima, vejo a velha casa da Rua Augusta, 291, em São Paulo, vejo nós, as crianças da casa (eu, meu irmão, meu primo e minha prima), eufóricos, ajudando minha mãe na ornamentação de um enorme pinheiro que meu pai havia trazido dias antes e replantado numa velha lata de óleo de 18 litros. Lógico que junto com a algazarra algumas broncas estão sendo proferidas por dona Thereza:

 

– Miguelzinho, para de cutucar a Sonia pra não derrubar a árvore;

 

– Carlinhos, olha o que você fez. Quebrou algumas das bolas mais bonitas. Acho que vou te colocar de castigo!

 

– Sonia, não liga para o Miguel e me ajuda com esta estrela;

 

– Robertinho, não vá pisar nos caquinhos e se machucar!

 

No meio de todo esse repertório de “pitos” vai surgindo, no canto da enorme sala, uma das mais bonitas árvores de Natal que eu tive o prazer de admirar.

 

Todos os dias era uma beleza poder acender as lampadinhas em forma de velinhas e admirar a obra prima.

 

Depois, então, na véspera do Natal, rezávamos e à meia noite, minha mãe e minhas tias serviam a ceia que esfomeados comíamos na companhia de um refrigerante para, depois, irmos dormir e esperar a manhã seguinte para descobrirmos nossos presentes e completarmos nossa felicidade.

 

Opa, a lembrança vai se desbotando em minha mente até sumir, ou melhor, dar lugar a outra memória natalina.

 

Agora eu estou mais velho, já tenho 18 anos, a casa é a mesma na Rua Augusta, reunidos na sala com minha mãe e minha tia Neide, estamos eu, o Nasca e meus amigos, Toninho, o Leite, Francisco “21”, Toninho Tssu, Sílvio, o Xiribi, Aluisio, o Tchê, e Benedito, o Baixinho. Estamos nos despedindo para, como dizíamos na época, fazer a Via Sacra, visitando a casa de cada um de nós e de alguns outros parentes e amigos, comendo alguma coisa e, lógico, bebendo boas talagadas do que nos fosse oferecido.

 

Despedimos-nos prometendo voltar um pouco antes da meia noite. Era o primeiro ano que faríamos a Via Sacra motorizados. O seu Modesto (pai do Leite) havia comprado um carro — Vanguard — e o Toninho já tinha tirado a carta de motorista. Saímos, visitamos a todos os programados, deixando por última visita a casa da Eurides, que morava na Rua da Consolação um pouco acima da Rua Dona Antonia de Queiroz, e consequentemente, bem próximo da minha casa que seria a última desse roteiro, onde cearíamos e depois jogaríamos a tômbola até o romper do sol.

 

Saímos da casa da Eurides, entramos no carro, dobramos a direita na Rua Dona Antonia de Queiroz e nos dirigimos à minha casa. Quando, depois de aguardar o semáforo mudar para o verde, entramos à esquerda na Rua Augusta, o insólito aconteceu. Um Volvo preto, dirigido por um motorista bastante embriagado nos abalroou na lateral e nos arremessou para cima da calçada. Depois de nos recompormos, verificando não haver nenhuma vítima, apenas danos materiais, partimos para cima do bebum e lhe desferimos alguns tapas e safanões.

 

Resumo da história, ficamos aguardando o sol nascer sem ceia e abraços da família e, só nos safamos, por que eu morava bem próximo a 4ª. Delegacia de Polícia e conhecia alguns policiais do plantão.

 

Noite de Natal inesquecível!

 

Epa! A primeira lembrança voltou a incomodar. Tento evitá-la novamente, em vão, ela toma conta dos meus pensamentos. Dia 25 de Dezembro de 1997, estou na casa da Roseli minha prima. Com toda a família, na sala estávamos comemorando desde a véspera. Eu tinha saído de casa, na Praia Grande, no dia 24 ,deixando por lá, minha mãe, meu irmão e meu sobrinho. Antes de sair, ao me despedir dela ouvi seu resmungado: “acho que eu não vou te ver de novo…”. Embora o comentário calar profundamente, para não demonstrar tristeza, me fiz bravo com ela e disse que não adiantava tentar chantagem emocional, eu iria voltar no dia 25 à noite e encontrá-la no mesmo lugar, me perturbando como sempre.

 

Já tínhamos almoçado e estávamos nos divertindo jogando partidas emocionantes de Caxetão. Ouço, então, o telefone tocar na sala. Não me importo. Minutos depois, olho para a porta da cozinha — estávamos jogando na mesa do quintal — e vejo a Cida minha esposa, meio escondida atrás da porta, tentando fazer sinais para o meu primo Durval. Senti uma inesperada inquietação e disse: Cida, não precisa se ocultar, foi minha mãe não foi? Ela, emocionada balançou a cabeça e confirmou: — o Carlinhos acabou de ligar dizendo que ela faleceu.

 

Levantei-me de imediato e me preparei para descer a serra. O Durval, vendo minha imediata decisão, se prontificou a levar-me, e assim, fui ao encontro do inevitável. Esta, que eu me lembre, foi a única vez que não cumpri o que havia prometido a Dona Thereza. Não voltei para encontrá-la viva para me perturbar.

 

Esta lembrança, que eu não queria descrever, eu revivo a cada dia 25 de Dezembro até a hora do futuro reencontro.

 

Miguel Chammas é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br

Sua Marca: falar e praticar branding depende de refletir e ler sobre branding

 

 

“Falar de branding e praticar branding depende também de refletir sobre branding e ler sobre branding” —- Jaime Troiano

 

Entusiasmados com a campanha “Dê um livro de Natal”, promovida por diversas livrarias e amantes dos livros, Jaime Troiano e Cecília Russo fizeram uma lista de boas leituras para quem pretende conhecer um pouco mais sobre o tema que tratamos todo sábado, no quadro Sua Marca Vai Ser Um Sucesso.

 

Vamos a lista:

 

Aaker on Branding — 20 princípios que decidem o sucesso das marcar”, de David Aaker

 

The Brand GAP. O abismo da Marca —- como construir a ponte entre a estratégia e o design”, de Marty Neumeier

 

A Lógica do consumo — verdades e mentiras sobre por que compramos”, de Martin Lindstron

 

Personal Branding — construindo sua marca pessoal”, de Arthur Bender

 

BrandIntelligence — construindo marcas que fortalecem empresas e movimentam a economia”, de Jaime Troiano.

 

As marcas no divã”, de Jaime Troiano (e-book para ser baixado de graça)

 

Aqui você também encontra a lista completa de 25 livros indicados por Jaime Troiano e Cecília Russo

 

“Ter a visão dos grandes autores e conhecer os casos que eles contam é fundamental” —- Cecília Russo

Saiba qual é a previsão dos “astros” para as vendas de Natal

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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Os economistas afirmam que a Economia é influenciada pelas expectativas. Pois, os agentes econômicos agem em função do futuro que preveem.

 

O Varejo brasileiro, que é um setor com um importante papel dentro da Economia, tem a previsão das vendas como a sua ferramenta mais estratégica. De forma que as suas expectativas precisam estar balizadas em sólidos indícios. E tais exigências se qualificam no Natal, quando se sabe que é a data mais importante do calendário anual de vendas para a maioria dos lojistas. Normalmente, o resultado obtido no Natal pode influenciar o desempenho do ano.

 

Cabe então preparar o Marketing Mix, ou seja, os Ps – produto, ponto, preço, pessoal, propaganda, processos, physical exp. dentro das técnicas tangíveis e submetê-las as intangíveis expectativas.

 

Diante dessas atribuições fomos buscar as premissas que nortearam as previsões de algumas entidades do setor para este Natal.

 

Pela CNC — Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, o volume de vendas deverá crescer 2,8%, e deverão ser contratados 124 mil trabalhadores temporários. Esse cálculo foi baseado na menor pressão inflacionária, na queda dos juros, na melhora do mercado de trabalho e no aumento das vendas. Os segmentos de supermercados, e de vestuário e calçados devem responder por 75% deste volume (Fonte: Governo do Brasil, com informações da CNC)

 

A FecomercioSP prevê um crescimento de 5% nas vendas de Natal, em São Paulo, com montante equivalente de R$ 70 bilhões, tornando-se o melhor dezembro desde 2008. Em função da melhoria dos principais indicadores ligados a renda, inflação e crédito. E, também, da maior quantidade de dinheiro do 13º salário, cujo acréscimo foi de 2,2% em termos reais, além da entrada de um novo governo.

 

Para a ABRASCE — Associação brasileira de Shopping Centers as vendas deste Natal deverão subir 8%. Fundamentalmente, pelos esforços na diversificação da atuação e da utilização da multicanalidade, possibilitando maior aproximação com os clientes. A ABRASCE destaca as categorias mais procuradas atualmente como vestuário, brinquedos, calçados, telefonia e perfumaria. Gerando um valor médio de venda entre R$ 200,00 e R$ 300,00 (Fonte: Reuters)

 

A ALSHOP — Associação de Lojistas de Shopping Centers, através de seu Diretor Luís Augusto Ildefonso da Silva, informou que devido ao ritmo ainda lento das vendas, não achou conveniente formular neste momento o parâmetro ideal para projetar as vendas de Natal.

 

Tudo indica que a concentração dos últimos dias de compras mais uma vez se acentuará, e exigirá uma expertise extra do setor para assimilar o congestionamento.

 

Boas compras e boas vendas a todos!

 

Carlos Magno Gibrail, Consultor e autor do livro “Arquitetura do Varejo”, é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

Conte Sua História de São Paulo: a boneca de Natal que mamãe nos deu de presente

 


Por Edithe Martha Peukert
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1927, minha mãe Melida, com 14 anos, veio com a família dela da cidade de Lodz, na Polônia, a bordo do navio Belle Isle. Desceram em Santos e vieram para capital. Meu avô tinha a carta do filho mais velho, Edmundo, que havia chegado há algum tempo. O endereço na carta era do jornal Alemão, na Liberto Badaró. Como era domingo, chegaram lá e encontraram tudo fechado. Meu avô e minha avó conversavam em alemão sem saber o que fazer quando um homem, que também falava alemão, parou, perguntou o que acontecia e disse que os ajudaria : levaria todos para uma casa, no bairro do Cambuci, e depois sairia para descobrir onde encontrar Edmundo, o filho do meu avô que trabalhava em um restaurante da cidade.

 

Incrível, mas após alguma andança pela cidade, encontraram Edmundo. Lógico que todos ficaram muito felizes. Meu tio arrumou um emprego de babá para a minha mãe, na avenida Paulista, e para minha tia, na Alameda Casa Branca, de onde só podiam sair duas vezes por semana.

 

Meu avô, minha avó e meu outro tio, Paulo, foram para Cananéia tentar a vida. Acabaram todos voltando para a capital, onde meu avô comprou um terreno na Vicente Leporace, antiga rua Santa Rita, no Campo Belo. O quartinho de tijolo assentado em barro que construíram, conta minha mãe, tinham paredes que balançavam com o vento. Meus avós rezavam e seguravam as paredes para não caírem. Naquela época o bairro pertencia a Santo Amaro que era um município independente e depois foi anexado a Capital que praticamente terminava na Vila Mariana. E o terreno do meu avó, pela distância, era considerado fim do mundo.

 

Minha mãe se casou, em 1939 com meu pai Alfred Uebele.

 

Meu pai era lustrador de móveis finos e trabalhou na Fábrica de Móveis Foltas, na Oscar Freire, que depois mudou para o bairro do Morumbi. Ao se aposentar continuou trabalhando para um vizinho que também tinha uma pequena fábrica de móveis.

 

Minha mãe trabalhou como costureira na Rua Prates, próximo a Praça da Luz, até a gravidez da minha irmã. Quando éramos pequenos trabalhou em casa como costureira, costurando 36 camisas sociais para homens, por dia, em uma máquina Singer que ela comprou em prestações quando tinha 18 anos. Depois trabalhou com grampos de cabelo, costurando blusas de lã, sempre ajudando meu pai que lhe entregava todo o dinheiro, pois ele sempre dizia que ela sabia como administrá-lo bem.

 

Hoje tenho ótimas lembranças da vida que passamos juntos.

 

Os Natais foram inesquecíveis, sempre com árvores em cipreste natural, mais ou menos dois metros e meio de altura, cheia de bolinhas de cristal coloridas, que na época eram importadas da Alemanha. Tinham velinhas acesas. Tudo muito lindo e festivo. Não havia presentes caros e todos eram recebidos com muita alegria.

 

Houve uma época que eu e minha irmã pedimos uma “noiva”, um tipo de boneca, mas eles não tinham como comprar. Então, minha mãe, pegou as nossa bonecas de pano com cabeça de bebê de “biscuit” e as escondeu. Quando perguntávamos onde estavam nossas bonecas, ela respondia que a culpa era nossa, pois não sabíamos guardar nossos brinquedos: “não sabem onde colocam suas bonecas, depois ficam aí procurando, perdidas!”.

 

Naquele Natal, para nossa surpresa, veio o Papai Noel e ganhamos as nossas bonecas noivas. Minha mãe que era uma ótima costureira fez vestidos lindos para as nossas bonecas, aquelas com cabeça de bebê que ela havia escondido.

 

Ainda éramos crianças, quando meu tio Paulo deu de presente uma só bicicleta para mim e para minha irmã. Não tinha dinheiro para duas bicicletas. Aí decidimos: uma anda de manhã, a outra de tarde. Até minha mãe pedalou naquela bicicleta.

 

Meus pais sempre gostaram de viver no Brasil e em especial em São Paulo, sempre disseram que esta terra é abençoada. Se fizéssemos alguma crítica, eles lembravam a dificuldade que passaram durante e depois da 1ª guerra na Europa. Nunca falaram em voltar para a Polônia.

 


Edithe Martha Peukert é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: o Natal das luzes piscantes

 

Nesta véspera de Natal, o Conte Sua História de São Paulo vai buscar, em 2009, texto escrito pelo ouvinte-internauta Sergio Bragatte, que você acompanha agora:

 

 

Outro dia cheguei a seguinte conclusão: sou um velho carcomido pelo tempo. Sou daquele tipo que ainda gosta, e preserva o sentimento de gostar, daquilo que está em desuso como escrever sobre o Natal.

 

Distante das agruras de adulto, lembro-me criança quando ansiava acontecimentos mágicos de modo a mudar a realidade de menino da periferia sem escola, sem quadra de futebol, sem água encanada, sem luz, sem asfalto. Abundante, só a violência.

 

Lembro-me das brincadeiras, nas quais encarnávamos os super heróis: ora éramos o Super-Homem, ora éramos o Homem-Aranha, o Homem de Ferro, Zorro, Cisco-kid …

 

Lembro-me dos amigos crianças, das travessuras, dos maus feitos, das peças pregadas nos mais velhos, dos trabalhos esporádicos, para se conseguir uns trocados, das brigas.

 

No entanto, sempre foi o NATAL que afugentava meus medos da infância pobre e permitia sonhar e superar problemas que imaginávamos serem insuperáveis.

 

Conta-nos a Bíblia que, tempos atrás, em uma cidade do oriente, chamada Belém, reluziu uma estrela quando nasceu um menino chamado Jesus. Vindos da Babilônia, três reis magos, três amigos, a seguiram até chegar a um curral, onde, em uma manjedoura presentearam um menino.

 

Foi o reencontro da criança com a amizade.

 

Nessa simbologia, concluímos que é a amizade que nos conduz àquela criança.

 

É o Natal que me deixa com saudades de Deus, de saudades do tempo em que estávamos mais perto Dele. De quando éramos criança. Daí o sentimento de querer acordar na manhã de 25 de dezembro e encontrar, nos sapatos, um símbolo de afeto.

 

Ainda hoje ao ver o piscar de luzes sinto-me remetido àquela infância dos super heróis; como se afagasse a criança dentro de mim, como se me conduzisse por um leito seguro até o encontro do Salvador.

 

“E agora, José?”

 

Agora, cabe a nós mudar o Natal e a nós próprios. Procurar a estrela em nossas inquietações mais profundas. Descobrir a presença de ambos os Meninos em nosso coração.

 

E, como nos conta a Bíblia, ousar renascer em gestos de carinho e justiça, solidariedade e alegria.

 

Fazer-se presente lá onde reina a ausência: de afeto, de saúde, de liberdade, de direitos.

 

Dobrar os joelhos junto da manjedoura que abriga tantos excluídos, imagens vivas do Menino de Belém.

 

Viver o Natal das luzes piscando, que marcou o “tempo” de nossa infância, quando tudo podíamos e nada podia contra a gente, afinal éramos os super-heróis.

 

Que sejamos todos felizes e tenhamos um bom NATAL.

 

O Conte Sua História de São Paulo vai ao ar aos sábados, às 10 e meia da manhã, no CBN SP. Envie seu texto ou arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung.

Os produtos desejados pelas mulheres

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

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As mulheres, como se sabe, são as grandes compradoras do mundo. Palpitam até mesmo nas compras masculinas. E, convenhamos, têm conhecimento e autoridade para tanto, pois são mais antenadas que os homens na diversidade comercial.

 

Por isso mesmo a quantidade de pesquisas sobre a preferência feminina é imensa. Continuadamente, vemos rankings sobre marcas, lojas, sites e blogs que mais agradam as mulheres.

 

Entretanto, no setor de moda onde predominam de forma absoluta, há estudos e pesquisas de segmentos e marcas, mas poucas informações sobre desejos femininos de produtos específicos. O que seria uma grande ajuda para os agentes econômicos desta área, inclusive para os próprios consumidores.  Principalmente nesta véspera de Natal para escolha dos presentes femininos.

 

Contribuição que pretendo apresentar, em função de anos de pesquisa qualitativa nos setores de vestuário, acessórios e sapatos.

 

A roupa é considerada pelas mulheres como preponderante. Tanto é que unanimemente dizem:

 

“Ao acordar, por melhor que tenha sido a noite, a primeira coisa que penso é na roupa que vou usar”. 

 

Os acessórios – joias, semi-joias e bijuterias – contribuem bastante para a autoestima feminina, mas o brinco é o destaque:

 

“O brinco é peça fundamental. Já me esqueci de colocar a calcinha e não voltei, mas voltei quando me esqueci do brinco”. 

 

Os sapatos atuam emocionalmente na consumidora, que os compra preenchendo os desejos de posse e paixão. É o estímulo ao prazer e ao poder.

 

“O sapato é paixão. O salto alto remete a poder e sexo.”

 

“Com salto alto me sinto poderosa e atraente”.

 

Depois de tantas pesquisas, chegamos finalmente a uma simples realidade:

 

A roupa é preponderante, o brinco é a peça mais importante e o sapato é o produto mais apaixonante.

 

Agora é só escolher em que área dos sentimentos e desejos atuar na compra para a mulher a ser presenteada. Atente apenas para o estilo dela, e se não entender do assunto, peça auxílio a outra mulher.

 

Elas entendem!

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras.

 

Obs. As pesquisas que serviram como base ao texto foram realizadas nos últimos seis anos, com a metodologia padrão das qualitativas. As frases inseridas foram tiradas destes trabalhos.

Acertos e erros na estratégia dos shoppings de luxo neste Natal

 

Por Ricardo Ojeda Marins

 

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Então, é Natal!

 

Muitos esquecem o verdadeiro significado da data e, independentemente da religião de cada um, é notável como o consumo é palavra-chave para boa parte de nós.

 

E por falar em consumo, já que aqui no Blog do Mílton Jung escrevemos sobre o mercado do luxo, inevitável não observar e analisar as políticas de promoções dos principais shoppings de luxo, em São Paulo. Ressalte-se que promoção, neste caso, não significa desconto ou liquidação e, sim, as estratégias para incentivar a venda.

 

Tem sido comum durante décadas, os shoppings, independentemente do segmento econômico em que atuam, promoverem sorteios de carros de luxo, como BMW e Mercedes-Benz. Este ano, a estratégia foi mantida apenas pelos shoppings do mercado de massa e premium; os de luxo preferiram caminhos diferentes.

 

Visitei os principais shoppings de luxo, na capital paulista, e me chamou atenção a promoção realizada pelo Cidade Jardim, na Marginal Pinheiros, zona Oeste, que ofereceu aos seus clientes um cupom, para cada R$850,00 em compras, que lhes dava o direito a concorrer a uma viagem para a Suíça – estratégia bastante coerente com o mercado do luxo contemporâneo, no qual o consumidor busca cada vez mais experiências diferentes do que simplesmente produtos. Viagens como essa têm enorme potencial para se tornarem inesquecíveis e gerar momentos incríveis na vida de cada um.

 

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Na mesma região de São Paulo, outros dois shoppings de luxo, Iguatemi e JK Iguatemi,deixaram os sorteios de lado. Investiram na promoção “compre e ganhe”, na qual o cliente deveria gastar R$650,00 em compras e de prêmio teria o direito a dois panettones, no JK; e R$ 850,00 para ter direito a um panettone com um pote de Nutella, no Iguatemi. Inacreditável, não?

 

A meu ver, ambas foram promoções incompatíveis com empresas que lidam com clientes de alto poder aquisitivo. Como sabemos, o comportamento do consumidor AAA varia muito e sua compra é geralmente ligada a aspectos emocionais. Raramente um cliente nesta categoria se motivaria a consumir por conta de um sorteio qualquer ou de pequenos presentes.

 

Será que os shoppings não se esqueceram que parte de seus frequentadores é composta por clientes aspiracionais? Ou seja, são pessoas que talvez não consumam frequentemente em lojas de alto luxo, mas, sim, ocasionalmente, e pudessem ser motivadas a comprar mais neste período de Natal se houvesse uma promoção inspiradora.

 

Um shopping de luxo não pode querer atrair e manter fiéis seus clientes fazendo este tipo de oferta. Chega a ser patético o consumidor, depois de ter desembolsado R$ 850,00, ficar horas numa fila para ganhar panettone, por mais saboroso que este seja.

 

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Bem verdade que bastaram alguns dias de promoção para o estoque de brindes “prometidos” ter se esgotado, o que nos remete a outra situação constrangedora: depois de clientes na fila do panettone, assistimos a clientes na fila de espera do panettone.

 

Sou admirador de ambos os shoppings, mas não há como negar o meu desapontamento.

 

Onde o Shopping Iguatemi não deixou a desejar foi na decoração (como você pode ver na imagem que abre este post), o que aliás já é uma tradição do empreendimento. Desta vez, foi assinada por Jeff Leatham, um dos melhores floristas do mundo e diretor artístico do luxuoso hotel Four Seasons George V, em Paris – impecável e de extremo bom gosto.

 

Consumo, erros e acertos à parte, não esqueça:

 

É Natal! Seja feliz!

 

Ricardo Ojeda Marins é Coach de Vida e Carreira, especialista em Gestão do Luxo pela FAAP, Administrador de Empresas pela FMU-SP e possui MBA em Marketing pela PUC-SP. É também autor do Blog Infinite Luxury e escreve às sextas-feiras no Blog do Mílton Jung.

Conte Sua História de São Paulo: a primeira pizzaria da cidade

 

Por Elmira Pasquini

 

 

Nasci no Paraíso, em Janeiro  de 1927. Com  10 meses, meus pais mudaram para Itaquera, subúrbio da cidade de São Paulo, a apenas 45 minutos de trem. Naquele tempo, um lugar lindo e gostoso  de se viver.   As ruas eram de terra, não havia luz elétrica nem água encanada. Nossa água de poço era uma delícia, pura, leve e sempre geladinha, muito bem cuidada por papai que era caprichoso em tudo que fazia.  Nossa chácara era à esquerda  da ladeira que saía da estação do trem e terminava no alto onde havia uma igreja católica. Ficava no centro da segunda grande quadra,  sem vizinhos em volta, Tinha um belo jardim, uma gostosa casa, quintal todo cultivado, com horta, pomar e um grande galinheiro, onde até peru tínhamos. Havia muitas chácaras  espalhadas  e uma grande colônia de japoneses, que cultivavam e ainda cultivam flores.

 

Para irmos a cidade dependíamos da Maria Fumaça que descia a ladeira chegando de São Paulo, apitando lá em cima do morro: PIiiiiiiiiiiiiiiiiiiii  … anunciando que estava  pronta com seus vagões para deixar ou pegar passageiros na estação. Quando subia a pequena mas íngreme ladeira puxando o comboio, ia gemendo: “muito peso, pouca força, muito peso pouca força”… e mais lenha na caldeira era colocada.

 

Quando crianças, nossas idas à cidade eram raras, porém anualmente,  uma delas sempre foi marcante. Era na semana entre Natal e Ano Novo. Era um passeio muito aguardado. Papai trabalhava no jornal ” As Folhas” onde, após 36 anos, se aposentou. Quando o bonde que nos trazia da estação do Norte chegava no ponto final, papai já nos aguardava ao lado do relógio da Praça da Sé. Meus dois irmãos e eu vestidos para a ocasião especial, felizes ao lado de mamãe, o procuramos. Ele sempre estava lá, sempre elegante, feliz e sorridente. Por toda nossa vida, isso sempre nos deu muita segurança.
Toda essa expectativa era para, em família, saborearmos uma bela pizza na famosa Cantina do Papai, que era a primeira e única pizzaria de São Paulo na época. Nos acomodávamos, observando tudo ao nosso redor. Pessoas chegavam, saiam e o ambiente era sempre agradável.  Pizza só havia de mussarela,  com ou sem aliche. Estas eram um pouco maiores do que as grandes pizzas de hoje. Papai sempre pedia meio a meio. Era tão saborosa… Para beber, só havia Guaraná e Soda Limonada.

 

Era tão bom ver a família reunida, alegre e feliz. Saboreávamos sem pressa, pois sabíamos que papai voltaria no trem para casa conosco. A festa era completa por tê-lo conosco. Aliás, ele e  mamãe eram lindos e seus rostos transmitiam muita paz.