Como ficam nossos neurônios-espelho e a empatia se interagimos apenas com telas de celular

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicolog

 

Cena do filme “O Enigma de Kaspar Hauser”

 

O filme “O Enigma de Kaspar Hauser” (1974), do diretor alemão Werner Herzog, narra a história de um adolescente encarcerado até a idade de 16 anos, quando teve seu primeiro contato verbal e social. Nos dois anos seguintes, com a ajuda de uma família e de um padre, ele consegue ampliar o seu vocabulário, mas nunca desenvolveu a competência linguística de maneira plena. Aprendeu algumas atividades como tricô e jardinagem, mas não adquiriu a compreensão de regras e convenções da época, especialmente sociais e religiosas, permanecendo com habilidades sociais muito prejudicadas.

De lendas a casos reais bem documentados, crianças que passaram por privação de contato social, chamadas de crianças selvagens, em geral apresentam dificuldades na aquisição de algumas habilidades ou aptidões cognitivas, como a linguagem, apesar de todos os esforços e incentivos realizados. Isso mostra o impacto da privação social para o desenvolvimento humano. 

Diversos estudos têm sido realizados sobre a capacidade humana de aprender pela observação.

Albert Bandura, psicólogo canadense, realizou experiências nas quais crianças assistiam a vídeos de adultos que agrediam um boneco do tipo “João Bobo” e em seguida eram levadas para uma sala de brinquedos, onde também tinha o tal boneco. Nessa condição, 90% das crianças apresentavam as mesmas atitudes dos adultos em relação ao boneco, indicando que comportamentos podem ser aprendidos a partir da observação da ação realizada por outras pessoas.

Para Bandura, a aprendizagem por observação, ou aprendizagem social, acontece pela observação das pessoas com as quais convivemos, como pais, irmãos e amigos. 

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Em meados da década de 90, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolatti e sua equipe descobriram em cérebros de macacos Rhesus os neurônios responsáveis pela aprendizagem por imitação. Os cientistas descobriram nesses macacos a ativação de determinados neurônios durante a execução de uma ação e também quando observavam o experimentador realizar a ação. Daí a origem do termo neurônio-espelho.

Posteriormente, estudos utilizando ferramentas de neuroimagem, como ressonância magnética funcional, demonstraram a ativação de regiões do córtex cerebral em humanos durante a execução e/ou observação de ações  realizadas com a mão, a boca ou os pés. Semelhante aos achados com animais, a observação da expressão facial de nojo em outra pessoa, irá ativar regiões específicas do cérebro que também serão ativadas quando a própria pessoa sentir nojo.

Os neurônios-espelho estão envolvidos na compreensão da base biológica de algumas habilidades mentais, sugerindo sua contribuição na origem da linguagem humana e no desenvolvimento de funções importantes como imitação, aprendizado e habilidades de relacionamento interpessoal, como a empatia.

Em tempos de isolamento social provocado pela pandemia e numa sociedade que permanece longos períodos diante das telas, a nossa capacidade de aprender pela imitação estaria comprometida? Isso poderia prejudicar as nossas habilidades sociais?

Artigo recentemente publicado no Globo (Neurônios-Gandhi’s, em 31-10-2020), destaca a preocupação da psicóloga Kimberly Quinn, professora do Champlain College, quanto à exposição de crianças e jovens à internet, como fator que poderia reduzir a aprendizagem por imitação. Além disso, a psicóloga manifesta sua preocupação quanto ao tempo excessivo de tela e a possibilidade disso nos transformar em robôs. 

Os avanços na tecnologia da comunicação têm reduzido as diferenças entre espaços de aprendizagem virtual e presencial. Entretanto, diversos estudos envolvendo aprendizagem e realidade virtual têm demonstrado que apesar das conquistas tecnológicas, existem prejuízos no processamento de informações comunicativas, tanto gestuais quanto linguísticas, com redução de aprendizado baseado nas telas em comparação com as interações ao vivo, especialmente em crianças pequenas.

Ainda permanecem muitas questões sem respostas relacionadas à aprendizagem social, comunicação e mecanismos envolvendo neurônios-espelho em situações cada vez mais virtuais; porém, o isolamento social provocado pela pandemia é completamente diferente da privação social vivenciada pelas crianças selvagens. 

Talvez o excesso de tecnologia nos aproxime de atitudes mais robotizadas. Não sabemos. Mas possivelmente se Kaspar Hauser tivesse um smartphone ao seu alcance, possivelmente teria desenvolvido mais habilidades humanas. 

Enquanto não temos respostas definitivas, o bom senso no uso das telas ainda deve prevalecer e as interações humanas, sempre que possíveis, são muito bem-vindas.

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Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung

Avalanche Tricolor: isso só pode ser coisa da nossa cabeça

 

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Brasileiro – Arena Grêmio

 

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Wallace Oliveira em foto de RODRIGO RODRIGUES/GRÊMIOFBPA

 

O cérebro é uma máquina genial e ao mesmo tempo complexa que sempre me fascinou. Usá-lo exige exige muito do corpo humano, pois consome 20% da energia que geramos, apesar de corresponder a apenas 2% do peso corporal total.

 

É uma falácia a ideia de que algumas pessoas usam somente uma pequena parte do cérebro. Isso é uma verdade que deve ficar apenas no campo da figuração, pois todos nossos atos exigem do cérebro um tremendo esforço. Por isso, ele é considerado um órgão preguiçoso, sempre em busca de um padrão para não se cansar muito com novos estímulos.

 

Um dos meus parceiros de negócio, nos trabalhos que realizo no desenvolvimento de líderes através da comunicação, é o psicólogo Esdras Vasconcelos que me ensinou, recentemente, que nosso cérebro tem a capacidade de refletir ações praticadas por outras pessoas. Esse fenômeno é provocado por pequenas estruturas batizadas de neurônios-espelhos, que entram em atividade quando se executa ou se observa uma ação.

 

Um dos exemplos que dr. Esdras usou para ilustrar o funcionamento dos neurônios-espelhos é a reação de torcedores nos estádios de futebol. O grito irritado de uma pessoa leva outra a agir da mesma maneira, mesmo que ela, em seu cotidiano, seja uma pessoa que não esteja acostumada a gritar daquela forma. É inconsciente.

 

Isso pode ocorrer também quando alguém mexe no cabelo diante de você, ou boceja, ou coça a orelha. Nossa tendência é reproduzir, mesmo sem pensar, o comportamento do outro. São os neurônios-espelhos atuando.

 

Você, caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche, deve estar se perguntando por que dedico mais da metade deste texto ao cérebro e seus neurônios-espelhos, quando se sabe que este espaço tem como foco principal o futebol?

 

Primeiro: trato deste assunto para não precisar me estender muito na escrita sobre o futebol jogado pelo Grêmio, nesta noite de quinta-feira (e você deve imaginar os motivos do meu desânimo para falar disso).

 

Segundo: busco uma explicação para entender o que acontece com o nosso time sempre que enfrentamos um adversário de baixa qualidade. Ao não encontrar uma justificativa plausível dentro de campo, resolvi olhar para dentro do cérebro de nossos jogadores. Foi, então, que me lembrei dos ensinamentos do dr. Esdras.

 

Só pode ser isso: os neurônios-espelhos. Eles são os culpados pelos quatro pontos perdidos nas duas últimas partidas e por desperdiçarmos a chance de assumirmos a liderança nesta primeira metade do campeonato.

 

Diante de um futebol pífio, reproduzimos o comportamento adversário e jogamos de maneira pífia. Quando temos um time mais bem qualificado, lá vem o nosso time a desfilar com aquela performance estruturada e pensada por Roger, que tanto nos orgulha.

 

Sim, tudo isso pode estar relacionado também a ausência de Luan, a falta de criatividade para driblar o adversário, a inexistência de um goleador capaz de decidir as partidas mais complicadas, a laterais que não sabem aproveitar as jogadas pelos lados … enfim, aquelas coisas que muitos dos torcedores já vêm pensando do time (e alguns escrevendo).

 

Seja o que for, o certo é que nosso técnico terá de quebrar a cabeça para mudar esse comportamento e nos levar para o topo da tabela de classificação.