Conte Sua História de SP: a advogada negra que a cidade escolheu para ficar

 

Por Graça Barbosa
Ouvinte-internauta da CBN

 

 

É até difícil de começar… porque quando no Nordeste estava, só ouvia falar de São Paulo como uma cidade de assaltos, violência, … confesso que muito temia, mas a minha euforia de conhecer acabou sendo maior que o medo!

 

Meu pai me trouxe dizendo que lá em Pernambuco, em um município de nome Mariana ou Manari, não tinha futuro pra mim. Eu já nem morava lá! Coisas de pai.

 

São Paulo me aguardava com muitas alegrias e também dores e, com certeza, tive alguns amores, uns felizes outros não… mas aqui estou desde 26 de Janeiro 1996.

 

O primeiro acontecimento foi a morte trágica dos Mamonas Assassinas e os temporais de verão, que naquele janeiro destelhou o barraco da minha irmã. Isso, sim, foi um grande trauma. Queria voltar no dia seguinte para o nordeste, pois lá eu tinha uma casa segura para dormir, mas meu pai não deixou. Bendito seja o meu pai por não me deixar voltar!

 

Acabei me apaixonando por tudo aqui. Vivi momentos de muitas alegrias por onde passei e, também, muitas tristezas, mas aqui estou.

 

Já trabalhei de tudo desde que cheguei: empregada doméstica; lojas de CD, onde conheci meu segundo pai que me ajudou muito aqui em São Paulo e agora está em outro plano: viva, João Gordo!

 

Há dois anos fui até despejada, mas como um milagre fui admitida para trabalhar em uma universidade e ganhei 100% de bolsa de estudo. Hoje estou matriculada e daqui cinco anos São Paulo terá a advogada negra que ela escolheu para ficar.

 

Graça Barbosa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também a sua história de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br e leia outros capítulos da nossa cidade no meu blog miltonjung.com.br

Quem diria, os separatistas estavam por aqui

 

brasil_regioes

 

É no mínimo curioso receber mensagens pedindo a separação de São Paulo do restante do País, especialmente do Nordeste, desde a divulgação dos números finais da eleição presidencial deste ano. A cisão unilateral está apoiada no que consideram ser um absurdo: ser comandado por uma presidente, no caso Dilma Roussef, que teve apenas 35,69% dos votos do eleitorado paulista – provavelmente nordestinos que vem se aproveitar das nossas riquezas, dizem alguns. Que voltem para seus estados de origem e se submetam às ordem superiores. E na República Independente de São Paulo ficaríamos apenas nós, os puros de alma, combatentes da corrupção, defensores dos bons costumes e bem informados. As manifestações de indignação e em defesa da divisão ganha caráter oficial quando assinada por gente de alto coturno com representatividade no Palácio Nove de Julho que, talvez, sonhe em transformá-lo em palco da resistência. Tudo bem que os arroubos políticos se resumiram às redes sociais, mas se ouvirem muitos aplausos temo que decidam subir à tribuna.

 

Têm todo meu respeito os que estão incomodados com a derrota na eleição, é um direito nos inconformarmos sempre que uma batalha é perdida, mas defender a separação do Estado de São Paulo em função de resultados obtidos nas urnas é não compreender a dinâmica da democracia, se não bastasse ser um absurdo. Como sei que São Paulo é muito maior do que estes que se descontrolam – e em alguns meses mesmo estes já estarão envolvidos em outras disputas – chego a me divertir, especialmente pela ironia do destino.

 

Desde que cheguei em São Paulo, em 1991, por mais de uma oportunidade fui acusado de ser separatista. Sim, você, caro e raro leitor deste blog, não tem ideia do que muitas vezes tenho de ler e ouvir. O ataque é baseado no fato único e exclusivo de ter nascido no Rio Grande do Sul, onde, no século 19, grupos se rebelaram contra o governo imperial do Brasil e declararam independência, fundando – sem sucesso, diga-se – a República Rio-Grandense. De vez em quando, surge uma ou outra voz por lá retomando o assunto e acreditando que o Rio Grande se bastaria, mas são gritos que não ecoam há muito tempo nos pampas.

 

Verdade, também, que os gaúchos tendem a exacerbar seu orgulho pelo estado em que vivem, conservam suas raízes, preservam o chimarrão e a bombacha, usam o sotaque sulista para reforçar sua identidade e não se envergonham de entoar o hino rio-grandense (registre-se, de letra e ritmo belíssimos). Orgulho, sim, mas sem deslumbramento nem desrespeito ao restante do Brasil. História e comportamento que talvez confundam pessoas desinformadas como essas que procuravam me atingir sempre que me ouviam criticando os problemas de São Paulo.

 

As agressões, geralmente por e-mail, eram mais frequentes na época em que apresentava o CBN São Paulo, a medida que as reportagens e entrevistas que realizava tinham o foco no estado e capital paulistas. Costumavam me mandar de volta para casa já que, segundo eles, eu estaria descontente com a vida que levava por aqui. Não eram capazes de entender que ao reclamar a falta de estrutura, desrespeito no atendimento ao cidadão, ambiente poluído, congestionamentos intermináveis, entre outros problemas comuns do nosso cotidiano, o fazia por força da profissão e por gostar muito de São Paulo.

 

Talvez o que mais me incomodava (e me incomoda, nos raros momentos em que ainda sou chamado de separatista) é o fato dessa gente não entender o quanto gosto de São Paulo. Trabalhar aqui foi escolha minha, por admirar a força desta região. Construí minha carreira, minha casa e minha família; meus filhos são paulistanos, assim como minha mulher (isto ao menos me valeria um passaporte brasileiro, em caso de secessão, não?). Nestes 23 anos desenvolvi projetos em favor da cidade que me orgulham muito como o programa Conte Sua História de São Paulo, que está no ar desde 2006 e se transformou em livro, no qual moradores e pessoas que tiveram alguma experiência na capital paulista registram sua memória. Tem ainda o Adote um Vereador – apesar de que este, para esta turma, é uma forma que encontrei de reclamar da política na cidade. Hilário.

 

Quem diria, depois de tantos anos ouvindo que sou um separatista, hoje me deparo com pessoas defendendo que São Paulo dê seu grito de independência, se liberte do restante do Brasil. Descubro que apenas usavam sua própria régua moral para me julgar. Vamos combinar o seguinte: somos todos brasileiros, independentemente de onde tenhamos nascido, onde vivemos e como votamos. E como brasileiros, o que temos é o que as urnas nos ofereceram. Saibamos então aceitar as diferenças, reduzir as desavenças e trabalhar para que cada vez mais nossos destinos sejam traçados por nós mesmos, sem depender deste ou daquele governo. Valorizemos as características de cada um dos 26 estados e do Distrito Federal, mas convencidos de que fazemos parte de um só país.