Olhei-me no espelho do elevador e reparei nos meus joelhos: não tão bonitos quanto minha mãe queria. Lembrei dela falando desde bem pequena — uns seis anos?: “Menina, não seja tão moleque! Cuidado com os joelhos, depois ficam todo marcados…”
Não adiantou nada, eu sei. Os tenho cheios de marcas. Algumas adquiri depois de adulta mesmo, em minhas trilhas e passeios, em pedras e galhos. E quer saber? Me orgulho delas. Quanto as marcas de infância, amo mais ainda, porque são dos bons tempos em que eu sumia na rua em que morava, sempre descobrindo os lugares mais incríveis para brincar.
Por um tempo, era no campinho, perto do largo da Vila Sabrina, onde havia um enorme terreno vazio, sem casas, sem nada. Mas um trator ficara remanejando a terra por muitos meses, uma bendita terra preta que minha mãe odiava, porque grudava de um jeito na roupa!! E eu, no meio dos meninos, acho que eu era a única menina, subia nas montanhas de terra que afundava um pouco quando a gente pisava. Lá de cima rolávamos e gargalhávamos.
Em outro tempo, passávamos horas brincando dentro de um depósito de materiais de construção, subíamos nas prateleiras que armazenavam madeira e de lá pulávamos sobre os montes de areia. Minha mãe tinha a melhor das intenções, pois ela temia pelos machucados. Mas que tempo bom!
Vila Sabrina era uma vila distante de tudo, lá para os lados da Vila Maria, terra do Jânio Quadros. Cheguei a ver meus primos nadarem no rio Cabuçú, sob a vigilância do meu pai. Ele me carregava nos ombros. Eu com uns três ou quatro anos. Não me deixava colocar o pé no chão que estava encoberto de água, devido ao transbordamento desse riozinho, depois de uma forte e longa chuva de verão.
As chuvas de verão eram muito bem-vindas. As enchentes não atingiam casas nem causavam os estragos de hoje em dia. Havia muito terreno permeável, muito mato, as pessoas, sabiamente, não construíam próximo de rios. Hoje, esse riozinho, na melhor das hipóteses, deve ter sido canalizado, pois a última vez que vi, era um esgoto a céu aberto.
Uma pena que nossos governantes provavelmente não acreditavam e não acreditam em Deus, pois a natureza, manifestação divina, jamais poderia ter sido desprezada e morta pelas mãos do homem. Quem sabe um dia, se ainda der tempo, nós, paulistanos, sobreviventes dos desmandos políticos, saibamos decidir por uma cidade melhor.
Denise Esperança deveria ser meu nome.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Denise Moraes, por que não, Denise Esperança é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva agora o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
Catarse, liberação de emoções ou tensões reprimidas. É o que está no dicionário. É como a psicologia explica. É o que justifica cada uma das muitas lágrimas que verti no rosto nesta noite em que o Grêmio retornou ao futebol, um mês após o início de uma tragédia jamais vista por todos nós, no Rio Grande do Sul.
Espero que minha turma aqui de casa não leia essa Avalanche. Porque não sei como entenderia as sensações que vivenciei. Não era apenas a um jogo de futebol que assistia. Ou assistíamos, dado que milhares de outras pessoas como ‘nosotros’ presenciaram essa mesma experiência. E devem ter chorado a cada minuto de bola rolando.
Solucei no gol de Soteldo, ainda no primeiro tempo, que mostrou aos gaúchos que os que peleiam, recusam a falência da esperança. Choraminguei em seguida a bola de João Pedro encontrar as redes, em um chute de destino improvável. Lacrimejei na certificação da vitória que se fez graças a insistência de Galdino. Debulhei-me quando Gustavo Nunes roubou a bola no meio do campo, driblou todos que se atreveram a surgir no seu caminho e bateu para definir a goleada mais significativa da história do Grêmio. .
O guri que comemorou o feito com um sorriso no rosto e o abraço de seus colegas, há menos de um mês era um dos sobreviventes da maior enchente que atingiu o Rio Grande do Sul. Deixou as dependências do Grêmio, ao lado de seus colegas, com água barrenta cobrindo a cintura. Seu companheiro de ataque, Diego Costa, despendeu energia e coragem para salvar pessoas ilhadas nas enchentes e abrigar em sua casa gente que acabara de ver a vida submergir.
Assim como Gustavo e Diego, cada um daqueles jogadores que estiverem em campo ou fizeram parte do elenco, na noite desta quarta-feira, em Curitiba, tinha uma sofrência na memória: o amigo desabrigado, o conhecido desalojado, o vizinho que morreu, o colega de trabalho que quase tudo perdeu.
Nas arquibancada, não menos sofrido, o torcedor gremista fez do Couto Pereira um Olímpico Monumental redivivo. Os trapos que adornaram o estádio, assim como as bandeiras do Grêmio, do Rio Grande e do Coritiba, que nos abrigou, acolheram não apenas o nosso time, mas cada gaúcho que sofre a dor da perda e do desespero nestes dias tão difíceis.
Envolto nesse sofrimento que acumulamos nos últimos 30 dias, ver o Grêmio jogar como jogou e ganhar como ganhou, me fez chorar. Não pelo Grêmio em si — o que, convenhamos, não seria pouca coisa. Foi um misto de felicidade e tristeza.
Chorei por descobrir como podemos ser persistentes e resilientes, mesmo diante de todo o sofrimento que nos assola.
Chorei pelas famílias que sofrem sem entender que futuro terão; pelas pessoas que perderam pais e mães, filhos e filhas, tios e avós; pelos 169 mortos até agora confirmados e por tantos outros que se confirmarão.
Chorei pelos registros de vida que subitamente se perderam na correnteza; pela angústia do irmão e da irmã, do sobrinho e da sobrinha, da cunhada e de todos demais da família. Chorei pela casa de minha infância que foi ameaçada. Pelo bairro em que morei. Pelas ruas que andei.
Chorei! E chorei porque, nesta noite, fui lembrado que o meu Rio sempre será Grande!
Sou o que costumam chamar de ‘early adopters’. Perdão pelo anglicismo logo na abertura do texto, mas é assim que a turma que fala de tecnologia prefere chamar aquilo que lá no meu Rio Grande do Sul denominaríamos de ‘guri metido’ — aquele cara que não pode ver uma novidade e já se atreve a usar. Foi assim com o ChatGPT. No dia em que ouvi falar, já estava fuçando suas funcionalidades. Virei embaixador do negócio. Sugeri para colegas, amigos e parentes — até para o cunhado.
Fiz o primeiro curso que apareceu. Comprei o primeiro livro sobre o assunto. Entrevistei as fontes que entendi serem mais relevantes e acessíveis. O negócio cresceu em uma velocidade exponencial e tomou uma dimensão que não dei conta diante de todas as possibilidades. Mesmo assim, apaixonei!
As primeiras polêmicas se tornaram públicas. O CEO Sam Altman foi demitido e recontratado em um movimento tão rápido quanto as respostas que a inteligência artificial é capaz de nos oferecer. Questionamentos sobre segurança e responsabilidade causaram tanta ‘alucinação’ quanto o ChatGPT pode produzir frente a um ‘prompt’ impreciso.
A última polêmica foi a situação envolvendo Scarlett Johansson. Após quase um ano de negociações para que a atriz emprestasse sua voz ao ChatGPT 4.0o, Johansson recusou. No entanto, a OpenAI lançou uma voz incrivelmente semelhante à dela, chamada Sky, sem sua autorização. Quando a estrela de “Encontros e desencontros” ouviu a demo, ficou chocada e irritada. Mesmo com a negativa clara da atriz, Altman pareceu brincar com a situação ao sugerir no Twitter uma referência ao filme “Her”, onde Johansson dubla uma assistente de IA.
Essa atitude de Altman lembra muito o que Elon Musk fez com o Twitter, agora rebatizado de X. Musk, em sua gestão tumultuada e desrespeitosa com o cliente, transformou a plataforma, outrora um espaço de troca de ideias e informações, em um terreno de controvérsias e desinformação. A marca Twitter, construída ao longo de anos, foi profundamente danificada pela conduta errática e decisões questionáveis de Musk. E agora, Altman parece trilhar um caminho semelhante com a OpenAI.
A comparação é inevitável. Ambas as situações envolvem líderes carismáticos que, ao invés de preservar e fortalecer as instituições que dirigem, parecem mais interessados em promover seus próprios egos e preferências pessoais. No caso de Altman, a obsessão com o filme “Her” e a tentativa de replicar a voz de Johansson sem sua permissão demonstra um desrespeito pelas normas éticas e pelos direitos individuais. Isso não só prejudica a imagem da OpenAI como também levanta questões sérias sobre a integridade da empresa.
A saída de Ilya Sutskever, cofundador da OpenAI, e de outros membros da equipe de superalinhamento, reflete o ambiente conturbado dentro da empresa. Eles faziam parte do time focado em garantir a segurança de possíveis futuros sistemas de inteligência artificial ultra-qualificados
A OpenAI, que deveria ser um exemplo de pesquisa e desenvolvimento seguro de IA, agora parece mais preocupada em lançar produtos chamativos e ganhar mercado a qualquer custo. Essa mudança de foco é preocupante, especialmente com relatos de acordos de confidencialidade abusivos e uma cultura de segredo.
Assim como Musk transformou o Twitter em um campo minado de controvérsias, Altman está levando a OpenAI por um caminho perigoso. A empresa, que nasceu com a missão de desenvolver IA de forma segura e ética, agora parece mais interessada em ganhar visibilidade e lucro rápido. As ações de Altman, como no caso de Scarlett Johansson, mostram um desrespeito pelos princípios que deveriam nortear a OpenAI.
A postura de “vencer a qualquer custo” não é apenas insustentável, mas também prejudicial. Quando líderes colocam seus interesses pessoais acima das responsabilidades institucionais, a confiança do público e a integridade da organização são comprometidas. O caso de Johansson é um alerta para todos nós sobre os perigos de uma liderança que negligencia a ética em favor do ganho pessoal.
Sam Altman precisa reconsiderar suas ações e prioridades antes que a OpenAI sofra danos irreparáveis, assim como o Twitter nas mãos de Musk. A comunidade global de tecnologia e os usuários — especialmente aqueles que como eu nos apaixonamos pelo tema — querem confiar que essas ferramentas sejam desenvolvidas com responsabilidade e respeito. É hora de voltar aos princípios fundamentais e garantir que a OpenAI se alinhe novamente com sua missão original.
Recorrendo a um jargão consagrado pelo conterrâneo e humorista Andre Damasceno, criador do personagem o “Magro do Bonfa”: Altman, “não me faz te pegar nojo”, porque a OpenAI merece mais do que isso!
Bia e Mateus em entrevista ao Mundo Corporativo. Foto: Priscila Gubiotti
“O ESG nada mais é que uma sigla que comprova as práticas socioambientais de uma empresa. Só que o ESG se tornou algo muito grande e muito difícil para pequenas e médias empresas.”
Bia Martins
Como pequenas e médias empresas podem adotar práticas de sustentabilidade e se beneficiar das políticas ESG (Ambiental, Social e Governança)? Essa foi a questão central da entrevista com Bia Martins e Mateus Ferrareto, fundadores da ESG Pro Brasil, no programa Mundo Corporativo. Eles discutiram como transformar a governança ambiental, social e corporativa em algo acessível e aplicável a negócios de menor porte.
“Não tem como uma pequena empresa zerar carbono. Ela não sabe o que é isso e vai ser distante. Mas ela consegue trocar o copo plástico por um copo de vidro. Ela consegue apagar a luz quando não estiver usando. Ela consegue desligar o ar condicionado no dia que não está tão calor”.
Mateus Ferrareto
Estratégias e práticas
A ESG Pro Brasil é uma empresa dedicada a facilitar a adoção de práticas sustentáveis para pequenas e médias empresas. Ela oferece um selo de certificação ESG que valida e promove ações socioambientais corporativas. Além disso, a ESG Pro Brasil desenvolve trilhas de boas práticas em parceria com a Unesco, simplificando o processo de implementação dessas práticas. A empresa também colabora com mais de 180 ONGs, atendendo às metas de desenvolvimento sustentável da ONU, e fornece um sistema de benefícios e cashback para as empresas certificadas, incentivando o engajamento e a responsabilidade socioambiental no setor empresarial.
“Então, o que a gente é hoje, de uma forma bem prática: a gente é um selo e a gente quer democratizar o acesso ao ESG juntos”.
Bia Martins
Trajetória Profissional e Engajamento Social
Bia Martins começou seu envolvimento com questões sociais desde muito jovem. Aos seis anos, fundou a ONG Olhar de Bia, motivada por uma experiência pessoal marcante ao ver crianças em situação de vulnerabilidade. A partir dessa iniciativa, Bia se dedicou ao combate à miséria através da educação e da solidariedade. Sua trajetória é marcada por um profundo compromisso com a transformação social, que agora se estende ao seu trabalho na ESG Pro Brasil.
“O olhar de Bia nasceu de uma ação pontual no Natal, ajudamos 600 pessoas e hoje já impactamos mais de 450.000 vidas”
Bia Martins
Mateus Ferrareto, por sua vez, encontrou no empreendedorismo uma forma de aliar suas habilidades profissionais ao propósito de promover a sustentabilidade. Formado em Arquitetura, ele cofundou a Eco Flame Garden, empresa que desenvolve móveis para áreas externas. Entendeu logo no início o peso de carregar o nome “eco” no seu negócio. Perdeu seu primeiro cliente, porque não considerava os conceitos ESG nas suas práticas. Ao deparar com aquela realidade, percebeu que precisava se aprofundar no tema:
“A Eco Flame Garden se tornou uma empresa carbon-free, com projetos que utilizam materiais reciclados, como redes de pesca retiradas dos oceanos”.
Mateus Ferrareto
A experiência com a Eco Flame Garden inspirou Mateus a criar a ESG Pro Brasil. Sua jornada profissional reflete uma busca constante por soluções inovadoras que conciliem negócios e responsabilidade socioambiental.
Ouça o Mundo Corporativo
O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã pelo canal da CBN no YouTube. O programa vai ao ar aos sábados, no Jornal da CBN e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. Você pode ouvir, também, em podcast. Colaboram com o Mundo Corporativo: Carlos Grecco, Rafael Furugen, Débora Gonçalves, Priscila Gubiotti e Letícia Valente.
No Brasil, os contribuintes têm a possibilidade de destinar parte do Imposto de Renda (IR) para fundos de assistência a crianças e idosos, com um potencial de arrecadação de R$ 11 bilhões. No entanto, até o dia 8 de maio de 2024, apenas 0,7% desse montante foi efetivamente destinado, alcançando R$ 89 milhões. Desse total, 59% foram direcionados a instituições que atendem crianças e adolescentes, e 40,5% para entidades voltadas a idosos.
O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) lidera a campanha “Se Renda à Infância” para incentivar essas destinações, com a colaboração de diversas entidades, incluindo a Receita Federal e a Associação dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon). O prazo para a declaração do IR encerra-se em 31 de maio, mas foi estendido até 31 de agosto para os residentes do Rio Grande do Sul devido à calamidade pública causada pelas recentes tragédias climáticas.
Importância da Destinação
O juiz auxiliar da Presidência do CNJ, Edinaldo César Santos Junior, reforça a importância dessa destinação para os Fundos dos Direitos da Criança e do Adolescente (FDCA) no Rio Grande do Sul. Isso é válido tanto para contribuintes com imposto a pagar quanto para aqueles com direito à restituição. Quem já entregou a declaração pode acessar novamente o site da Receita Federal e destinar parte dos impostos para esses fundos.
Cezar Miola, vice-presidente de Relações Político-Institucionais da Atricon, ressalta que essa colaboração não implica nenhum custo adicional para o contribuinte. “Parte dos tributos que iriam para os cofres da União é revertida em benefício direto às populações atingidas pelas inundações, agilizando e ampliando o acesso a serviços essenciais, sobretudo aos vulneráveis”, afirma Miola.
Desempenho dos Estados
O levantamento revela que o Rio Grande do Sul é o estado com maior percentual de destinação, com 1,94%, seguido por Paraná (1,71%) e Goiás (1,65%). No outro extremo, Amapá (0,09%), Pará (0,13%) e Distrito Federal (0,10%) apresentam os menores percentuais. Estados como São Paulo (0,57%) e Rio de Janeiro (0,17%), apesar de terem alta renda per capita, apresentam percentuais baixos de destinação.
Como Destinar
Destinar parte do IR para fundos de crianças e idosos é um gesto de solidariedade que não implica em custos adicionais para o contribuinte. Através dessa ação, é possível contribuir diretamente para melhorar a vida de muitas crianças e idosos, especialmente em um momento de grande necessidade no Rio Grande do Sul.
Para outras informações sobre a campanha “Se Renda à Infância” e como realizar a destinação, visite o site do CNJ: Campanha Se Renda à Infância.
Assim, ao destinar parte do seu IR, você pode transformar tributos em esperança e dignidade para os mais vulneráveis.
A entrevista com o prefeito de Caxias do Sul, Adiló Didomenico, nesta manhã de segunda-feira, no Jornal da CBN, trouxe à tona memórias e emoções profundas. A cidade, ainda despertando de mais um pesadelo, teve sua área rural devastada pelas fortes chuvas e passou a madrugada sob o impacto de um tremor de terra que, segundo relato de moradores, durou cerca de meia hora.
Caxias do Sul não é apenas um ponto no mapa; é um lugar de recordações pessoais vividas quando criança, durante as férias escolares, sempre ao lado dos Ferretti. Foi lá que meu bisavô, Seu Vitaliano, viveu. Foi lá que nasceu minha avó, Ione, e para lá que ela voltou apenas para parir meu pai. Das muitas lembranças, recordo das Tias Ema e Olga, esta última residia no casarão de madeira da Nove de Julio. A avenida, famosa pelo desfile da Feira da Uva, é um símbolo de momentos felizes da minha infância.
Adolescente, retornei a Caxias para jogar basquete com os amigos do Recreio da Juventude, clube esportivo e social da cidade. Essas experiências construíram uma conexão forte e duradoura com a região, tornando a entrevista desta segunda-feira especialmente tocante.
Durante a conversa, vários sentimentos se misturaram. O prefeito lembrou que Caxias do Sul era o maior produtor de hortifrutigranjeiros do Rio Grande do Sul, e as recentes calamidades dificultaram o acesso aos centros de consumo devido aos bloqueios nas rodovias. Desde o início, áreas de risco foram evacuadas e passagens foram abertas nas regiões de deslizamento para permitir o trânsito de veículos e o transporte de mantimentos para as famílias ilhadas.
Cobrir essa tragédia em Caxias do Sul, mesmo à distância, é um desafio que vai além do profissional, evocando lembranças de tempos passados. Cada relato faz com que eu sinta a dor da comunidade como se fosse minha, reforçando a importância de uma cobertura empática e comprometida com a verdade e a solidariedade.
Manter o equilíbrio e a frieza jornalística em momentos como esse é uma tarefa complexa. Esforço-me para imaginar o que estão sofrendo os colegas jornalistas que presenciam a tragédia no “campo de batalha”. Muitos deles gaúchos como eu. A psicologia dessa cobertura exige um controle emocional que nem sempre é fácil de alcançar. É aqui que os ensinamentos de estudiosos do jornalismo se tornam particularmente valiosos.
Philip M. Seib, em “Broadcasts from the Blitz: How Edward R. Murrow Helped Lead America into War”, discute como jornalistas precisam equilibrar empatia e profissionalismo durante a cobertura de crises. Ele ressalta a importância de preservar a objetividade enquanto se reconhece o impacto emocional das histórias que estão sendo cobertas. Isso se aplica diretamente à minha experiência ao entrevistar o prefeito de Caxias do Sul, onde cada palavra e expressão trazia à tona uma mistura de sentimentos pessoais e responsabilidades profissionais.
Para abordar a necessidade de equilíbrio emocional no jornalismo, a obra de Anthony Feinstein, “Journalists under Fire: The Psychological Hazards of Covering War”, oferece uma análise detalhada dos efeitos psicológicos que os jornalistas enfrentam ao cobrir conflitos e desastres. Feinstein destaca a importância de intervenções psicológicas e de apoio profissional para ajudar os jornalistas a lidarem com o trauma e o estresse associados a essas coberturas.
Adicionalmente, os ensinamentos de Dan Harris, jornalista e autor do livro “Dez Por Cento Mais Feliz” — que já foi referência neste blog — são especialmente úteis. Harris defende a prática da meditação como uma ferramenta para melhorar a saúde mental e emocional, lição que aprendeu duramente após sofrer “panes” enquanto apresentava telejornais nos Estados Unidos. A meditação ajuda a reduzir o estresse e a ansiedade, proporcionando uma maior clareza mental e um senso de calma, fundamentais para jornalistas que cobrem crises. Incorporar essas práticas pode fazer uma diferença significativa na capacidade de manter o equilíbrio durante coberturas emocionalmente desafiadoras.
Essas referências sublinham a importância de buscar um equilíbrio psicológico durante a cobertura de tragédias. Técnicas como a respiração controlada, a meditação e o estabelecimento de limites claros entre o pessoal e o profissional são cruciais – não, infelizmente, eu não as pratico. Além disso, buscar apoio em colegas e profissionais de saúde mental, reconhecer e aceitar as próprias emoções, sem deixá-las dominar a cobertura, são passos essenciais para realizar um trabalho ético e eficaz.
Revisitar Caxias do Sul em meio a uma tragédia — e ressalto, mesmo que à distância — me trouxe à mente não apenas a responsabilidade jornalística, mas também a necessidade de cuidar de meu próprio bem-estar emocional. Assim, posso continuar a fornecer uma cobertura que não só informa, mas também honra a resiliência e a humanidade da comunidade que tanto significa para mim.
O dilúvio de 2024 em Porto Alegre, em foto de Ricardo Stuckert/PR EBC
A casa do Menino Deus foi esvaziada. Minha gente se mudou preventivamente para um lugar mais seguro, diante do alerta de enchente. O Guaíba, esse espaço d’água que chamamos de rio, mas é um lago, fica a dois quilômetros de distância. Está bem mais próximo, há três dias, retomando suas margens originais frente ao volume excessivo de água que recebeu dos rios que correm do interior do estado. Ainda há possibilidade de chuva forte e falência total do sistema de bombeamento, o que poderia tornar ainda pior o cenário atual.
As raras e boas notícias desta manhã de terça-feira são de que a ameaça de enchente na Saldanha Marinho, rua em que nasci e vivi, diminuiu. É provável que seja preservada desta desgraça que assola o Rio Grande do Sul desde a semana passada. Algo sem precedentes, mas previsível. A incapacidade de escutarmos os sinais da natureza impede, contudo, ações preventivas, nos leva a desdenhar dos riscos e desperdiçar dinheiro em obras e projetos urbanísticos desconectados da realidade ambiental que geramos ao longo dos anos.
Guri de calça curta, correndo pelos corredores da casa da Saldanha, ouvia meus pais falarem do dilúvio de 1941, que levou a cidade a se reinventar e criar uma rede de proteção com muros e diques. Por incrível que possa parecer, foi o que amenizou a tragédia atual. Sim, chega a ser irônico: a Porto Alegre do século 21 foi salva por uma tecnologia dos anos de 1960.
Nos últimos anos, estava admirado com a maneira como a cidade havia se voltado para o Guaíba. A orla foi recuperada, com a criação de parques e áreas de lazer. Desde o cais, no centro antigo, até a região do estaleiro, no início da zona sul, a população retomou o espaço de convívio com o seu rio. Nas visitas à cidade, fazia questão de passar por essa região e, orgulhosamente, apreciar o mais lindo pôr do sol que já conheci.
Hoje, a cidade está de joelhos para o seu rio. Alguns bairros estão embaixo d’água, outros tiveram de ser evacuados, falta energia e água potável para a maior parte da população. Ainda não se tem ideia da dimensão dos estragos e quanto tempo Porto Alegre precisará para se reerguer. A esperança, e eu me recuso a falência da esperança, é que a coincidência deste desastre com o calendário eleitoral, leve partidos, políticos e eleitores a priorizarem projetos urbanístico que reinventem a cidade.
Temos de aprender com essa tragédia. É preciso cobrar dos candidatos uma revisão do planejamento urbano para garantir que novas construções e reestruturações de áreas sejam realizadas com a resiliência climática em mente, incluindo o aumento da área verde e a redução da impermeabilização do solo.
Será necessário, ainda, investimento nas tecnologias mais avançadas de barreiras e diques; expansão das áreas úmidas naturais próximas ao rio; implementação de sistemas de drenagem urbana sustentáveis; desenvolvimento de um sistema de alerta precoce com sensores e tecnologia de dados para monitorar os níveis de água e prever enchentes; e a criação de grupos comunitários de resposta a emergências para fortalecer a proteção local e a capacidade de resposta coletiva.
À medida que as águas recuam, a oportunidade de renascer surge nas margens do Guaíba. As mudanças climáticas são uma realidade incontestável e responder a elas com resiliência e adaptabilidade não é apenas uma escolha, mas uma necessidade urgente.
Ao acionar o Waze para circular na cidade em que mora, você já deve ter percebido a existência de ícones no formato de cones, que alertam para a existência de buracos no meio do caminho. Há muito mais desses cones de sinalização entre ruas e avenidas do que sua vã percepção é capaz de enxergar na tela do celular. Os “laranjinhas” tem sido a solução para cruzamentos em que os semáforos estão queimados, crateras que crescem em velocidade superior a capacidade de conserto das prefeituras e desvios de obras inacabadas.
O caro e cada vez mais raro leitor deste blog, sabe do meu fascínio pela proliferação de cones nas cidades. São tantos que a impressão é de serem a única solução conhecida pelos gestores municipais. Ironia a parte, a inteligência artificial que, no caso do Waze, colabora no deslocamento dos motoristas, tem transformado o cenário urbano com inovações que simplificam a vida dos cidadãos e otimizam a administração das cidades.
Nesta semana, Aracaju (SE) sediará o evento Smart Gov NE 2024, reunindo representantes de 60 cidades brasileiras para debater o uso da IA na melhoria dos serviços públicos. Esta iniciativa, promovida pela Associação Nacional das Cidades Inteligentes Tecnológicas e Inovadoras (ANCITI), destaca a crescente compreensão de que a inovação tecnológica é fundamental para aumentar a eficiência da gestão pública e a qualidade dos serviços oferecidos à população.
Johann Dantas, presidente da ANCITI e CEO da Prodam SP, aponta que, apesar de o Brasil contar com algumas das cidades mais inteligentes do mundo, como São Paulo, Curitiba, Porto Alegre e Recife, a implementação de sistemas de IA ainda é incipiente na maioria dos municípios. Uma pesquisa da ANCITI revela que apenas 21,9% dos municípios brasileiros têm orçamento previsto para a implementação e desenvolvimento de sistemas de IA, dos quais somente 42,9% estão efetivamente destinando esses recursos para a tecnologia.
Os desafios são muitos, incluindo a falta de legislação específica, a escassez de pessoal especializado e a necessidade de conformidade com legislações como a LGPD. Ainda assim, os resultados positivos do uso da IA começam a surgir. Projetos como o diagnóstico de câncer de pele por análise de imagens, em desenvolvimento em Porto Alegre, e o planejamento de linhas de ônibus por IA em São Paulo, mostram o potencial dessa tecnologia para melhorar a eficiência dos serviços públicos e a qualidade de vida dos cidadãos.
Além disso, iniciativas como a assistente virtual Marisol, de Fortaleza, que auxilia na busca por serviços públicos, e as soluções de IA usadas pela prefeitura de São Paulo para identificar, validar, classificar e preencher documentos, exemplificam como a tecnologia pode agilizar processos e tornar a gestão pública mais eficiente.
Inovações internacionais em gestão urbana com IA
No exterior, há experiências ainda mais incríveis. Em Boston e Sacramento, por exemplo, a Verizon empregou tecnologia NVIDIA Jetson TX1 para analisar fluxos de tráfego, segurança de pedestres e otimização de estacionamentos, integrando a IA nas luzes de rua existentes. Isso ilustra como a infraestrutura urbana convencional pode ser transformada em uma plataforma inteligente, gerando eficiência e novos serviços para a população.
Helsinki destaca-se por seu compromisso com a construção de uma cidade inteligente, respondendo ao aumento previsto da população através do suporte a startups e à inovação em transporte público, gestão de resíduos e consumo de energia. A cidade visa reduzir o uso de carros particulares e promover uma rede de transporte público integrada e eficiente, acessível através de um aplicativo que planeja viagens combinando diferentes modos de transporte.
Singapura, por sua vez, está avançando para se tornar uma cidade-estado totalmente monitorada, com a instalação massiva de sensores e câmeras para controlar aspectos variados da vida urbana, desde a limpeza de espaços públicos até o monitoramento do fluxo de veículos.
Colaboração de cidades viabiliza investimento em IA
No Brasil, ainda há enormes desafios para a construção de cidades inteligentes. Um dos questionamentos levantados por Dantas é sobre o retorno financeiro do investimento público em tecnologia. Embora seja difícil mensurar em valores os benefícios proporcionados pela tecnologia, como a economia de tempo e o aumento da eficiência, é inegável que a adoção de soluções tecnológicas é um caminho sem volta para as cidades que desejam se tornar mais inteligentes e eficientes.
O compartilhamento de informações e o trabalho colaborativo entre as cidades é uma das soluções que podem viabilizar investimentos públicos. Por exemplo, a análise de crédito para empreendedores, criação de planos de negócio e confecção de currículos, que já são realidade no Recife graças ao uso de IA, logo serão adotadas, nos mesmos moldes, por Belo Horizonte, Rio de Janeiro e Londrina. A aposta do Smart Gov NE 2024 é que parcerias como essas se reproduzam durante o evento, que será nos dias 10 e 11 de abril.
O certo é que a trajetória rumo a cidades mais inteligentes e tecnologicamente avançadas já começou. As iniciativas e projetos em andamento no Brasil mostram que, apesar dos desafios, há um comprometimento crescente com a inovação tecnológica na gestão pública. Compartilhar experiências e soluções, como promovido pela ANCITI, é crucial para acelerar esse processo e garantir que as cidades brasileiras não apenas acompanhem mas liderem a transformação digital global. Quem sabe, em um futuro próximo, os cones deixarão de integrar o cenário urbano.
O caro e cada vez mais raro leitor desta Avalanche já leu textos em que descrevi cenários que encontramos nos jogos do campeonato gaúcho. Arquibancadas precárias e torcedores amontoados na laje de casas vizinhas para assistir aos jogos. Vestiários em que mal cabem o elenco completo durante a preleção dos treinadores. E gramados esburacados e impróprios para futebol.
Hoje, acrescentamos mais um elemento nesta várzea: um clássico da dimensão do Gre-nal sem o recurso do VAR. Responsabilidade daqueles que no início da competição aceitaram essa regra esdrúxula e ultrapassada. Aos desavisados, a explicação: os clubes que disputaram a competição decidiram que não haveria o recurso eletrônico em nenhum jogo da primeira fase por uma questão financeira.
Soube-se que no meio da semana, os dirigentes da dupla Gre-nal teriam aceitado pagar a empresa responsável pelo VAR, chegaram a depositar o dinheiro na conta, mas enquanto os funcionários se deslocavam para Porto Alegre foram informados que o recurso não teria sido autorizado. Até agora não entendi se isso se deu porque não houve unanimidade entre as demais equipes, o que era uma exigência do regulamento.
O fato é que em um estádio de Copa do Mundo, com a presença das duas maiores torcidas do Rio Grande do Sul, a do Grêmio e a do Inter (necessariamente nesta ordem), com equipes que fazem investimentos milionários e capacitadas a oferecer um futebol de qualidade, fomos obrigados a assistir a um jogo em que não cabia revisão às decisões de campo do árbitro que, como se sabe cada vez mais, é limitado na sua atuação – e aqui não estou sequer entrando no mérito da qualificação deste que apitou a partida, pois é considerado um dos melhores que temos no país. Uma várzea!
A despeito disso, ao Grêmio cabe entender o que motivou a derrota deste início de noite, em Porto Alegre, e, principalmente, coloca-lá na devida dimensão. Primeiro, identificar seus pontos positivos e enaltecer a impetuosidade de Gustavo Nunes que, não podemos esquecer, tem apenas 18 anos e joga como gente grande. Depois, ajustar a marcação em uma faixa do gramado em que saíram os dois gols e o pênalti fatídico. E, finalmente, conscientizar-se de que esse resultado significa praticamente nada na missão maior que é ser heptacampeão desta várzea!
Se minha memória não estiver falhando, aos 85 anos, era um prazer muito agradável andar pelo centro de São Paulo.
O passeio começava na catedral da Praça da Sé com uma caminhada em direção a rua Direita. Passava na confeitaria Vienense e chegava a Praça do Patriarca onde está a igreja de Santo Antonio.
A caminhada seguia pelo Viaduto do Chá para encontrar a loja Mappin, com seu famoso chá da tarde, no topo do prédio, bem em frente ao Teatro Municipal, onde assistíamos o que havia de melhor em espetáculos teatrais.
O percurso costumava seguir pela Barão de Itapetininga tendo como destino a Praça da República com seus lagos e chafarizes. Ficava ali o Instituto de Educação Caetano de Campos, onde estudei desde o jardim da infância, passando pelo primário e o ginásio.
Do outro lado começavam os inúmeros cinemas. Era a Cinelândia que se estendia pela São João e arredores: Cine República, Marabá, Ipiranga, Ritz, Ópera, Marrocos, Windsor, Metrópole … por eles passamos nossa juventude no cotidiano de um centro da cidade que era referência para todos os paulistanos.
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Álvaro Gullo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.