De bom e mau

 

Por Maria Lucia Solla

 


Ouça “De bom e mau” sonorizado e na voz da autora

 

 

Olá,

 

pisquei, e a segunda virou quinta. Os dias correm como nós, e num desses dias voadores liguei a televisão e ouvi que o número de assaltos a residência e estabelecimento segue crescendo. Confirmei também que a civilidade segue diminuindo e que a fúria do invasor atinge nível de dar náusea. Se sequestra e se mata por tudo e por nada também. Humano tortura humano, legal e ilegalmente; se degrada, dissolve, mingua.

 

Tem muito ódio, muita raiva, muita amargura nos corações. Campeia a traição, o abuso e o descaso pelo outro. A sociedade do eu primeiro vem fortalecendo alguns músculos, mas vem deixando definhar o próprio coração. Se sobressai no índice do dinheiro, do consumo, e se retrai na educação, no respeito, na consciência do real direito de cada um.

 

Mas tem o outro lado onde pipocam projetos sociais; gente que troca o dia-a-dia, o conhecido, o conforto, pelo inverso da medalha. Gente que se arrisca no universo da diferença, do carência, da doença, do desengano, onde acaba encontrando – dizem os que se entregam – um presente da vida.

 

De um lado o invasor, do outro o libertador. É o que vemos desde criança no desenho animado. Bom contra mau. Falávamos disso, meu filho e eu, no domingo passado. Sobre repressão, criminalidade e atividade das polícias. E eu pergunto o que mais vai ser preciso proibir, quantas vezes mais vai ser preciso remendar a Constituição, para podermos saciar a boca faminta da justiça, do suborno, e das polícias, num desbotado filme de bandido e mocinho.

 

Enquanto o bom continuar a se entrincheirar e se armar para combater o mau, será só um arremedo de bom. Será um mau presunçoso a se considerar do bom lado da cerca. Só isso. E o mau, acreditando ser mau porque é isso que lhe dizem desde que entendeu a primeira palavra, o primeiro olhar, se arma para resistir, lutar e atacar o bom.

 

Não tenho a solução, nem na palavra nem no pensamento, mas sinto no coração que ela existe e que é possível; e tenho certeza de que você também sente. É preciso, no entanto, que a galera do bloco bom não se pavoneie, sentando nos próprios pés na ilusão de que não percebam seu medo e sua vergonha, e que não continue apontando, de bico erguido, o erro do vizinho. Em qualquer área, em todo nível social, cultural, no bloco civil, no bloco militar, penso em gente, não em casta.

 

As maiores e mais fratricidas guerras foram guerras religiosas; e continuam sendo. O religioso rotulado, que se considera bom, fica cada dia mais agressivo e arregimentador. É só olhar em volta, para os que rezam estirados no chão para falar com Deus, e os que se ajoelham para fazer a mesma coisa. Para os que aceitam os santos, e os que não aceitam. Para os que consideram Jesus o Messias, e aqueles que não. É guerra que, como todas as outras, é feia, dissimulada, discriminatória e preconceituosa, disfarçada de divina, correndo solta, acelerando o tempo que se esgota para que a consciência se instale como programa de tecnologia de ponta.

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 


Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

De grito de amor

 

Por Maria Lucia Solla

Ouça De grito de amor na voz da autora

De grito de amor foto

te amava e odiava na mesma medida
um estica e empurra sem fim
te amava
o ardor me arrancava o sono
te odiava
o tino te arrancava de mim

te amava porque me sabias
odiava por me saberes demais
te amava porque me dizias tanto
odiava por não me dizeres mais

te amava porque era bom pensar em ti
odiava por te pensar demais

te amava porque sabias o que eu pensava de ti
odiava por não saber o que pensavas de mim

te amava porque me inspiravas
sobressaltava cada vez que respiravas
na esperança de que na minha saudade
suspirasses por mim de verdade

te amava quando me olhavas
odiava ao afastares de mim teu olhar
te amava ora bolas
será que é preciso explicar

amava e odiava confesso
te sonhava e orava amém
gritava e me calava no vazio da entrega
será que me sonhavas também

hoje vou levando dia a dia
tecendo minuto a minuto a vida
me atirando me fazendo atrevida
um estica e empurra sem fim
ai de mim!

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e promove curso de comunicação e expressão. Aos domingos, no Blog do Mílton Jung fala de amor e desamor