As pessoas viram meu corpo e não repararam no brilho dos meus olhos

Por Diego Felix Miguel

Foto de Luis Quintero on Pexels.com

Prezada leitora e prezado leitor, muito obrigado por tirar alguns minutos do seu precioso tempo para conversarmos. Não sei o quanto será agradável este assunto, mas, de fato, é algo que tem me incomodado bastante. Possivelmente você se encontre nesta situação, seja de um lado ou de outro. Por isso, pare, respire, tome um cafezinho enquanto dialogamos.

Não é segredo para ninguém que vivi um processo depressivo nos últimos anos –– talvez tenha sido até este momento para você que está me lendo pela primeira vez; sempre deixei aberta essa situação porque acredito que ainda há muito receio de se falar de forma transparente sobre isso. Mesmo fazendo tratamento há um bom tempo, somente em 2025 tive uma recuperação significativa. Obviamente com a ajuda de profissionais: médico psiquiatra, médico de família e comunidade, nutricionista e profissional de educação física.

Neste período, em menos de um ano, perdi mais de 30 quilos.

Sim, eu estava gordo e, apesar de me sentir bem fisicamente, os comentários das pessoas referentes ao meu corpo me machucavam. Vinham em forma de “preocupação” e até “conselhos” nunca solicitados — não pedi sua opinião, muito menos a ajuda, pensava no meu íntimo. Os discursos tentavam sempre me colocar em um lugar de inferioridade, sob um suposto “incentivo” ao autocuidado. Mas o que de fato me machucava, que apenas algumas pessoas mais próximas percebiam, era a ausência do brilho nos olhos.

Em maio de 2025, vivenciei uma espécie de ressuscitação. Na busca do ar para sobreviver, encontrei forças (e motivação) para focar no autocuidado e recuperar um amor que, há alguns anos, estava perdido. Desde então, mudei totalmente minha rotina, aprendi a priorizar o que realmente importa e a fazer boas escolhas.

O brilho nos olhos ressurgiu. Voltei a sorrir, a amar e a ver a beleza de um dia colorido, mesmo quando está nublado. Como consequência, meu corpo mudou totalmente. Como disse meu amigo Fred, recentemente, em um café delicioso e uma conversa empática: perdi peso, mas não foi somente o corporal. Foi o simbólico. Aquele que ninguém vê, mas que faz a gente se arrastar pela vida.

Hoje, com 30 quilos a menos e um corpo de quem se dedica ao autocuidado, tenho recebido muitos elogios, o que faz bem para a autoestima. O que me incomoda, ainda, é que pouquíssimas pessoas perceberam que a mudança mais significativa, e talvez a mais importante, foi o brilho nos meus olhos.

Não entendo muito a necessidade de falar do corpo. O que mais importa é o “conjunto da obra” ou, como costumamos falar na Gerontologia, os aspectos biopsicossociais. Estou envelhecendo. Agora ainda mais próximo da velhice, já que completei 41 anos. O meu investimento não é apenas para garantir músculos e ser um velho com funcionalidade preservada ou para que meu corpo funcione corretamente. É, principalmente, para que esses cuidados, somados à saúde mental, minimamente garantam que eu chegue à velhice.

Obrigado por chegar até aqui. Apenas um curiosidade final: o seu cafezinho acabou ou esfriou?

Diego Felix Miguel é doutorando em Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP, especialista em Gerontologia pela SBGG e presidente do departamento de Gerontologia da SBGG-SP.

De ser assim

 

Por Maria Lucia Solla

 

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um dia atrás do outro
vida

 

um homem atrás do outro
bandido

 

Um trem atrás do outro
atraso

 

Um carro atrás do outro
São Paulo

 

um olhar atrás do outro
saudade

 

e eu o que faço agora?
conto gotas de chuva que choram no jardim
se você olhar para fora
vai pensar em mim?

 

ingênua por não antever
teu momento de ir embora
ou ficar de vez pra sempre
sem se preocupar com a hora

 

Faz tempo que quero escrever minha história. Completa. Sem corte. Para ninguém elogiar, mas para que eu mesma possa lembrar.

 

Será que me lembro de tudo? Serei injusta com olhares que não percebi, com palavras que deixei de ouvir e com tudo o que se eternizou em mim, nas rugas, na artéria interrompida, nas lágrimas que ainda escapam dos meus olhos, e que nem lembro de onde vieram nem o que fizeram para chegar, mas assim mesmo eu as deixo rolar.

 

Será que ainda me lembro de mim? História, na verdade, é um resto de saudade. Mas quem é que sabe, se nem eu mesma sei, enfim.

 

Vida é eterno começo para nunca mais terminar, o que me assusta e me encanta, e eu me entrego à loucura, onde não há ranger de dentes, mas um bouquet imaginário e lendário de muita ternura.

 

Um dia, quem sabe, agarro a caneta e digo tudo, do meu jeito. Mas para isso tem que ter muito peito.

 

Hoje, envolta na solidão, ameaçada pela depressão, não tenho mais medo de nada, não. Fiz o que pude, disse o que sabia e o que podia dizer, timidamente no início, no meio e no fim, porque só sei ser assim.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Escreve no Blog do Mílton Jung

 

A foto deste post é do álbum de Ana Guzzo no Flickr