Amor por ônibus faz mecânico ter 360 filhos

Por Adamo Bazani

CÉLIO HONÓRIO DE JESUS

“Tá vendo cada ônibus desse? Pois é, são como um filho para mim. Sei de tudo o que eles precisam, sei do detalhe e do macete de cada um. Os trato com intimidade. Se aparece no final do dia com um risquinho qualquer ou um barulhinho diferente, mesmo que seja de uma porca mal ajustada, eu sei”.

Assim, Célio Honório de Jesus Júnior, 37, o Macarrão, gerente de manutenção do grupo de empresas de ônibus Barão de Mauá, Januária e EAOSA (Empresa Auto Ônibus Santo André) recebeu a reportagem dentro da garagem, em Mauá, na Grande São Paulo. E o que ele falou, não foi papo apenas, não. Percorrendo os três enormes pátios das empresas, mostrava orgulhosamente cada veículo que estava parado na revisão. Dava de cabeça as fichas técnicas e contava particularidades de cada ônibus, mesmo sendo muitos do mesmo modelo. Não somente a parte mecânica, mas a paixão de Célio Honório pelo ramo, faz com que ele saiba até mesmo a história de cada carro.

“Esse nós compramos zero quilômetro. Esse aqui dava uma trabalheira na suspensão e tivemos de fazer uma adaptação de improviso na mão, esse veio da empresa do grupo lá de Manaus” – contava com orgulho enquanto caminhava de peito aberto pela grande oficina.

Tamanha memória e conhecimento de cada detalhe é paixão pelos ônibus mesmo, pois ele é responsável por mais de 360 veículos, ou como chama, mais de 360 filhos, 360 histórias.

O início de Macarrão, como prefere ser chamado, foi de luta, perseverança e humilhação. Apesar da pouca idade, Célio está há mais de 20 anos na mesma empresa. Começou aos 13, enquanto fazia curso técnico no Senai (Serviço Nacional da Indústria). Apesar de estar estudando uma formação técnica Macarrão começou como varredor na garagem, em 1986.

“Eu era novo, franzino e tinha motorista e outros funcionários que de sacanagem, me humilhavam. Eu limpava um canto da garagem, via gente sujar de propósito. Varria o pátio todo, amontoava sujeira no meio para depois colocar no lixo e tinha motorista que passava com o ônibus em cima só pra espalhar tudo de novo. Era humilhação, mas eu seguia firme”

Seguia firme, por necessidade e por um ideal. Macarrão seria pai-precoce. Hoje, com a filha de 23 anos, logo será avô.  Sempre quis ter uma família e a assumir sem ajuda de ninguém. “Por isso, pra mim não tinha humilhação, gozação ou trabalho que fizesse me desanimar”.
Dois meses depois de entrar como varredor, foi chamado para ser auxiliar-mecânico. “Aí eu descobri o que era trabalhar numa empresa de ônibus de fato e de verdade. O diesel entrou nas veias”.

Ele ajudava na limpeza das máquinas e no torno mecânico na oficina da garagem. Depois de 4 meses, foi trabalhar no setor de montagem e ajustagem. A garagem, que congrega as três empresas, é uma das mais conhecidas do ABC Paulista por promover reparos e alterações nos ônibus. Dependendo da necessidade da frota e das condições dos itinerários, ainda feitos em vias de difícil tráfego na cidade de Mauá, os veículos têm a suspensão elevada. Carros simples viram articulados e articulados viram convencionais. Veículos de motores traseiro ganham a configuração de motor  dianteiro. Peças são literalmente fabricadas na empresa. A oficina das três empresas é um verdadeira linha de produção.

A entrevista foi realizada num ambiente típico, entre cheiro de graxa e diesel, movimentação e correria de mecânicos com peças, barulho de marteladas, maçaricos,  e enormes veículos articulados sendo envelopados com papel especial para a pintura na funilaria.

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Os perigos que assolam as garagens de ônibus

Por Adamo Bazani

Os relatos de motoristas, cobradores, gerentes e fiscais que trabalharam no setor de transporte urbano até os anos 80 mostram as garagens de ônibus  como extensão das comunidades. Nas garagens, vários garotos brincavam vendo os ônibus e os mecânicos trabalhando. Muitos. inclusive, se tornaram profissionais do setor.  Algumas garagens aos fins de semana se transformavam até mesmo em pontos de encontro, onde eram feitas churrascadas e os empresários atendiam às comunidades carentes.
Com o aumento da violência urbana e da organização de quadrilhas de roubos e assaltos, as garagens de ônibus viraram fortalezas, com câmeras de segurança, cabines de vigia e o acesso à população se tornou bem difícil, o que implicou num maior distanciamento entre passageiros e empresas. Até mesmo os busólogos, grupo de pessoas que admiram ônibus, têm uma vida difícil quando querem pelo menos fotografar um veículo novo que chegou em determinada empresa ou registrar as últimas imagens de um veículo que vai ser vendido.

Muita gente sabe o quanto é perigoso trabalhar com ônibus na rua. Diariamente, vários motorista e cobradores são assaltados ou vítimas de gangues, torcedores de futebol em dias de clássicos e de muito vandalismo. Mas trabalhar nas garagens de ônibus também tem sido perigoso.

Maria Eliana Barbosa da Silva, de 46 anos, trabalha na Viação Barão de Mauá, há 28 anos, sempre lidando com o setor financeiro. Ela começou a carreira rasgando passes de papel, depois passou para o departamento pessoal, datilografava folhas de cheques de pagamento de motoristas, controlava a bilhetagem até ser chefe do setor financeiro de um grupo formado por três grandes empresas de ônibus em Mauá. Ela tem relatos impressionantes para contar de como as garagens viraram alvo em potencial de grupos criminosos especializados.

Maria já viu várias tentativas de assaltos, principalmente em dias de pagamento nas garagens, mas dois fatos a marcaram: o seqüestro do qual foi vítima e o seqüestro da mulher do sócio majoritário das empresas.

Era uma sexta-feira, final de 1998. Maria tinha acabado de sair da garagem em Mauá. Perto de sua casa, viu um homem encostado num carro, estacionado na esquina, que a abordou. O homem sabia que ela trabalhava na empresa, o nome, o apelido dela, Morena, e sua rotina de vida. Armado, ele obrigou Maria Eliana a entrar no carro, onde estavam outros seqüestradores. O objetivo do grupo era usá-la como escudo para invadir a garagem de ônibus no fim do dia. Nesse período, os ônibus trazem toda a féria das tarifas, e o banco da empresa ainda estava com o dinheiro que muitos trabalhadores iriam sacar.

“Foram momentos de tensão. O grupo sabia que naquela época eu tinha um carro Tipo, cor preta, e foi até minha casa, usada como meu próprio cativeiro, para pegar o meu carro e invadir a garagem com ele, para facilitar ainda mais o assalto. Mas naquela semana tinha batido  o carro e ele estava na oficina”.

O grupo armado entrou na casa de Maria Eliana e a fez refém, enquanto planejava como invadira a garagem com um carro desconhecido. “Eu já estava muito nervosa. Os bandidos estavam de cara limpa, mas quando falaram que estava chegando a hora de invadir a garagem, eles colocaram capuzes, aí, fiquei com mais medo ainda, não sabia o que ia acontecer. Foram horas desesperadoras”.

A casa de Maria ficava a poucos minutos da garagem. O bando tinha dito para ela que observava a rotina da funcionária e da empresa há mais ou menos seis meses. E não era mentira, pois detalhes que só quem conhece o funcionamento da empresa eram de conhecimento do grupo criminoso. Repentinamente, o celular de um dos assaltantes toca. Era um olheiro, dizendo que o seqüestro e assalto tinham de ser abortados, pois uma ronda policial estava insistentemente ao lado da garagem. Alguém teria descoberto o plano e avisado a polícia, pela movimentação estranha ao redor da empresa.

“Eles tinham olheiros em todo o canto. Os seqüestradores então me trancaram e foram embora.  O susto foi muito grande e o que me surpreendeu foi o fato do alto conhecimento e especialização deles, além das armas grandes. Até hoje tenho trauma disso” – confessa.

A Polícia foi avisada, mas não chegou a prender os criminosos.

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Prefeito será cobrado por veto a projeto que ajuda deficiente visual

O Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência vai cobrar do prefeito Gilberto Kassab (DEM) o veto ao projeto de lei que prevê a instalação de avisos sonoros no transporte de passageiros. De autoria da vereadora adotada Mara Gabrilli (PSDB), a justificativa da prefeitura para não sancionar a lei causou indignação.

Primeiro, porque é difícil determinar a informação sobre os pontos de paradas para que sejam transmitidas pelo sistema. Segundo, porque a proximidade dos pontos causaria poluição sonora dentro do ônibus.

Com esta explicação, o prefeito colocou em dúvida a aceitação da população a uma ideia cidadã. Ideia, aliás, que já funciona em Curitiba e não se tem informação de passageiros reclamando do incomodo do barulho.

Com a intenção de vivermos em uma cidade inclusiva precisamos entender, também, que a informação da próxima parada ajuda não apenas os deficientes visuais, mas todos aqueles que usam a linha. É comum ouvirmos passageiros perguntando ao cobrador qual o próximo ponto.

Vamos esperar que o prefeito ouça o Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência.

Ouça aqui a entrevista que fizemos com a presidente do Conselho Municipal da Pessoa com Deficiência, Dora Simões (publicado em 12.02, 13:00)

Caminhoneiros se apaixonam pelo transporte de passageiros

Por Adamo Bazani

natanael lopes da silva - vicente de paula carvalho

Do transporte de cargas ao transporte de passageiros, muitos motoristas sentem na pele a diferença. Por causa das instabilidades da estrada, por falta de segurança, de horários e ganhos definidos, muitos motoristas de caminhão e, até mesmo, de carretas que transportam cargas perigosas optam por mandarem currículo, pedirem a indicação de amigos com a intenção de arrumar emprego em uma empresa de ônibus.

Pensam que a situação vai ser melhor. Quando a linha é urbana, o trabalho é perto de casa, há horários previstos, e uma série de outras facilidades. Mas quando pegam um ônibus pela primeira vez veem que o transporte de passageiros nas cidades não é para qualquer um, é difícil e exigem qualificação específica.

Foi esse o impacto que sentiu o motorista da Viação Januária, hoje inspetor de tráfego, Natanael Lopes da Silva, de 66 anos. Estava acostumado com as longas viagens, boa parte das vezes entre o interior paulista e o Porto de Santos.

“Tem de trabalhar muito pra ter um lucro. Então, em 1972, consegui uma vaga na empresa Barão de Mauá. Meu primeiro dia de trabalho me surpreendeu. A carga a gente põe no caminhão e vai embora, é claro, tem de ter alguns cuidados, mas no ônibus urbano, a gente tem de estar ligadão a toda hora. Isso nos anos 70, que o trânsito era bem melhor, imagine hoje”.

Natanael começou dirigindo um ônibus Scania, carroceria Carbrasa, que hoje não existe mais. O veículo era duro e pesado, mas não muito diferente dos caminhões. A diferença estava na indispensável atenção ao passageiro.

“É gente pedindo informação, é parando toda a hora, é cuidado para não engatar a marcha enquanto tem passageiro desembarcando…Meus primeiros meses dentro de um urbano foram um  batismo, um vestibular mesmo”

Outra diferença, segundo ele, é acompanhar de perto a rotina das pessoas, sendo possível fazer muitos amigos, e também o crescimento das cidades. Bairros praticamente desabitados em Mauá, como Itapeva, Nova Mauá, Itapark, que tinham estreitas ruas de paralelepípedos ou eram estradinhas de barro e muito atoleiro, se tornaram regiões fortemente adensadas.

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Desafios fizeram de Aniceser um líder nas garagens

Por Adamo Bazani

O transporte de passageiro é um dos setores mais dinâmicos. Em algumas ocasiões, nada do que se planeja – horário, escala, itinerário – dá certo, pois os imprevistos são constantes. Sem contar a rapidez nas decisões e a necessidade de  lidar com pessoas das mais diferentes, num só dia.

Foi essa rotina que, inicialmente, assustou o encarregado de tráfego da Viação Barão de Mauá, Aniceser Antônio Santana, de 37 anos, há 20 no setor. Foi também essa correria e agitação que despertou no mineiro, que veio para São Paulo ainda novo, o espírito de liderança. Hoje, ele comanda as operações de um conglomerado de três empresas: Barão de Mauá, Januária e E A O S A (empresa Auto Ônibus Santo André), um contingente de mais de 700 profissionais e uma frota que beira 400 ônibus.

Até chegar a este posto, Aniceser teve de suar muito a camisa e enfrentar momentos tão difíceis que pensou em desistir. Acostumado com uma rotina simples e pacata na cidade de Lagoa Formosa, interior de Minas, ele veio trabalhar na Grande São Paulo, no fim dos anos 80. E iniciou carreira na  Viação Barão de Mauá,  que ainda não fazia parte de um conglomerado. Era fiscal de plataforma, responsável por gerenciar as partidas e chegadas de ônibus de várias linhas dentro de um terminal.

O choque entre a rotina na cidade natal e o cotidiano em Mauá foi enorme. “Nunca imaginava tanta correria, tanta responsabilidade e necessidade de se tomar decisões rapidamente. No meu primeiro dia me senti num barco sem vela, sem rumo, sem horizonte. Não conhecia ninguém na empresa e era difícil atender todas necessidades que a função exigia”.

No início dos anos 90, em Mauá, os motoristas e cobradores não usavam uniformes. Aniceser se lembra que viu um homem parado perto de um ônibus e disse pra ele: “Bom, já ta na hora, pega o carro e vai fazer tal linha”. O homem não era motorista. Era um passageiro a espera do ônibus que, até aquele momento, estava sem condutor. “Depois de perguntar prá meio mundo, descobri quem era o motorista. É assim que a gente começava. Não tinha tempo de ficar conhecendo todo mundo na garagem”. Vários erros aconteceram no primeiro dia de trabalho de Aniceser que se encerrou com ele trancado em uma cabine de fiscal e chorando.

No dia seguinte,  forças renovadas e a determinação de prosseguir no ramo “Sempre gostei de encarar desafios, então fui à luta. Meu sonho era liderar pessoas, e no ramo de transportes  as oportunidades para isso, se bem aproveitadas, são muitas e bem recompensadoras”.

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Dirigindo craques

Por Adamo Bazani

Livio e Adamo
Livio conta suas lembrança ao repórter Adamo Bazani

Imagine uma seleção com jogadores de diferentes épocas. Luís Pereira, Dener, Túlio, Casagrande, Lea, Jair Picerni, Badeco..

O motorista de ônibus Lívio Lisboa, de 60 anos, teve a honra de conhecer pessoalmente todos estes nomes e muitos outros que poderiam formar várias equipes de craques que renderiam verdadeiros clássicos. Lívio, hoje trabalha na empresa de ônibus de fretamento Opinião, em Ribeirão Pires, na Grande São Paulo. Ele começou no transportes de passageiros, em 1977, na EAOSA – Empresa Auto Ônibus Santo André. Pouco tempo depois, foi trabalhar na empresa de fretamento de ônibus Viação Benfica, de São Caetano do Sul, também na Grande São Paulo.

“Nessa empresa tive a oportunidade de conhecer de tudo um pouco. A diferença do transporte urbano para o de fretamento é que neste a gente trabalha com grupos específicos: operários, sindicalistas, estudantes, religiosos e até artistas”, diz Lívio Lisboa.

Ele contou que trabalhou na Viação Benfica para grupos teatrais percorrendo o País inteiro com Paulo Gracindo e companhia. Prestou serviços para diversos profissionais da música, como da Casa da Música de São Paulo, onde conheceu o Bira, do Programa do Jô, entre outros. No entanto, o que mais desperta saudade em Lívio é a época em que a empresa Benfica firmou contrato com a  Confederação Brasileira de Futebol e a Federação Paulista de Futebol.

“Aí pude aliar minhas duas paixões: o volante e o futebol”, revela Lívio, que de tanto envolvimento com o mundo da bola, hoje é técnico credenciado pela Federação Paulista e já dirigiu equipes de base em São Caetano do Sul.

E o mundo da bola e o dos transportes são muito mais ligados do que muita gente pensa. A relação entre motoristas de ônibus, técnicos, jogadores, presidentes de clubes e torcedores sempre foi intensa. “Vi jogadores se formarem e crescerem”.

Viu, por exemplo. a ascenção de Luís Pereira, do Palmeiras. “Ele jogava pela time da General Motors. Um dia foi disputar um jogo contra o São Bento de Sorocaba. O pessoal do interior paulista simplesmente ficou maravilhado com a habilidade do craque. Pouco tempo depois, ele brilhava no Palmeiras”.

Vários jogadores tornaram-se amigos de Lívio,. Sempre o presentearam com  camisas, flâmulas (muito comuns na época), distintivos, bonés. “Até participei de rachões na Portuguesa, onde fiquei mais de quatro anos prestando serviços como motorista da Viação Benfica”.
Lívio sentiu a morte do jogador Dener, como se fosse um familiar que partiu. Segundo o motorista, Dener sempre tratava bem os motoristas e demonstrava muita humildade.

Mas nem tudo era amizade e confraternização.

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São Paulo 455: Ônibus que fizeram a história da maior cidade do Brasil

Toda terça-feira, você acompanha neste espaço, a história do transporte de passageiros contada pelo colega da CBN Ádamo Bazani. Nesta semana, para comemorar os 455 anos de São Paulo, nosso busólogo e colaborador buscou no seu baú de fotografias imagens que representam oito importantes capítulos dos ônibus na capital paulista.

1911

1911 – Inicia-se o serviço de auto-ônibus na capital paulista pela empresa Companhia Transportes Auto Paulista. Foi utilizado um veículo Saurer, com capacidade para 25 passageiros. O serviço não tinha horários nem itinerários fixos

1936

1936 – Várias empresas começam a desbravar bairros em São Paulo, como a autoviação Jabaquara. Inaugurada por Artur Brandi e pelos Havelange, foi uma das maiores empresas de então, e se transformou na Cometa, em 1949. A imagem mostra um dos ônibus de sua frota , um GMC diesel de 39 lugares

1947

1947 – Em 12 de março, a prefeitura de São Paulo transfere o patrimônio da São Paulo Tramway Light and Power Company Limited, referente a transportes coletivos para a CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos. Em 18 de junho, a CMTC é autorizada a funcionar pelo Decreto-Lei 987 do prefeito Christiano Stokler das Neves. Em 1o. de julho, o patrimônio da São Paulo Tramway Light and Power Company Limited é oficialmente transferido para a CMTC que inicia as operações. Em 1949, a CMTC implanta o sistema de troleibus com 30 veículos importados dos EUA e Inglaterra, colocando em funcionamento a linha Largo São Bento-Aclimação

1958

1958 – A CMTC, Villares e Massari fabricam os primeiros troleibus brasileiros. Alguns destes veículos operaram até meados dos anos 80, como na foto.

1977

1977 – Através de um decreto municipal, a cidade de São Paulo é dividida em 23 áreas de operação atendidas por empresas particulares de ônibus contratadas pela CMTC. As linhas circulares e diametrais passam a ser exclusividade da CMTC. Na foto um Caio Gabriela da Viação Bola Branca

1989

1989 – Jânio Quadros coloca em São Paulo os primeiros ônibus de dois andares, fabricados pela extinta carroceria Thamco e motorizados pela Scania que ficaram pouco tempo por causa do tamanho e da falta da estrutura da cidade

1994/1995

1994/1995 – A CMTC deixa de ser operadora para ser gerenciadora e surge a SPtrans. O sistema passa a ser operado por 47 empresas municipais

2000

Anos 2.000 – O sistema é reorganizado e passa a operar por consórcios, de empresas e cooperativas. Aumenta o número de ônibus articulados e a cor da frente de cada veículo, indica a região que ele serve, como este Caio Mondego articulado, parado no ponto quase em frente à Rádio CBN na Rua das Palmeiras.

Foto-ouvinte: Por um trânsito ético

Bicicleta e ônibus

Reproduzo mensagem e foto enviados pelo ouvinte-internauta Paulo Assis.

“Milton,

Li diversos comentários a respeito de morta da ciclista na Paulista esta semana. Cada um com determinado ponto de vista e ao final de todos fica uma sensação de que o que, de uma maneira geral, o que falta é EDUCAÇÃO. Educação para a população pois esta é a base que nos dá conhecimento para possamos saber de respeito, direitos e deveres.

Encaminho aqui uma imagem que me chamou demais a atenção e gostaria de compartilhar contigo.

Há dois anos fomos, eu e minha esposa, em viagem de férias para o interior de Europa. Um dos lugares que fomos conhecer foi Salzburg ( Austria ) e lá flagrei a foto que te envio em anexo, onde na faixa de onibus e ciclovia ( a inidicação do chão mostra que são uma única ) há uma freira com seu habito à frente de um onibus. Não houve qualquer insulto ou mesmo buzina para que ela saísse do caminho.

Abraços,

Paulo Assis”

Alguém se dará conta que o volume de trânsito na cidade alemã, cenário da fotografia, é muito menor do que na capital paulista e usará este fato para justificar a violência nas avenidas e ruas de São Paulo. Mera desculpa. O problema aqui, como bem ressalta o ouvinte-internauta, é de educação, respeito.

Por um trânsito ético !

Aqui começa a violência

Ponto de ônibus

A violência no trânsito – revelada nos números da CET que você lê logo abaixo – se propaga a partir de atos muitas vezes inocentes como este registrado pelo colega da CBN Fernando Gallo, na rua Desembargador do Vale. Os motoristas que estacionaram seus carros diante do ponto de ônibus desta via do bairro Pompéia nunca pensaram na possibilidade de que o passageiro precisará ficar no meio da rua. E lá, o risco dele ser atingido por um carro, moto ou ônibus é muito maior. Gallo avisa que a prática é comum naquele local.

Uma pioneira, uma guerreira: A força da mulher nos transportes

Por Adamo Bazani

Pioneira no transporte
Áurea acompanhada do marido e do cunhado

Apesar da situação ter mudado muito nos últimos anos, o ramo de transportes de passageiros ainda possui uma mão de obra predominantemente masculina. Com o desenvolvimento das formas de gestão das empresas de ônibus, com complexos escritórios e setores de comunicação, informática e recursos humanos, várias mulheres têm atuado no setor. Mas na operação dos ônibus, como motoristas, elas ainda são minoria.

Muitas se orgulham em dirigir os atuais ônibus, hidráulicos e eletrônicos, muito confortáveis, mas ainda enfrentam dificuldades, como o preconceito.

Se atualmente, o setor ainda não oferece todas as condições ideais para as mulheres estarem à frente dos brutos, imagine nos anos 70, quando a mentalidade era diferente e as condições de vias e veículos bem piores?

Para dona Áurea Antonio Pinto, de 67 anos, estas dificuldades foram superadas pela garra e paixão aos transportes. Natural de Cambará, no Paraná, e criada em Santa Mariana, no mesmo Estado, Áurea foi uma das primeiras motoristas de ônibus do Brasil. Ela mostrou ao setor o quanto o cuidado e o carinho especial que só as mulheres têm são importantes no relacionamento com os passageiros e no trânsito. Mas foi difícil a sociedade entender isso.

Áurea, sempre com seu jeito imperativo e de se dar o respeito, superou todo o preconceito e todas as dificuldades.

“Como ela tinha cara de brava, o pessoal não falava muita coisa diretamente pra ela, mas, como cobrador, eu ouvia muitas conversinhas, frases e piadinhas desrespeitosas dentro do ônibus a respeito de Áurea” – conta o motorista José Pedro dos Santos Neto, de 50 anos, que hoje é casado com dona Áurea e já foi cobrador das Viações ABC e Cacique (essa última extinta), ambas do mesmo grupo, em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista.

Bebê foi criado dentro do ônibus

Dona Áurea começou a trabalhar no ramo em 1977, na Viação ABC. Ela se iniciou como cobradora. “Na época não tinha a caixa do cobrador sobre a catraca, como hoje,. Eu ficava em pé, com uma caixa de sapatos, onde guardava o dinheiro e as fichas das seções percorridas pelos ônibus” – lembra dona Áurea.
Determinada e apaixonada pelo ramo dos transportes, nesta época, Dona Áurea tinha um filho de seis meses, atualmente com 34 anos. Ela saía a pé às duas horas da manhã de casa com a criança, chegava à garagem, pegava a caixinha de sapato, uma cesta de vime e ia com o bebê trabalhar.

Numa jornada de mais de 10 horas de trabalho, Dona Áurea, dentro do ônibus, se dividia entre a função de cobradora e de ser mãe.
“Esse meu filho foi criado dentro do ônibus literalmente”

A mulher mais importante do mundo

Dois anos depois, o proprietário da empresa, José Fernando Medina Braga, vendo a dedicação de dona Áurea, a convidou para ser motorista. Algo na época impensável, mas que revelou o lado visionário do empresário, que morreu em 1988.

E assim foi a primeira vez de Dona Áurea profissionalmente ao volante de um ônibus. Ela se lembra de cada detalhe até hoje. Era um ônibus chassi 1111 da Mercedes Benz, com volante bem duro. A carroceria era um modelo Gabriela da Caio, com embreagem seca. O prefixo do ônibus ela jamais esquece: 65.

Inicialmente, ela deu uma volta na garagem com um ônibus da carroceria Grassi (a primeira encarroçadora de produção em série do Brasil), apelidado de “caixotinho” por ser pequeno e todo quadrado e depois partiu para o Caio Gabriela (modelo que parou de ser produzido nos anos 80).

“Me senti a mulher mais importante do mundo quando saí com o ônibus da garagem. No Paraná, sempre fiz serviço de roça. Depois fiz curso de cabelereira, fui costureira, enfermeira, mas queria profissão de homem na época”

Na primeira esquina, em São Bernardo do Campo, um susto. Ela foi fechada por um carro na entrada de um viaduto próximo do bairro de Ferrazópolis. Mas isso não a fez desanimar. Pelo contrário, todo seu cuidado e carinho pelo ônibus e passageiros afloraram-se. Ela orgulha-se em dizer que nunca bateu o ônibus na vida e tratava o veículo tão bem que qualquer barulhinho diferente avisava os mecânicos.

“Ela tem um ouvido muito aguçado. Ela parava na garagem e falava – Esse ônibus não ta bem, ele ta fazendo um barulho diferente – Dito e feito. O ônibus estava com problemas” – lembra Eliziário Bonfim dos Santos, chefe de manutenção da Viação ABC e que trabalha na empresa há mais de 40 anos. Ele explicou que o Caio Gabriela dirigido por Dona Áurea, era um dos mais conservados da empresa.
“Enquanto tínhamos de trocar o sistema de embreagem de mês em mês dos outros ônibus, o 65 (prefixo do Gabriela de Dona Áurea) só precisava de reparos a cada 3 meses” – explica Eliziário.

Tanto carinho e dedicação fizeram com que a motorista pioneira do Grande ABC ganhasse a amizade e a confiança dos donos da empresa. “Quantas vezes a família do Fernando Medina Braga (dono da empresa) ficava aos meus cuidados quando havia alguém doente. Quantas vezes eu cuidava do seu João Antônio e da Maria Beatriz (hoje proprietários do Grupo ABC de transportes), ainda eles pequenos. Hoje os considero como família” – emociona-se Áurea.

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