50 debates para o Brasil: eutanásia em casos terminais coloca autonomia do paciente e limites da medicina em discussão

O debate sobre a eutanásia desafia princípios éticos, jurídicos e médicos ao colocar em questão quem deve decidir sobre o fim da vida de uma pessoa em situação terminal. Para discutir este tema na série 50 Debates para o Brasil, do Jornal da CBN, reunimos a advogada e bioeticista Luciana Dadalto, presidente da Associação Eu Decido, e o médico gerontólogo Alexandre Kalache, presidente do Centro Internacional da Longevidade.

A primeira questão apresentada aos convidados tratou do conflito entre a autonomia do paciente e o dever da medicina de preservar a vida. Para Luciana Dadalto, a discussão exige uma compreensão mais ampla do significado de viver. Ela defendeu que a medicina precisa considerar não apenas a sobrevivência biológica, mas também a história e a dignidade da pessoa. “Estar vivo não é só estar biologicamente vivo, mas é estar também biograficamente vivo”, afirmou. Segundo ela, a morte assistida deve ser discutida a partir da realidade de pacientes com doenças incuráveis, em fase terminal e submetidos a sofrimento que consideram insuportável.

Alexandre Kalache ressaltou que o envelhecimento da população tornará esse debate cada vez mais frequente. Antes de discutir posições favoráveis ou contrárias, ele defendeu a necessidade de diferenciar conceitos que costumam ser confundidos. Explicou que a eutanásia corresponde à antecipação intencional da morte por um profissional de saúde, enquanto a ortotanásia consiste em permitir que a morte ocorra em seu tempo natural, sem tratamentos desproporcionais para prolongar artificialmente a vida. Já o suicídio assistido ocorre quando o próprio paciente administra o medicamento prescrito. Para Kalache, “esse debate é absolutamente imprescindível” diante do aumento do número de pessoas que viverão com doenças sem possibilidade de cura.

Na sequência do debate, o foco passou a ser a regulamentação da morte assistida. Luciana Dadalto argumentou que a discussão não deve permanecer limitada à divisão entre quem é contra ou a favor. Na avaliação dela, o desafio está em definir quem teria direito ao procedimento e quais mecanismos poderiam impedir abusos. A proposta inclui critérios rigorosos, como diagnóstico de doença incurável e terminal, avaliações médicas independentes, análise da capacidade de decisão do paciente e fiscalização por órgãos responsáveis. “O debate no Brasil precisa ser: o direito à morte assistida é um direito de quem?”, resumiu.

Kalache concordou que a existência de salvaguardas é possível e necessária, mas chamou atenção para outro aspecto: a formação dos profissionais de saúde. Segundo ele, muitos médicos não são preparados para lidar com o processo de morrer. Defendeu maior presença da bioética nos cursos de Medicina e destacou a importância das diretivas antecipadas de vontade — documento em que uma pessoa registra previamente quais cuidados deseja receber caso perca a capacidade de decidir. Ao lembrar a médica Cláudia Burlá, afirmou que, “quando a cura já não é possível, o dever da medicina continua sendo cuidar com competência, compaixão e respeito à dignidade humana”.

O debate mostrou que a discussão sobre eutanásia vai muito além da autorização ou da proibição da prática. Ela envolve conceitos médicos, direitos individuais, proteção de pessoas vulneráveis, responsabilidade do Estado e a forma como a sociedade compreende a dignidade no fim da vida. Independentemente da posição adotada, ficou evidente que o tema exige informação, precisão conceitual e diálogo.

Mais do que responder se a eutanásia deve ou não ser permitida, a discussão evidenciou que o desafio está em construir um debate público qualificado, capaz de distinguir conceitos, estabelecer limites claros e colocar a dignidade da pessoa no centro das decisões sobre o fim da vida.

“50 Debates para o Brasil” tem a produção de Carlos Grecco e Leticia Valente. As entrevistas vão ao ar, de segunda a sexta, logo após às 8h30 da manhã, no Jornal da CBN.

Avalanche Tricolor: o empate decepciona e a volta de Marlon inspira

Grêmio 1×1 Fluminense
Brasileiro – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Fluminense

Marlon parte para o ataque. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Há quatro meses, diante da cena que chocou os gremistas, roguei para que Marlon encontrasse forças e se recuperasse. Em um lance fortuito, nosso lateral esquerdo sofreu uma fratura no tornozelo, que ficou escancarada na imagem captada pela televisão. Ali mesmo, no sofrimento que se iniciava no gramado, ele já sinalizava a dimensão de sua resiliência. Antes de entrar na ambulância, ergueu o corpo sobre a maca, olhou para os torcedores que gritavam seu nome e agradeceu com aplausos e um sorriso.

Hoje, Marlon estava de volta ao time titular, cumprindo o compromisso que ele próprio havia assumido com o Grêmio e sua torcida. A presença dele oferece maturidade na marcação e segurança na saída de bola pelo lado direito. Tem bom passe e visão de jogo. Antes mesmo de demonstrar que está em plena recuperação — ainda precisará de alguns jogos para retomar o ritmo —, seu nome entre os titulares me deu esperança de que ainda podemos mudar nossa história nesta temporada.

Marlon é gremista de coração. É daqueles jogadores que carregam uma história junto com a camisa e chegaram para viver o que muitos chamam de sonho. Foi o que escrevi em 20 de março, logo depois de me sensibilizar com uma dor que somente ele seria capaz de dimensionar.

Mesmo que o resultado deste domingo tenha sido mais uma frustração — empatamos em casa quando os três pontos se faziam necessários —, vislumbro na volta de Marlon a possibilidade de uma transformação. Não que ele seja o tipo de jogador capaz de desequilibrar uma partida, como costumam fazer os grandes craques do futebol. Tem, porém, personalidade e liderança que serão fundamentais para os desafios que se impõem em nosso caminho.

Na Copa Sul-Americana, precisamos vencer já na próxima quinta-feira para seguirmos em frente. Na Copa do Brasil, enfrentaremos, em dois jogos, um adversário que jamais vencemos na história. No Campeonato Brasileiro, precisaremos voltar a ganhar para, ao menos por algumas rodadas, respirar aliviados e distantes daquela zona-que-você-sabe-qual-é.

Para este torcedor delirante, que insiste em acreditar que sempre será possível, ter visto Marlon em campo hoje foi o sinal de que eu precisava para suportar mais um revés no Brasileiro. Que sua volta também tenha esse mesmo simbolismo para o elenco gremista.

Avalanche Tricolor: a esperança do torcedor que ignora a realidade

Mirassol 2×1 Grêmio
Brasileiro – Campos Maia, Mirassol (SP)

Brasileirão - Mirassol x Grêmio - 17/07/2026
Carlos Vinícius marca o único gol do Grêmio. Foto: Rapha Marques / Grêmio FBPA

Os quatro melhores jogadores do Grêmio no primeiro semestre deste ano foram Viery, Arthur, Gabriel Mec e Carlos Vinícius.

Viery já está na Itália, onde defenderá a Fiorentina na temporada europeia que começa agora. Em troca, o Grêmio arrecadará R$ 108 milhões — a terceira maior venda de um zagueiro brasileiro da história. Na noite desta sexta-feira, em Mirassol, Luis Castro precisou recorrer a Kannemann que, infelizmente, já não consegue entregar o futebol que o transformou em um dos grandes ídolos da torcida gremista.

Arthur havia retornado para realizar o sonho de vestir novamente a camisa tricolor. O contrato de empréstimo com a Juventus terminou em junho. O volante aceitava abrir mão de valores que tinha a receber do clube italiano para permanecer no Brasil, mas pedia um contrato de cerca de R$ 100 milhões por três temporadas. O Grêmio preferiu não seguir adiante. Desde então, o time não encontrou quem cumpra a função de conduzir a bola e organizar, ainda que minimamente, o meio de campo. Hoje, vimos o retorno de Villasanti ao time titular, depois de quase 11 meses afastado por lesão.

Gabriel Mec estreou na equipe principal no ano passado e conquistou espaço entre os titulares nesta temporada. Disputou 30 partidas, marcou três gols e deu duas assistências. O Shakhtar Donetsk, da Ucrânia, quer contratá-lo por R$ 70 milhões. O jogador ainda não aceitou a proposta porque o país segue em guerra com a Rússia. Em conversa com jornalistas nesta semana, a direção gremista admitiu que o meia deseja sair. Pela atuação desta noite, ficou a impressão de que ele já começou a partir.

Carlos Vinícius é quem faz os gols do Grêmio. Contra o Mirassol, marcou o décimo dele neste Campeonato Brasileiro. Ainda assim, não atingiu as metas que garantiriam a renovação automática de seu contrato: ser convocado para a Copa do Mundo e participar de 70% dos jogos da equipe. A direção afirma que só pretende renovar se o atacante aceitar o teto salarial estabelecido pelo clube. Sim, pode piorar!

Olhando para esse cenário, fica difícil entender de onde surgiu a minha confiança de que o Grêmio voltaria da pausa da Copa do Mundo jogando um futebol minimamente competitivo. A resposta talvez seja simples: a esperança do torcedor costuma ignorar aquilo que a realidade escancara. Enquanto o elenco perdia seus principais jogadores — ou já convivia com a perspectiva de perdê-los —, eu insistia em acreditar que o time sairia mais forte. Não era análise. Era apenas a velha e conhecida alucinação que acompanha quem torce.

Controle acalma e sufoca

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

Controle

Mandar é “gostoso”, não é mesmo?! Organizar o que será feito; escolher como será a rotina; decidir como gastar o dinheiro … Ordenar e ser obedecido!

Quando eu comando, tenho a sensação de previsibilidade. Sei o que irá acontecer, me sinto mais confortável e com mais segurança sobre o futuro.

Quando eu comando, tenho a satisfação de conseguir o que quero. Meus desejos são concretizados, os medos são protegidos, me sinto o centro das atenções e protagonista no palco da vida.

O impulso de tentar controlar o comportamento das outras pessoas, definir o que é certo ou errado, justo ou injusto, e influenciar as decisões da família, dos amigos ou da equipe de trabalho é intenso. É daquele tipo de impulso forte e rápido: quando percebemos, ele já chegou.E será que a gente percebe a presença dele?

É difícil não desejar controlar. Provavelmente, quase sempre desejaremos. Seja pela previsibilidade, seja pela satisfação. Seja por tudo isso misturado. 

No entanto, esse desejo — o de controlar — nunca se concretiza plenamente. E, além disso, quando ultrapassa certos limites, invade o espaço e a autonomia do outro.

Me conte: como você se sente quando alguém tenta comandar você, interferir nas suas escolhas, ditar o que deve ou não fazer?

Então… 

Nenhum adulto gosta de sentir-se controlado. A tentativa de controle cheira a ameaça, perigo e sofrimento. Quando nos lembramos disso, entendemos por que o controle, apesar de acalmar nosso desejo de previsibilidade e satisfação, acaba sufocando.

Quando sufoco o outro, perco conexão, companhia e ajuda. E se perco isso tudo, também me sufoco, no isolamento, na  solidão, na angústia.

Desejamos controlar. Ainda assim, o controle raramente nos faz bem.

Fica o convite: que caminho você escolherá seguir, livremente?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Avalanche Tricolor: em busca de confiança

Grêmio 2×0 Confiança-SE
Copa do Brasil – Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Copa do Brasil - Grêmio x Confiança-SE - 21/04/2026
Carlos Vinícius, Braithwaite e Amuzu comemoram vitória Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

Vencer era obrigação. Levar uma vantagem maior para o segundo jogo seria o ideal. O placar desta noite ficou no meio do caminho. Dentro do tolerável para um time que busca ajustes e precisava aliviar a tensão provocada pelo desempenho irregular no Campeonato Brasileiro e na Copa Sul-Americana.

A presença de Gabriel Mec como meia mais avançado e livre para criar era um pedido do torcedor desde o bom desempenho dele no clássico Gre-Nal. Luis Castro tem preferido atuar com meias que voltam mais na marcação, mas percebeu que, na partida de hoje, não haveria essa necessidade. O jovem de apenas 18 anos arriscou jogadas de categoria, tentou o drible e acabou provocando a expulsão do adversário ainda no primeiro tempo.

Enamorado e Amuzu seguem sendo as melhores opções pelos lados do campo. Ambos têm o cacoete do drible, o que sempre pode ser uma alternativa, sobretudo diante de um time que joga muito fechado, como o adversário desta noite.

Dos dois, o belga, pela ponta esquerda, costuma ser o mais ofensivo quando acerta o corte para dentro, se aproxima da área e arrisca o chute. Foi assim que chegou a mais um gol e se mantém isolado como vice-artilheiro do Grêmio na temporada.

A vitória começou pelos pés de Carlos Vinícius, que precisou apenas escorar a bola chutada por Braithwaite. O goleador gremista está sempre bem posicionado e prestes a marcar. Nas partidas anteriores, não encontrou companheiros que lhe servissem em condição de gol. Hoje, porém, contou com a parceria do dinamarquês, que vem retornando aos poucos ao time, depois de seis meses lesionado.

A presença de Braithwaite jogando sem precisar ficar fixo dentro da área — função de Carlos Vinícius — foi opção de Luis Castro para o segundo tempo. E funcionou. Deu mais agilidade às jogadas de frente. Talvez valha pensar na possibilidade de usar essa formação ofensiva, nem que seja apenas em parte do jogo. Para isso, é preciso reorganizar o meio de campo, que tem Arthur como titular absoluto e ainda busca os companheiros ideais. Noriega e Nardoni não têm conseguido aparecer com o destaque desejado.

Era desejável um placar mais elástico, principalmente em função da expulsão do adversário. Ao Grêmio, porém, não cabe, neste momento, querer mais do que vitórias. É preciso ganhar jogo após jogo, retomar esse caminho enquanto Luis Castro busca o time ideal para dar consistência aos desempenhos que ainda oscilam.

Hoje, o Grêmio ganhou do Confiança. Agora precisa reconquistar a confiança.

Avalanche Tricolor: é o duro caminho da reconstrução!

Grêmio 1×0 Deportivo Riestra
Sul-Americana — Arena do Grêmio, Porto Alegre (RS)

Gremio x Deportivo Riestra
Amuzu faz o gol da vitória. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

“Sabemos o que é o Grêmio”, disse o folclórico goleiro Ignacio Arce ao fim da partida. A frase veio depois de 90 minutos — e alguns acréscimos — com os 11 jogadores do Deportivo Riestra enfileirados no campo de defesa. Nem mesmo após a expulsão de Nardoni, aos dois minutos do segundo tempo, o adversário se aventurou ao ataque.

Não foi covardia. Foi cálculo. E também respeito a um clube que construiu sua história em noites improváveis, títulos marcantes e uma identidade associada à entrega.

Nós, torcedores, também sabemos o que é o Grêmio. Por isso, a cobrança é sempre alta. Espera-se um time dominante, capaz de impor seu jogo e oferecer mais do que o resultado. Há cinco partidas sem vencer e, há 12 dias, sem marcar, essa expectativa vinha sendo frustrada. A vitória desta noite interrompe o jejum, mas não resolve a inquietação.

Encontramos dificuldades diante de um adversário limitado, que jogou exatamente como podia — e como precisava. Fechou-se, travou o ritmo e apostou no erro. Arthur resumiu bem, ainda à beira do campo: “é mais fácil destruir do que construir”. A frase serve para o jogo. E serve para o momento.

O Grêmio vive um processo de reconstrução. Mudou a comissão técnica, reformulou o elenco, reduziu custos e passou a apostar mais na base. É um caminho conhecido no discurso, mas difícil na prática. Reconstruir exige tempo. E o futebol brasileiro tem pressa.

Em meio ao desespero para chegar ao gol, nesta noite, passei a pensar mais seriamente sobre isso depois de ouvir meu colega de programa de rádio, Paulo Vinícius Coelho, que comentava o jogo na transmissão da Paramount. Ele informou que este era apenas o 24º jogo de Luis Castro no comando do Grêmio. Nesse período, já houve vitória em clássico e título estadual. Ainda assim, a sequência irregular pesa mais na avaliação. A memória curta é um traço do futebol. O resultado mais recente costuma engolir o anterior.

Não se trata de ignorar os problemas. Eles estão em campo. Falta fluidez, sobram erros de execução, o time ainda oscila. A pergunta que fica é outra: quanto tempo estamos dispostos a conceder para que algo consistente seja construído? Porque não há atalho. A reconstrução cobra seu preço. Cobra paciência. Cobra tolerância ao erro. Cobra a capacidade de enxergar processo onde ainda não há resultado pleno.

Enquanto isso, vamos nos apegar aos sinais. Ao drible de Enamorado, que abre espaço. À movimentação de Amuzu, que desta vez terminou em gol. À presença de Carlos Vinícius brigando dentro da área. À lucidez de Arthur organizando o meio-campo. À firmeza de Viery, que, mesmo jovem, já se comporta como dono da defesa. São fragmentos. Ainda não formam uma obra acabada.

A vitória por 1 a 0 não autoriza euforia. Também não recomenda desprezo. Ela revela, com alguma clareza, o tamanho da tarefa.

O Grêmio venceu. E, ao vencer assim, lembrou algo que talvez incomode: reconstruir não é um espetáculo. É um trabalho lento, por vezes pouco vistoso, quase sempre tenso.

A pergunta que fica, para quem está dentro e fora de campo, é simples — e desconfortável: temos disposição para atravessar esse caminho até o fim?

Eu tenho. E torço por ti, Grêmio!

Avalanche Tricolor: o pior Gre-Nal de todos os tempos (ou quase)

Inter 0x0 Grêmio
Brasileiro – Beira-Rio, Porto Alegre RS

Grenal 452
Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Gre-Nal desta noite foi uma sucessão de falhas. De um lado o passe curto saía errado, do outro o passe longo era equivocado. Os dribles morriam antes de nascer, travados pela falta de habilidade; e os cruzamentos pela falta de destino. As raras tentativas de chute pouco exigiram dos goleiros — justiça seja feita, o nosso mostrou segurança quando acionado, enquanto o deles protagonizou um erro constrangedor.

Certamente, entre os 452 Gre-Nais disputados ao longo de 117 anos, houve partidas ruins. Minhas lembranças começam nos anos 1970, quando me entendi como torcedor. Ainda assim, fiquei com a sensação de ter assistido ao pior Gre-Nal de todos os tempos. Senão o pior, um dos que mais decepcionaram.

Verade que Gre-Nal ruim costuma ser aquele que se perde. Para quem aprecia o jogo bem jogado, porém, o que vimos no Beira-Rio foi indigesto. Imagino que o torcedor adversário também não tenha saído satisfeito. Eu, como gremista, espero mais. Sempre espero mais. Insisto em não aceitar a ideia de disputar campeonato apenas para evitar o rebaixamento.

Para não dizer que escrevo movido apenas pelo mau humor de um sábado mal aproveitado, há registros positivos. Weverton foi seguro nas saídas e nas intervenções. O time se entregou. Correu, marcou, disputou cada bola como se fosse a última. Ninguém se omitiu. Ainda assim, essa disposição pareceu nascer mais das dificuldades com a bola nos pés do que de uma proposta consistente de jogo — e também das limitações do adversário.

Sob o olhar da tabela, empatar fora de casa em Gre-Nal pode ser considerado ponto ganho, sobretudo em contraste com o empate anterior na Arena. O problema é que já deixamos pontos demais pelo caminho. Com um mínimo de organização e qualidade, era possível ter vencido.

O que mais incomoda é perceber que o que se viu em campo explica o momento do futebol gaúcho. Um clássico travado, de muita disputa e nenhuma técnica, passou a ser aceito quase como padrão. E isso diz muito sobre clubes e torcedores que já se acostumaram a mirar cada vez mais baixo.

O Grêmio ainda precisa evoluir. Luis Castro terá de ajustar posições, dar clareza ao modelo de jogo e exigir mais coordenação coletiva. Aos jogadores cabe algo mais básico: rever fundamentos. Passe, domínio, decisão. Sem isso, não há estratégia que sobreviva.

Porque, no fim das contas, o maior risco não está em empatar um Gre-Nal ruim. Está em se acostumar com ele.

Avalanche Tricolor: um tropeço que revela um caminho

Palmeiras 2×1 Grêmio
Brasileiro – Arena Barueri, São Paulo

Gremio x Palmeiras
Pedro Gabriel desarma o adversário. Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio teve chances de sair com ao menos um ponto, apesar de jogar fora de casa e diante do líder do campeonato. Infelizmente, a desatenção em uma cobrança de lateral e a guarda baixa da defesa no momento de afastar a bola permitiram a vitória do adversário.

O jogo, porém, não foi perdido por completo. O Grêmio tem lições a tirar e aspectos positivos a ressaltar. Referir-se a Carlos Vinicius é chover no molhado. Nosso atacante não precisa de mais de três bolas no pé para marcar. Hoje, foi efetivo novamente. Na mínima chance que teve, e no espaço quase inexistente entre os zagueiros, livrou-se da marcação e bateu de fora da área para as redes.

O que mais gostei de ver nesta noite foi a aposta de Luis Castro na juventude gremista. O treinador levou a campo ao menos oito jogadores com, no máximo, 24 anos. Cinco vieram da base, e três foram contratados nos últimos tempos.

Na zaga, Viery, com 21 anos, e Gustavo Martins, com 23, têm se consagrado como titulares. A lateral esquerda foi ocupada por Pedro Gabriel, que, aos 18 anos, fazia apenas sua segunda partida entre os profissionais. No meio de campo, Noriega (24), Nardoni (23), Monsalve (22), Zortéa (19) e Gabriel Mec (17) completaram a legião de jovens que esteve em campo. No banco, ainda havia Roger (17), Tiago (18) e Riquelme (19).

Se o Grêmio e sua torcida tiverem paciência, podemos estar assistindo ao nascimento de uma geração de talentos capaz de nos trazer muitas alegrias. São jogadores que ainda precisarão passar por ajustes de posicionamento, desenvolvimento físico e maior entendimento tático para atender às estratégias pensadas pelo treinador. Por isso, ter colegas experientes ao lado e um técnico com visão de futuro será importante.

Com os valores das contratações cada vez mais altos, os times que melhor souberem aproveitar a base tendem a colher resultados significativos. É preciso dar condições para que esses jogadores cresçam e para que os erros e tropeços, inevitáveis nesse processo, sejam vistos como lições próprias do amadurecimento.

Avalanche Tricolor: fim da quaresma antecipada. Que venha a Páscoa!

Vasco 2×1 Grêmio
Brasileiro – São Januário, RJ/RJ

Gremio x Vasco
Arthur articula no meio de campo. Foto: Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O Grêmio encerrou seu período de quaresma. Estava prestes a completar 40 dias sem ser derrotado, em uma sequência de três vitórias, cinco empates e um título gaúcho. Mesmo na partida desta tarde, no Rio de Janeiro, teve chances — poucas, é verdade — de estender essa fase de triunfo até as vésperas da Páscoa. Infelizmente, não conseguiu.

Pagou, sobretudo, por um primeiro tempo muito abaixo do que vinha apresentando. Erros repetidos permitiram que o adversário, em pouco mais de meia hora, estivesse com o placar nas mãos. O time escolhido por Luis Castro para iniciar a partida não funcionou. O gol gremista, ainda na etapa inicial, nasceu mais da força e da precisão de Carlos Vinícius do que de méritos coletivos.

A defesa esteve lenta e espaçada — sem a ajuda dos atacantes que jogam pelos lados. O meio de campo não articulava. Arthur, isolado, tentava segurar a bola e organizar o jogo. Os pontas encontravam dificuldade para superar os marcadores. E os alas chegavam à frente sem intensidade. Pavón foi exceção em alguns momentos, tentando compensar no ataque o que não conseguia entregar na defesa.

Luis Castro enxergou os problemas, mexeu no time no intervalo e conseguiu conter mais o adversário. O Grêmio passou a ter mais posse de bola. Faltou transformar domínio em perigo. Falhas de execução, às vezes em passes simples, impediram que o time avançasse com qualidade.

A melhor chance surgiu quase como um presente. No retorno após seis meses afastado por lesão, Braithwaite aproveitou um erro da defesa, roubou a bola e finalizou forte. Parou no goleiro.

Os três pontos que ficaram no Rio pesam mais quando lembramos dos empates recentes, um deles jogando em casa. Após oito rodadas, o Grêmio segue na primeira página da tabela antes da pausa para os jogos da seleção. Não é um cenário ruim. Exige atenção. A sequência será exigente, com retomada do Brasileiro e início da Copa Sul-Americana.

A despeito da derrota de hoje, o fato é que o Grêmio evoluiu em relação ao início da temporada. Luis Castro dá forma a uma ideia de jogo. Para o treinador, a parada será um período de ajustes e afirmações.

Está evidente que, neste momento, a dupla de zaga titular tem de ter os dois guris, Gustavo Martins e Viery. Nas laterais, ainda será preciso encontrar soluções definitivas, especialmente para substituir Marlon, que ficará fora de três a cinco meses.

No meio, o desafio é encontrar o companheiro ideal que divida com Arthur a responsabilidade de organizar e acelerar o jogo. Nardoni e Léo Perez terão tempo para se adaptar. Noriega voltará. William e Monsalve poderão aprimorar a parte física.

No ataque, Enamorado e Amuzu, por enquanto, são os titulares nas pontas. Tetê ainda carece de adaptação e precisará entender que a forma de o Grêmio jogar exige recomposição rápida. Gabriel Mec é uma alternativa interessante, principalmente se ganhar força para resistir em pé à marcação pesada que sofre. Ainda teremos a opção de testar Carlos Vinícius e Braithwaite juntos, especialmente em momentos de maior pressão ofensiva.

A derrota interrompe a sequência. Não o processo. O Grêmio mostra caminhos. E terá tempo para ajustá-los. Quem sabe, antes mesmo de a Páscoa chegar.

Avalanche Tricolor: coragem para seguir

Juventude 1 (1) x (4) 1 Grêmio
Gaúcho – Alfredo Jaconi, Caxias do Sul (RS)

Gremio x Juventude
Weverton defendeu uma das cobranças de pênalti Foto: Lucas Uebel/GrêmioFBPA

O Grêmio está na final do Campeonato Gaúcho. Para muitos, não fez mais do que a obrigação. Eu comemoro. Especialmente diante das circunstâncias. Estar fora da decisão seria um desastre logo no início da temporada. O time está em reconstrução. Busca nova identidade. Testa jogadores recém-chegados. Investe em talentos muito jovens. E tenta superar carências que ainda existem no elenco.

O trabalho realizado por Luis Castro, a quem foi entregue a responsabilidade de refazer o Grêmio, corria riscos caso caíssemos diante do Juventude. E tudo o que o treinador português necessita, consideradas as condições, é tempo, paciência e equilíbrio para promover as mudanças.

A classificação, da forma como veio, ainda não oferece a tranquilidade desejada. Foram dois empates. O primeiro, em casa, quando não conseguimos sustentar a vantagem e fomos incapazes de superar um adversário que terminou com um jogador a menos. O segundo, saindo atrás no placar e escapando, no primeiro tempo e no início da etapa final, de sofrer mais gols. O time tem fragilidades evidentes e carece de definições em algumas posições.

O resultado, ainda assim, pode ser transformador. Oferece ao técnico e aos seus comandados um sinal de confiança. Mostra que a luta insistente e a resiliência diante dos reveses podem ser recompensadas. A coragem de alguns jogadores se sobressaiu.

Na partida desta noite, em Caxias do Sul, houve momentos de superação. Caso de Viery, zagueiro de apenas 21 anos. Em um lance estabanado na área, cometeu pênalti que deixou o Grêmio em desvantagem. Não se abateu. Avançou ao ataque e, sem medo de errar, acertou um chute de virada, de fora da área, para marcar o gol de empate.

Houve lances de revelação. Gabriel Mec, com apenas 17 anos, soltou o talento e deu novo ritmo ao ataque gremista, atuando como um meio-campista mais avançado. Com dribles, finalizações e valentia para enfrentar marcação dura, assumiu protagonismo — como lhe pediu o treinador pouco depois de sua entrada no segundo tempo, recado revelado pela repórter da transmissão do canal Premier. O guri ainda teve personalidade para converter um dos pênaltis na série decisiva.

Houve instantes de confirmação. Weverton, goleiro recém-empossado, sobressaiu-se. Defendeu a primeira cobrança e impôs pressão imediata ao adversário. A bola no travessão, na segunda penalidade, carrega a marca do temor que um goleiro multicampeão costuma provocar.

Houve cenas que só os atentos perceberam. Quando Luis Castro escolhia os batedores, o volante Noriega, posicionado logo atrás, pediu para cobrar. Ao ouvir a confirmação do técnico, respirou fundo, soltou o ar, relaxou os ombros — ritual de quem se prepara para decidir. E decidiu, convertendo a segunda cobrança.

O Grêmio precisará de coragem para atravessar essa longa reconstrução. Mostrou, ao menos nesta noite, que está disposto a merecer a confiança de seus torcedores — inclusive dos que ainda observam com desconfiança.