Que o último orelhão não silencie as lições do jornalismo de rádio

Orelhão depredado
Foto: CBNSP/Flickr

A notícia da retirada definitiva dos orelhões das ruas me alcançou num daqueles momentos em que o passado resolve puxar uma cadeira e se sentar ao meu lado. Não foi a Anatel quem provocou essa viagem, e sim Edgar Lisboa, que transformou a extinção dos telefones públicos em narrativa. No texto publicado no Portal Repórter Brasília, ele recuperou episódios da vida de repórter nos tempos da rádio Guaíba, de Porto Alegre, citou o Correspondente Renner, lembrou do meu pai — Milton Ferretti Jung — e, com um detalhe que me fez sorrir, mencionou aquele adolescente de bermuda que circulava curioso pela redação: eu.

A leitura me tocou porque Edgar não apenas trouxe meu pai de volta à cena; ele resgatou um modo de fazer rádio que me formou antes mesmo de eu ter carteira de trabalho. A Guaíba, como ele escreveu, era uma escola. E foi ali que aprendi a caminhar entre pautas, microfones e silêncios. A voz firme do Renner no ar, sempre no horário, era lição diária de responsabilidade. E, antes de virar apresentador, eu era o menino que observava tudo — tentando entender como fatos viravam notícia e notícia virava confiança do ouvinte.

Edgar descreveu essa rotina com a precisão de quem esteve no front. Para quem viveu a época, o orelhão era mais que telefone: era redação improvisada. Na rua, toda entrada ao vivo começava pela busca do aparelho mais próximo. Ficha no bolso, papel na mão, o texto organizado na cabeça. Não existia botão de enviar nem de corrigir. A urgência dependia da paciência que a tecnologia impunha. Era fazer jornalismo no limite do que estava disponível.

A lembrança do Correspondente Renner reforça a dimensão desse compromisso. O programa era um marco de pontualidade e rigor. Se algo relevante acontecia no meio da edição, a última notícia entrava no ar com meu pai lendo o texto recém-redigido. Não havia atalhos. Havia trabalho sério, construído sem internet, sem redes sociais e sem a avalanche de ruídos que hoje tentam se passar por informação.

A tecnologia avançou, os orelhões desapareceram e isso é natural. O que não se perde — e Edgar captou bem — é o valor simbólico de uma época em que a rua era extensão da redação. O telefone público era o fio que ligava o repórter ao ouvinte e, muitas vezes, ao próprio entendimento da notícia.

Termino com a sensação familiar que me acompanhava quando descia do carro para procurar um orelhão: certas histórias precisam ser contadas do jeito certo. Edgar contou a dele e, no meio dela, revivi meu pai, o Renner e aquele guri de bermudas que começava a aprender o ofício observando quem sabia fazer.

E, claro, também vivi a experiência de correr para o orelhão, fichas na mão, texto na cabeça e a redação esperando do outro lado da linha. Era o que tínhamos. Era tudo de que precisávamos.

Leia “A importância dos orelhões no jornalismo”, de Edgar Lisboa, no Portal Repórter Brasília

Orelhão com internet grátis deve ser incentivado

 

A decisão de retirar os “orelhões” da Oi com internet grátis das calçadas de Ipanema, no Rio, chama atenção por uma série de aspectos que se misturaram no debate sempre acirrado que se desenvolve nas redes sociais e blogs.

Para relembrar: a concessionária instalou nove cabines que, além de servirem como telefone público, ofereciam wi-fi de graça a um raio de 50 metros. Os “orelhões” foram plantados nas calçadas da avenida Visconde de Pirajá, no bairro de Ipanema em um projeto-piloto que poderia – ou pode – se estender a outros pontos da cidade. Bastava estar próximo de um deles e você seria capaz de entrar na rede com seu Ipad, por exemplo.

A ideia de espalhar sinal gratuito de internet pelas cidades é bem-vinda, portanto a iniciativa da Oi, neste sentido, é correta e deveria ser incentivada. Imagine se cada orelhão se transformasse em um hotspot, a medida que seu uso como telefone público tem sido cada vez menor em função da popularização do telefone celular.

Você aí na rua da Praia, em Porto Alegre, passearia pela internet sem dificuldade; na avenida Ipiranga, em São Paulo, também; assim como fariam os passantes da Visconde de Pirajá, no Rio. Ninguém teria mais benefício do que os moradores de comunidades pobres que poderiam acessar serviços de internet disponíveis em seus celulares. Em tese.

Seria necessário entender melhor os aspectos técnicos e financeiros que envolvem esta operação, mas não deu tempo de testar a funcionalidade do negócio. Em uma semana, a prefeitura entendeu que o impacto visual e de circulação provocado pelas cabines era ruim e mandou retirar os equipamentos. Moradores de Ipanema, entrevistados na imprensa, concordaram com a decisão. Não encontrei nenhuma palavra de alguém que tenha acessado a internet pública e gratuita.

Do ponto de vista da mobilidade, cravar mais uma barreira arquitetônica nas calçadas não faz sentido mesmo. Cada dia se tira mais espaço dos pedestres, não bastasse o piso ser irregular e impróprio em muitas vias. É banca de jornal, banca de ambulante, armação de ferro para sustentar saco de lixo, puxadinho do comércio, canteiro mal acabado, carro estacionado irregularmente, além dos próprios orelhões. Aliás, estes exigem há algum tempo uma revisão em seu desenho, pois da maneira como foram projetados no Brasil se transformaram em uma armadilha para deficientes visuais, tema sobre o qual já conversamos neste blog.

A Oi deveria ter tido cuidado ao pensar em um novo modelo de cabine telefônica e buscar um desenho menos agressivo a paisagem urbana, que se parecesse menos com um totem publicitário, assim como identificar os pontos em que ficariam mais bem colocados. Algumas vezes as empresas parecem subestimar o bom gosto do cidadão e de forma prepotente tentam impor trambolhos arquitetônicos (o poder público, também). Talvez deva convocar a criatividade nacional em busca de uma linha mais apropriada para a paisagem urbana.

A prefeitura do Rio não deve, porém, desperdiçar a oportunidade gerada. Tem de convidar a empresa, sentar e conversar sobre como estes pontos de acesso a internet, acoplados aos telefones públicos, podem ser implantados com menor impacto urbanístico. Pois a ideia, era substituir os orelhões atuais – ou alguns deles – que já não são grande coisa e colocar equipamento mais moderno. Seria um grande exemplo para as demais cidades brasileiras.

E você, caro e raro leitor deste blog, não perca tempo. Recomende ao prefeito da sua cidade – mande e-mail, twitter, carta ou ligue de um telefone público – que procure as concessionárias de telefonia da região e tome a iniciativa de discutir maneiras interessantes e criativas de oferecer internet grátis ao cidadão.

Orelhão com wi-fi tem câmera e tamanho de orelhão (publicado às 18h50)

Está cada vez mais claro para mim que erros de comunicação estão por trás da polêmica sobre os orelhões com wi-fi grátis da Oi que foram retirados de Ipanema. E reforço: responsabilidade que deve ser dividida entre a empresa e a prefeitura. O leitor Julio Abreu foi em busca de mais informações sobre o equipamento e nos conta, em comentário publicado neste post (recomendo a leitura), que as cabines teriam também câmeras de vídeo com imagens monitoradas por serviço de segurança. A intenção era colocar estes equipamentos diante de escolas púbicas, substituindo os tradicionais orelhões, medida que ofereceria duplo benefício: vigilância e internet livre aos estudantes. Outro aspecto interessante é que o espaço ocupado pela cabine é o mesmo do orelhão e o desenho mais robusto se faz necessário para proteger os equipamentos que estão embutidos.

Uma vantagem – esta ressaltada por mim – é que o desenho do orelhão com wi-fi não impõe aos cegos o mesmo risco que os orelhões tradicionais.

Foto-ouvinte: Orelhão no chão

 

Orelhão depredado

O Diário de São Paulo testou 50 telefones públicos do Terminal Rodoviário do Tietê, na capital paulista, e descobriu que os aparelhos estão mudos, mas bem limpinhos: apesar de terem sido higienizados no início do mês, 36 apresentaram problemas para falar. A história contada no Jornal da CBN motivou o colaborador do Blog Marcos Paulo Dias a enviar foto feita mês passado na Rua Francisco Polilo Neto, na esquina com a Maria Suzano Polilo, na Vila Rosária, em São Miguel Paulista, na zona leste. O orelhão depredado já está em pé e funcionando. Quanto aos do Terminal Tietê ainda aguardam reparo da Telefonica.