Avalanche (Extra): a noite em que o torcedor venceu

 

 

Aos raros e caros leitores desta coluna, sempre dedicada ao Grêmio, peço licença para falar sobre fatos que não aconteceram na Arena nem com o tricolor gaúcho, mas que têm muito a ver com o momento que estamos vivendo. No post anterior já havia descrito a falta de paciência de alguns torcedores e a necessidade de darmos oportunidade de os times se reestruturarem, de seus técnicos terem tempo para construirem a estratégia que será usada na temporada e dos preparadores físicos programarem os jogadores para resistirem a maratona de jogos. Ou seja, deixar o pensamento imediatista de lado.

 

Volto ao tema, porém, para destacar a vitória que se conquistou nas arquibancadas do lendário estádio do Pacaembu, em São Paulo, na noite de ontem, quando o Corinthians perdeu para o Bragantino por 2 a 0. A vitória que me refiro não tem nada a ver com o placar do jogo ou desempenho dos atletas corintianos que estão visivelmente incomodados com a absurda agressão que sofreram por parte de brutamontes ligados às torcidas organizadas, no Centro de Treinamento Joaquim Grava, no sábado passado. Mas, curiosamente, foi protagonizada por parte dos torcedores do Corinthians.

 

Caso você não tenha acompanhado o noticiário, resumo aqui os fatos. Integrantes de torcidas organizadas decidiram protestar contra o time, foram ao estádio com fitas tapando a boca para demonstrar a desconformidade e se negaram a incentivar a equipe, permanecendo em silêncio. Se a manifestação ficasse por aí, nada a declarar. É direito deles. Porém, as organizadas tinham a pretensão de calar os demais torcedores e, mais uma vez de forma agressiva, tentaram intimidá-los com ameaças. A polícia militar foi obrigada a intervir para impedir agressões físicas, entrou em confronto com os mais exaltados e prendeu algumas pessoas. Torcedores comuns, que vestem a camisa do seu time e não das torcidas organizadas, reagiram com gritos de incentivo demonstrando que esses grupos não são donos do clube como imaginam ser. Gritaram mais alto do que a intolerância e deram exemplo a todos os demais torcedores brasileiros, muitos dos quais já desistiram de ir ao estádio incomodados com a ditadura das organizadas – atitude, ressalto, justificável, pois é cada vez mais arriscado assistir a um jogo na arquibancada.

 

Muito provavelmente as facções continuarão a ocupar seus espaços, a maioria das vezes patrocinados por dirigentes e até jogadores. Mas ao menos ontem à noite o torcedor comum teve voz e venceu.

Que tal Corinthians, vai encarar?

 

Carlos Magno Gibrail

 

 

Os recentes acontecimentos de Ururu na Bolívia, envolvendo o Corinthians, talvez leve à saga alvinegra, como bem lembrou Juca Kfouri, o pioneirismo de banir dos estádios a violência de marginais.

 

A rapidez da Conmebol punindo, surpreendente até certo ponto, pois é sabido que sempre foi mais fácil fazê-lo em português do que em espanhol, pode ser precursora de uma nova fase da questão das torcidas organizadas.

 

A morte do boliviano Kevin deverá servir de marco exemplar para rompimento de uma perversa cobertura que os clubes têm dado às organizadas. O futebol ao mesmo tempo em que é o esporte mais popular também é um dos mais retrógrados em administração, regras e sistemas. Mesmo pessoas brilhantes ao adentrar neste mundo de paixões, perdem o brilho e ficam obscuras. O economista Belluzzo, do topo da universidade e da militância na Economia e também na política, ao chegar ao futebol, estimulou a turba da Mancha Verde com um grito de guerra digno de um irado e inconsequente chefe de gang. Depois disso , nenhum “bambi” foi assassinado, conforme pedira o notável economista, mas jogadores do próprio Palmeiras foram perseguidos e ameaçados.

 

Os ingleses, e os outrora temíveis “hooligans”, foram protagonistas e réus do episódio de 1985 na Bélgica. Liverpool e Juventus disputavam a Copa da UEFA, quando uma tragédia de responsabilidade dos torcedores britânicos gerou 39 mortos e centenas de feridos. O time do Liverpool foi excluído por 6 anos da competição e os demais clubes ingleses por 5 anos. Como sabemos, hoje, o futebol inglês é um dos mais espetaculares em público por jogo e também pelo comportamento de seus torcedores.

 

Que tal Corinthians, vai encarar?

 

Ou lutará para que o incidente gere uma punição “para inglês ver”?

 

Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras