Cintia Capello Rezende
Ouvinte da CBN

Em 1980, conquistei meu primeiro emprego com carteira assinada. Tinha 18 anos, morava no Imirim com meus pais e minha irmã. O Centro da cidade parecia um território distante, um mundo enorme para ser desvendado.
Fui trabalhar no Banco Noroeste, na rua Boa Vista. Era a mais jovem do departamento. Observava, aprendia e tentava me adaptar à rotina daquele mundo novo.
Logo percebi que meus colegas mantinham uma tradição, um hábito curioso. Às segundas-feiras, saíam rapidamente do trabalho, atravessavam o Viaduto do Chá e seguiam para o Teatro Municipal. Ali assistiam às apresentações gratuitas de música, teatro e balé — um presente inesperado no começo da semana.
Resolvi acompanhar o grupo. Na primeira vez, assisti à peça Pedro e o Lobo, com participação de uma orquestra cujo nome, infelizmente, não guardei. Guardei, no entanto, algo muito mais importante: a emoção. Até hoje me faltam palavras para descrever o que sentiu aquela menina da periferia ao entrar no Teatro Municipal e ouvir uma orquestra ao vivo. Era mais do que cultura; era pertencimento.
Passei a ser presença constante nas segundas-feiras do Municipal. O trabalho me abriu portas que eu sequer sabia que existiam. Caminhar do banco até o teatro era atravessar não apenas o centro da cidade, mas também limites pessoais que eu imaginava intransponíveis.
Um dia, sem aviso, as apresentações foram interrompidas. O ritual terminou. A lembrança, não. Ela segue viva como você pode perceber nesta história de conto de São Paulo.
Ouça o Conte Sua História de São Paulo
Cintia Capello é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também personagem da nossa cidade. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
