Conte Sua História de São Paulo: os jogos de bola na Rua do Bispo

 

Sérgio Sayeg
Ouvinte da CBN

 

 

Quando criança, costumava jogar futebol a 50 metros de casa, em um terreno baldio, no Paraíso. Ficava numa rua simpática e pouco movimentada que começava onde os bondes faziam um balão, no início da Av. Paulista, e terminava próximo a um campo de futebol de várzea por onde viria a passar a Av. 23 de Maio. Chamava-se Rua do Bispo.

 

Muitas ruas carregavam normalmente nomes singelos. Uma ou outra recebia um nome de algum personagem histórico. Mesmo nesses casos, a população tratava de adotar uma simplificação, dispensando-se de memorizar nomes extensos. A Av. Brigadeiro Luís Antonio virou Brigadeiro; a Rua Teodoro Sampaio, Teodoro; a Praça Ramos de Azevedo, Praça Ramos etc.

 

Moleques peraltas, não nos incomodávamos de jogar bola em campos improvisados sobre paralelepípedos desencontrados. Os automóveis passavam numa frequência inimaginável para os padrões atuais, ao que conferíamos ao solitário usuário da via, reverência, interrompendo o jogo até o proprietário do veículo importado acabar de desfilar sua altivez motorizada.

 

Aquela região concentrava igrejas importantes e suntuosas, como a N. Sra. do Paraíso (árabe melquita), a Ortodoxa e a Sta. Generosa, sem contar o colégio religioso Maria Imaculada. Nada mais natural que denominar aquela rua, que ladeava o circuito episcopal de Rua do Bispo.

 

Todo o fim de semana reuníamo-nos ‘religiosamente’ na Rua do Bispo, para jogar uma nada pecaminosa ‘pelada’. Simpática rua. Vivíamos no paraíso, até revogarem o nome da Rua do Bispo, que passou a se chamar rua Desembargador Eliseu Guilherme.

 

As placas afixadas nos muros das casas, que outrora exibiam aquele prosaico letreiro de apenas cinco caracteres, estamparam a nova denominação, onde dezenas de letras se atracavam para não ficarem de fora daquele nome que ninguém conseguia decorar. Os encontros futebolísticos, agendados para a rua do bispo, passaram a ser marcados ‘para a esquina’.

 

Pode ser que esteja empenhado nesta insana cruzada para recuperar o título sagrado do pontífice anônimo, cometendo irreparável injustiça com o Dr. Guilherme. É possível que fosse alguém de bem. A verdade é que lhe criei certa antipatia, talvez improcedente, pelo fato de ter usurpado o nome original daquela rua tão marcante de minha infância. O homem…nageado deve estar se remoendo no caixão por ser tratado de maneira tão vil e descortês por esse escriba fariseu mal informado. Preferiria talvez ter o desembargador esse assunto desembargado de polêmica. O fato é que o seu nome ficou fincado na Rua do Bispo, como eu, insubordinadamente, continuo a chamar, indiferente aos olhares perplexos dos atuais moradores, desinformados das peculiaridades históricas daquele logradouro.

 

O tempo passou, o leviatã urbano irrompeu, rendeu os paralelepípedos irregulares, os bondes, os campos de várzea e os prelados anônimos, o Paraíso virou inferno. Mas continuo a lembrar-me da Rua do Bispo com saudade…

 

Sérgio Sayeg é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br

De ajuda

 

Por Maria Lucia Solla

 

 

Comecei a escrever sobre um assunto que tem me fascinado especialmente na última semana – O Criador e a condição humana – mas falei com uma amiga hoje de manhã, no telefone, onde a gente costuma filosofar, e minhas crenças acordaram animadas. Por isso conversaremos sobre o Paraíso em outra oportunidade, porque a nova caída de ficha não me sai da cabeça.

 

Falávamos de ajuda, um assunto que sempre me interessou e sobre o qual escrevi no ‘De bem com a vida, mesmo que doa’, sugerindo que nos façamos três perguntas antes de ajudarmos alguém:

 

– esse alguém pediu ajuda?

 

– disse do que precisava?

 

– eu tenho para dar?

 

E como tudo que a gente toma por certo e sabido não evolui porque satisfaz a fome pequena, o conceito ficou aprisionado nas páginas do livro. De repente minha amiga disse uma palavra que libertou meu conceito das masmorras onde vivem as certezas. Disse que para ser ajudada, a gente precisa se desarmar.

 

Caí do cavalo depois de ter corcoveado com ele no terreno de conceitos com prazo de validade vencido que alimentam artrite e seus derivados. Quantas vezes eu já tinha ouvido esse verbo, usado nessa expressão, mas a palavra entrega seu significado às colheradas, como sopinha de nenê. Serve-se sempre na porção que estamos preparados para receber.

 

Percebi então que quando nos armamos, não portamos armas ou bombas contra o mundo. Na verdade armamos uma bomba dentro de nós mesmos e ficamos de sentinela para que ninguém a desarme. O verbo é reflexivo! A ação e o resultado da ação são de e para o sujeito. Como pentear-se, alimentar-se e todos os seus pares. Quase nunca percebemos isso; o processo é desencadeado automaticamente, mas independente da causa, é o que acontece. Como um vírus de computador que invade a máquina e começa a substituir bites bons por bites infectados.

 

Agora com o domingão pela frente, depois de uma caída de ficha dessas, vou pôr para rodar meu antivírus.

 

E você?

 

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

 

Maria Lucia Solla é professora de idiomas, terapeuta, e realiza oficinas de Desenvolvimento do Pensamento Criativo e de Arte e Criação. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: meu mico paulistano

 

Por Carlos Santiago
Ouvinte-internauta

 

1958

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio no Jornal da CBN

 

Certa vez, meados de 1995, embarquei num ônibus que saía da Vila Mariana e percorria toda avenida Paulista e Doutor Arnaldo, seguindo pela Sumaré, que era meu destino. A viagem era para ser tranquila, sem transtorno. No entanto, quando o ônibus chegou ao Paraíso, o trânsito parou. O trânsito em São Paulo sempre para quando a gente precisa andar. E ficou alguns minutos sem sequer se mover. Eu que já estava com pressa para chegar ao compromisso marcado – a gente está sempre com pressa em São Paulo – não suportei aquela ansiedade. Logo percebi que estávamos em frente à estação Paraíso e tive uma ideia brilhante. Pago a passagem, peço para descer aqui mesmo, corro para o Metrô, embarco no trem e vou até a Estação Clínicas, desembarco, volto à Paulista, e pego o ônibus que vai para o Sumaré que esta mais à frente. Driblo o congestionamento e chega a tempo na reunião. Jogada de gênio. Rapidamente pus o plano em ação, desci do ônibus, entrei na estação do Metrô, peguei o trem, desci do trem e em poucos minutos estava na Clínicas. Logo cheguei no ponto a espera do próximo ônibus. Porém, com o passar do tempo percebi que havia sido muito otimista com relação a quantidade de ônibus disponíveis na linha. Imagine qual não foi a surpresa do motorista, do cobrador e de alguns passageiros, que me reconheceram, assim que entrei no mesmo ônibus pela segunda vez, em meia hora. Todos me olhavam com um enorme ponto de interrogação, sem entender minha estratégia. Eu mesmo não pude conter o riso diante do ridículo da situação, pois além de pagar três passagens em vez de uma, cheguei atrasado do mesmo jeito. Fora o mico paulistano.

 


Carlos Santiago é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Envie um texto para milton@cbn.com.br e vamos juntos comemorar os 459 anos de São Paulo.