Na rua, um amigo comenta: “mataram dois nessa noite em Paraisópolis”. A segunda-feira estava apenas começando. Durante o dia estive afastado dali e soube muito pouco do que estava para ocorrer.
Apenas o recado no telefone celular, ouvido às cinco da tarde, me alertou para o que iria se transformar em notícia nos telejornais da noite: “Vão travar a Giovanni, a polícia matou um trabalhador”. Eu estava de carro, a caminho da avenida que separa o Morumbi, um dos mais nobres bairros da cidade, da Paraisópolis, a segunda maior favela da capital. Avisei a redação, que ainda não sabia de nada.
O congestionamento na subida da Giovanni, pouco depois do estádio do Morumbi era mais um sinal preocupante. Fosse outro dia qualquer, o colocaria na conta da falta de planejamento no trânsito. Troquei de estação de rádio várias vezes. Ninguém dizia nada. O relógio marcava cinco e meia da tarde.
O comboio de viaturas da polícia na contramão e sirenes estridentes não deixavam dúvida. O recado estava certo. A coisa iria complicar. Saí na primeira rua à direita e passei a desviar de policiais que vinham no sentido contrário. Voltei a relatar ao pessoal da redação o que ainda não havia chegado no noticiário.
Antes de chegar em casa, o som do helicóptero já chamava atenção. Quando eles sobrevoam por ali pode ter certeza: ou é a polícia caçando bandido ou a imprensa caçando notícia. E se é da imprensa, ou estão olhando de cima para o Pirajuçara ou para baixo na Paraisópolis.
Liguei a TV e não tinha mais jeito. A Paraisópolis já estava no Datena. E a polícia, também.
A Escola do Povo, o Barracões do Sonho, a Crescer Sempre, o projeto de capacitação de jovens na prevenção às violências e ao uso abusivo de álcool, os R$ 117 milhões para urbanizar a favela e mais um mundo de ações desenvolvidas neste complexo com mais de 80 mil pessoas serão esquecidos. E todos transformados “nestes bandidos” – expressão tão comum quanto injusta por igualar os diferentes.
Lembrei do Gilson, do Rolim, do Joildo, da Maria, das filhas e dos filhos deles. Dessa gente que luta para viver e enxerga a violência da porta de casa. Não precisa de helicóptero para saber o que acontece nas ruas de Paraisópolis.