Um passeio pela história no centro de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

Praça da Sé

 

Tenho andado pelo centro de São Paulo, em especial no que conhecemos por centro velho: praça João Mendes, praça da Sé, Largo São Francisco. Ali, tudo está muito próximo. E cada lugar com sua característica e peculiaridade. Todos imponentes: Catedral da Sé, Faculdade de Direito, Teatro Municipal. Tem ainda outros prédios que guardam na arquitetura a lembrança da São Paulo antiga e memorável. Será que os cidadãos que passeiam por ali têm ideia do significado desse patrimônio? Imagino que um estudante de arquitetura, sim. Em sua mais nova experiência de traçar as linhas para uma cidade contemporânea, deve ficar encantado e deslumbrado com tais monumentos, preciosos.

 

Santos de gesso

 

A Catedral Metropolitana, conhecida por Catedral da Sé, foi inaugurada em 1954, nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Passou por restauro, em 2002, respeitando as características originais da construção. Historiadores dizem que a Catedral é das maiores igrejas em estilo neogótico do mundo. Ali, nos jardins da praça, também fica o monumento “Marco Zero”, o ponto central da cidade. Para as famílias católicas há no entorno lojas especializadas em arte sacra que vendem diversos santos em gesso e vinho canônico.

 

Largo São Francisco

 

O que dizer da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ou ainda “Arcadas” em alusão a arquitetura. Chama  atenção até dos mais apressados, é impossível passar pela frente e não fazer uma foto para registrar esse pedaço da história. A faculdade foi criada pela lei imperial em 11 de agosto de 1827, poucos anos depois da Proclamação da Independência, para mais tarde ser incorporada pela USP. É considerada a faculdade mais antiga de Direito no Brasil. Inicialmente quem estudava no Largo São Francisco eram os governantes e administradores públicos.

 

Portão do Teatro Municipal

 

Minha curiosidade foi até o Teatro Municipal, que está maravilhoso, imponente. Exala cultura, glamour e história.  O teatro surgiu para suprir a necessidade da elite paulistana, formada pelos “Barões do Café”, que exigia um local de alto padrão nos moldes europeus para abrigar os espetáculos e óperas da época. O arquiteto responsável pelo projeto foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que, por sua vez, foi homenageado emprestando o nome à Praça Ramos de Azevedo.

 

Sem dúvida, há inúmeros outros locais a serem visitados por essa região: Mosteiro de São Bento, Pateo do Collegio e Mercado Central, entre tantos outros igualmente importantes para a história da cidade.

 

Quem sabe me atrevo a descrever alguns desses outros pontos em um próximo post. Enquanto isso não acontece, deixo minha sugestão para quem estiver passeando na cidade ou visitando o centro da Capital: conheça estes pontos e busque informações que mostrem o real valor de cada prédio, que vai além da beleza arquitetônica. Inclua as crianças que terão uma aula da história do Brasil e do desenvolvimento de São Paulo.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de São Paulo: Chiove

 

Por Sérgio Mendes
Ouvinte-internauta

Ouça o texto “Chiove” sonorizado por Cláudio Antônio

"Olhar da janela da minha casa para a av Santo Amaro", por Sérgio mendes

Você já ouviu E chiove, na voz de Zizi Possi ? Esta musica é a minha história de São Paulo. Quando cheguei, vinha de quase cinco anos fora do Brasil. E vim pra cá justamente pelo nome que dá título ao disco daquela música napolitana interpretada tão bem por Zizi. Os primeiros dez dias eu estive hospedado na casa de uma tia que morava e ainda mora até hoje na Brás Leme, em São Paulo.

Per amore, cheguei antes. Seis meses antes. São Paulo era a possibilidade de fazer viável um projeto antigo.

É claro que não podia permanecer muito tempo ali, e a partir de uma primeira visita à Av. Paulista meu amor por São Paulo se confirmou. Não poderia mais viver em lugar algum.

Meu tio me acompanhou naquele domingo, fomos de metrô. Ele mudo e eu embasbacado!

No dia seguinte tratei de encontrar logo um lugar para morar. Fazia frio, garoava e o centro estava lindo. Ficou impresso na minha mente, uma das saídas do metrô Pça da República. Aquela escada que dá vista para o Terraço Itália! Aquilo é de arrepiar !

Foi só depois que eu fui percebendo que a cidade estava mesmo era mal tratada, e tinha ares de abandono. Naqueles primeiros dias, ela ainda era as imagens dos livros que eu havia lido. Rua Aurora, Rua 7 de abril, o Viaduto do Chá, o Anhangabaú, até o Paissandu. E chiove!

Ainda não havia os celulares com MP3, não havia mesmo nem MP3, nem celulares. A música era na cabeça mesmo… E faz só pouco mais de dez anos!

Encontrei o meu cantinho em uma quitinete na rua Abolição, bem perto da Câmara Municipal. O dinheiro era curto. E eu tinha que seguir estudando, passar no vestibular e trazer meus créditos da Universidade para concluir aqui meu curso.

Seis meses. Meu apê, não tinha nada, entenda bem… Nada! Mas era meu! Era a minha casa agora, e logo seria a nossa casa!  Como eu disse, o dinheiro era curto, curto mesmo. E eu tinha que esticar o máximo possível, para que o projeto fosse possível.

Seis meses pagando o aluguel e caminhando !

Caminhava e estudava. Era o que eu fazia. Logo cedo eu tomava um copo de café no boteco da esquina, 70 centavos e caminhava rumo a Santana. Saia da rua Abolição e caminhava. Duas horas, admirando as belezas estonteantes deste lugar caótico. Atravessava o Vale do Anhangabaú e seguia pela calçada da Brigadeiro Tobias, Av. Tiradentes, Av. Santos Dumont e finalmente Brás Leme.

Comer, estudar e voltar. Neste percurso diário, aprendi sobre a vida de são Paulo que não estava na novela, sobre os rostos que não vão pra TV, que nunca vão e sempre estão. Eu via o Metrô. Eu via os carros. Eu pensava e caminhava.

De volta à minha casa, era tomar banho e seguir para a Paulista, no prédio da Radio Gazeta, onde eu fazia um cursinho pré-vestibular e caminhava. Estudava e caminhava.

Desta vez pelo Bexiga! Vi ruas escuras, abandonadas, passei por moradores de rua, cães, portarias de prédios, frangos assados, cheiros do centro e os magníficos ares da Paulista! A avenida da TV.
Eu me sentia parte. Poucas vezes tive medo. Sendo estrangeiro, era parte. A síndica do meu prédio, uma senhora negra e grande por nome Erundine, bateu a minha porta e tomou o meu depoimento! Depois que descobriu as minha reais intenções, me disse que nunca olhasse para ninguém e seguisse o meu caminho, desta forma não teria maiores problemas. Somos amigos desde então !

A cidade me acolheu, as personagens da rua não sabiam que eu era de fora, minha aparência nordestina me fazia tão igual a eles e eles eram eu, também. Meu único obstáculo era a chuva. Não dava pra caminhar e chegar molhado para a aula. Mas não dava para não caminhar e não comer!  Assim segui em frente, e houve dias que não pude estudar.

Seis meses se passaram. Finalmente minha casa virou a nossa casa. Não deu tempo de virar doutor. Tínhamos a responsabilidade de nos mantermos, Voltei a trabalhar com o que trabalhei desde os dezesseis, procurei escolas de idioma e voltei a ensinar. Já morei na Vila Olímpia, estou agora na Lapa, onde compramos nossa primeira casa. Gente estranha que mora lá no alto…é São Paulo!

Bairros distintos, rostos de TV, rostos anônimos, de botequins, de viver na rua, de morar no vigésimo andar!

São Paulo tem de tudo, e esta é a força da beleza daqui, mal tratada, sempre esperando a promessa de que será melhor. Dividida entre a gente da TV e a das ruas. Díspar por que foi feita para a gente da TV e eu suspeito que sejam quase todos como os da rua. Cidadãos possíveis.

Mas esta terra generosa me acolheu assim mesmo e em retorno a tornei minha. E quero cuidar dela caminhando sempre. Dos lugares bonitos onde já morei, nem um tem a beleza do Centro, menos ainda quando chove aquela garoa que só cai aqui em São Paulo.

O autor deste texto é Sérgio Mendes. A sonorização é do Cláudio Antônio. Você participa enviando seu texto por escrito ou em arquivo de áudio para contesuahistoria@cbn.com.br. Leia e ouça outros capítulos da nossa cidade no Blog do Milton Jung.