Escrever e rezar

 

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foto: Pixabay

 

Na série de textos que publico desde a semana passada, resultado de capítulo escrito em livro que tem como tema a Expressividade, deparei com trecho dedicado ao silêncio e ao quanto devemos valorizá-lo no discurso. Silêncio é pausa e a pausa enfatiza o dito e o a ser dito; oferece espaço à reflexão, o que nos leva à aceitação, à indignação ou à depressão.

 

 

Verdade que no livro falava do silêncio em outra dimensão —- mas foi o suficiente para me despertar para o que experimentamos hoje. Nunca como agora, o silêncio tem sido tão freqüente em nosso cotidiano, mesmo que o confinamento imposto pelo vírus seja em família. É um choque diante do que vivenciávamos até então, em que a algaravia das redes sociais nos impedia de ouvir o outro e a nós mesmos.

 

O silêncio de agora, que está na rua com poucos carros que se atrevem a passar, e com a ausência das crianças no pátio da escola na esquina, nos permite tanto ouvir os passos do vizinho no corredor da casa ao lado quanto os passarinhos que se divertem com a calmaria urbana.

 

De todos os sons que se acentuam, nenhum é mais incômodo do que o da própria mente, onde nossos pensamentos percorrem o passado e o futuro, sem respeitar o presente. É como se o tempo todo, você estivesse dialogando com alguém que o conhece mais do que nenhum outro seria capaz de conhecê-lo. Sabe de seus segredos, seus medos e suas fragilidades. Uma ameaça constante, da qual não conseguimos nos afastar porque segue dentro da gente. Persegue a gente.

 

Imagino que refletir o silêncio dessa maneira é um sinal de alerta, que não devemos desdenhar. Desde os primeiros dias de isolamento, médicos, gaiatos e amigos nos chamam atenção para a necessidade de protegermos também nossa saúde mental. Porque do vírus, temos alguns instrumentos para nos defender: a reclusão, o distanciamento, a máscara e a sorte de não cruzar por alguém contaminado. Da mente, não há como fugir. Está ali o tempo todo. De cara lavada. Sem máscaras.

 

O medo que nos cerca pela doença que viraliza, que faz sofrer, infecta e mata, se estende a todas as outras ameaças que temos em pensamento. O que estava lá guardado em algum lugar qualquer da alma, renasce. O pecado redimido volta a ser pecado. O temor recluso retorna para nos apavorar. Um sentimento indescritível de que você seja a causa de um mal maior que vai contaminar pessoas inocentes.

 

Recomenda-se meditação. Fala-se em buscar alguma distração. Prefiro escrever, com todos os limites da minha escrita; e rezar, com todas as dúvidas da minha crença. São os únicos instrumentos que tenho em mãos para conter toda essa apreensão, após um mês em confinamento completado nesta terça-feira.

Conte Sua História de SP: pecado na procissão de São Miguel

 

Por Suely Pires Eustachio Vale
Ouvinte-internauta

 

Ouça este texto sonorizado pelo Cláudio Antonio, no Jornal da CBN

 

Nasci na Zona Leste de São Paulo, mais especificamente em São Miguel Paulista, na época, 1949, Baquirivú, ali, vizinho de Guaianazes. Vivi 60 anos nesse bairro, que mais parecia uma cidade de interior, onde se reconhecia as pessoas pelo sobrenome: “ele é dos Piassi”, ou “ela é dos Lapenna”, ou “ele é dos Velucci”, e assim por diante. Tempo que se comprava com caderneta no açougue e do “Seu Osvaldo”, e no empório do “Seu Firmino” e se comprava em prestações o material de construção no Depósito Jaraguá, onde eu ia de mãos das com o meu pai, muito orgulhosa, no início do mês para pagar as prestações da casa que fora construída recentemente.

 

Estudei no Colégio D.Pedro I, da rede estadual de ensino, em frente ao Mercado Municipal do bairro, onde começa a Rua Serra Dourada, que hoje se parece mais com a Rua Direita do centro de São Paulo, tão grande é o movimento de pessoas.

 

Continuo residindo na Zona Leste, no bairro do Tatuapé, mas pelo menos uma vez por mês vou a São Miguel Paulista para fazer compras em um supermercado do bairro com minha tia Nim. Tenho saudades dos amigos e parentes que ainda estão lá, dos anos vividos na Rua Professor Joaquim de Camargo e das procissões do Santo Padroeiro, São Miguel, quando o Padre Aleixo Monteiro Mafra (hoje nome da praça principal, onde se encontram a capelinha e a Igreja Matriz), são-paulino roxo, saia da procissão, ia até uma casa ou bar para tomar informação do resultado do jogo do seu time do coração. Era o que bastava para carolas dizerem: “que pecado”!

 

Suely Pires Eustachio Vale é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Escreva para milton@cbn.com.br e vamos comemorar os 459 anos de São Paulo.

A Cristo S. N. crucificado estando o poeta na última hora de sua vida

 

De Gregório de Mattos

Meu Deus, que estais pendente de uma madeiro,
Em cuja lei protesto de viver,
Em cuja santa lei hei de morrer
Animoso, constante, firme e inteiro:

Neste lance, por ser o derradeiro,
Pois vejo a minha vida anoitecer,
É, meu Jesus, a hora de se ver
A brandura de um Pai, manso cordeiro.

Mui grande é vosso amor e o meu delito;
Porém pode ter fim todo o pecar,
E não o vosso amor, que é infinito

Esta razão me obriga a confiar,
Que, por mais que pequei, neste conflito
Espero em vosso amor de me salvar


Por sugestão do ouvinte-internauta Sergio Emerici Longato em comentário neste Blog

De Pecado

Por Maria Lucia Solla

Severino para, curioso e tímido, à porta do Gabinete Divino

– Entra, filho, entra! Sua nacionalidade, por favor?

– U…Ué, Senhor, desculpe perguntar, mas o senhor não é onisciente?

– Costumava ser, filho. Costumava saber tudo…

– Não me diga que também está esquecido! Se bem que na sua idade…

– Filho, não é por acaso que objetiv-idade tem cinco letras a mais do que idade.

– Senhor, desculpe corrigir. Seis letras a mais.

– Que assim seja, filho. Vamos ao que interessa.

Severino toma tino e diz que é ’’b’’rasileiro. O Grande Senhor, idealizador e criador de todos os infinitos universos, gira Sua Santa Estrutura, no Sagrado Trono, e alcança um dossiê de capa verde-amarela.

– O senhor me desculpe a cara dura de fazer tanta pergunta. Minha mãe dizia que a curiosidade ainda ia me meter em confusão, e nem aqui eu tomo jeito. É.. crônica, sabe? Curiosidade é pecado?

– Confesso que preciso consultar sua ficha. Vocês criam e anulam pecados, em meu nome, achando que é moda. Que falha terá havido na comunicação? Enviei os melhores emissários – a nata de comunicadores divinos -, e nem assim… Vocês fragmentaram a Terra inteira. Esculhambaram tudo! Num canto é pecado isto; no outro é pecado aquilo. Nem vocês sabem dizer se um pecado é capital ou gravíssimo, venial, original, ou leve. Não costumo dar palpite, mas aconselho a unificação. Será mais fácil para todos. Que tal pecado, e não-pecado? Essa tonalidade cinzenta entre o branco e o preto é terreno movediço…
E por falar em terreno movediço, sabia que melancolia já foi pecado entre vocês? Se eu levasse em conta…
– E então, Senhor, para onde devo ir?

– Ora, filho, seu querer é soberano: parar, seguir em frente ou voltar. Ser feliz ou sofrer. Amar ou não amar. O que quer fazer?

O brasileiro ajoelhou, chorou e pediu para voltar à Terra por mais uma semana, para pular o Carnaval…

E você, escolhe o quê?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Ouça aqui “De Pecado” na voz da autora, com participação especial de Marcos Arilhos e música High Hopes, de Pink Floyd.

Maria Lucia Solla é terapeuta e autora do livro “De Bem Com a Vida Mesmo Que Doa”, publicado pela Libratrês. Todo domingo desfila seu talento no blog sem fazer muito Carnaval