Teoria e prática dos pênaltis

 

Por Carlos Magno Gibrail

 

Gol 1.000 de Pelé, exceção à regra

Gol 1.000 de Pelé, exceção à regra

 

João Saldanha, jornalista, crítico esportivo, comunista e técnico de futebol, tornou célebre a frase que alguns atribuem ao roupeiro do Botafogo Neném Prancha: “O pênalti é tão importante que deveria ser cobrado pelo presidente do clube”.

 

Na verdade atribuir o fator sorte ao pênalti, quando lhe é designado decidir um jogo eliminatório ou de título, é ignorar a essência do jogo. Quando técnica, talento e habilidade somados à psicologia e estatística se potencializam. A prova disto é dada pelos autores do “Freakonomics” e “Superfreakonomics” com resultados tão surpreendentes cujo sucesso levou-os a editar “Pense como um Freak” *, demonstrando como uma maneira de pensar inteligente pode levar a valiosas soluções.

 

A primeira lição é dada demonstrando como um batedor de pênalti deveria agir em uma série eliminatória ou de final de campeonato. A marca com a distância de 10m do gol, e o gol com 7,5 metros de largura e 2,5 de altura, tem conferido 75% de chance de sucesso ao batedor.

 

Os goleiros pulam 57% das vezes para o lado esquerdo do batedor. Para o lado direito 41%, e permanecem no meio em 2% das vezes.

 

Há uma semana, na Libertadores, com rendimento abaixo do padrão, perdendo 5 cobranças em 12, os batedores de Cruzeiro e SPFC chutaram 33% na esquerda, 50% na direita, 8% no meio e 8% fora. Na direita, 16% dos chutes foram fracos e o SPFC perdeu 2 gols. O 8% no meio foi o gol que classificou o Cruzeiro.

 

Na Copa do Brasil, Fortaleza e Coritiba, com rendimento acima do padrão, perdendo 1 cobrança em 22, 45% dos chutes foram na esquerda, 31% na direita, 18% no meio e 5% fora.

 

Diante destes dados, como um “freak” deveria raciocinar? Pensar no modo de segurança e escolher um dos cantos, ou buscar o risco chutando no meio?

 

Segundo Levitt e Dubner, os autores, “às vezes, na vida, seguir direto para o meio é a decisão mais audaciosa”.

 


Carlos Magno Gibrail é mestre em Administração, Organização e Recursos Humanos. Escreve no Blog do Mílton Jung, às quartas-feiras
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*Os autores informam que as estatísticas foram extraídas de:
“Testing Mixed Strategy Equilibria When Players Are Heterogeneus: The Case of Penalty Kicks in Soccer”, Pierre Andre Chiappori, S. Levitt, Timothy Groseclose.
“The American Economic Review” 92, 4, 2002.
“How to take penalties: Freakonomics Explains”.
“The (UK) Times 12/6/2010.
“Biomechanical Characteristics and Determinants on Instep Soccer Kick” E. Kellis e A. Katis.
“Journal of Sports Science and Medicine” 6 (2007).

Avalanche Tricolor: se é pra sofrer, que se vença

 

Grêmio 0 (5) x (4) 0 São Luiz
Gaúcho – Arena

 

 

Se pode complicar por que simplificar? Se pode sofrer por que não levar a decisão para os pênaltis? Tem sido assim e, mesmo quando teríamos condições de fazermos diferente, tendemos a manter a escrita. Ganhamos no limite. Ou empatamos se for preciso. E assim foi nessa noite de segunda-feira quando decidimos a vaga às semi-finais da Taça Farroupilha na cobrança de pênaltis. A boa notícia é que parece termos aprendido a batê-los, pois pela segunda vez, em três meses, superamos nossos adversários convertendo todas. E com categoria como fez o jovem Biteco, a quem foi reservado o prazer de acabar com o nosso sofrer.

Avalanche Tricolor: Grohe é eficiente, humilde e importante

 

Grêmio 6 x 0 Inter SM
Gaúcho – Olímpico Monumental

Foram tantos pênaltis – marcados certos, marcados errados e não marcados – que o destaque da partida tinha de ser um dos protagonistas desta série. E apesar da goleada, escolho alguém que não marcou nenhum, evitou vários e jogou um bolão: Marcelo Grohe, nosso goleiro no jogo desta noite chuvosa, em Porto Alegre.

Ele é daquelas figuras que nunca vão aparecer na foto principal do time, mas todo time precisa dele. Reserva de Vítor, o melhor goleiro do Brasil, sempre que necessário surge com segurança e eficiência. Assim que o titular volta, retoma seu curso, compreende seu lugar e aceita seu papel. Humildade retribuída com o respeito que a torcida tem por ele.

Marcelo nasceu em Campo Bom, tem 24 anos, e hoje completou 80 jogos pelo Grêmio, em seis anos de clube. E foi comemorar a marca defendendo seu primeiro pênalti na equipe profissional.

É preciso explicar este pênalti. Ao contrário do que disse o árbitro, a bola não tocou na mão do Rafael Marques. Não contente com isso, errou mais uma vez, pois se tivesse havido irregularidade, teria sido dentro da área. Sinalizou fora e precisou o auxiliar dar o alerta.

Marcelo Grohe, acostumado a deixar tudo em ordem por onde passa, desfez as trapalhadas do árbitro ao defender a cobrança do pênalti. E revelou mais uma vez sua personalidade. Agradeceu a Renato Gaúcho que indicou para ele o lado em que o atacante chutaria. Completou o serviço, fazendo excelentes intervenções e não tenho dúvida de que foi este desempenho que deu tranquilidade para o time golear seu adversário.

Logo Grohe estará de volta ao banco, colaborando com o grupo, permitindo que a harmonia permaneça, respeitando a autoridade e ciente de que ser um solado deste exército tricolor é muito mais do que qualquer jogador pode sonhar.

Razão e versão vistas por trás do lance

 

O lance do penâlti, indiscutível, de Fábio Rochemback no Gre-Nal desse domingo ganha destaque por uma cena inusitada. O quinto árbitro Alexandre Kleiniche está atrás do gol gremista e gesticula no momento em que o volante põe a mão na bola (confira no vídeo). Para parte dos torcedores do Grêmio foi uma contida comemoração em favor do Inter; na voz dele e de seus colegas, gesto casual provocado pela irregularidade do lance.

A defesa de Kleiniche, porém, não ajuda muito. Ele nega qualquer comemoração. Já Carlos Simon, que não tem a simpatia dos torcedores gremistas, disse que o auxiliar vibrou com a marcação correta do penâlti. Enquanto o presidente da Comissão de Arbitragem da Federação Gaúcha, Luis Fernando Moreira, afirmou que “com uma mão ele bate no antebraço” para sinalizar Simon de que houve irregularidade. Não custaria terem alinhado a informação, antes de sairem falando por aí.

Kleiniche que é do quadro nacional de arbitragem me parece ter sido vítima mesmo da casualidade. Árbitro que é – ou bandeirinha -, atento a movimentação dentro do gramado, fez o gesto como reflexo da “defesa” ilegal de Rochemback. Nada mais do que isso.

Gosto muito de futebol, mas entendo pouco dessas peculiaridades. Por isso, não vou me ater as questões técnicas da arbitragem, tem gente bem preparada no Brasil para explicar isso tudo.

Prefiro falar de comunicação.

Ao contrário do que muitos imaginam, uma imagem não vale mais do que mil palavras. A cena em foco é prova disto. Não é objetiva. Por mais que seja reproduzida, cada um terá sua própria verdade. É uma daquelas que podem ser vistas milhares de vezes – aliás, já tinha mais de 13 mil acessos no You Tube, nesta tarde – e cada um vai enxergar o que bem entender, influenciado por sua consciência e conhecimento.

Para azar do personagem principal deste caso, todas as explicações que oferecer serão insuficientes. Quem quiser ver falta de isenção, verá; quem quiser dar ouvidos à sua inocência, dará.

Porém, na próxima partida que entrar em campo, no jogo mais distante que for trabalhar, Kleiniche não vai escapar. Alguém haverá de lembrar da reação dele.

No campo da comunicação, a regra é clara: A razão de um gesto jamais irá superar a versão.