Conte Sua História de São Paulo: a Atlântida não encontrei

Alceu Sebastião Costa

Ouvinte da CBN

 
Saí à procura da Atlântida.

Conheci lugares, pessoas, o mundo,

Rios, lagos, lagoas, fui a fundo,


Perscrutei rochas e fendas, grutas escuras,

Subi ao cume de montes de todas as alturas,

Trilhei caminhos áridos e pedregosos.

Adentrei densas florestas, pisei solos enganosos,

Atravessei desertos sob o sol escaldante,

À noite, namorei a lua e estrelas cintilantes,

Vaguei pelos campos, tapetes de relvas macias,

Enfrentei o furor das tormentas, chuvas e ventanias,

Descansei à sombra de árvores frondosas,

Ouvindo o canto das aves, aspirando flores cheirosas,

Montei de potros ariscos a dóceis camelos,

Bebi das fontes mais puras, de suas águas fiz meus espelhos,

Mergulhei nas profundezas dos mares,

Vasculhei arrecifes, grotas, submersos patamares,

Fitei embevecido os cardumes coloridos,

Fugi de tubarões famintos, acariciei os golfinhos atrevidos,

Pés descalços e esfolados, as feras nos calcanhares,

Nas névoas dos pantanais divisei estranhas imagens,

Figuras horripilantes, a bíblica Torre de Babel,

Eu querendo encontrar a Atlântida, eles alcançar o céu.

Foi aí que acordei, o corpo molhado de suor,

Não conseguia falar, sufoco não havia pior,

Depois da heróica viagem, faltava-me a coragem.

Então me pus a rezar e tudo voltou ao seu lugar.

Pela janela aberta entrou uma borboleta amarela,

Devagar transformou-se numa linda donzela.

Sorridente, tomou minhas mãos e beijou o meu rosto,

Abrasado de desejo, num repente veio o desgosto.

Era uma bruxa disfarçada, feliz com sua maldade,

Que logo desapareceu, desfazendo-se na claridade, 

Isto já não foi um sonho, apenas retrato fiel da realidade.


A Atlântida não encontrei, não dei trela à ansiedade.

Assumi o meu verdadeiro papel no seio da Sociedade.

Nada foi em vão, juntei experiência e maturidade,

Acasalando afinidades, apaixonei-me pela simpática Cidade,

À magnifica São Paulo, acolhedora e solidária, jurei fidelidade.

Hoje, no aconchego dessa mãe protetora, só risos e alegria,

Posto que, neste 25 de janeiro, ela aniversaria.

Ó, minha querida São Paulo, saúdo os seus 467 anosCom os versos e rimas de minha singela poesia.

Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Ouça esta e outras poesias de Alceu, sobre a cidade, no meu blog miltonjung.com.br. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e se inscreva no posta do Conte Sua História de São Paulo

“Dou conforto na passagem e não tormento”

Dra. Isadora Jochims

reumatologista, artista visual

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Guerra / Não estou em uma guerra /

Cuido de vidas, não ceifo /

Dou conforto na passagem / E não tormento /

Não sou movida a ódio / Mas a amor e afeto /

Não quero ganhar / Quero empate /

Minhas bombas são de infusão / Elas seguram almas /

Seus barulhos são de alerta / E não de explosão e morte /

Não sou um soldado /

Minha vida vale / Não sou um número /

Sou a ponte / Para o outro lado /

Não julgo / Não quero saber seu passado /

Apenas da sua vida /

Agora / O ato / A cura /

Não tenho armas / Nem balas /

Tenho a ciência / O conhecimento das medicinas /

Das prevenções / Do cuidado /

As vacinas /

Estou na linha de frente / E não escondido em uma trincheira /

Na linha da frente / Da vida e da morte /

Não obedeço ordens / Tenho autonomia /

Penso / Existo /

Trato precocemente a loucura / Da disputa e do poder /

Por isso não esqueça / Não estamos em uma guerra! /

A vida é mais do que perder / E ganhar /

Nem tudo vale! /

Me paramento / Se paramente / De amor /

Para a esperança enfim / Renascer em nós!”

Conheça a história da Dra Isadora Jochims publicada na revista Vogue

Maria Lucia Solla fez a passagem

Perde-se vidas todos os dias. Algumas sabemos pelo número. Outras pela história. Há aquelas que conhecemos de perto. Na sexta-feira, fui informado que Maria Lucia Solla “fez a passagem” — foi assim que um dos filhos dela comunicou a morte da mãe. Maria Lucia foi colaboradora de primeira semana neste blog. Em 10 de junho de 2007, escreveu a primeira coluna dominical — espaço em que testou várias de suas formas, sempre mantendo uma linguagem rica, sincera e provocativa. Fez crônica e poesia, fez texto, vídeo e áudio. Não tinha vergonha de se expor, mesmo que às vezes preferisse aparecer na penumbra. Escreveu de tudo: de amor e desabafo — sobre este disse um dia:

“…é vapor que assobia pela válvula, quando se está prestes a explodir. é o que está acumulado há tanto tempo que não dá para represar. É um descarrilar inesperado que faz a gente escorregar, meter as mãos pelos pés, cair, se ralar, levantar, e mesmo sangrando gritar. Para não engasgar, para não sufocar”

“De desabafo”

Conheci Maria Lucia nas aulas particulares de inglês. Ela me apresentou não apenas à língua de Shakespeare. Me fez aprofundar na de Camões. Pois tinha profundeza e generosidade na fala e na escrita. Em 2002, havia lançado “De bem com a vida mesmo que doa” (Editora Libratres), livro que me presenteou no início de nossa relação e me motivou a convidá-la a escrever semanalmente no blog recém-criado.

Aceitou o desafio e o cumpriu com maestria até dezembro de 2015, quando se despediu dos caros e raros leitores deste blog:

“Tem o dia da chegada e tem aquele da partida

É assim com tudo na vida

sem morte depois dela

que disso eu estou convencida”

“De vidas e suas rimas”

Se você se dedicar a escolher um ou outro texto —- ou todos, se desejar e tiver tempo para a boa leitura —-, você conhecerá melhor Maria Lucia Solla. Ela sempre foi transparente nos seus sentimentos. E mesmo que indignada com o que acontecia em seu entorno, mais íntimo ou não, sabia oferecer uma palavra de esperança. Era uma companhia agradável, que se distanciou com o passar do tempo, das viagens e da minha rotina. 

Em meio a tantas mortes que noticiamos e sofremos, registro aqui a da  Maria Lucia Solla porque além de ter sido amiga, fez deste blog algo bem melhor do que seria se tivesse apenas minha presença. É a segunda morte de um colaborador apenas este ano. A primeira foi do amigo Carlos Magno Gibrail de quem tenho saudade diária, pois se não bastasse tudo que já escrevi até hoje sobre ele, também foi meu companheiro de pandemia, com quem conversava semanalmente —- o telefone não tem tocado mais aqui em casa.

Tinha poucas notícias da Maria Lucia nestes últimos anos. Espero, de coração, que a morte — que ela sabia chegaria um dia — tenha chegado como ela desejou em texto de outubro de 2010

“Mas que venha depressa

seja ela o que for

que chegue com muita calma

dançando

rodopiando

sapateando

pra que eu tenha tempo de arrematar da vida

todos os fios

até então tecidos

outros tecer

e resgatar os esquecidos”

“De morte e vida”

Conte Sua História de SP: fiz amigos e poesia no Sarau da Val

Por Eder Rodrigues da Silva

Ouvinte da CBN

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Os amigos são tesouros que colhemos ao longo dos anos e os que estão conosco devemos cultivá-los como o bem mais precioso. Assim é que contarei agora, como se deu o fortalecimento de uma amizade durante a pandemia. 

Trabalhei em uma empresa petroquímica por 18 anos. Conheci por lá Valdyce Ribeiro, uma  colega da área do faturamento. Há muitas razões para admirá-la: uma delas é o domínio de duas áreas aparentemente diversas: ciências contábeis e poesia. Enquanto trabalhava comigo, cursou a faculdade, se formou e foi ser professora da FMU. Isso foi lá pelos fins dos anos de 1980, início de 1990. 

A poesia foi um dos elos fortalecedores da nossa amizade. Valdyce publicou ao menos dez livros e estive em quase todos os lançamentos ao lado de ex-colegas da petroquímica. Sempre gostei de escrever, e foi graças a ela que meu lado poeta despertou. Lá na Zona Sul, ela  passou a reunir artistas, poetas e escritores ao criar o Sarau da Val. Morando distante, na zona noroeste de São Paulo e sem carro, não podia participar dos eventos à noite.

Em 2020, surgiu a pandemia e o distanciamento se impôs —- os encontros presenciais foram suspensos por algumas semana até a Val encontrar a melhor saída. Levou o evento para o Facebook. Se antes a distância geográfica me impedia de estar presente, agora a digital me colocava ao lado de todos. 

Do despertar poético que experimentei só tive benefícios. O sarau é diversificado, rico culturalmente. Declamam poemas, cantam, contam histórias, dançam, apresentam fotos, pinturas e trabalhos artísticos.  Tem adulto e tem criança —- um banquete cultural para todas as idades.   Amizades se fortalecem e se ampliam. Além da Val, que já conhecia, a cada poema que publico ganho um novo amigo.

E aqui deixo uma das poesias criadas nestes dias de reclusão:

ISOLAMENTO QUE NOS UNE 

Sentimento não se vê, 

Ele se manifesta em nossas ações. 

Amor, ódio, tristeza, alegria, 

Os bons nós pratiquemos, e os maus evitemos. 

Vírus não se vê também a olho nu, 

Ele se aloja nas pessoas. 

É preciso ter as precauções, 

Porque ele é mau e mortal. 

O que o vírus fez com nossos sentimentos, 

Os bons e esquecidos de alguns. 

Não podendo ver algumas pessoas, ausência = saudade, 

A dor da sua não presença. 

Vírus que não se vê, parece insignificante. 

Bons sentimentos que também não se viam. 

Pareciam enterrados, como uma erupção lenta, 

Ou como um míssil atômico que nos atingiu. 

Isolamento que nos une. 

Para uns nos une ainda mais. 

Para outros uma tentativa de fazer contato, 

De quem não sabíamos queridos, tão queridos. 

Não espere a tragédia para demonstrar que se importa com as pessoas. 

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Eder Rodrigues da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie também o seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça outros capítulos da nossa cidade aqui no meu blog miltonjung.com.br e assine o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: “Pensão no Brás, avenida Mercúrio, reservada por Amigo”

Alceu Sebastião Costa

Ouvinte da CBN

Minha querida São Paulo, que eu escolhi como abrigo,

Há 52 anos, pela primeira vez, aqui desembarquei,

Pensão no Brás, Av. Mercúrio, reservada por Amigo,

Olhos postos no futuro, de lágrimas e esperança inundei.

 

Cidade em franco desenvolvimento, tijolos e cimento,

No teu colo, sem arrependimento, vivi cada momento

Da busca acelerada, mesclando terra, ar, água e fogo

Vezes sem escapatória do arrojo em detrimento do povo.

 

Muito sangue e suor derramados, caminhos sem volta,

Falta de moradia, a rua como último bastião alcançado

Pelo cidadão que, a bem do sucesso e do progresso,

Deu a sua contribuição solidária, voluntária e solitária

Ainda que consciente dos riscos sobre o fio da navalha.

 

Meu Amigo, que como eu, em Sampa um dia aportou,

Seja condescendente, generoso e renove a esperança

De vê-la livre das maracutaias, desrespeitos e mazelas;

Afinal, a nossa Urbe, que, no 25 de janeiro,

Alcançará orgulhosa seus 467 anos de esplendoroso vigor,

Traz também em seu histórico memoráveis feitos de Amor.

 

Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Ele já esteve outras vezes aqui no quadro, sempre com poesia e realidade. É só procurar lá no meu blog miltonjung.com.br A sonorização é do Cláudio Antonio. E você já é nosso convidado para enviar seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br e participar da série especial de aniversário de 467 anosa da nossa cidade.

Conte Sua História de São Paulo: paraíso de muito amor!

 

Por Célio Conrado Rodrigues
Ouvinte CBN

Texto publicado no livro “O Poema que não escrevi”

 

 

 
Mais uma vez,
do jeito que eu sei,
quero só agradecer
pelo abraço sincero
que eu e milhões talvez,
na aurora de nossas vidas…
recebemos de você.

 

Mais uma vez,
tal como um filho adotivo,
trago mil motivos no peito,
para externar todo o meu respeito
a essa mãe tão linda
que um dia,
sem perguntar porque,
estendeu a sua mão
e nos fez feliz prá valer.

 

 
Obrigado, minha São Paulo,
tudo o que falo é pouco
para mostrar com palavras,
minha gratidão tão cara,
por tudo que temos,
por tudo que somos…
nesse paraíso de bem querer.

 

 
Obrigado, São Paulo…
você é mais, você é dez.
uma mistura tão bonita,
um coração tão forte,
o norte de nossas vidas
e no silêncio de sua bondade…
nos mostrou a realidade da vida.

 

 
Muitas vezes você sofre,
sujam e emporcalham as suas ruas,
suas águas, prédios e praças
e você acima do bem e do mal,
tal como a própria vida,
suporta tudo calada…
na esperança que o amanhã será melhor.

 

 
Obrigado, São Paulo…
por ontem, por hoje e sempre,
pela diversidade possível,
por tudo que sonhamos,
pelas tantas oportunidades,
pela sua eterna bondade…
nesse paraíso de muito amor!
 

 

 
Célio Conrado Rodrigues é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Venha contar mais um capítulo da nossa cidade: escreva seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br
 
 

Conte Sua História de São Paulo: Luz, Liberdade e Paraíso

 

Por Mario César Pereira
Ouvinte da CBN

 

 

Ah, São Paulo…

 

Minha relação com você é daquelas de amor e ódio.
Você apaixona, mas tem horas que não aguento mais você.

 

Trânsito caótico. Não tem mais horários de pico. Todo horário é horário de trânsito. Tem horas que você parece um grande estacionamento a céu aberto.

 

Poluição. Você olha para cima e vê aquela névoa cinzenta tomar conta do céu. Angustiante e preocupante.

 

Enchentes. Você certamente não combina com chuva. Porque com ela, vem semáforos desligados, rios transbordando, enchentes, árvores caindo e o caos completo.

 

Mas tenho que confessar: não tem como não gostar de você, São Paulo.

 

Você não para nunca. Você funciona 24 horas.
Você tem tudo.

 

Quer um barzinho mais simples? O tradicional boteco? Você tem.
Quer um barzinho um pouco mais enjoado? O tradicional botequim? Você tem.

 

Quer diversidade de pessoas?
De culturas?
De restaurantes e comidas?
De sons e shows?

 

Quer opções de teatros e peças? Você tem.
Quer comércio de roupas com preços acessíveis? Você tem.
Quer comércio de roupas de grife sem se importar com o preço? Tem, também.

 

Quer parques para correr, pedalar e relaxar?
Futebol, clubes tradicionais, estádios e arenas?

 

Quer carnaval com escolas de samba mas também com bloquinhos de rua? Você tem.

 

Você tem a Sé. Você tem o Brás. Você tem Belém. Você tem a Santa Ifigênia.
Tem a Mooca, o Ipiranga, o Cambuci e a Aclimação.
Você tem o Jabaquara. Vila Mariana. Parada Inglesa. Tem Santana. E tem o Tucuruvi.

 

Você tem Casa Verde. Vila Maria. E Jaçanã.
Tatuapé.Santa Cecília. Higienópolis. E Pacaembu.

 

Você tem a Berrini. Você tem a Vila Olímpia. Você tem o Morumbi.
Tem a Vila Madalena. A Consolação.E a Brigadeiro.
Você tem a Luz. A Liberdade.E o Paraíso.

 

Você tem, São Paulo!

Mario César Pereira é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: a vila cresceu

 

Por José Maria Pires
Ouvinte da CBN

 

 

Lá se vão tantos janeiros
Era uma pequena vila nos primeiros

 

 A vila cresceu
E, então uma grande cidade, nasceu.

 

 Com trabalho trouxe a riqueza
Tornando-se uma enorme fortaleza

 

 SÃO PAULO é assim
Tem cheiro de jasmim

 

Com tons de cinza na aquarela
De fato é uma cidade muito Bela.

 

 Terra da garoa
Terra de Gente Boa

 

Terra que não descansa
Terra de esperança

 

Terra de gente de Fé
Terra também do café

 

Terra da Independência
Terra com Jurisprudência
 

 

Terra de nações e suas crenças
Terra em paz com suas diferenças

 

 Terra das artes e das Ilusões
Terra de oportunidades mediante as ações
 

 

Terra que riqueza produz
Terra que a pureza conduz
 

 

Terra de muitos amores
Terra que espanta temores

 

Terra de vitórias mil
Um pedaço desse imenso país de nome BRASIL.

 

José Maria Pires é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

                                                                                                                                                                                                                                                     

Conte Sua História de São Paulo: quando escutei a primeira música dos Beatles

 

Por Reinaldo Carmo Milito

 

 

Quando nasci em maio de 1952, minha família morava no Bom Retiro, na rua José Paulino, 752. É de lá que tenho as minhas lembranças mais remotas –- uma espingardinha de rolha, presente de Natal; minha bisavó Angela; e os meus primeiros heróis, Maurício e o irmão dele de quem eu não lembro o nome — dois garotos judeus que eram nossos vizinhos.

 

Lá por 1955, mudamos para a Casa Verde, numa casa próxima à ponte sobre o Rio Tietê. Ainda não existia a Avenida Braz Leme e no local ficava o nosso campo de futebol e uma enorme área que era nosso cenário imaginário para as inúmeras batalhas com espadas de madeira, inspirados por Ivanhoé, ou de tiroteios com falsos rifles e revólveres a la Bat Masterson, Daniel Boone, ou pelo falso Zorro, que na verdade era o Cavaleiro Solitário e seu amigo Tonto!

 

Em 1962, fomos morar no centro – esquina da Avenida Rio Branco com Ipiranga. Morávamos no 12º andar do Edifício Agulhas Negras e a vista me fascinava porque até então eu só tinha visto a cidade no plano do chão!

 

Levei comigo as empolgações das brincadeiras de rua; e a lateral da banca do Adão, um ex-boxeador, era o nosso gol. É lógico que o jogo sempre terminava no 1 X 0. A primeira bolada na banca, o Adão, um negro sarado com mais de 1,80 de altura e um físico avantajado, botava medo em qualquer um, imediatamente apitava o final do jogo!

 

Meu parceiro de artes era o Edson, filho do Sr Francisco que era o zelador do prédio. Curtíamos também subir no terraço que ficava no 22º andar e de lá soltar aviõezinhos de papel para disputar qual o que chegava mais longe!

 

Fazia parte do meu mundo maravilhoso, a garagem de onde saíam as lotações para Santos – Expresso Zefir – que ficava na Avenida Ipiranga. Eu era maluco pelo Simca Chambord e era ali que eu me realizava, pois a frota era formada por Simcas e Aero Willys.

 

Um pouco mais adiante, quase na famosa esquina cantada pelo Caetano em Sampa, tinha uma loja de disco e foi onde escutei a primeira música dos Beatles. Posso dizer sem sombra de dúvidas que a minha vida mudou depois daquele dia! Todo dia eu passava lá e pedia para o rapaz: — “por favor, coloque aquela música”. A música era “I Wanna Hold Your Hand”!

 

As matinês de domingo do Cine Metro, com Festival de Tom e Jerry, o cachorro quente da Salada Record, o pudim de leite do Bar Cinelândia na esquina da São João com a Dom José de Barros, o mate gelado, o pão francês da Padaria Irradiação, os doces da Dulca e os pastéis com caldo de cana das pastelarias que ficavam em frente ao prédio onde eu morava são inesquecíveis. Sem falar da pizza brotinho da Casa Italiana, na Rua Antonio de Godoy, em frente ao Cine Boulevard.

 

Ainda não existia a Galeria do Rock porque ele, o rock, estava gatinhando! Ela era a Grande Galeria, ao lado do Cine Art Palácio. Conheci cada pedaço do centro de São Paulo e meu local preferido era a Galeria Prestes Maia por causa das escadas rolantes! O Anhangabaú era o palco para os desfiles de fanfarras e militares, nas datas comemorativas à Independência, Proclamação da República, e outros eventos cívicos. Era ali que se viam os “papa filas” e onde ficava o famoso “buraco do Ademar”.

 

Tudo me fascinava no centro. O som da sirene da Gazeta, que informava o meio-dia, o presépio do Largo Paiçandu, nos dezembros, as lojas Mesbla e Mappin e a quantidade de cinemas que existiam num raio de 200 metros da minha casa. Conheci quase todos os porteiros dos cinemas porque eu os perturbava para me deixarem entrar sem pagar o ingresso!

 

Minha família mantinha uma pequena indústria na Casa Verde e o colégio que eu estudava também ficava lá. Todo dia eu ia e voltava de bonde. Ficava eufórico quando eu vinha no bonde do “bailarino”, apelido do motorneiro mais simpático e conhecido de São Paulo. Eu vinha ao lado dele prestando atenção em tudo e perturbando-o para me deixar pisar no pino localizado no assoalho que era a buzina do bonde – “délém, délém, délém…”

 

Durante os dois anos que morei no centro tive a oportunidade de ver de perto o desfile do time campeão da Copa de 62, a passagem do presidente francês Charles De Gaulle e o movimento que levou à Revolução de 1964, dentre tantos outros eventos. Vi a São Silvestre com partida e chegada na Cásper Líbero, na virada do ano, e a construção do Monumento ao Duque de Caxias, na Praça Princesa Izabel, desde o seu início até a inauguração.

 

Uma experiência ímpar vivida, dando uma ideia de certa inocência popular naquela época, eu vivi na Praça da Sé. A praça toda tomada de gente, assistindo ao jogo da seleção brasileira contra a Tchecoslováquia, pela Copa de 62, num telão enorme que simulava um campo de futebol. Ouvia-se a narração pelos alto falantes espalhados nos postes da praça e o telão mostrava a suposta localização da bola através de uma luz acesa. Aquilo era o máximo. Nunca vou esquecer o momento do gol do Brasil!

 

Enfim, eu trago vivas essas lembranças com uma felicidade imensa e ao mesmo tempo muita tristeza por ver no que se transformou o centro de São Paulo, a cidade que eu amo de paixão!

 

Apesar de ter morado só os primeiros três anos no Bom Retiro, foi lá que eu passei os melhores momentos da minha adolescência e foi durante um fórum entre amigos, ex-alunos do Colégio Alarico Silveira, que, embalado pelas lembranças que cada um trouxe, me inspirei a escrever esse poema:

AS NOSSAS “PENNY LANES”

As ruas do Bom Retiro são as nossas “Penny Lanes”,
Cada uma com seu cheiro cada uma com seu jeito
Infelizmente nada mais está como antes,
Lá nas bandas da Bandeirantes.

 

Por onde ando e para onde olho não canso de ver desgraça
Até o Luso Brasileiro foi demolido na Rua da Graça.
Muita saudade do Jardim da Luz, do bonde e da Salada Record.

 

Hoje vejo o olhar sofrido estampado em rosto latino
Dos muitos que trabalham na José Paulino.
Judeu virou coreano, grego virou chinês,
italiano virou boliviano só o pãozinho ainda é francês
apesar do português ter virado nordestino,
pois agora é do Evanilson a padaria que era do Jacinto, lá na Rua Silva Pinto.

 

Já não tem mais Cine Paris, nem a fábrica de canetas Sheaffer
Muito menos a da Ford e tampouco o Radar Tantã.
Nem a Casa Walter funciona mais ali, na Barra do Tibagi.

 

O Marechal ainda resiste ao tempo, assim como a Igreja Santo Eduardo.
A barbearia do Oswaldo ainda existe só que agora é o Belizário que faz barbas e cabelos de velhos e novos freqüentadores do bairro, ao lado do bar do “Pinga”.

 

A padaria ainda está lá na esquina só que a turma não vai mais lá
Ah, ainda é a mesma, a feira da Rua Jaraguá.
Ainda tem “Antonio Coruja”, “Javaés” e “Newton Prado”,
“Guarani”, “3 Rios” e “Mamoré”,
“General Flores”, “Anhaia e “Solon”
E também “Ribeiro de Lima”, “Prates” e “Julio Conceição”,

 

Mas se um dia a Rua dos Italianos virar Rua dos Coreanos
Juro que morro do coração!

Reinaldo Milito é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.

Conte Sua História de São Paulo: amedrontado pela falsa ideia de ser engolido na Pauliceia

 

Por Alceu Costa
Ouvinte da CBN

 

 

 

Quando cheguei em São Paulo,
Eu era um jovem calado,
Discreto, comportado,
Risonho, mas assustado,
Caipira um tanto acanhado,
Amedrontado pela falsa ideia
De ser engolido na Pauliceia,
Uma imensa cidade desvairada,
Sob a lei do tudo ou nada
Da ditadura militar instalada.
Com humildade e orgulho,
Fui morar na Av. Mercúrio,
Aos poucos, comecei a trabalhar,
Na Light, até me aposentar,
Casado, residindo no Cambuci,
Meu lugar com certeza é aqui,
Próximo do Parque da Aclimação,
Porém, faço esta observação:
Aquele jovem encabulado,
Há muito tempo passado,
Aquém desta nova era,
Frequentou o Parque Ibirapuera,
Embora pouco assíduo,
Mais à noite do que de manhã,
Jamais deixou esquecido
O concorrido Tobogã.
Por isto, ó Parque Ibirapuera,
Agora, como eu, sexagenário,
Com muito Amor de atento cidadão,
Deixo-te estes versos de saudação,
Meu precioso talismã,
Do ontem, do hoje e do amanhã. 

 



Alceu Sebastião Costa é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Participe da série em homenagem aos 465 anos da nossa cidade: envie seu texto agora para contesuahistoria@cbn.com.br.