Mundo Corporativo: Luiz Gaziri propõe “Advogado do Diabo” para gerenciar polarização no ambiente de trabalho

Gravação do Mundo Corporativo em foto de Priscila Gubiotti

“Quando eu tô feliz é que eu tomo decisões melhores, quando eu tô feliz é que eu alcanço minha meta com mais facilidade. Então, é importante que a gente crie o ambiente de trabalho feliz em primeiro lugar”

Luiz Gaziri, professor e pesquisador

Em um cenário corporativo cada vez mais desafiador, a saúde mental e o bem-estar dos profissionais se tornam aspectos cruciais para a eficiência e produtividade das equipes. Segundo Luiz Gaziri, especialista em comportamento humano e autor de livros sobre felicidade e polarização política, a liderança tem um papel fundamental nesse contexto. Ele ressalta a influência direta dos líderes na cultura organizacional e, consequentemente, no bem-estar dos funcionários.

Durante sua participação no programa Mundo Corporativo da rádio CBN, Gaziri enfatizou a necessidade de uma mudança de paradigma na liderança empresarial. Ele observa que, frequentemente, líderes não estão cientes de como suas estratégias e comportamentos influenciam negativamente o ambiente de trabalho. Gaziri, com sua experiência como executivo e consultor, notou uma persistência de modelos de gestão ultrapassados, focados em competição e individualismo, ignorando os impactos na saúde mental dos colaboradores.

“O mundo corporativo hoje ainda é muito pautado na competição, no individualismo, então esses líderes precisam se preparar melhor, entender o que  traz bem-estar para o ser humano, como que a estratégia de uma empresa impacta no comportamento? O que é motivação? Sem esse conhecimento de comportamento humano torna-se Impossível a gente conseguir um ambiente de trabalho mais positivo.”

Gaziri destaca a relação direta entre estratégias empresariais e a felicidade dos trabalhadores. Ele cita pesquisas que demonstram como uma liderança inadequada pode ser a principal fonte de estresse para os funcionários, afetando negativamente a produtividade e a saúde mental.

Ajuste as metas e motive seus colaboradores

Gaziri lança “A Arte de Enganar a Si Mesmo”, foto de Priscila Gubiotti

Na entrevista, o autor do livro “A ciência da felicidade” (Faro Editora) também abordou a questão das metas inatingíveis, um problema comum no mundo corporativo. Gaziri explica que, quando as metas são excessivamente altas, os funcionários podem desenvolver a “desesperança aprendida”, uma sensação de impotência e falta de controle sobre os resultados, levando à desmotivação e ao declínio do desempenho.

Para melhorar esse cenário, o especialista sugere várias medidas, como ajustar as metas de acordo com a realidade, promover um ambiente de trabalho motivador e garantir a segurança financeira dos funcionários. Ele destaca a importância de um ambiente que promova a segurança psicológica, onde as pessoas não tenham medo de expressar suas opiniões e ideias.

“O ambiente molda inclusive a minha inteligência, mas a gente usa a estratégia de deixar as pessoas na insegurança financeira com bastante constância o que é ruim para o ambiente de trabalho.  Sem falar na questão de metas, de prêmios, de ambientes que sejam motivadores. Então, a gente vê um caos aí muito grande no mundo corporativo por causa dessa falta de conhecimento sobre ser humano.”

Além disso, Gaziri aponta para a necessidade de uma liderança consciente e preparada para criar um ambiente de trabalho positivo e saudável. A capacitação dos líderes em entender e gerenciar aspectos relacionados ao comportamento humano é fundamental para impulsionar o bem-estar e a felicidade no ambiente de trabalho.

A polarização no ambiente de trabalho e como gerenciá-la

A polarização, um fenômeno amplamente discutido no contexto político, também se manifesta no ambiente corporativo, influenciando as dinâmicas de trabalho e a tomada de decisões. Luiz Gaziri, em seu livro “A Arte de Enganar a Si Mesmo: Uma Visão Científica da Polarização Política e Outros Males Nem Tão Modernos” (Alta Books), aborda essa questão, destacando como a polarização pode afetar negativamente as empresas.

O autor observa que a polarização nas empresas ocorre devido à tendência humana de se agrupar com indivíduos de opiniões semelhantes. Esse fenômeno leva as pessoas a reforçar suas crenças e ignorar perspectivas divergentes, criando um ambiente onde prevalece o viés de confirmação. Ele exemplifica isso com um experimento realizado por Lee Ross, da Universidade de Stanford, no qual israelenses e palestinos avaliaram propostas de paz de maneira diferente, dependendo de qual lado acreditavam que as propostas tinham vindo. Isso mostra como a origem de uma ideia pode influenciar sua aceitação, independentemente do seu mérito.

No ambiente de trabalho, essa polarização pode levar a conflitos e a uma falta de inovação, pois as ideias são avaliadas com base na afinidade com o grupo, e não em seu potencial. Para combater esse problema, Gaziri sugere a nomeação de um “Advogado do Diabo” em reuniões e decisões de grupo. Essa pessoa teria o papel de questionar e analisar criticamente todas as ideias apresentadas, promovendo um pensamento mais diversificado e crítico.

Embora essa abordagem possa tornar as reuniões menos agradáveis a curto prazo, ela conduz a decisões mais criativas e eficazes. A diversidade de pensamento, apesar de potencialmente desconfortável, é crucial para evitar a estagnação e promover a inovação.

Gaziri enfatiza a importância de gerenciar a polarização no ambiente de trabalho, especialmente em uma era de crescente diversidade. A inclusão de diferentes perspectivas e a promoção de um ambiente onde as ideias são julgadas pelo seu mérito, e não pela sua origem, são essenciais para o sucesso das empresas. Ele propõe que os líderes fomentem a segurança psicológica e a abertura às opiniões divergentes, garantindo assim que as melhores ideias prevaleçam, independentemente de onde venham.

Essas reflexões de Gaziri oferecem um olhar crítico sobre como a polarização pode afetar o ambiente corporativo e apontam caminhos para criar um ambiente de trabalho mais saudável, produtivo e inovador.

Assista ao Mundo Corporativo com Luiz Gaziri

O Mundo Corporativo pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, 11 horas da manhã, no canal da CBN no YouTube e no site http://www.cbn.com.br. O programa vai ao ar, aos sábados, no Jornal da CBN, e domingo às 10 da noite, em horário alternativo. Você também pode ouvir a qualquer momento no podcast do Mundo Corporativo. Colaboram com o programa: Renato Barcellos, Letícia Valente, Priscila Gubiotti e Rafael e Furugen:

Quem tem lado é quadrado!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

Foto de mentatdgt no Pexels

A subjetividade humana, o jeito de ser e que nos torna singular, se constrói nas relações humanas, nas quais as pessoas se influenciam mutuamente. Entretanto, esse encontro enriquecedor tem sido cada vez mais ameaçado pela polarização, que ultrapassa os limites políticos, tornando os diálogos escassos.

No lugar da troca de ideias e opiniões, do treino de habilidades, como a empatia, surgem discussões acaloradas e até mesmo agressivas, facilitadas pelo escudo protetor das redes sociais.

Isso nos custa em termos de desenvolvimento pessoal, cultural e social.

Ao conviver apenas com pessoas que pensam da mesma forma, nos tornamos reclusos em nós mesmos, numa espécie de narcisismo ideológico que limita a realidade e nos engessa em atitudes e escolhas.

Na esfera social, a polarização torna-se um risco, ao justificar as desigualdades a partir de elementos pautados em análises pouco racionais, favorecer discursos populistas e gerar a ideia de que um grupo possui supremacia em relação ao outro.

Rotulamos as pessoas por algumas características de comportamento, como se isso as definisse. Por outro lado, personalizamos excessivamente as situações, acreditando que tudo o que é dito ou feito pelos outros, possua alguma relação conosco.

Além de menos interessados pelo universo que cada ser humano representa, perdemos a capacidade de avaliar os fatos pela lógica – o que poderia mudar nossa opinião – apegados excessivamente às nossas emoções, que nesse ponto indicam raiva e irritação, numa busca incessante por estarmos “certos”.

E será que existe uma saída para isso?

Relações harmoniosas e construtivas têm se mostrado possíveis através do diálogo, numa compreensão de que apesar de algumas diferenças, porque somos únicos, também somos genéricos, porque guardamos muitas semelhanças.

Que tal tentar?

Numa próxima conversa, por exemplo, ao invés de dizer “eu detesto isso”, quando alguém contar sobre sua preferência, procure saber quais as motivações desse gosto, o que levou essa pessoa à essa escolha ou o que vê de positivo nisso. Faça perguntas como alguém que tem curiosidade genuína pela experiência do outro, evite julgamentos ou adjetivos. Isso vale inclusive para as redes sociais.

Mantenha a mente aberta e prepare-se para se surpreender com um mundo que vai além do seu.

Afinal, a polarização só permite um lado. E quem tem lado é quadrado.

Saiba mais sobre saúde mental e comportamento assistindo ao canal 10porcentomais

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais no Youtube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung