Conte Sua História de São Paulo: saudade do parque, dos pássaros e do pastel da minha cidade

Por Silvio Henrique Martins

Ouvinte da CBN

No Conte Sua História de São Paulo, o ouvinte da CBN Silvio Henrique Martins destaca o gigantismo da nossa cidade:

Minha história de São Paulo, em 2025, é feita de boas saudades. Moro desde 2021 em Łódź, uma cidade no centro da Polônia, 10.500 quilômetros distante da querida São Paulo e 222 anos mais velha. Apesar de arborizada, Łódź não tem a marquise ou a fonte do Ibirapuera, nem as ladeiras da Brigadeiro e da Porto Geral.

Aqui, os terminais rodoviários são tranquilos, bem diferentes do movimento vibrante do Jabaquara, Barra Funda ou Tietê. O estádio local é bonito, mas não se compara ao Morumbi, onde vivi momentos inesquecíveis ao lado do meu pai, tricolor como eu. As feiras livres também são diferentes: frutas e flores dependem da estação, mas não há pastel, caldo de cana ou os famosos anúncios hilários das barracas paulistanas.

O trânsito local é leve; um engarrafamento de cinco minutos é considerado um transtorno. Sinto falta das marginais, onde 10 minutos para percorrer 7 quilômetros já era rotina. No inverno, o sol some e, com ele, os pássaros cantores. A saudade do canto do sabiá e do bem-te-vi é enorme, e hoje entendo a Canção do Exílio.

São Paulo me deu oportunidades, família e amigos, e sempre será minha cidade do coração. Mas Łódź me presenteou com uma netinha polaquinha, que embaralha minha geografia e me enche de esperança de que, no futuro, ela também tenha sua própria história para contar sobre São Paulo.

Ouça o Conte Sua História de São Paulo

Silvio Henrique Martins é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

((os textos originais, enviados pelos ouvintes, são adaptados para leitura no rádio sem que se perca a essência da história))

Conte Sua História de São Paulo: a boneca de Natal que mamãe nos deu de presente

 


Por Edithe Martha Peukert
Ouvinte-internauta da rádio CBN

 

 

Em 1927, minha mãe Melida, com 14 anos, veio com a família dela da cidade de Lodz, na Polônia, a bordo do navio Belle Isle. Desceram em Santos e vieram para capital. Meu avô tinha a carta do filho mais velho, Edmundo, que havia chegado há algum tempo. O endereço na carta era do jornal Alemão, na Liberto Badaró. Como era domingo, chegaram lá e encontraram tudo fechado. Meu avô e minha avó conversavam em alemão sem saber o que fazer quando um homem, que também falava alemão, parou, perguntou o que acontecia e disse que os ajudaria : levaria todos para uma casa, no bairro do Cambuci, e depois sairia para descobrir onde encontrar Edmundo, o filho do meu avô que trabalhava em um restaurante da cidade.

 

Incrível, mas após alguma andança pela cidade, encontraram Edmundo. Lógico que todos ficaram muito felizes. Meu tio arrumou um emprego de babá para a minha mãe, na avenida Paulista, e para minha tia, na Alameda Casa Branca, de onde só podiam sair duas vezes por semana.

 

Meu avô, minha avó e meu outro tio, Paulo, foram para Cananéia tentar a vida. Acabaram todos voltando para a capital, onde meu avô comprou um terreno na Vicente Leporace, antiga rua Santa Rita, no Campo Belo. O quartinho de tijolo assentado em barro que construíram, conta minha mãe, tinham paredes que balançavam com o vento. Meus avós rezavam e seguravam as paredes para não caírem. Naquela época o bairro pertencia a Santo Amaro que era um município independente e depois foi anexado a Capital que praticamente terminava na Vila Mariana. E o terreno do meu avó, pela distância, era considerado fim do mundo.

 

Minha mãe se casou, em 1939 com meu pai Alfred Uebele.

 

Meu pai era lustrador de móveis finos e trabalhou na Fábrica de Móveis Foltas, na Oscar Freire, que depois mudou para o bairro do Morumbi. Ao se aposentar continuou trabalhando para um vizinho que também tinha uma pequena fábrica de móveis.

 

Minha mãe trabalhou como costureira na Rua Prates, próximo a Praça da Luz, até a gravidez da minha irmã. Quando éramos pequenos trabalhou em casa como costureira, costurando 36 camisas sociais para homens, por dia, em uma máquina Singer que ela comprou em prestações quando tinha 18 anos. Depois trabalhou com grampos de cabelo, costurando blusas de lã, sempre ajudando meu pai que lhe entregava todo o dinheiro, pois ele sempre dizia que ela sabia como administrá-lo bem.

 

Hoje tenho ótimas lembranças da vida que passamos juntos.

 

Os Natais foram inesquecíveis, sempre com árvores em cipreste natural, mais ou menos dois metros e meio de altura, cheia de bolinhas de cristal coloridas, que na época eram importadas da Alemanha. Tinham velinhas acesas. Tudo muito lindo e festivo. Não havia presentes caros e todos eram recebidos com muita alegria.

 

Houve uma época que eu e minha irmã pedimos uma “noiva”, um tipo de boneca, mas eles não tinham como comprar. Então, minha mãe, pegou as nossa bonecas de pano com cabeça de bebê de “biscuit” e as escondeu. Quando perguntávamos onde estavam nossas bonecas, ela respondia que a culpa era nossa, pois não sabíamos guardar nossos brinquedos: “não sabem onde colocam suas bonecas, depois ficam aí procurando, perdidas!”.

 

Naquele Natal, para nossa surpresa, veio o Papai Noel e ganhamos as nossas bonecas noivas. Minha mãe que era uma ótima costureira fez vestidos lindos para as nossas bonecas, aquelas com cabeça de bebê que ela havia escondido.

 

Ainda éramos crianças, quando meu tio Paulo deu de presente uma só bicicleta para mim e para minha irmã. Não tinha dinheiro para duas bicicletas. Aí decidimos: uma anda de manhã, a outra de tarde. Até minha mãe pedalou naquela bicicleta.

 

Meus pais sempre gostaram de viver no Brasil e em especial em São Paulo, sempre disseram que esta terra é abençoada. Se fizéssemos alguma crítica, eles lembravam a dificuldade que passaram durante e depois da 1ª guerra na Europa. Nunca falaram em voltar para a Polônia.

 


Edithe Martha Peukert é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é de Cláudio Antonio. Conte mais uma capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br.

“Ida”: arte e beleza se revelam e o passado nos provoca

 

 

FILME DA SEMANA:
“Ida”
Um filme de Pawel Pawlikowski
Gênero: Drama
País:Polônia

 

Uma noviça polonesa jovem está próxima a prestar seus votos quando é obrigada a retornar à sua família de origem e acaba descobrindo segredos obscuros da época da ocupação nazista.

 

Por que ver: Se você gosta de filmes premiados, assista. Este ganhou vários. Ele tem um ritmo interessante para quem se interessa por filmes de arte. As atuações precisas e econômicas se tornam um excelente objeto de estudo para os amantes das artes cênicas que precisam perder aquele “Exagero Latino” de atuar…

 

De maneira geral gostei do filme. Gosto de cinema com esta pegada mais artística e fora do óbvio.

 

Como ver: Sem sono…O filme tem um ritmo um pouco mais lento do que estamos acostumados.

 

Quando não ver: Não curte um filme cult? Não assista. Este é bem cult e ainda por cima em preto e branco.

 


Biba Mello, diretora de cinema, blogger e apaixonada por assuntos femininos e agora está te desafiando, vai amarelar?