Expressividade: prefira falar em pé

 

Desde a semana passada, divido com você o capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressão”, escrito para o livro “Expressividade — Da teoria à prática” (Revinter), organizado pela fonoaudióloga Leny Kyrillos, em 2005. É minha homenagem a fonoaudiologia e em referência ao Dia Mundial da Voz, comemorado em 16 de abril. Agora, você lê a oitava parte deste capítulo:

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EM PÉ, POSIÇÃO COM SENTIDO

 

Visite um  estúdio de rádio e você verá lá dentro a mesa com os microfones, várias cadeiras em volta e um computador ao centro. Vá a uma emissora de televisão e você encontrará uma bancada para a apresentação do programa. Em ambos os casos, os apresentadores ficam sentados. Posição que, se mantida por longo tempo, é, comprovadamente, prejudicial à saúde. Os reflexos desta postura podem ser sentidos, por exemplo, na coluna, com a pressão sobre as vértebras e dores nas costas; na circulação do sangue, provocando formigamento nas pernas; e na própria respiração.

Ao permanecer sentado você pressiona o diafragma, músculo que separa da cavidade torácica a abdominal e, como já comentamos no capítulo anterior, que intervém ativamente na respiração.

O problema é mais frequente para os profissionais de rádio que apresentam programas, algumas vezes, por até três horas, sem direito a sair do lugar (na televisão, a tendência é que a duração seja menor). A situação é semelhante para quem costuma realizar palestra que na maioria das vezes acontece atrás de uma mesa e sentado. Falar por muito tempo nestas condições provoca desconforto e cansaço que podem ser notados na voz.

 

Na televisão, há algum tempo, já assistimos a telejornais em que os apresentadores estão em pé. Longe da posição estática imposta pelas bancadas, eles se movimentam pelo cenário que pode ser, inclusive, virtual, dado os recursos técnicos à disposição. A intenção foi criar mais um artifício para atrair o telespectador tornando a apresentação mais ágil e expressiva. A medida beneficia também a respiração proporcionando uma fala mais confortável.

 

No início da história do rádio havia um número considerável de programas apresentados em pé. Nos de auditório, o apresentador interagia com o público. No radioteatro, os atores tinham mais facilidade para dramatizar as cenas. Com o fim dessa linha de programas, os locutores foram parar nas cadeiras. A postura tornou ainda mais formal a narração dos textos. Era uma época em que os radialistas tinham de ter de preferência uma voz grave e potente. Enchiam o peito de ar, baixavam o queixo e olhavam por debaixo das sobrancelhas cerradas, imitando os tenores nas óperas, para soltar o vozeirão. Os recursos técnicos eram limitados, o que de certa maneira prejudicava os que não se encaixavam nesse perfil. Com o tempo, o padrão radiofônico se desenvolveu, atendendo a exigência do próprio público. Apesar dos avanços, os radialistas permanecem sentados em suas cadeiras por comodismo ou porque os estúdios ainda são construídos à moda antiga.

 

Conheço, até hoje, apenas um âncora de rádio no Brasil que arriscou mudar de posição. O jornalista Heródoto Barbeiro, já apresentado no capítulo anterior, responsável por um programa que tem três horas e meia de duração, na Rádio CBN, começou a experiência intercalando alguns momentos sentados, outros em pé. Logo essa passou a ser a posição preferencial. Mais adiante, simplesmente aboliu a cadeira. Com um microfone acoplado ao fone de ouvido, ao estilo das operadoras de serviços de atendimento telefônico, ganhou mobilidade. Enquanto fala, comenta ou entrevista, se movimenta. Ao dar pequenos passos massageia os pés no chá com mais benefícios à saúde. Quando quer descansar, inova mais uma vez. Fica de cócoras, encostado na parede.

 

Com fonoaudiólogos integrando as equipes de trabalho das emissoras de rádio e a aplicação de recursos de economia, talvez se consiga mudar o hábito que ainda impera no rádio. Logo aí em frente, tempo não tão distante, imagino estúdios em que o locutor possa falar em pé, com bancadas altas e tendo à disposição cadeiras para quando este entender oportuno. A novidade certamente provocará narizes torcidos e muxoxos nos corredores. Mas, afinal, não é isso que sempre acontece quando há quebra de comportamentos?

 

Os textos do capítulo “Santo de casa não faz milagre, mas tem expressividade”, publicados até agora, você tem acesso clicando aqui

O que é melhor: trabalhar em pé ou sentado?

 

Há quem não acredite quando conto que apresento em pé boa parte das três horas e meia do Jornal da CBN. Quem duvida é convidado a conferir minha postura pelas imagens do estúdio disponíveis no site da rádio. Por mais cansativo que possa parecer, sinto-me mais confortável nessa posição e percebo que consigo me comunicar melhor. O ar flui com mais facilidade, pois não falo com o diafragma pressionado; o movimento das pernas ajuda na circulação do sangue; sinto-me mais ativo, apesar de acordar de madrugada e trabalhar desde cedo; elimino boa parte da pressão sobre as costas que existe quando se está sentado, a medida que divido o peso sobre os dois pés; e, no conjunto da obra, o corpo ajuda a expressar melhor as mensagens. Para manter este costume, o estúdio da CBN tem dois computadores para o âncora, um sobre a bancada central, onde boa parte prefere ficar sentada, e outro em uma mesa elevada, e há um microfone “headset” ou “da Madonna”, como costumamos chamá-lo, que oferece ainda mais liberdade para quem apresenta o programa em pé.

 

Conto isso porque, nesta semana, li reportagem no britânico Financial Times sobre os efeitos de se trabalhar muito tempo sentado. O colunista Charles Wallace escreve que vários leitores identificam que as dores nas costas que sentem estão relacionadas as longas horas sentadas diante de um computador. De acordo com especialistas ouvidos pelo jornalista, trabalhar sentado por longos períodos é o “novo fumar”, pois aumenta o risco de morte e doença, não importando quão ergonômica é sua cadeira ou mesa nem mesmo quão extensa é sua rotina de exercícios semanais. Os músculos das pernas e das costas ficam contraídos ao longo do tempo e o coração sofre com a falta de atividade. De acordo com o Marvin Dainoff, diretor do centro para a ciência comportamental da seguradora Liberty Mutual, ouvido pelo colunista, os trabalhadores que se levantam durante sua jornada de trabalho têm menos queixas sobre sua saúde.

 

Leia aqui a reportagem completa do Financial Times

 

Com base nos estudos apresentados sobre os efeitos negativos de se ficar longos períodos sentados no trabalho, leitores passaram a entender que o ideal então é ficar em pé o tempo todo. Nem tanto ao céu nem tanto a terra ou, adaptando o ditado a situação em debate, nem tanto sentado nem tanto em pé. Afinal, há muitos anos somos alertados pelos médicos sobre os perigos para os trabalhadores que permanecem em pé na maior parte de sua jornada. “Existem riscos para a parte inferior das costas e membros inferior”, lembra Karen Messing, que estudou o tema. Ela mesma apresenta a solução: “a proporção ideal é de aproximadamente 70% em pé e 30% sentado, alternando ao longo do dia”. Nunca calculei o tempo em que fico em pé na apresentação do Jornal da CBN mas imagino que minha proporção é de 90% para 10%, a não ser que esteja muito cansado (sabe aqueles dias em que fico assistindo aos jogos do Grêmio até depois da meia-noite?).

 

Na CBN, como citei no primeiro parágrafo, já temos à disposição mesas em alturas diferentes para atender aqueles que preferem ficar em pé e os que se mantém sentados. Nos Estados Unidos, escreve Wallace, empresas têm se dedicado a fabricar mesas com motores elétricos que elevam a plataforma e se adaptam a sua postura. Uma recomendação importante é que a tela do computador esteja um pouco acima do nível dos olhos e o teclado muito próximo da altura dos cotovelos. Para quem tem pouco tempo para se exercitar, existem empresas que incluem uma esteira diante da mesa que permite que a pessoa se mova em ritmo de caminhada lenta ao longo do dia. Eis aí uma boa sugestão para o nosso estúdio.