O chofer de aplicativo que transformou passageiros em personagens

 

 

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“No Divã do Taxi Driver” foi escrito por Paulo Maia e lançado nesta terça-feira, em São Paulo. O autor eu apresento em prefácio que reproduzo a seguir. O livro está a sua espera nas lojas do ramo ou no carro que Maia usa para transportar passageiros — sorte sua se encontra-lo na “praça”:

 

Sou do tempo do chofer de praça. O nome foi importado e reescrito do francês “chauffer”, que significava por lá “operador de máquinas a vapor e, por extensão, de outras máquinas”. Apenas alguns anos depois, demos preferência a motorista, que deriva do Latim motor, “o que confere movimento”. Como a palavra motorista passou a designar todos aqueles que dirigem algum tipo de transporte terrestre, sempre achei mais bonito chamar os profissionais da praça de chofer.

 

 

A propósito, chofer de praça porque geralmente era onde ficavam a espera dos passageiros. Sim, naquele tempo, não era o motorista que vinha até nós, nós é que íamos até o motorista — coisa antiga, não é mesmo?!? Por acaso, a maior parte dos pontos que usei ficava mesmo é na esquina e não na praça. Um deles o da Saldanha Marinho, onde morei na minha infância e adolescência, em Porto Alegre.

 

 

No ponto da Saldanha tínhamos choferes de primeira. A maioria conhecia minha mãe, a Ruth, e estava acostumada a vê-la chegar com os três filhos pendurados pela mão para embarcar para a escola, para a consulta no médico ou para qualquer outro destino na cidade. Conheciam-na pelo nome, assim como nós os conhecíamos, também. Sabiam parte de nossa história e costumavam palpitar sobre nossas escolhas de roupa, de hábito e de time. O faziam de maneira respeitosa.

 

 

A confiança era tal, que para se desdobrar entre a irmã mais velha e o irmão mais novo, minha mãe me deixava com o chofer, passava o endereço e sabia que a entrega seria garantida. Fez isso comigo e com meus irmãos. Pagava a corrida no outro dia —- devidamente anotada na caderneta de fiado do motorista. Por isso não me surpreendi quando há mais ou menos uns cinco anos, um dos choferes me reconheceu no banco de trás do carro e puxou papo sobre minha mãe, falecida em 1986.

 

 

O ponto ainda está por lá —- lembro de tê-lo visto na última vez que visitei a cidade. Mas como a maioria dos outros que persistem estava vazio. Para meus filhos, não fazem o menor sentido. Se precisam sair de casa, seguir para o trabalho ou encontrar os amigos, sacam o celular e acessam o aplicativo. Em segundos, o alerta da chamada aparece, o nome do motorista fica registrado, o tempo e o custo da corrida, também. Em lugar de procurar um chofer de praça esperam o motorista de aplicativo —— confesso que ainda procuro um nome melhor para a profissão, mas seja qual for o que eu escolha imagino já ser voto vencido. Assim que o motorista chega, chama meus filhos pelo nome e se houver oportunidade e interesse dos passageiros puxa papo com eles. A viagem se encerra sem que eles precisem ter dinheiro no bolso. “Esse merece cinco estrelas’, dizem os meninos.

 

 

Mesmo que o tempo tenha passado e os costumes se transformado de forma inimaginável para os choferes de praça que me transportavam — e para mim, também —, algumas coisas ficaram e devem ser perpetuadas por aqueles que exercem a função nos dias atuais. A gentileza no atendimento. O bom dia, o boa tarde e o boa noite. O por favor e o muito obrigado. O sorriso no rosto e a conversa agradável. A direção segura e o relacionamento confiável. O bom chofer precisa também ser bom ouvinte. Entender quando o passageiro entrou no carro disposto a contar a sua própria história ou quer apenas o silêncio da viagem.

 

 

Agora, imagine o que pode acontecer quando você entra em um carro de aplicativo e o motorista que vai levá-lo ao destino final, além de ter tudo aquilo que eu admirava em um bom chofer, também adora escrever? Acredite, você corre o sério risco de se transformar em personagem de belas histórias vividas no trânsito de nossas cidades. Assim como aconteceu com Dona Cristina e Dona Maria da Glória, Seu Vinícios e Doutor Fábio ou Doutor Renato e seu cão-guia Luky, que me foram apresentados neste livro que você tem em mãos. Aliás, assim como aconteceu com todos eles e muitos outros que tiveram o privilégio de chamar o transporte pelo aplicativo e deparar com Paulo Maia na direção — um motorista com hábitos dos meus choferes preferidos.

 

 

Por curioso que seja, mesmo que a mim tenha sido dado o privilégio de escrever este prefácio, nunca tive a chance de encontrar o bom chofer Maia nas minhas viagens pela cidade. A não ser dia desses quando estava atravessando a pé a avenida e ouvi um grito que saía pela janela do carro: “fala, Miltão!”. Aquela voz eu reconheceria no trânsito congestionado de São Paulo, na pizzaria lotada de fregueses ou em meio a solidão do Estreito de Gibraltar. Era o Maia com meio corpo para fora da janela me cumprimentando da mesma maneira que costumava fazê-lo quando nos encontrávamos nas atividades sociais e de voluntariado, no Morumbi, ou quando eu frequentava uma das melhores pizzarias que já conheci na cidade, da qual ele era o proprietário.

 

 

Sim, caro leitor, cara leitora, o Paulo Maia já foi dono de pizzaria e já se aventurou por muitas outras áreas da vida. Ele também já fumou duas carteiras de cigarro por dia, teve enfarto e driblou os males que a saúde lhe pregava. Recuperou-se e se desafiou: cruzou o Canal da Mancha e o Estreito de Gibraltar a nado —- aliás, foi o segundo brasileiro com mais de 50 anos a completar essa travessia. Foi nessa última que o entrevistei durante o programa de rádio que apresento na CBN. Na verdade, entrevistei seu treinador que estava em um barco ao lado, porque ele estava dedicado a dar suas braçadas para vencer os 20 quilômetros que separam Espanha e Marrocos. Conta que ao ouvir meu nome, lembrou-se de muita gente que gosta e estava em terra torcendo por ele. Isso o fortaleceu e o fez resistir às dores e completar o percurso.

 

 

O último desafio que enfrentou foi quando teve de fechar as duas pizzarias que tinha na cidade, encontrar uma saída para as dívidas que se avolumavam e pagar a conta dos funcionários que mantinha —- alguns há cerca de 20 anos trabalhando com ele. Para essa travessia da vida também contou com o apoio de amigos que o incentivaram a recomeçar, se reinventar. Maia pegou carona na economia compartilhada que proporcionou a milhares de brasileiros a oportunidade de transformar bens particulares em negócio. Cadastrou-se em empresas de transporte por aplicativo, colocou seu carro na praça e, desde 2017, calcula ter rodado mais de 170 mil quilômetros de norte a sul, de leste a oeste, de um canto a outro da cidade de São Paulo.

 

 

Foram mais de 11 mil pessoas transportadas na capital paulista — gente que ao chamar o transporte não imaginava que estava prestes a se transformar em protagonista de uma história bem contada. Com a atenção que o trânsito exige e o atendimento que o passageiro merece, Maia ouviu lamentos e recordações, alegrou-se com as comemorações e vitórias pessoais de cada um, e foi apresentado a citações religiosas e situações constrangedoras. Memorizou boa parte desses diálogos, anotou outras e reconstruiu algumas passagens que vivenciou enquanto levava as pessoas, seus amigos e seus familiares ao destino final.

 

 

Agora, Paulo Maia, como um bom chofer ou um motorista cinco estrelas —- para ficar mais atualizado — gentilmente nos convida a fazer essa travessia ao lado dele, nos levando por uma viagem que percorre a alma humana, entra na avenida mais próxima para nos revelar o que está na mente das pessoas e, desviando dos buracos do cotidiano, nos permite ouvir como bate o coração de cada um de seus passageiros.

 

 
Boa viagem!

Conte Sua História de São Paulo – 464 anos: a praça com o nome do meu pai

 

Por Natanael Boldo

 

 

Sou o filho mais novo de uma família de sete irmãos: seis homens e uma mulher. Meu pai, Sr. João Boldo, veio de Itapira, no interior de São Paulo. Filho de imigrantes italianos, instalou-se na Freguesia do Ó, acolhido pelo cunhado dele, irmão da minha mãe, o Tio Paulino. Foi na Freguesia que trabalhou como almoxarife por 35 anos até se aposentar. Foi seu único emprego aqui em São Paulo.

 

Passados alguns anos da sua chegada, comprou terreno no Jardim Cidade Pirituba, na rua Silvino de Godoy, onde construiu a casa que moro até hoje com minha mãe, Dona Teresinha, que está com 89 anos. Meu pai foi um dos primeiros moradores do lugar, chegou ao bairro em 1966. Eu tinha apenas um mês de vida. Era uma casa humilde, com dois quartos, cozinha, sala e banheiro. No quintal, tínhamos galinheiro e várias arvores frutíferas. Da porta de casa, tínhamos uma vista privilegiada do Pico do Jaraguá, lugar onde passeávamos com frequência. Juntava toda a molecada da rua. As mães faziam lanches de mortadela e suco. E por lá passávamos o dia.

 

Criou os filhos com muita dificuldade. Éramos muito humildes. E sempre nos cobrou que fossemos pessoas honradas, honestas … e exigiu que estudássemos. Ao lado da minha mãe, que também é uma mulher guerreira, que nunca frequentou os bancos da escola, puderam nos orientar pelo melhor caminho que a vida tinha a oferecer. Como recompensa, viram seus filhos se formarem.

 

Meu pai também era um músico dos bons, tocava bandolim como ninguém. Aos sábados bem cedo, íamos a Praça da República passear pela feira de artesanato e depois passávamos na loja de instrumentos Del Vecchio, na Rua Aurora. Ali se encontrava com Evandro do Bandolim e seu regional. Não tinha hora pra sair, pois a música rolava solta.

 

Eu ainda era muito criança, mas lembro que aos domingos depois da missa meu pai reunia a família antes do almoço para tocar. Era maravilhoso, música de qualidade e família reunida. Era um autodidata, estudou bem pouco, mas sabia de coisas que doutores não tinham conhecimento. Era um homem que lia muito e estava sempre à frente do seu tempo.

 

Perto de casa havia um brejo onde começou a plantar árvores. Hoje, este mesmo local foi transformado em um parque municipal, o Rodrigo de Gaspari. Fez o mesmo na rua onde moro, a Silvino de Godoy. No terreno que chegou a ter um campo de futebol, passou a plantar todo tipo de árvore: ipês, paineiras, jambo. De tão verde que ficou, transformou-se em praça: a Praça João Boldo, em Pirituba, bairro considerado o segundo mais arborizado de São Paulo.

 

Natanael Boldo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Vamos comemorar os 464 anos da nossa cidade juntos: escreva o seu texto para milton@cbn.com.br.

Conte Sua História de SP: aos 11 anos conheci a cidade dos bondes e da garoa

 

 

Sou do Paraná. Da pequena cidade do norte do estado, Santa Inês, ali na divisa com o rio Paranapanema. Ainda hoje pequena cidade, pois diz o censo que não moram muito mais de 2 mil e 500 pessoas por lá.

 

Cheguei aqui em São Paulo em 7 de Setembro de 1964, em pleno feriado da Independência. No dia seguinte já havia conseguido trabalho na Praça João Mendes, no centro da cidade. É ali que temos o fórum que também leva o nome do famoso jurista João Mendes de Almeida, construído bem antes de eu chegar, na década de 1950.

 

Imagine que tudo isso me aconteceu com apenas 11 anos de idade. Foi nessa época que comecei a produzir um filme em minha cabeça com imagens que ainda estão muito presentes na memória: para o menino recém-chegado a cidade era enorme: lembro-me do movimento dos carros que já era facilmente percebido; por lá, também, passavam os bondes levando trabalhadores e estudantes; tinha ainda a correria das pessoas pelas calçadas; a garoa, que quase não existe mais, era a marca da cidade. E aqueles prédios …. gigantes.

 

Sou muito grato a São Paulo. Foi aqui que construi minha vida. Foi aqui que casei, há 42 anos, e consegui dar boa educação aos meus três filhos.

 

Só tenho a te dizer, São Paulo, obrigado, pois com todos seus defeitos te carrego aqui no meu peito.

 

Carlos Pereira da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio.

A pracinha em frente de casa e o Citroën de cano reto

 

Milton Ferretti Jung

 

Recém havia sentado e preparado o meu computador a fim de escrever o texto para o blog do Mílton, que não é uma obrigação,mas,isso sim, uma satisfação para um pai aposentado cujo único compromisso,nos últimos tempos,é visitar médicos das mais variadas especialidades. Aliás, são tantos que deixo parte da organização dessa tarefa à Maria Helena,minha mulher,filha de farmacêutico, que trabalhou alguns anos na farmácia paterna e é bem mais afeita,por isso, a lidar com os que cuidam da minha saúde. Este escriba de Facebook que,talvez,alguém leia,seja por curiosidade ou amizade,sempre acha assim tempo para redigir esta coluna,nem sempre nas quintas-feiras,conforme minha combinação com o filho,este sim um escritor de verdade. Por falar nisso,recentemente,ele lançou um livro em parceria com a fonoaudióloga Lenny Kyrillos,com este título:”Comunicar para liderar”.Recomendo a sua leitura e não é por corujice paterna,mas porque já o estou lendo e é muito bom.

 

Não era bem este o meu assunto,mas os caminhões que durante um dia inteiro subiram e desceram a rua onde moro. Acontece que os tais caminhões passaram fazendo isso por pelo menos dez dias. Retiravam terra e restos de árvores de um terreno baldio,o último existente, por sinal,na Dr.Possidônio da Cunha, em Porto Alegre. Um pensamento,às vezes,corre atrás do outro ou mesmo dos outros. Este me veio à cabeça ao assistir à azáfama dos caminhões,que chegavam vazios ao terreno que limpavam e saíam carregadíssimos,fazendo um barulho ensurdecedor. Não são eles,porém,os protagonistas da historiazinha que vou contar e da qual me lembrei quando escrevi que os monstrengos ruidosos levavam o que chegou a ser um espaço arborizado e não um simples barral. Ainda,no entanto,tergiverso e,com isso,deixo entrar no que interessa ou pode interessar.

 

Na minha infância e até casar,morei com os meus pais em uma rua que,bem na frente da casa paterna,se unia a outra. A minha era a 16 de Julho,a vizinha dela,Zamenhoff. As duas,por muito tempo,possuíam,entre as suas casas,terrenos baldios. Os terrenos baldios eram os locais onde brincávamos de esconde-esconde e,principalmente,jogávamos as nossas peladas.Para desespero dos nossos pais, chegávamos em casa com os sapatos em pandarecos. Naquela época não haviam ainda inventado sequer as alpargatas e os sapatos não eram baratos. Os espaço livres foram terminando.Recebiam casas modernas e acabavam, principalmente,com o futebol que a gente jogava. A única bola que usávamos – bola de tento – como eram conhecidas,tinha um dono,o Airton Stein. No bom do jogo,a mãe do dono da bola o chamava para tomar café ou dar um pulo no armazém para comprar isso ou aquilo.

 

Escrevi que os espaço livres para se brincar foram,aos poucos,virando casas.Sobrou a “pracinha” que ficava na junção das duas ruas a que já me referi. Em roda da “pracinha”,ficavam as casas mais próximas dela.Volta e meia,a bola do Airton ia parar dentro de uma dessas casas. E a bronca do residente era imediata. Alguns faziam de conta que nos deixariam sem bola.

 

Encontrávamos,entretanto,novos “esportes”. Bola de gude,bolinhas de tênis muito usadas,etc. A “pracinha”,que a prefeitura tentava transformar em praça de verdade, nunca passou do diminutivo. As flores da prefeitura nunca chegaram a crescer e inventávamos,a casa dia ou durante algum tempo,toda a espécie de “esportes”. Jogou-se nela desde futebol,vôlei e até tênis,com rede e tudo.

 

A “pracinha” teve,inclusive,os seus personagens. Um deles,de repetente,sofria um ataque e o remédio era lhe pôr na mão a bola do Airton. O outro menino problemático não jogava. Apenas nos olhava e segurava entre dois dedos folhas de trepadeiras e as sacudia incansavelmente. Era na minha casa que a turma pedia licença para beber água da pena. No Dia de São João,os esportes davam lugar a uma imensa fogueira. Lembro-me que o meu pai enchia de água a banheira,o tanque,enfim,todos os baldes da residência,temendo que a fogueira soltasse fagulhas capazes de incendiar a nossa casa.

 

Crescemos quase todos e continuamos morando nas casas que nossos pais haviam construído. Um vizinho,que morava no fundo da minha casa,numa rua paralela chamada São Pedro,bem mais velho do que eu,tinha comprado um Citroën e colocado nele um cano de descarga reto. Esse fazia um ruído tão encorpado que parecia uma Ferrari.Fiquei doidinho por ter um carro com tal tipo de descarga e consegui convencer meu pai a me deixar imitar o cano do Citroën que ele comprara direto da fábrica, na França e era igualzinho ao do Valnei Law. O cano reto foi um presente por eu ter passado de ano,no colégio. Eu retirava uma tampa da boca do cano reto (o original era mantido e ficava depois de uma curva que deixava a descarga fluir pelo lado esquerdo do carro). O meu pai me emprestava o Citroën para ir às missas dominicais. Nunca fui. Em um desses domingos um carro de praça (assim chamavam os carros de aluguel na época), em um cruzamento perto da minha casa, bateu no paralama traseiro do Citröen. Como não tinha carteira dispensei o taxista e fiquei sem poder dirigir por um bom tempo.

 

Contei todas essas histórias,a partir do dia de hoje e daí para trás por uma razão:não suporto mais ler ou ouvir notícias de crimes,estupros e de mortos por balas perdidas,afora o inesgotável Lava-Jatos e safadeza de políticos.

Procuram-se engraxates de rua!

 

Engraxate

 

O evento pedia sapato social, destes que se combina com o terno: preto para o cinza, caramelo para o azul marinho. Como admiro a peça, não costumam me faltar. Por isso, nem me preocupei em visitá-los no guarda-roupa com a devida antecedência, fato que me causou um susto e uma descoberta. No momento em que os tirei do sapateiro, percebi que permanência deles fechados no armário, durante todas as férias, e o descuido de quem os guardou lá – provavelmente, eu mesmo – deixaram algumas marcas esbranguiçadas no couro. Nada que uma boa engraxada não resolvesse. Embaixo da pia, onde costumava guardar graxa e flanela, não havia mais nada. A velha caixinha com os apetrechos para o sapato parece ter se desfeito no tempo ou ter sido jogada fora em uma das últimas arrumações que o ambiente enfrentou. Nada que atrapalhasse meus planos, pois bastava ir até um engraxate e tudo voltaria reluzente para casa. Foi quando percebi que há muitos anos não passo perto de um desses engraxates de rua que, ficavam sentados aos seus pés fazendo arte no pisante, enquanto nós, no alto de um trono de ferro, líamos o jornal e trocávamos alguns murmúrios concordando ou não com os comentários que o artista fazia. “E aí, como estão coisas?”, “viu a última do prefeito?”, “tá precisando de chuva, não!?”, “andam dizendo por aí que ….”. E a gente, humm, é, talvez, quem sabe, meu Deus do Céu! Nada muito longo, mas o suficiente para ele entender a personalidade do freguês. Havia, também, uns pivetes com idade para serem nossos filhos, ou melhor, sobrinhos, já que todos éramos chamados de tio. Esses não tinham lugar fixo, carregavam suas caixas de madeira nas costas em busca de trabalho, ficavam na porta dos restaurantes e lugares chiques de onde saíam homens de terno e sapato social desfilando uma suposta elegância.

 

Puxando na lembrança, a imagem que tenho é dos engraxates do Aeroporto de Congonhas, em São Paulo. Voltando ainda mais no tempo, lembro dos que sentavam na Praça da Âlfandega, ao lado da sede do Banrisul, no centro de Porto Alegre. É bem provável que tenha passado por outros tantos lá no Sul ou aqui na cidade, mas a memória não ajuda muito. Há algums meses, uma ouvinte da rádio escreveu para o Conte Sua História de São Paulo sobre o fim da sapataria do bairro onde mora, fenômeno que deve ter se repetido em outros lugares, pois o ponto comercial ficou muito caro para serviço tão mal remunerado. Deve ter virado farmácia ou posto de gasolina. Com a falta de credibilidade da praça pública, os engraxates de rua foram sendo extintos. Nestes tempos de violência urbana, quem se atreveria ficar exposto a assaltantes? Como boa parte do comércio, a sapataria vai para dentro do shopping e se oferece como sendo do futuro, torna o serviço mais caro e impessoal. Somos recebidos por moças e nossos sapatos somem atrás de um balcão sem que o sapateiro sequer olhe para nossa cara. Atendem o sapato, não mais a freguesia. Talvez esteja querendo demais. Em um mundo no qual tudo é descartável, vai ver o sapato não merece mais retoques. Sola, meia-sola ou apenas um pano para deixá-lo nos trinques? Nada vale mais a pena. Ficou velho, perdeu o brilho, bota fora e compra outro.

 

Se você conhece lugares onde os engraxates ainda exercitam seu talento, não deixe de me avisar. Pois, por enquanto, o “vai uma graxa, aí, cidadão!?” está só na saudade.

 

(e os meus sapatos ainda estão a espera do brilho)

 

PS: Imagem da Galeria de Giordano Pedro no Flickr

Um passeio pela história no centro de São Paulo

 

Por Dora Estevam

 

Praça da Sé

 

Tenho andado pelo centro de São Paulo, em especial no que conhecemos por centro velho: praça João Mendes, praça da Sé, Largo São Francisco. Ali, tudo está muito próximo. E cada lugar com sua característica e peculiaridade. Todos imponentes: Catedral da Sé, Faculdade de Direito, Teatro Municipal. Tem ainda outros prédios que guardam na arquitetura a lembrança da São Paulo antiga e memorável. Será que os cidadãos que passeiam por ali têm ideia do significado desse patrimônio? Imagino que um estudante de arquitetura, sim. Em sua mais nova experiência de traçar as linhas para uma cidade contemporânea, deve ficar encantado e deslumbrado com tais monumentos, preciosos.

 

Santos de gesso

 

A Catedral Metropolitana, conhecida por Catedral da Sé, foi inaugurada em 1954, nas comemorações do quarto centenário de São Paulo. Passou por restauro, em 2002, respeitando as características originais da construção. Historiadores dizem que a Catedral é das maiores igrejas em estilo neogótico do mundo. Ali, nos jardins da praça, também fica o monumento “Marco Zero”, o ponto central da cidade. Para as famílias católicas há no entorno lojas especializadas em arte sacra que vendem diversos santos em gesso e vinho canônico.

 

Largo São Francisco

 

O que dizer da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, ou a Faculdade de Direito do Largo São Francisco, ou ainda “Arcadas” em alusão a arquitetura. Chama  atenção até dos mais apressados, é impossível passar pela frente e não fazer uma foto para registrar esse pedaço da história. A faculdade foi criada pela lei imperial em 11 de agosto de 1827, poucos anos depois da Proclamação da Independência, para mais tarde ser incorporada pela USP. É considerada a faculdade mais antiga de Direito no Brasil. Inicialmente quem estudava no Largo São Francisco eram os governantes e administradores públicos.

 

Portão do Teatro Municipal

 

Minha curiosidade foi até o Teatro Municipal, que está maravilhoso, imponente. Exala cultura, glamour e história.  O teatro surgiu para suprir a necessidade da elite paulistana, formada pelos “Barões do Café”, que exigia um local de alto padrão nos moldes europeus para abrigar os espetáculos e óperas da época. O arquiteto responsável pelo projeto foi Francisco de Paula Ramos de Azevedo, que, por sua vez, foi homenageado emprestando o nome à Praça Ramos de Azevedo.

 

Sem dúvida, há inúmeros outros locais a serem visitados por essa região: Mosteiro de São Bento, Pateo do Collegio e Mercado Central, entre tantos outros igualmente importantes para a história da cidade.

 

Quem sabe me atrevo a descrever alguns desses outros pontos em um próximo post. Enquanto isso não acontece, deixo minha sugestão para quem estiver passeando na cidade ou visitando o centro da Capital: conheça estes pontos e busque informações que mostrem o real valor de cada prédio, que vai além da beleza arquitetônica. Inclua as crianças que terão uma aula da história do Brasil e do desenvolvimento de São Paulo.

 


Dora Estevam é jornalista e escreve sobre moda e estilo de vida aos sábados, no Blog do Mílton Jung

Conte Sua História de SP: futebol na Sé antes da televisão

 

Por Nivaldo Cândido de Oliveira Júnior
Ouvinte-internauta do Jornal da CBN

 

 
Ouça o texto que foi ao ar na CBN, sonorizado pelo Cláudio Antônio

 

1958. Junho. Copa do Mundo na Suécia.

 

Na época, com dez anos, iria fazer o “vestibular” para o Ginásio tendo aulas de reforço de Português e Matemática (acho que eram as matérias solicitadas). Aluno do Caetano de Campos, escola estadual, então na Praça da República (sem a fama que depois lhe foi imposta), saia duas vezes por semana em direção à Praça da Sé, onde teria as aulas.

 

Como tínhamos tempo, no gramado do prédio dos Matarazzo, onde hoje é a sede da Prefeitura, marcávamos o gol com nossas mochilas (de couro e sempre muito pesadas), a bola de meia e, sem medo de nenhuma violência externa, a não ser as discussões próprias do jogo, fazíamos nossas peladas. Eu joguei bola nos jardins da prefeitura.

 

 
Ah, sim, por oportuno, convém lembrar que na praça da Sé, havia um grande telão (atenção, não tínhamos transmissão de TV, evidentemente), com o campo desenhado e, conforme o locutor transmitia o jogo, com imã a bolinha era deslocada (se não me engano pelo Atílio Ricó) e nós víamos o jogo da Copa.
É mole?

 

Nivaldo Cândido de Oliveira Júnior é personagem do Conte Sua História de São Paulo. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade, escreva para milton@cbn.com.br e comemore os 459 anos de São Paulo.
 

 

Foto-ouvinte: os macacos estão soltos na praça

 

Macaquinho gente

 

Texto e foto de Devanir Amâncio

 

Grafite de saguis com mãos e pés de humanos chamam a atenção na recém-batizada praça Rio+20,na rua Ana Cintra,ao lado do Metrô Santa Cecilia, centro de São Paulo. O belo grafite em meio ao lixo é assinado por Sub X Tu. Nesta semana, crianças do bairro comparecem ao local para uma aulinha de biologia.

                         

Foto-ouvinte: Alugam-se árvores em São Paulo

 

Vende-se árvore

 

Desde que recebi a imagem acima estou tentando entender o que isto pode significar além de uma tremenda ilegalidade e desrespeito com a cidade e o cidadão. De acordo com a jornalista Silvana Silva, que flagrou o fato, a placa está na Praça Alfredo Paulino, entre a Frederico Abranches e Sebastião Pereira: “aparentemente a imobiliária não é responsável pela manutenção do local, mas é ‘dona da árvore’. Seria um novo negócio a ser explorado ?” – ironiza.