Relacionamentos em transformação

Por Beatriz Breves

Sou do tempo em que era o homem quem pedia a moça em namoro. Se o namoro “firmasse”, viria o noivado — com aliança na mão direita —, seguido do casamento de véu e grinalda, quando a aliança passaria para a mão esquerda.

Simples assim. Ou, pelo menos, assim parecia.

A separação já existia, mas era chamada de desquite. O casal deixava de viver junto, porém o vínculo matrimonial não era dissolvido. O divórcio somente se tornou possível no Brasil em 1977, quando eu já tinha 20 anos.

Sou também do tempo em que o homem era considerado o chefe da família e detinha poder legal sobre a mulher. O Código Civil de 1916 incluía a mulher casada entre as pessoas relativamente incapazes. Para trabalhar, viajar e praticar diversos atos da vida civil, ela dependia da autorização do marido.

Em 1962, quando eu tinha cinco anos, o Estatuto da Mulher Casada modificou essa condição. A mulher deixou de ser considerada civilmente incapaz em razão do casamento e passou a ter maior autonomia sobre sua vida.

Entretanto, foi somente com a Constituição de 1988, quando eu tinha 31 anos, que a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres foi plenamente estabelecida.

O novo Código Civil, em vigor desde 2003, consolidou essa igualdade nas responsabilidades conjugais e, em 2006, a Lei Maria da Penha ampliou a proteção da mulher contra a violência doméstica.

Portanto, durante boa parte da minha vida, convivi com modelos sociais bastante rígidos, que determinavam como homens e mulheres deveriam se comportar, o que lhes era permitido desejar e até que lugar deveriam ocupar dentro de uma relação.

Isso não significa que os relacionamentos fossem verdadeiramente simples. Significa apenas que havia um roteiro previamente estabelecido. As relações já recebiam uma forma antes mesmo de as pessoas começarem a vivê-las.

Hoje, aos 69 anos, percebo quanto esse cenário mudou.

Não pretendo discutir se mudou para melhor ou para pior. Houve ganhos fundamentais e também surgiram novos desafios. O que me chama a atenção é que, enquanto antes havia praticamente um único caminho reconhecido, hoje encontramos inúmeras formas, circunstâncias e dinâmicas de relacionamento.

Diante de tantas possibilidades, fiz o que costumamos fazer quando queremos compreender alguma coisa: perguntei à internet quais tipos de relacionamento existem atualmente. Encontrei pelo menos 34 denominações.

  1. Monogâmico – Exclusividade entre duas pessoas.
  2. Longa duração – Vínculo mantido por muitos anos.
  3. Intercultural – União entre culturas diferentes.
  4. À distância – Parceiros vivem em lugares distintos.
  5. Distância temporária – Separação física por período limitado.
  6. LAT – Casal que não divide residência.
  7. Slow dating – Aproximação afetiva gradual.
  8. Poligâmico – União com vários cônjuges.
  9. Poliamoroso – Múltiplos amores consensuais.
  10. Trisal – Relação amorosa entre três pessoas.
  11. Aberto – Casal com liberdade sexual acordada.
  12. Namoro não exclusivo – Namoro sem exclusividade acordada.
  13. Solo-poliamor – Poliamor com autonomia individual.
  14. Anarquia relacional – Vínculos sem hierarquias predefinidas.
  15. Híbrido – Combinação de diferentes formatos relacionais.
  16. Casual – Envolvimento sem compromisso duradouro.
  17. Amizade colorida – Amizade com envolvimento sexual.
  18. Friends with benefits – Amizade com benefícios sexuais.
  19. Situationship – Vínculo afetivo sem definição.
  20. Relação de conveniência – União mantida por vantagens práticas.
  21. Relação de fachada – União sustentada pelas aparências.
  22. Virtual – Relacionamento vivido principalmente online.
  23. Sugar – Companhia associada a benefícios materiais.
  24. Coparentalidade – Parceria voltada à criação dos filhos.
  25. Contrato relacional – Vínculo baseado em acordos explícitos.
  26. BDSM – Práticas consensuais de poder e prazer.
  27. Espiritual – União baseada em conexão espiritual.
  28. Dependência financeira – Vínculo sustentado por necessidade econômica.
  29. Agamia – Vínculos fora do modelo de casal.
  30. Assexual – Relação sem centralidade do sexo.
  31. Queerplatônica – Vínculo profundo além da amizade convencional.
  32. Apoio mútuo – Relação baseada em cuidado recíproco.
  33. Codependente – Dependência emocional com perda de autonomia.
  34. Tóxico – Vínculo que provoca danos recorrentes.

A lista é longa e provavelmente ainda está incompleta. Sob a expressão “tipos de relacionamento”, a internet reúne formatos de vínculo, circunstâncias de vida, acordos afetivos, práticas sexuais e também maneiras saudáveis ou prejudiciais de se relacionar.

Essa mistura revela, por si só, a complexidade do nosso tempo e mostra que o nome dado a uma relação já não é suficiente para compreendermos como ela se constitui.

Se antes havia um roteiro único, agora existem muitos caminhos possíveis.

A liberdade conquistada foi fundamental. Ela permitiu que as pessoas questionassem papéis impostos, reconhecessem diferentes formas de amar e construíssem vínculos mais compatíveis com aquilo que sentem e desejam.

Entretanto, a liberdade não elimina a necessidade de alguma organização. Talvez a sensação de que hoje “vale tudo” não resulte da diversidade dos relacionamentos, mas da confusão entre liberdade e ausência de responsabilidade. Um vínculo pode assumir muitas formas, mas todas elas produzem efeitos sobre as pessoas envolvidas.

Quando duas pessoas se vinculam, algo começa a se constituir entre elas. Formam-se maneiras de se aproximar e de se afastar, ritmos de convivência, expectativas, limites, silêncios, acordos explícitos e acordos que jamais foram pronunciados.

Pouco a pouco, cada relação adquire um modo próprio de existir, que não pertence inteiramente a uma pessoa nem à outra, mas àquilo que ambas produzem no encontro.

Essa organização não é definida pelo nome dado ao relacionamento. Todo vínculo, tradicional ou não, organiza-se de alguma maneira. A diferença não está entre relações organizadas e desorganizadas, mas nas formas de organização que elas assumem e nos efeitos que produzem sobre as pessoas envolvidas.

Um casamento pode organizar-se de maneira rígida, assimétrica ou dolorosa, enquanto um vínculo que não corresponde aos modelos tradicionais pode organizar-se com clareza, reciprocidade e cuidado.

O desafio contemporâneo talvez seja justamente este: não retornar à rigidez do passado, mas compreender que relações flexíveis não precisam ser relações sem forma.

Sou do tempo em que a forma vinha antes do encontro. Hoje, é o encontro que precisa descobrir a sua forma.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

O sentir e o sentido

Por Beatriz Breves

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De onde viemos? Para onde vamos? Existe vida além da morte? A morte é o fim? O universo possui um propósito? Existe um sentido para a existência?

Essas perguntas acompanham a humanidade desde seus primórdios. Filósofos, cientistas, religiosos, poetas e pessoas comuns, em diferentes épocas e culturas, buscaram respostas para os grandes mistérios da vida. Talvez porque, em algum momento, todos nós nos deparamos com a mesma inquietação: qual é o sentido de existir?

A busca por respostas costuma acontecer por meio do pensamento. Refletimos, formulamos teorias, construímos explicações e criamos narrativas capazes de dar significado à experiência humana. Entretanto, por mais importantes que sejam, as respostas intelectuais parecem nunca encerrar completamente a questão.

Talvez isso aconteça porque o sentido da vida não seja somente algo a ser pensado, mas, quem sabe, também algo a ser vivido.

Existe uma dimensão da existência que antecede as palavras, os conceitos e as explicações. É a dimensão do sentir.

O sentir atravessa os tempos, as culturas, as crenças e as diferenças entre os povos. Sabemos reconhecer o amor, a tristeza, a alegria, o medo, a esperança ou a saudade em relatos escritos há séculos, mesmo quando pertencem a sociedades muito diferentes da nossa. Os conceitos mudam. As teorias mudam. As formas de interpretar o mundo mudam. Mas o sentir permanece como uma das experiências mais universais da condição humana.

Se nos sentimos em paz, o mundo parece mais acolhedor. Se estamos tomados pela angústia, tudo ao redor pode parecer ameaçador. Quando amamos, a vida ganha cores diferentes. Quando sofremos uma perda, o próprio tempo parece modificar seu ritmo.

Isso acontece porque não vivemos somente em um mundo de fatos. Vivemos em um mundo de experiências.

É o amor que sentimos por alguém, a ternura por um animal, a amizade compartilhada, a alegria de um encontro, a dor de uma despedida ou a esperança diante do futuro que vão tecendo o sentido singular de cada existência.

Por isso, talvez não exista um único sentido da vida válido para todos. Existem sentidos que emergem da forma como cada pessoa vive, sente e se relaciona com o mundo.

Sob a perspectiva da Ciência do Sentir, o sentido não é algo que encontramos pronto, escondido em algum lugar do universo. Ele nasce da própria experiência de existir, da condição de estar vivo. Surge dos vínculos que construímos, das escolhas que fazemos, dos desafios que enfrentamos e da maneira como somos afetados pela vida.

Os sentimentos funcionam como uma espécie de bússola existencial. Eles não apenas revelam o que é importante para nós; também orientam nossa relação com o mundo, com os outros e conosco mesmos.

Talvez o sentido da vida não seja uma resposta definitiva para uma pergunta eterna, mas o próprio movimento de sentir, viver, transformar-se — enfim, de estar vivo.

E talvez seja justamente por meio do sentir que cada um de nós possa experimentar algo maior: a percepção de que não estamos separados da vida, mas somos uma de suas expressões singulares, uma forma única pela qual o universo se torna experiência de si mesmo.

Beatriz Breves é presidente da Sociedade da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel, licenciada com especialização em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia titular do Pen Clube do Brasil. Integra o Quadro Efetivo da Associação de Jornalistas e Escritoras do Brasil (AJEB). Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Caminhando com beleza moral

Dra. Nina Ferreira

@ninaferreira.psiquiatra

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Júlia estava com o olhar perdido sobre a mesa de trabalho. Passou o dia todo assim. Marcelo percebeu e, ao fim do expediente, lhe trouxe uma xícara de chá: “Espero que fique tudo bem”.

Antônio foi enganado e prejudicado por uma pessoa que considerava próxima, a quem admirava, e ainda foi apontado como desonesto. Em nome do respeito a essa pessoa, optou por calar-se — para não causar sofrimento a outros, para não propagar o ciclo de dor.

Ana esteve ao lado do ex-marido no momento do adoecimento dele e fez o melhor que pôde para suavizar a angústia de quem um dia já partilhou tantos momentos bonitos com ela.

Beleza moral.

Existem atitudes humanas que causam encantamento, fascínio, espanto. Há pessoas que caminham pelo mundo com harmonia, encaixando-se onde são necessárias gentileza e atenção, demorando-se onde o cuidado pede tempo e um olhar atento aos detalhes.

Beleza moral arrepia. Ela materializa a honestidade, a coragem, a justiça, a generosidade, a magnanimidade. Conecta-se com algo que temos dentro de nós, uma essência que pulsa e se expande quando presencia atos de bondade e ética.

E por que esses atos têm nos causado espanto e encantamento?
Descrevendo assim, parecem tão simples. É que o simples já não vale tanto. A tecnologia, a vitrine nas redes sociais, a fama, o dinheiro, os bens materiais, “a diferenciação” — tudo isso abafa o simples.

A beleza moral parece não encontrar mais terreno onde crescer. Ela acontece, poucos veem. A pessoa desiste ou, quando não desiste (ainda bem!), caminha quase só, com pouca força para gerar grandes movimentos de mudança. A sociedade segue sem ver, sem valorizar.

Repare:: em um tempo em que reclamamos tanto de solidão, grosseria e egoísmo, não cairia bem uma boa dose de beleza moral?

Precisamos caminhar.
A vida se constrói no movimento. Agora, a pergunta é: como estamos caminhando? Que rastros cada um de nós deixa para trás ao passar?

E se alternássemos o grupo de corrida, o grupo de futebol ou os encontros com amigos com o Grupo de Caminhada da Beleza Moral?

— Vamos juntos?

Dra. Nina Ferreira (@ninaferreira.psiquiatra) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sobre o sentimento de felicidade


Por Beatriz Breves

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Felicidade: qual ser humano não quer ser feliz? Arrisco-me a dizer que a felicidade talvez seja um dos sentimentos mais cobiçados entre as pessoas.

Há quem diga que felicidade não existe. Há quem diga que felicidade só acontece em alguns momentos. Mas há também quem diga que a felicidade é um sentimento que se instala permanentemente ao fundo, na vida da gente.

Muitas pessoas perguntam: como alguém pode ser feliz? Qual seria a receita para alcançar a felicidade?

A verdade é que não existe uma fórmula pronta. E isso porque não há uma receita única capaz de servir a todos. O ser humano não é uma máquina na qual se insere um programa que funciona da mesma maneira em todos os computadores. Cada ser humano é único em sua sensibilidade e subjetividade. Por isso, o caminho é cada um buscar dentro de si os ingredientes para ser feliz.

De fato, dinheiro não compra felicidade, mas é inegável que a falta de dinheiro, quando não se tem o mínimo para as necessidades básicas — por exemplo, se há fome, miséria ou ausência do mínimo para viver com dignidade —, afasta-nos, e muito, da felicidade.

A felicidade é um entre os milhares de sentimentos que coexistem, se misturam e se influenciam mutuamente, embora a maioria das pessoas desconheça essa complexidade. Seria como se cada indivíduo fosse o maestro de sua própria orquestra de sentimentos, regendo a peça musical do seu Eu, composta por sentimentos que variam em intensidade, ritmo e profundidade.

Portanto, ser feliz é aprender a se ouvir enquanto pessoa e, assim, tornar-se capaz de ir compondo o seu Eu com cada vez mais qualidade. Ser feliz é também, e antes de tudo, reconhecer-se humano, com tudo o que isso envolve — solidariedade, egoísmo, esperança, desilusão —, enfim, um ser sensível que é e pertence à natureza. Ser feliz é, dia a dia, poder explorar e, assim, ampliar o reconhecimento interno do mundo dos sentimentos.

É dessa forma que a receita se faz pessoal e individualizada, revelando-se na capacidade de aprender a transitar pelos sentimentos e, assim, reger a música em permanente construção que cada um de nós é.

Quando a noite chegar, como costumo sugerir, vale perguntar a si mesmo o que fez ao longo do dia e, mais ainda, o que sentiu em cada uma dessas ações. Esse simples gesto abre a oportunidade de reconhecer que, muito mais do que um corpo material, somos um complexo vibracional, capaz de perceber sensações e sentimentos.

A felicidade é um conjunto de sentimentos e, ao mesmo tempo, um esteio para eles, assim como o resultado de sua própria interação. O sentimento de felicidade é, na verdade, uma aliança com a vida: uma complexidade interna que nos permite experimentar a alegria de viver, aquela alegria simples e profunda que, quando se manifesta, nos faz verdadeiramente felizes.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

A insuportável intensidade

Por Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Ilutração criada por Dall-E

Muita alegria, muita energia, muito prazer.

Muita tristeza, muita raiva, muita dor.

Tudo que é intenso… machuca.

O cérebro não suporta o “muito” por longos períodos ou com muita frequência.

Independentemente se o sentimento é positivo ou negativo, o “muito” cansa os neurônios, mata sinapses, fadiga o cérebro.

Comece a treinar a satisfação na temperança.

Moderação, tendência ao equilíbrio…

Percebeu os excessos?

Pondere. Puxe de volta para o centro e encontre a alegria de estar na sobriedade e no desapego.

Quem comanda é você. Não são as emoções que te dominam – é você que decide como agir.

Mostre quem manda. Ponha ordem na casa. Eduque seu cérebro como se educa uma criança que não tem limites, que vive tudo no “muito”.

Qual a recompensa?

Felicidade. Aquela sensação duradoura de um bem-estar que ninguém te rouba…

A intensidade é insuportável – não se sustenta.

Queira a felicidade.

E a felicidade mora na serenidade.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Psicologia: sua construção histórica e as histórias construídas

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

 

“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.

 Aaron Beck

 

A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?

 

Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga

 

Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.

 

No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.

 

No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.

 

Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.

 

Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.

 

Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.

 

No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.

 

Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.

 

Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…

 

Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!

 

Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.

 

Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.

 

Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!

 

Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida.  Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.

 

Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung