Sobre o sentimento de felicidade


Por Beatriz Breves

Foto de Sevde Apay on Pexels.com

Felicidade: qual ser humano não quer ser feliz? Arrisco-me a dizer que a felicidade talvez seja um dos sentimentos mais cobiçados entre as pessoas.

Há quem diga que felicidade não existe. Há quem diga que felicidade só acontece em alguns momentos. Mas há também quem diga que a felicidade é um sentimento que se instala permanentemente ao fundo, na vida da gente.

Muitas pessoas perguntam: como alguém pode ser feliz? Qual seria a receita para alcançar a felicidade?

A verdade é que não existe uma fórmula pronta. E isso porque não há uma receita única capaz de servir a todos. O ser humano não é uma máquina na qual se insere um programa que funciona da mesma maneira em todos os computadores. Cada ser humano é único em sua sensibilidade e subjetividade. Por isso, o caminho é cada um buscar dentro de si os ingredientes para ser feliz.

De fato, dinheiro não compra felicidade, mas é inegável que a falta de dinheiro, quando não se tem o mínimo para as necessidades básicas — por exemplo, se há fome, miséria ou ausência do mínimo para viver com dignidade —, afasta-nos, e muito, da felicidade.

A felicidade é um entre os milhares de sentimentos que coexistem, se misturam e se influenciam mutuamente, embora a maioria das pessoas desconheça essa complexidade. Seria como se cada indivíduo fosse o maestro de sua própria orquestra de sentimentos, regendo a peça musical do seu Eu, composta por sentimentos que variam em intensidade, ritmo e profundidade.

Portanto, ser feliz é aprender a se ouvir enquanto pessoa e, assim, tornar-se capaz de ir compondo o seu Eu com cada vez mais qualidade. Ser feliz é também, e antes de tudo, reconhecer-se humano, com tudo o que isso envolve — solidariedade, egoísmo, esperança, desilusão —, enfim, um ser sensível que é e pertence à natureza. Ser feliz é, dia a dia, poder explorar e, assim, ampliar o reconhecimento interno do mundo dos sentimentos.

É dessa forma que a receita se faz pessoal e individualizada, revelando-se na capacidade de aprender a transitar pelos sentimentos e, assim, reger a música em permanente construção que cada um de nós é.

Quando a noite chegar, como costumo sugerir, vale perguntar a si mesmo o que fez ao longo do dia e, mais ainda, o que sentiu em cada uma dessas ações. Esse simples gesto abre a oportunidade de reconhecer que, muito mais do que um corpo material, somos um complexo vibracional, capaz de perceber sensações e sentimentos.

A felicidade é um conjunto de sentimentos e, ao mesmo tempo, um esteio para eles, assim como o resultado de sua própria interação. O sentimento de felicidade é, na verdade, uma aliança com a vida: uma complexidade interna que nos permite experimentar a alegria de viver, aquela alegria simples e profunda que, quando se manifesta, nos faz verdadeiramente felizes.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

A insuportável intensidade

Por Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Ilutração criada por Dall-E

Muita alegria, muita energia, muito prazer.

Muita tristeza, muita raiva, muita dor.

Tudo que é intenso… machuca.

O cérebro não suporta o “muito” por longos períodos ou com muita frequência.

Independentemente se o sentimento é positivo ou negativo, o “muito” cansa os neurônios, mata sinapses, fadiga o cérebro.

Comece a treinar a satisfação na temperança.

Moderação, tendência ao equilíbrio…

Percebeu os excessos?

Pondere. Puxe de volta para o centro e encontre a alegria de estar na sobriedade e no desapego.

Quem comanda é você. Não são as emoções que te dominam – é você que decide como agir.

Mostre quem manda. Ponha ordem na casa. Eduque seu cérebro como se educa uma criança que não tem limites, que vive tudo no “muito”.

Qual a recompensa?

Felicidade. Aquela sensação duradoura de um bem-estar que ninguém te rouba…

A intensidade é insuportável – não se sustenta.

Queira a felicidade.

E a felicidade mora na serenidade.

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung

Psicologia: sua construção histórica e as histórias construídas

 

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

 

 

“Há mais na superfície do que o nosso olhar alcança”.

 Aaron Beck

 

A busca pela compreensão sobre o ser humano parece tão antiga quanto a própria história da humanidade. Por que uma pessoa age de um jeito e não de outro? Quais os impactos que um evento pode produzir no psiquismo? Por que diante de uma situação semelhante as pessoas agem de maneiras tão diferentes?

 

Mesmo sem ser psicólogo, todos arriscam respostas para tais perguntas, indicando uma apropriação dos conhecimentos da Psicologia Científica, ainda que superficiais, para explicar e compreender os fenômenos e problemas da vida cotidiana. Por outro lado, tais explicações não podem ser confundidas com a Psicologia, uma área da ciência que envolve estudos acadêmicos e sistemáticos sobre o processamento mental e o comportamento, cuja origem remete à filosofia da Grécia antiga

 

Os filósofos gregos procuravam compreender a relação do homem com o mundo, valorizando o papel da razão na sobreposição aos instintos. Na Idade Média, o conhecimento psicológico ficou associado à religiosidade, tendo como principais expoentes Santo Agostinho e São Tomás de Aquino, cujos estudos procuravam explicar a diferença entre essência e existência.

 

No renascimento ocorreu uma valorização do ser humano e um grande avanço da ciência. O corpo passou a ser visto como uma máquina e os estudos em fisiologia e anatomia permitiram novos conhecimentos sobre o funcionamento do cérebro.

 

No século XIX, estudos em psicofísica permitiram a mensuração de comportamentos, especialmente os reflexos, favorecendo a realização de estudos que atendiam aos critérios metodológicos e científicos vigentes. A psicologia foi se afastando da Filosofia e novos estudos começaram a ser estruturados na área da psicofísica, com o objetivo de compreender os fenômenos mentais.

 

Em 1879, Wilhelm Wundt fundou o primeiro laboratório para experimentos em psicofisiologia, na Universidade de Leipzig, Alemanha. Inaugurava-se a era científica da Psicologia.

 

Desde a fundação do laboratório de Wundt, muitos conhecimentos foram sendo desenvolvidos e aprimorados sobre o funcionamento mental e comportamental, admitindo-se, atualmente, que estes sejam influenciados por três grupos de fatores: biológicos, psicológicos e socioculturais.

 

Essa perspectiva biopsicossocial do ser humano exigiu que a construção teórica do saber psicológico se amparasse em outras áreas científicas, com estudos em fisiologia, sociologia, neurociências, dentre outros. Se o embasamento teórico exigiu multidisciplinaridade, não seria diferente com a prática psicológica. Na maioria das áreas de atuação, o psicólogo trabalha em equipes ou com diferentes profissionais, de maneira interdisciplinar.

 

No Brasil, a Psicologia passou a ser reconhecida como profissão apenas em 27 de agosto de 1962, data atualmente instituída como o Dia Nacional do Psicólogo.

 

Apesar de ser uma profissão relativamente nova, segundo dados do Conselho Federal de Psicologia, nosso país tem atualmente mais de 370 mil psicólogos, atuando nas diversas áreas: psicologia clínica, social, escolar/educacional, organizacional e do trabalho, hospitalar, do esporte, do trânsito, psicologia jurídica e neuropsicologia.

 

Faço parte desses 370mil profissionais e nessa breve retomada da história da psicologia, fui relembrando um pouco da minha história também…

 

Ainda na adolescência, a minha curiosidade sobre o ser humano e meu gosto em trabalhar com pessoas acabaram definindo a minha escolha profissional. Recordo o dia da matrícula, quando vi na ficha de disciplinas a cursar que no primeiro semestre teria aula de anatomia. Estudar cadáveres? Não! Eu tinha escolhido a psicologia para trabalhar com gente viva!

 

Ali fui descobrindo que para ser psicóloga teria um longo caminho a percorrer, com muitos estudos, mais completos e complexos do que imaginara. Além da graduação e da especialização, como optei por uma carreira acadêmica, fiz mestrado e doutorado, atuando no ensino da psicologia, uma das minhas atuações favoritas e tão importante para o desenvolvimento da profissão em nosso país.

 

Quando olho para a história da psicologia e para minha trajetória profissional compreendo que talvez uma das maiores dificuldades que enfrentamos hoje seja a conscientização de que a prática psicológica não pode ser confundida com práticas indiscriminadas, muitas vezes denominadas terapias alternativas, que se afastam significativamente das teorias científicas, seguindo métodos duvidosos e muitas vezes beirando ao charlatanismo.

 

Pegam carona na Psicologia, se revestem de psicologismos, mas não são Psicologia. Psicologia é exercida por psicólogos!

 

Ser psicólogo é conviver com os dilemas, dores e sofrimentos alheios. É muitas vezes se perguntar quanta dor cabe numa vida.  Mas também é participar da construção de vidas mais adaptadas, realizadas e felizes. É saber que as mudanças são possíveis. É contribuir para que as transformações aconteçam tanto de forma individual como coletiva.

 

Não apontamos o caminho a ser seguido, mas percorremos esse caminho junto com o paciente, com uma lanterna na mão. Essa lanterna é a luz do conhecimento científico e da experiência, acumulados com muito estudo, dedicação e prática, que permite a nós e aos pacientes enxergarmos aquilo que num primeiro momento, como sugere Aaron Beck, talvez nossos olhos não pudessem alcançar.

 

Simone Domingues é Psicóloga especialista em Neuropsicologia, tem Pós-Doutorado em Neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do perfil @dezporcentomais no Instagram e escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung