Buscar sentido na vida é um dilema comum a todos nós. Para ajudar nessa reflexão necessária, a psicóloga Vanessa Maichin mergulhou no conceito de intencionalidade da fenomenologia existencial e discutiu como encontramos significado em nossas vidas. Ela foi entrevistada pelo programa Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista Abigail Costa e a psicóloga Simone Domingues, no YouTube, e que passará a fazer parte do conteúdo deste blog.
Segundo a fenomenologia existencial, toda consciência é direcionada a algo. Vanessa aponta que a chave para descobrir o sentido é estarmos conectados conosco. Isso se contrapõe à ideia popular de “deixar a vida nos levar”, como sugere a canção de Zeca Pagodinho.
A vida no piloto automático e a busca por sentido
O grande perigo que Vanessa destaca é a facilidade com que caímos no modo “piloto automático”. Nesse estado, negligenciamos nossos verdadeiros desejos e sonhos, movendo-nos sem uma direção clara.
“Muitos de nós vivem sem pausar para entender o que realmente ressoa em nosso íntimo”.
Uma distinção intrigante feita durante a conversa foi entre ‘significado’ e ‘sentido’. O significado é a interpretação que damos às experiências, enquanto o sentido é a direção que tomamos com base nessa interpretação. Vanessa reforça que, para encontrar o sentido, é vital se conectar com sentimentos e intuições.
Ressignificar: a arte de redirecionar nossa vida
Parte essencial da discussão centrou-se na capacidade de ressignificar. Muitas vezes, somos aprisionados por crenças antiquadas, passadas de geração em geração. Contudo, Vanessa afirma que temos o poder de redefinir e encontrar significados autênticos, que ressoam com nossa verdade interior.
Apesar de admitir que abandonar velhas crenças pode gerar desconforto e angústia, Vanessa acredita que o resultado é uma vida mais genuína e recompensadora.
O chamado à autenticidade
O diálogo com Vanessa Maichin nos lembra da necessidade de viver com propósito e autenticidade. Em um mundo onde muitas vezes nos sentimos perdidos, é reconfortante saber que temos a capacidade de encontrar – e talvez até criar – o sentido em nossas vidas. A mensagem final? Todos nós, no fundo, sabemos o que realmente faz sentido. Precisamos apenas ter a coragem de buscar e seguir esse chamado.
Participe da conversa e descubra mais sobre a busca de sentido. E não esqueça de acompanhar as entrevistas no programa “Dez Por Cento Mais” que você assiste, ao vivo, às quartas-feiras, oito da noite, no YouTube:
Estou naquele momento em que começo a pensar no rumo da minha vida. Estou perto de deixar a carreira de estudante para virar “gente grande” — como se grande já não fosse desde muito tempo — e colocar em prática o que aprendi nos últimos anos.
Há quatro anos, quando entrei para o curso de psicologia foi só uma maneira que encontrei para dar um sentido para a minha vida, de certa forma de voltar a me importar comigo mesmo. Como? Lendo, escrevendo, fazendo novos relacionamentos e ganhando um tiquinho a mais de ansiedade. Hoje, mais amadurecida, percebo como tendo sido um fato normal na minha história.
Nesse tempo todo, ouvi muitas pessoas me perguntando: “e aí vai trabalhar depois?”. Pergunta que não me deixava sem resposta. E nunca escondi minhas intenções atrás de palavras objetivas como: “veja bem, quero atender clientes XYZ sob a abordagem XPTO, num consultório localizado na zona tal”. Nada disso!.
Não foi preciso pensar muito. Era coisa decidida comigo mesmo. A resposta vinha de bate pronto: me interessa o caminho, a jornada, as pessoas que estou encontrando pela frente e ainda, o que uma graduação está me acrescentando aos 56, 57, 58, 59 anos de idade.
Assim fui passando pelos semestres e sigo neles aprendendo, me encantando e me desafiando. Até que chega os primeiros dias do último ano e me vem à cabeça uma frase dita por um professor no inocente propósito de agradar: ”olhem para vocês, já perceberam que estão mais perto do fim? “. Professor eu não precisava disso!
Não é que agora dei pra fazer contas ?!? Último ano, mais dois semestres de quatro meses cada um — sim, tirando férias e afins dá isso —, mais alguns estágios supervisionados e chegarei ao fim. E lá vem nova pergunta: “está flertando com alguma abordagem psicológica?”.
Quem pergunta sempre espera algo objetivo —- foi o que aprendi em décadas de jornalismo realizado. Quer algo como “vou seguir a TCC — Terapia Cognitivo Comportamental”, “quero a Humanista numa linha mais Existencialista”, ou “veja bem, a psicanálise é uma quase dezena de outras tantas vertentes de teorias e técnicas aplicadas nas psicoterapias”. Diante da pergunta, fato é que de repente soltei uma fala qualquer só para me livrar da questão e me enfiar em questionamentos próprios que até então não faziam parte da minha rotina de pensamentos.
Qual o sentido que vou dar para a minha vida daqui a pouco quando eu não estiver mais no meu papel de estudante? Sei que logo mais entro num capítulo de escolhas, e estas provavelmente me trarão angústia. Para isso já comecei fazendo amizades com aqueles que me darão uma força com suas obras. Caso do filósofo dinamarquês Sören Kierkegaard (1813-1855): ele diz que escolher implica em renunciar, e que ser livre é vivenciar essa tensão.
Kierkegaard #tamujunto !
Abigail Costa é jornalista, apresenta o programa Dez Por Cento Mais no YouTube, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.
Quer conhecer o verdadeiro caminho da sua felicidade?
Seja Fora-da-Lei. Corra das Leis Sociais.
“Tem que tirar carteira de motorista aos 18”;
“Tem que ter casa própria”;
“Tem que casar e viajar de lua de mel”;
“Tem que ter o primeiro filho antes dos 30, e engatar o segundo logo – porque não é bom ter um filho só”;
“Tem que subir de cargo na empresa”;
“Tem que juntar dinheiro pra aposentadoria”;
“Tem que viajar 1 vez por ano porque isso é curtir a vida”…
Nossa, quanta lei, quanta regra! Quando isso acaba???
A resposta é: nunca.
A sociedade humana adora criar ideias do que é certo e errado e todo mundo se sente pressionado a seguir porque… “Vai que me criticam? O que vão falar de mim? E se todo mundo me odiar e me abandonar?”
Entre na onda das Leis Sociais e pronto – sua felicidade acabou.
Tem como ser feliz fazendo coisas que você nem sabe se gosta nem sabe se vai conseguir e se sente pressionado o tempo todo pra fazer? Quem consegue ser feliz assim?
Seja Fora-da-Lei.
Dirija carros ou não; compre uma casa ou não; tenha filhos ou não…
Antes de fazer qualquer coisa, pare e pense: “Por que vou fazer isso? O que vou ganhar? Vale a pena o esforço, a dedicação, o tempo de vida?”
Quebre as Leis Sociais.
Crie suas próprias Leis.
“Eu, do alto do poder sobre minha própria vida, determino que minhas Leis são: … (preencha como quiser, como gostar, como fizer sentido pra você – use sua liberdade)”
Seja Fora-da-Lei.
Seja Dentro-das-Suas-Leis.
Seja, verdadeiramente, você;
seja, verdadeiramente, feliz
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung
Quando a música de Lupicinio, cantada por Caetano, começou a tocar na Rádio Nacional, no começo dos anos de 1970, eu era uma menina que acreditava no que diziam as canções e fascinada pelas palavras de felicidade. Viajei nos pensamentos! Lembro-me de ter ido parar numa loja de brinquedos enorme na região da Teodoro Sampaio, no bairro de Pinheiro, em São Paulo. Nunca havia conhecido a loja pessoalmente mas de tanto ouvir histórias das meninas do meu bairro, construí uma imagem e passeei pelos corredores até chegar a seção de bonecas. Lá peguei uma “Dorminhoca”, aquela boneca molenga de cor lilás. Linda de viver!
Também incentivada pela letra da música, comprei um saco bem grande, recheado de coisas quase proibitivas em casa, doces antes das refeições — tinha maria-mole, uma variedade de chocolates e um monte de balas Juquinha, sabor frutas de mentirinha. Ao contrário do que minha mãe jurava que aconteceria, nem uma coisa nem outra foi verdade nos meus pensamentos: não perdia o apetite do sagrado arroz e feijão mais bife, muito menos que sentia dor de barriga.
Junto com o meu crescimento, os pensamentos também perderam a inocência, ganharam maioridade, maturidade, ficaram mais chatos, desconfortáveis e passaram a voar mais perigosamente.
Num determinado momento, tive que confrontar as palavras da música quando fiquei sabendo que certos pensamentos são bem-vindos enquanto outros, Ave Maria!
Comecei a ouvir que pensamentos não são ações. Como assim? E as minhas histórias? A visita a loja, a boneca Dorminhoca, o saco de guloseimas?
Foi estudando que aprendi que certos pensamentos deixam a gente doente, que podem ser negativos, acelerados; e pra voar nos bons pensamentos é preciso me certificar que estou com os dois pés fincados nos chão.
A simplicidade de só pensar é objeto de estudo.
Fico eu aqui pensando no Lupicínio, no Caetano…
“felicidade foi-se embora
e a saudade no meu peito inda mora,
porque eu sei que a falsidade não demora.”
Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.
Esse assunto vira e mexe está nos meus pensamentos, nas sessões de terapia, nas conversas com os amigos mais pacientes. Ninguém nunca de disse de forma direta: “você tem que ser ótima para ser aceita!”. Mas eu, sim, já disse para mim mesma várias vezes. Não com todas essas palavras “VOCÊ TEM QUE SER ÓTIMA” — talvez com quase todas.
Percebi essa autopressão quando resolvi voltar à faculdade para um MBA, anos atrás. Era pra ser um curso leve, gostoso, diferente: Gestão do Luxo, com duração de dois anos. Em três meses, os primeiros sintomas apareceram de forma tão dura e doída que fui parar no pronto-socorro. As dores no estômago eram persistentes tanto quanto a vontade em ser a melhor aluna do curso.
Depois de muitas conversas com o Gastro e alguns dias de internação no hospital, me lembro do Dr Arthur Ricca ter sentado ao meu lado na cama e dito” “você não tem nada além de uma gastrite xexelenta; para de querer ser perfeita e vai cuidar da sua cabeça!”. 1×0 para o médico. Não entendi nada, mas fiquei feliz em não ter algo grave. Terminei o MBA com nota máxima e muitas cartelas de ansiolíticos.
Passados anos desse episódio, volto outra vez às cadeiras da faculdade para uma segunda graduação. Mal sabia que retornaria ao inferno já no primeiro mês de estudo.
São cinco anos para o curso de Psicologia, e logo percebi que novos sintomas estavam se instalando — insônia, aperto no peito e um medo terrível de ser desmascarada. Do quê? De não ser boa o suficiente!
Por causa dos meus cabelos grisalhos, já no primeiro dia de aula, de passagem no corredor, alguém me perguntou, você é professora? Bastou para ascender todas as luzes do “preciso ser perfeita”. Todas as disciplinas eram minuciosamente transcritas para o caderno (sim, eu gravava as aulas), além das anotações em sala de aula — inclusive, os suspiros dos professores… vai que eles sinalizavam alguma palavra não dita.
Me recordo de ter terminado um dia com as costas travadas. Fui parar na maca de uma massagista brilhante que não precisou de muita conversa para que ela me perguntasse: “por que você quer competir com você mesma? Qual a necessidade disso?”.
De novo tinha consciência do abismo em que eu despencava em queda livre mas não tinha a mínima ideia de como acessar o manual do paraquedas e voltar ao curso normal do voo.
Veio o isolamento social e o que estava ruim, degringolou. Pensava e dizia: “Não preciso provar nada pra ninguém!”. Ok! Mas ninguém me cobrava nada. O problema é que não conseguia ser eu mesma, tinha que ser a melhor, tinha de usar um personagem e personagem representa, é cansativo. Nesse meio tempo, conversava com amigos mais próximos ou não, com irmãs e terapeutas e descobri que essa necessidade de perfeição não vinha só com os estudos, era no trabalho, em casa, na vida!
Pra começar, precisei de ajuda para reconhecer essa tarefa impossível de querer estar sempre em primeiro, da necessidade em sempre ser a primeira. Verdade que a parte mais fácil é reconhecer, aceitar — na prática tem sido um dia de cada vez. E confesso que embora seja difícil chega a ser engraçado.
Agora, por exemplo, faço uma pós-graduação em Gerontologia (a ciência que estuda o envelhecimento). Não vou esconder que ainda transcrevo minhas aulas para o caderno. Estou melhorando, já não gravo mais! Pois bem, em um daqueles testes odiosos de “assinale a opção incorreta”, não prestei atenção e errei uma questão. Fiquei sem a nota 10. Quando percebi ali o gatilho para desencadear um sofrimento e acabar com a minha tarde de férias, falei em voz alta (eu tenho essa mania): “Big, por favor, deixa disso, é só uma avaliação! Isso é perfeccionismo!”.
Ao falar comigo mesmo, voltei para o meu “só por hoje”. Sou boa! Só por hoje, eu não preciso ser perfeita!
E você? É perfeita?
Abigail Costa é jornalista, tem MBA em Gestão de Luxo, é estudante de Psicologia na FMU, faz pós-graduação em Gerontologia, no Hospital Albert Einstein, e escreve como colaboradora a convite do Blog do Mílton Jung.
“Sentir raiva é pecado”, “Raiva é um veneno”, “Raiva mata”.
Então… já pequei, já fui envenenada, já morri.
E, vez ou outra, faço tudo de novo.
Você já sentiu raiva?
Se sim, me conta: você teve escolha?
Te pergunto porque do lado de cá, na minha mente e no meu corpo, a resposta é… não.
A raiva nunca me perguntou se poderia chegar, entrar, ficar. Ela sempre me atropelou tipo um trator desgovernado. É assim até hoje.
Revolta, incômodo, angústia… explosão.
Raiva é emoção pura, visceral, animal. Não existe escolha.
Fome, sono, respiração… Natureza mostrando quem manda. A raiva está nesse grupo aí – é espontânea e independente da nossa vontade.
A raiva é seu corpo e seu cérebro te dizendo:
“Presta atenção, estão te invadindo, estamos sob ameaça, olha o ataque!”
No fim, ela quer te proteger. Pra você sobreviver, ela te enche de noradrenalina e de cortisol e te faz uma máquina potente, pra lutar ou pra fugir, mas morrer – jamais.
Então… Sinta a raiva!
Quando ela aparecer: perceba que ela chegou; dê nome pra ela; ouça de qual ameaça ela está te alertando.
Depois: dê um tempo, enquanto convoca seu córtex frontal, a “Sra. Razão”; construa um diálogo entre os dois.
Uma hora a Raiva fala, em seguida a Razão argumenta… a Raiva se revolta, a Razão pondera…
Pronto. A partir daí, a decisão está tomada – enumere as atitudes, uma a uma, que vão te levar ao resultado que você precisa: se distanciar, conversar num outro momento, tentar outro caminho (porque soltar é mais eficaz que insistir)…
Seja o que for, a Raiva chegou, fez o papel dela – te alertou do perigo – e se foi.
Não precisa temer. A Raiva não é inimiga, nem pecado, nem veneno e, muito menos, morte.
A Raiva é a Vida querendo sobreviver.
Sinta a Raiva. Depois, chame a Razão. E, depois, crie seu plano e caminhe pelo mundo, orgulhoso do seu autoconhecimento e do seu autodomínio.
Os fortes, os sábios, os bons… sentem Raiva, mas fazem dela um motor de Vida.
E então, me diz… Você faz o quê com sua Raiva? Foge… ou sente e vive?
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung
Mas a ideia de leitura aplica-se a um vasto universo.
Nós lemos emoções nos rostos, lemos sinais
climáticos nas nuvens, lemos o chão,
lemos o mundo, lemos a vida”
Mia Couto
Se eu não fosse psicóloga, acho que seria contadora. Não dessas que cuidam das finanças e patrimônios de pessoas e empresas, mas uma contadora de histórias.
Em vez de contos sobre fadas e princesas, as minhas histórias preferidas remetem a personagens reais: gosto de contar sobre pessoas, sobre o mundo e a vida.
Então, vamos lá!
Quando eu era criança, nossas provas escolares eram feitas pelos professores em mimeógrafo. Se você não viveu na década de 80 nem deve saber o que era isso. O mimeógrafo era uma espécie de copiadora. Os professores escreviam as atividades numa folha estêncil que continha carbono, colocavam essa folha com os escritos voltados para cima e, ao girar a manivela, o texto era passado para outras folhas de papel sulfite, graças ao feltro umedecido com álcool que ficava nessa máquina.
Na escola que eu estudava, as folhas chegavam com aquele cheirinho fresco de álcool e a parte mais bacana, pelo menos para mim, era colorir a capa da prova que já vinha com um desenho “impresso”, geralmente com ilustrações temáticas, como páscoa, festa junina ou comemorações pela chegada da primavera.
Naquela época, as condições financeiras lá em casa não eram as melhores e comprar o material escolar era quase um luxo. Com muito esforço, meus pais conseguiam garantir o básico para que eu pudesse realizar as atividades escolares.E quando digo básico, era o básico mesmo.
Minha caixinha de lápis de cor, por muitos anos, era composta por lápis pequenos, com cerca de uns 8 a 10 centímetros — o que exigia que não se apontasse muito ou eles acabariam rapidamente — e com apenas 6 unidades, sendo que duas dessas cores eram o branco e o preto. Vamos combinar que o branco não poderia ser considerado um lápis de cor! Isso me garantia 5 cores para toda a minha arte.
Felizmente, minhas colegas de turma mais afortunadas tinham estojos com lápis coloridos maravilhosos, daqueles que eu me perdia em suas nuances de cores, mas sabia exatamente suas quantidades: 24, 36 e até mesmo 48 unidades.
Digo felizmente, porque nossa turma tinha por volta dos 8 anos de idade e isso garantia que minhas amigas me emprestassem algumas cores.
Verde água! Essa era a minha cor favorita.
E foi assim, que num dia de prova, ao me deparar com uma capa repleta de elementos para serem coloridos, pedi o lápis de cor verde água emprestado para a colega que estava sentada atrás de mim. Feliz da vida, quase pegando o lápis, fui surpreendida pela voz alta e tom severo da minha professora que disse: “se você não tem lápis de cor, isso não é problema de outra pessoa. Não incomode sua colega”.
O jeito foi pintar com aquelas 5 cores mesmo, com cuidado para que não fugisse aos contornos do desenho.
O tempo passou, e mesmo com muitas dificuldades, que não se limitaram ao ensino fundamental, pude concluir meus estudos com êxito. Pode parecer clichê, mas não tenho dúvida de que a educação formal mudou a minha vida. Me permitiu possibilidades que eu nunca imaginaria alcançar.
Mas me permita voltar ao lápis de cor.
Não faz muito tempo, fui comprar um livro para dar de presente e me vi, em plena livraria, encantada com as diversas caixas de lápis de cor que estavam dispostas numa prateleira. Pensei que poderia comprar para mim, e agora eu poderia mesmo, uma caixa com o maior número possível de cores. Com todos os tons de verde água ou, se preferir mais atual, azul Tiffany.
Não comprei, mas me lembrei dessa história de 40 anos atrás.
E quanta história cabe numa folha de papel… E quanta história cabe numa página de pôr do sol, numa página de xícara de café quentinho, de sorriso, de abraço, do barulho da onda que bate nas pedras, do rosto de quem amamos…
A vida não vem delineada com as margens que devemos seguir. O colorido? Isso será por nossa conta.
Penso na vida como um livro de histórias que vamos construindo: algumas com enredos felizes; outras marcadas por desafios, tropeços e dificuldades.
E não seria isso o significado de viver?
Se a gente busca uma vida que seja sempre feliz, a chance de experimentarmos a frustração é gigantesca. Vida sempre feliz, glamourosa, plena é apenas um recorte da realidade estampada nos posts que vemos por aí.
Aproveite os bons momentos. Eles passam
Busque soluções para os problemas. Eles passam.
Compreenda que coisas acontecem e estão fora do nosso controle. Elas também passam.
E o que fica?
Isso vira história. Isso se torna a sua história.
Como diz Mia Couto: “Tudo pode ser página. Depende apenas da intenção de descoberta do nosso olhar”.
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
Você gosta, cuida, demonstra amor. Então, você para e espera – O que será que vem por aí, o que vou ganhar de bom?
Vazio. Silêncio. Nada.
A pessoa só segue a vida, se arrumando no espelho, com olhos fixos no celular, fazendo o relatório do trabalho… Você espera mais um pouco, mais umas horas, mais uns dias… Vazio. Silêncio. Nada.
“Que ingratidão. Não valorizou meu esforço, minha dedicação. Isso não é amor.” – Esses pensamentos pulam na sua cabeça e martelam infinitamente (é ensurdecedor). Afinal, amor de verdade é quando é correspondido, dizem… Será?
O amor nasce de um sentimento de respeitar e gostar junto de uma decisão de cuidar e desejar o bem. Sim, amor é construção da pessoa dentro de si; ela tem um objeto-alvo ou uma outra pessoa-alvo, porém, o amor é dela e quem sente é ela.
As consequências boas do amor são o peito preenchido, o suspiro doce, a sensação de um cobertor aconchegante. Então, sentir o amor é bom, porque é bom. A gente sente e saboreia!
Você não precisa ser correspondido, não precisa que criem isso dentro de você – está nas suas mãos, no seu corpo… no seu coração.
Vamos aos exemplos…
Você se ama porque sabe da luta que trava todos os dias pra levantar da cama, resistir à preguiça, fazer coisas que precisa, mas não gosta;
Você se ama porque sabe da luta entre o bem e o mal, a generosidade e o egoísmo, a coragem e o medo… A luta entre a luz e a sombra que trava aí dentro, quando as coisas dão errado, quando se compara com outras pessoas, quando toma decisões sobre sua carreira ou seu relacionamento.
E, pelos mesmos motivos listados acima, você ama pessoas ao seu redor.
Você merece ser amado por resistir, por seguir tentando, por lutar pra ser melhor. As pessoas merecem ser amadas por isso também.
Não precisa de retorno. Não precisa ganhar algo em troca. É respeito, admiração, consideração: por si mesmo e pelos outros. É amor.
Então, se você amar e não vier nada em troca… Siga amando.
Ame soltando – Porque estar ali oprime e sufoca.
Ame colocando limites – Porque o outro precisa aprender e você precisa se manter íntegro.
Ame sendo você uma pessoa melhor – Seja compassivo, compreensivo e sábio e entregue o melhor ser humano possível, se colocando como referência e como eixo para outras pessoas que não sabem amar.
O amor verdadeiro não é correspondido.
O amor verdadeiro é autossuficiente, se preenche e se basta – É amor e ponto.
Não economize. Ame.
Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung
Um dia você acorda com uma vontade enorme de ficar na cama. Está chovendo, você tem uma apresentação para fazer na empresa, e dá um frio na barriga só de pensar! Você passou quatro semanas trabalhando nesse projeto, mas julga que não ficou tão bom como gostaria. Se recorda da apresentação de outros colegas e tem certeza de que não está à altura dos demais. Pensa que talvez fosse melhor enviar uma mensagem para seu chefe, arranjar uma desculpa… Mas isso seria ainda pior. O que os outros pensariam sobre você? Ah, sim! Teriam certeza de que você é uma farsa ou perceberiam sua incompetência. Então, decidi ir para a empresa, faz a apresentação e, apesar do ótimo feedback, julga que usou duas ou três palavras de maneira equivocada e as pessoas só não perceberam suas falhas, porque talvez estivessem dispersas ou pouco interessadas no conteúdo.
Por que será que isso acontece com tantas pessoas? Por que será que, mesmo diante de situações que evidenciam sucesso ou competência, elas se julgam incapazes ou fracassadas?
Desde a infância, desenvolvemos determinadas ideias sobre nós mesmos, sobre os outros e sobre o mundo que nos cerca, especialmente através da interação com a família e com aqueles que estão à sua volta. Para os psicólogos Greenberger e Padesky (2017), essas pessoas ensinam coisas como “o céu é azul”, “isto é um cachorro” e “você é inútil”. Apesar de muitas mensagens serem corretas e precisas, as crianças acreditam em tudo o que é dito, mesmo que isso tenha sido uma expressão inadequada, que não corresponda à realidade.
Além disso, as crianças tiram suas próprias conclusões a partir de suas vivências. Algumas podem ouvir “você é inútil” e perceberem que uma outra criança é mais valorizada na sua família ou na sala de aula, por exemplo, por ter mais habilidades para os esportes. Essa experiência poderia gerar um entendimento de que aquelas crianças não são tão boas quanto a outra, sendo essa ideia armazenada na mete delas como “sou incompetente ou um fracasso”.
As crianças pequenas não têm habilidades mentais para pensar de maneira flexível e, ainda que essas ideias negativas não sejam reais ou precisas, serão assimiladas como verdades absolutas: as crenças sobre si mesmo.
Como essas crenças auxiliam na compreensão do mundo em fases precoces do desenvolvimento, se tornam desajustadas ou problemáticas quando são mantidas como absolutas e inflexíveis até a vida adulta, impedindo que possamos ver a nós mesmos de maneira mais realista.
Como lentes que distorcem a realidade, quando essas crenças negativas estão ativas, há uma interpretação também negativa das situações, nas quais a pessoa se vê, por exemplo, como incapaz, fracassada, incompetente, inferior às outras ou insuficiente para realizar algo.
Diante disso, alguns comportamentos são adotados como estratégias para se lidar com a carga emocional despertada, de modo a evitar ou compensar as situações que ativam essas crenças. Alguém que acredita ser preguiçoso ou incompetente poderia evitar algumas situações, recusando desafios ou adiando o término de um trabalho, por exemplo, por temer a crítica. Outra pessoa com uma crença semelhante, poderia adotar um comportamento de supercompensação, trabalhando exaustivamente ou de maneira compulsiva, como estratégia para “mascarar” suas dificuldades.
As duas estratégias seriam desadaptadas ou desajustadas, uma vez que não solucionam o problema, não permitem testar as crenças disfuncionais negativas com novas experiências, mantendo ou reforçando a crença original.
Todos temos crenças positivas e negativas sobre nós mesmos. A diferença é onde colocamos a nossa lupa. Sim, uma lupa, que muitas vezes ignora inúmeras características positivas que temos e foca em alguns aspectos que fogem à realidade. Uma lupa distorcida, que enviesa e distorce quem somos, nos rotulando e nos reduzindo a determinados aspectos.
Atualmente, muitas pessoas se sentem frustradas por reconhecerem que não têm todas as habilidades ou que não são competentes em tudo o que gostariam de realizar, quando se comparam com outras pessoas. Mensagens são disseminadas de que basta querer e você será tudo o que desejar.
Desculpe se vou destruir ilusões, mas nunca poderemos ser tudo. Isso é muita coisa para um ser humano, falível, imperfeito. Somos assim! Mas também podemos ser muito mais do que julgamos ser, quando acreditamos que somos menos do que os outros.
Não é sobre ser mais ou ser menos. É sobre sermos nós mesmos, com nossas características que envolvem pontos fortes e fracos.
O mundo seria muito chato e monótono se todos tivessem as mesmas habilidades, as mesmas características. Somos diversos, e aí mora a beleza de sermos quem somos. Somos experiência, vastidão, sucesso. Incompetências e fracassos também, por que não? Assim, não bastamos a nós mesmos. Precisamos dos outros. Essa é a nossa natureza!
Talvez tenhamos dificuldades para reconhecer… Porque borboleta não nasce borboleta. Nasce lagarta, mas queira ou não ela será uma borboleta. E depois disso? Depois disso vai voar!
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.
A nossa memória em foto de Miray Bostancu0131 on Pexels.com
“Seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está.
Seu futuro será o que você quiser, então faça dele algo bom”
Frase do filme “De volta para o futuro”
No filme “De volta para o futuro”, Marty McFly (Michael J. Fox) é um jovem que aciona acidentalmente uma máquina do tempo, construída pelo cientista Dr. Emmett Brow, sendo transportado para o passado. No fim da trama, Marty volta para o ano de 1985 e tenta salvar o Dr. Brown, mas chega tarde demais para impedir que ele fosse baleado. Surpreendentemente, o cientista acorda e revela que ao tomar conhecimento da carta que o alertava sobre seu assassinato, se muniu previamente de um colete à prova de balas.
Longe da ficção e sem a possibilidade de alterarmos alguns desfechos em nossa vida, precisamos lembrar de pegar o guarda-chuva porque a previsão alertou que mais tarde o tempo muda. Precisamos lembrar que às 8:00 o remédio precisa ser tomado, que dia 10 vence o boleto da mensalidade da escola, que acabou o ovo e precisamos passar no mercado antes do jantar. E o livro que você pegou na biblioteca? Era para ser entregue ontem!
Pois é! Essa máquina do tempo que nós humanos temos, chamada memória, nos permite recordar eventos passados, mas também nos possibilita criar intenções voltadas para o futuro, nos orientando naquilo que ainda vai acontecer.
A memória prospectiva compreende um conjunto de habilidades cognitivas envolvidas na capacidade de planejar uma intenção e se recordar dessa intenção, em algum ponto do futuro, em momento ou contexto específico, possibilitando que as ações sejam realizadas.
Em outras palavras, significa “manter em mente” o que precisa ser feito e se lembrar disso no momento certo!
A memória prospectiva é um dos sistemas mais utilizados no cotidiano e envolve tarefas como se lembrar de um compromisso, como uma reunião de trabalho ou consulta médica, transmitir um recado, organizar os detalhes de uma viagem que vai acontecer e pagar as contas no dia do vencimento.
Diversas estratégias podem ser usadas para amenizar possíveis falhas na memória prospectiva, como recorrer a agendas, alarmes, realização de lista de tarefas e lembretes.
Apesar de tantos avanços tecnológicos e científicos, nossa capacidade de viajar pelo tempo só é possível – ainda – através dos nossos recursos mentais. Nossa mente tem essa capacidade incrível de retomar situações passadas e antecipar o futuro, através da imaginação.
Não sei você, mas eu fico pensando: se tivesse um jeito da gente olhar o futuro, saber o que nos aconteceria, será que a gente seria mais feliz? Será que a gente conduziria a vida de uma outra maneira?
Não temos spoiler. Não temos um bilhete nos alertando dos riscos, como no filme, o que nem sempre nos permite um colete à prova de balas, à prova de tristezas, decepções ou sofrimento. Mas temos a capacidade de olhar para o nosso momento presente e construir uma ponte com o nosso futuro, com sonhos e esperança.
Ainda é possível: A máquina do tempo pode travar, mas ela acaba ligando novamente! Não foi assim com o Marty McFly?
Então, faça as suas anotações, escreva um bilhete para você. Mas não coloque ali apenas a reunião ou a conta que você não pode esquecer. Das obrigações a gente até se lembra com mais facilidade.
Escreva aquilo que pode fazer a sua viagem para o futuro valer a pena. Aquilo que todos os dias você precisará se recordar, porque lhe é valioso. A sua memória do amanhã.
Dr. Brown estava certo: “seu futuro ainda não está escrito, o de ninguém está”. Então faça dele algo bom!
Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung.