Mundo Corporativo: “vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”, diz Carlos Marinelli, do Grupo Fleury

 

O que essa pandemia nos mostrou é que nós já tínhamos várias ferramentas, várias tecnologias, e, talvez, nós não estivéssemos utilizando a sua total potencialidade; e mesmo as pessoas, quão resilientes as pessoas estão sendo durante esta pandemia” 

 

Um dos processos digitais impulsionados pelas restrições impostas pela pandemia foi o da telemedicina; o que antes se resumia a trocas eventuais de mensagens entre médico e paciente, através do WhatsApp, transformou-se em canal de atendimento e consulta. Em entrevista ao programa Mundo Corporativo, da CBN, Carlos Marinelli, presidente do Grupo Fleury, falou de como a empresa, o setor de saúde e seus profissionais tiveram de se adaptar desde que os primeiros casos de Covid-19 chegaram ao Brasil.

 

“Desde o primeiro momento, o foco sempre foi na segurança dos nossos colaboradores porque a gente sabia que, uma vez esses colaboradores estivessem seguros, nós iríamos trazer essa segurança também para os nossos clientes”.

 

Dentro das mudanças realizadas pelo Grupo Fleury, também houve a aplicação do serviço de atendimento móvel com a inclusão de procedimentos, como o de ultrassom e exame de imagens, medida que fez diminuir a necessidade de pacientes terem de se deslocar até as unidades de saúde. De acordo com Carlos Marinelli, foi criada uma área de consultoria às empresas que precisavam desenvolver suas atividades dentro de normas mais rígidas de segurança sanitária. Em 50 dias, aderiram ao programa 300 empresas e cerca de 400 mil pessoas foram atendidas por esses serviços, muitos para a realização de testes de Covid-19. 

 

O executivo destacou, ainda, a participação de seus laboratórios e profissionais em projetos de sequenciamento da mutação do Sars-Cov-2 e de desenvolvimento da vacina de Oxford:

 

“Esse é um momento em que o conhecimento precisa ser constituído, precisa ser elaborado; e quanto mais a gente passar rapidamente o conhecimento que a gente elabora, que a gente constrói, melhor para todo mundo. Essa é uma responsabilidade que também a gente trouxe para a gente”.

 

Um aspecto que tem desafiado os gestores é o de entender o que vai acontecer com as empresas e os negócios após a pandemia. Apesar de apostar na ideia de que as pesquisas com uma ou mais vacinas estarão concluídas até o fim do ano, o que identifica como sendo libertador para o cidadão, Carlos Marinelli alerta que isso não significará que voltaremos a nos comportar como antes da pandemia. Nem devemos. O executivo acredita que diminuirá a necessidade de todos os profissionais estarem todos os dias dentro do escritório, o que restringirá a frequência de deslocamentos e colaborará com a redução da pegada de carbono, com impacto positivo na questão ambiental: 

 

“Já estamos identificando pessoas que não voltarão para a sua principal forma de trabalho. Elas vão trabalhar de casa, elas vão trabalhar remotamente a maior parte do tempo e aquelas pessoas que vão trabalhar parte do tempo no escritório, vão trabalhar muito mais por missão. Essa história de jobs description — ou descrição de função — cada vez vai existir menos. Cada vez mais vamos contratar talentos e competências e entregar desafios”.

 

O Mundo Corporativo pode ser assistido ao vivo, no Canal da CBN no You Tube, às quartas-feiras, às 11 horas. O programa vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados; domingo,  às 10 da noite, em horário alternativo; ou a qualquer momento em podcast.

Conte Sua História de São Paulo: minha primeira e única viagem de bonde, para entrar na história

Por Fátima M.R.F. Antunes

Ouvinte da CBN

 

 

No fim dos anos 1960, o prefeito Faria Lima começou a retirar os bondes de circulação. A desativação do bonde Fábrica, que fazia o trajeto Praça João Mendes e Sacomã, no Ipiranga, foi anunciada para janeiro de 1967. O nome Fábrica se referia à indústria que havia no início da linha, Estabelecimento Cerâmico Saccoman-Frèresa, onde trabalharam o vovô João e o tio José. 

 

Desde 1900, os bondes elétricos eram o meio de transporte popular na cidade. Grandes e pesados, correndo sobre trilhos e dependendo de fiação elétrica aérea, destoavam dos ágeis e maleáveis ônibus, que apareceram décadas depois. Naqueles anos 1960, os bondes estavam sendo substituídos por ônibus.  Ao longo da década, as linhas foram sendo suprimidas. A última viagem de um bonde passou pelas avenidas Ibirapuera, Vereador José Diniz e Adolfo Pinheiro até Santo Amaro — em 27 de março de 1968.

 

De nada serviriam os lamentos da população. A hora tinha chegando. E o bonde Fábrica, que rasgava o bairro do Ipiranga pela rua Silva Bueno, seria desativada. Tia Tereza, irmã caçula de minha mãe, assim como outros milhões de paulistanos, estava agitada com a mudança. Afinal, o famoso bonde Fábrica, presença constante nas boas e más ocasiões, sempre estivera ali, companheiro e solidário. 

 

A família de minha mãe morara no Ipiranga. Primeiro na Rua Lima e Silva; depois na das Juntas Provisórias. Tia Tereza tomava o bonde na Silva Bueno para ir às compras no centro e à infinidade de salas de cinema que havia nas avenidas São João e Ipiranga. No Fábrica, ela, mamãe e vovó visitavam os parentes no Pari, com baldeação na Praça João Mendes. No Fábrica, se ia ao médico; até o Sacomã, aos sábados e domingo, para o footing, ou o“vai e vem”: os rapazes ficavam parados nas calçadas, enquanto as moças caminhavam pra lá e pra cá, de olho num pretendente. 

 

Os velhos bondes atravancavam o trânsito. Retirá-los das ruas parecia uma medida drástica, mas diziam que era necessária para a melhoria da circulação urbana.

 

Tia Tereza sempre foi uma entusiasta do progresso e da renovação, mas lá no fundo, sabia que os bondes deixariam saudade. Em janeiro de 1967, ela decidiu:  

 

“Vou levar a Fatima para um paseio no Fábrica antes que ele pare de rodas. Essa menina nunca andou de bonde! Quando for moça, vai poder dizer que andou de bonde em São Paulo.

 

Na Vila das Mercês, zona Sul, onde morávamos, só havia ônibus — eram pintados de amarelo clarinho, com faixas vermelhas na parte inferior.  Tia Tereza planejou com detalhes a aventura. Ajudou-me a escolher um vestido bem bonito. Do portão de casa, na antiga Rua B  — hoje Rua Caloji — nos acenavam a avó Dolores e minha mãe, Rafaela, com meu irmão Vanderlei no colo, enquanto íamos para o ponto.  Junto com a gente, foi a prima Eliana, filha da Tia Tereza, que sequer tinha completado um ano.

 

Descemos do ônibus no Sacomã e logo pegamos o bonde no ponto inicial. Sentei num daqueles bancos compridos, que ficavam nas laterais —- eram de madeira envernizada, duros, que faziam a gente escorregar, quando o freio era acionado. Confesso que achei escuro o interior do bonde, desconfortável. 

 

Antes do bonde deixar a Silva Bueno, descemos, atravessamos a rua e tomamos o ônibus de volta pra casa.  Eu tinha apenas quatro anos e jamais esqueci desse passeio. Mais do que a lembrança do bonde, ficou o carinho de minha tia. Penso que tia Tereza era uma mulher de visão. Ela já sabia, lá em 1967, que 53 anos depois, minha única e última viagem de bonde seria um capítulo do Conte Sua História de São Paulo. 

 

Fatima Martin R. F. Antunes é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva o seu texto e envie para o contesuahistoria@cbn.com.br. Ouça também em podcast.