Por Marcia Lourenço
Ouvinte da CBN
Minha história começa na chegada a São Paulo de duas famílias, uma portuguesa e outra italiana, meus avós paternos e maternos, respectivamente. Meus pais se conheceram no bairro da Moóca, onde moravam — e também trabalhavam como tecelões, em uma das inúmeras tecelagens do bairro, nos idos dos anos 1950.
Depois de casados, já com minha irmã Terezinha nascida, resolveram ter sua própria casa. Com pouco recurso, tiveram que procurar lugares mais distantes pra morar, literalmente, além-rio… Com muito esforço, compraram um terreno na Vila Medeiros, Zona Norte da Capital, em uma rua sem nome e sem saída, mas muito tranquila, familiar e acolhedora.Não havia transporte público, rede de água e esgoto, asfalto —- era um bairro em formação.
Foi nesse cenário que nasci, em outubro de 1959, já na casinha tão sonhada pelos meus pais, construída em mutirão familiar aos fins de semana, onde minha mãe, Dona Júlia ainda vive. O presidente era Juscelino Kubitschek. Por esse motivo ganhei o nome de uma de suas filhas — Márcia —, sugerido pela minha avó que ajudara no parto.
Nossa casa era apenas um quarto e cozinha; o banheiro ficava no fundo do grande quintal de terra, onde tínhamos bananeiras, sempre carregadas de banana ouro, que eu amava comer escondida dentro do guarda roupa, onde eram colocadas, envolvidas em jornais para amadurecer. Andávamos muito a pé, cortando caminho pelos vários campinhos que, aos domingos, eram muito usados em animadas partidas de futebol.
Meu saudoso pai, Sr. Olindo, por sua vez, jogava malha aos sábados, prática muito comum na época, assim como a bocha. Por vezes, eu o acompanhava ao Clube Thomas Mazzoni e a outros Clubes de malha, para assistir às suas partidas, que lhe renderam alguns troféus e medalhas.
Era motivo de alegria a chegada de circos, parquinhos que se instalavam em algum campinho perto de casa. Até os adultos vibravam com a chegada deles. O Parque Shangai era também um passeio que nos encantava. Fiquei muito decepcionada quando foi desativado, ainda na minha infância.
Mas quando se aproximava o Natal… a extinta Lojas Pirani, na Av. Celso Garcia, era passeio obrigatório. Ali, para nós era um sonho, luzes de Natal, brinquedos, Papai Noel, enfim… Ver tudo aquilo era o nosso maior presente.
E o que falar dos passeios de trem, saindo da Estacão da Luz ou Praça Roosevelt?
Paro aqui, no final dos anos 1960. Mas minha história segue, nesta Terra da Garoa, a bordo do Trem das Onze, nessa cidade onde fui e sou muito feliz.
Marcia Aparecida Lourenço da Silva é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio e a narração de Mílton Jung. Conte a sua história da nossa cidade. Escreva para milton@cbn.com.br.