“A culpa já vendeu e continua vendendo bilhões e bilhões de reais para as respectivas empresas”
Jaime Troiano
No universo das marcas, há uma tática que tem se mostrado extremamente eficaz para impulsionar as vendas: a exploração da culpa. Por meio de mensagens sutis, as empresas colocam a responsabilidade e a vergonha nos ombros dos consumidores, induzindo-os a comprar produtos ou serviços como forma de aplacar esse sentimento. É o homem que olha com inveja para o carro novo do vizinho; é o filho que pede para descer longe da porta da escola por causa das roupas da mãe; é o colega de trabalho que fala escondido ao celular porque seu modelo é ultrapassado.
Este é um tema recorrente e delicado no branding. Muitas marcas se valem dessa abordagem, apelando para os sentimentos de responsabilidade dos consumidores. É preciso ter consciência do impacto dessa estratégia na sociedade e no comportamento de compra. No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime Troiano e Cecília Russo alertaram para os riscos éticos que esta abordagem gera e a importância de se estabelecer limites para não manchar a imagem das marcas.
O uso da culpa como estratégia de marketing não é uma novidade. Desde a década de 80, comerciais têm sido criados com o intuito de enaltecer produtos ou serviços, ao mesmo tempo em que jogam a responsabilidade para o lado do consumidor. Um exemplo emblemático é o comercial da marca Mistral, no qual o icônico Clodovil aconselhava uma noiva a não se casar cheirando como um homem (veja o vídeo deste post). Essas abordagens, embora controversas, geraram e continuam gerando bilhões de reais para as empresas, mostrando que a culpa ainda é um poderoso fator de persuasão.
“E por que a culpa vende? Porque de certa forma o consumo é uma forma de aplacar essa culpa, tapar esse buraco.”
Cecília Russo
Um caso que teve menor projeção, porque não estava na mídia, mas causa enorme indignação a quem deparou com ele foi identificado pela própria Cecília Russo em visita a uma escola no bairro de Sumaré, em São Paulo. A diretoria achou por bem exibir na porta uma placa com os dizeres: “Mãe, faremos pelo seu filho tudo o que você faria se não tivesse que trabalhar”. Essa mensagem cutuca diretamente a culpa das mães que precisam trabalhar fora e ressalta a importância de refletir sobre os limites éticos dessa estratégia.
“Um soco na cara. Cutucar a culpa!”
Jaime Troiano
A publicidade também se utiliza de situações cotidianas para despertar esse sentimento nos consumidores. Há comerciais famosos que retratam indivíduos sendo julgados por suas escolhas ou posses materiais. No passado, havia um produzido para o Banespa — banco público já extinto – no qual um homem com roupas extravagantes e correntes de ouro no pescoço pisa no pé de uma moça, que pensa: “acho que ele não tem cheque especial Banespa”. Essas mensagens reforçam a ideia de que o consumo é uma forma de aplacar a culpa.
Apesar do potencial lucrativo da estratégia, é fundamental que as marcas ajam com responsabilidade e estabeleçam limites claros para não serem lembradas apenas por manipularem sentimentos íntimos das pessoas, especialmente em um mundo cada vez mais patrulhado e atento às questões sociais.
Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso:
Nos bastidores do Mundo Corporativo. Foto de Priscila Gubiotti
“Cada vez mais é importante que a sociedade se mobilize porque é dessa forma que a gente vai transformar a potência do jovem numa realidade para o país”.
Julio Campos, Movimento Jovens do Brasil
A população brasileira está prestes a assistir uma transformação no seu perfil demográfico. Atualmente, ainda temos uma quantidade enorme de jovens e adultos com potencial de levarem o país ao crescimento econômico e a dar um salto de qualidade. É o que os técnicos chamam de “bônus demográfico” — mais jovens e adultos do que idosos e dependentes da Previdência Social. Haverá, porém, uma queda expressiva da população e o aumento no número de idosos se acentuará — e diante dessa transição virá o “bônus demográfico”. Mais gente sendo sustentada pela Previdência, menos produzindo.
Temos uma janela de oportunidade se fechando e será preciso investir fortemente na juventude para inserir essa população no mercado de trabalho. Esse é um dos desafios do Movimento Jovens do Brasil uma iniciativa de Luiza Helena, do Magazine Luiza, e de Julio Campus, CEO da Compra Agora, que surgiu em 2018. Entrevistado pelo Mundo Corporativo, Julio disse que a educação é o fator primordial para inclusão dos jovens, oferecendo-lhes escolhas e preparo adequado.
“O acesso à educação e às oportunidades são fundamentais para que os jovens possam avançar em suas carreiras”.
O movimento tem como objetivo oferecer treinamento de habilidades técnicas, cognitivas, emocionais e sociais aos jovens, capacitá-los para que se tornem agentes de transformação na sociedade, conectá-los a oportunidades de trabalho e promover o diálogo entre gerações, unindo jovens e jovens por mais tempo — expressão que a instituição usa para identificar os mais velhos que se dispõem a colaborar nessa transformação.
Dentro do Movimento Jovens do Brasil, são trabalhados quatro pilares essenciais: desbravar, transformar, conectar e dialogar. Através dessas trilhas, o movimento busca fortalecer os jovens e prepará-los para o mercado de trabalho. A trilha do desbravar engloba a capacitação técnica, cognitiva e emocional. Já a trilha de ser um agente de transformação convida os jovens a exercitar um pensamento crítico sobre políticas públicas e seu papel na sociedade. O movimento também conecta os jovens às oportunidades de trabalho e cursos disponíveis. Por fim, a promoção do diálogo intergeracional fortalece tanto os jovens quanto aqueles que já têm mais experiência, incentivando a compreensão mútua.
Júlio também destaca a importância da mobilização da sociedade em auxiliar os jovens, especialmente aqueles que vivem em áreas periféricas, a superar as barreiras e alcançar seu potencial máximo. É importante destacar que o Movimento Jovens do Brasil busca formar jovens multiplicadores, capazes de impactar positivamente suas comunidades. Através do voluntariado e do entendimento de seu papel como cidadãos, esses jovens podem devolver ao seu território as oportunidades que receberam.
“Acho isso extremamente potente. Porque você traz gente que fala a linguagem dos seus semelhante, do seu igual, ele entende aquela realidade. Então, ninguém melhor do que ele para poder passar esse conhecimento. Então, a gente forma o jovem voluntário para que ele possa ser se agente multiplicador na sociedade.”
Para saber como participar desse projeto, seja em busca das oportunidades de conhecimento existente seja diante da possibilidade de oferecer o seu conhecimento ao movimento, visite o site jovensdobrasil.org.
Assista à entrevista completa com Julio Campos, do Movimento Jovens do Brasil, ao Mundo Corporativo que teve às participações de Renato Barcellos, Bruno Teixeira, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.
Parque da Independência em foto de arquivo da cidade
Nos meus tempos de criança, ouvia muito os meios de comunicação dizerem: “São Paulo, a cidade que mais cresce no mundo”. O presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower, quando veio em visita ao Brasil, estava ansioso para conhecer a cidade, principalmente para conferir esse slogan. Foi em fevereiro de 1960, eu tinha nove anos mas não atinava esse progresso, já que eu morava num bairro pacato da zona leste que nem ruas asfaltadas tinha.
De fato, muitas empresas internacionais, atraídas pelo mercado que a cidade e o país propiciaria, vieram para São Paulo, principalmente a indústria automobilística, notadamente a Ford, que se instalou no bairro do Ipiranga. Os laboratórios farmacêuticos também seriam outra atividade de muita importância na cidade com várias industrias que se instalaram na zona sul. Incluía, talvez, o efeito da frase de Juscelino Kubitschek que em campanha à presidência da República, em 1955, prometeu “Crescer 50 anos em 5 anos”
O centro da cidade erguia edifícios que futuramente seriam sedes de bancos, nacionais e internacionais, cartórios, estabelecimentos comerciais…. Com isso, outro setor que crescia bastante era o da construção civil, atraindo a migração, principalmente de nordestinos para a cidade. Na maioria, os migrantes vinham do interior da Bahia, e logo os baianos foram conquistando a cidade, de tal forma que qualquer outro migrante do nordeste que chegava seria logo chamado de baiano. Até migrante de outros estados do nordeste, ou mesmo de outra região, para os paulistanos era baiano.
Sem dúvida, o progresso desta cidade se deve muito aos migrantes que, em busca de oportunidades de trabalho para melhoria de vida, a tornaram essa potência. Outra região da cidade, a Avenida Paulista começava a se modernizar, encerrando o ciclo dos casarões, hoje com vários edifícios .
Nos anos 50, a cidade teve a sua população aumentada de 2 milhões para 3 milhões e meio de habitantes, matematicamente um aumento de 75%. E, nos anos 60, já contava com quase 4 milhões de habitantes.
Tudo isso estou dizendo para tentar explicar como a cidade de concreto, infelizmente, deixou muito pouco para a preservação da natureza. Muitos lugares da cidade, onde hoje estão situados muitos edifícios, museus e outros ícones, como se diz popularmente: “era tudo mato”
Eu vivi em meio ao crescimento da cidade. Tudo acontecia e não cheguei a conhecer locais cuja preservação da natureza estava estabelecida. Já havia o Parque Ibirapuera mas, pelo que sei foi uma obra planejada para os festejos do Quarto Centenário de são Paulo.
Embora eu já tenha ouvido reivindicações de estudo do parque atribuído a outros paisagistas, oficialmente o projeto e concepção das áreas verdes é de Roberto Burle Marx, que teve também participação de Otávio Augusto Teixeira Mendes.
Temos o Parque da Aclimação , com suas garças maravilhosas, Parque do Carmo, Parque Buenos Aires, Praça da República (que já foi até local de touradas), mais recentemente Parque Augusta e outros, que são excelentes mas não me trazem a sensação de estar em contato com a natureza em seu estado mais puro. A revitalização do Rio Pinheiros, bem recente, está trazendo algo positivo em termos de local que se pode usufruir da natureza em São Paulo.
Porém, e sempre existe um porém, como dizia o dramaturgo Plinio Marcos, na verdade, um local que tem algum tempo que descobri e que frequento com certa assiduidade, acredito que trás o objetivo da narrativa ao encontro do tema proposto. Está localizado no bairro do Ipiranga, mais precisamente nos fundos do prédio do Museu, o Bosque, ou Bosque do Museu do Ipiranga, reconhecido pela importância enciclopédica da Wikipédia .
É fantástico apreciar a quantidade de vegetação do bosque formada por araucárias, pau-ferro (que os índios na língua tupi chamavam de Ubiratã) paineiras, árvore de borracha, amendoim acácia (essas que pesquisei) e árvores de frutos comestíveis, e muitas outras que me rendo pela minha total falta de conhecimento de botânica
Em pesquisa que realizei na internet, para se ter uma ideia, das 160 espécies localizadas no museu, 91 aparecem no Bosque. Algumas, mais precisamente 18, estão registradas em lista da União Internacional para a Conservação da Natureza na categoria de espécies ameaçadas de extinção (triste). Parece pouco, como o texto descreve, mas indica a falta de comprometimento do homem em preservar a natureza. Além desse aspecto, o texto denuncia que o bosque vem sofrendo com a perda de sua vegetação original muitas vezes pela interferência depredatória do homem, que não observa os limites de descarte de plásticos e embalagens que agridem a natureza. Os fatores climáticos também influenciam nessas perdas
Outra impressão que tenho do bosque é a de que, na sua essência, nunca foi modificado em seu acervo natural. Não houve modificação no seu fulcro apenas adaptações com determinação de trilha para os frequentadores correrem ou caminharem, bem como colocação de bancos e aparelhos de ginástica na beira da trilha.
Logo na entrada principal, antes de adentrar o núcleo do bosque, bem pertinho do prédio do museu, há espaço para crianças, com playground, e algumas mesas para convescote. Os sanitários para o público também ficam nessa área.
Há outra entrada próxima do Museu de Zoologia da USP, que, aliás, por muito tempo foi dirigido pelo professor, zoólogo e compositor musical de muito sucesso , Paulo Vanzolini.
O Museu de Zoologia está localizado numa área oposta que, de imediato , apresenta ao visitante sua exuberante vegetação. Nos dias mais quentes, as árvores frondosas propiciam aquelas sombras refrescantes tornando o Bosque um lugar ainda mais aconchegante. Sou suspeito, pois sempre que vou pra caminhada no museu, não deixo de fazer o circuito do bosque que, como eu disse, frequento há muitos anos desde quando morava no bairro de Vila Prudente (não tão distante, uns 3 a 4 km, mas eu vinha de carro)
Quando me mudei de Vila Prudente, um dos fatores decisivos na escolha de novo imóvel seria encontrar um local que eu pudesse praticar atividades físicas ao ar livre. Há 18 ano,s me mudei para o bairro do Ipiranga e distante apenas 400 metros do Bosque, que ,praticamente, é o quintal do edifício onde moro… agora, venho a pé!
Era sonho meu estar tão perto do bosque?
-“Sim , e …. foi realizado.
Julio Araujo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também um personagem de São Paulo. Escreva seu texto e envie para o email contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo
Ruy Shiosavwa em entrevista ao Mundo Corporativo Foto de Priscila Gubiotti
“.. as coisas mais simples provavelmente são as mais efetivas e poderosas. Ou seja, investimento em pessoas não é dinheiro, é investimento do seu tempo como líder, a atenção que você dá para as pessoas”.
Ruy Shiosawa, Great People
As empresas estão em extinção? A provocação é feita pelo mesmo cara que há dois anos extinguiu a sede da sua empresa para preservar o emprego das pessoas. Eu estou falando de Ruy Shiosawa, que era CEO da Great Place To Work quando a pandemia chegou e tomou a decisão de se desfazer dos escritórios em comum acordo com os demais profissionais da organização. Atualmente, Ruy está à frente da Great People, que reúne dez empresas que prestam os mais diversos serviços — de consultoria a produção de conhecimento — com a intenção de valorizar as pessoas e impactar a sociedade.
Você deve se perguntar, como alguém que comanda um ecossistema com tantas empresas questiona a existência delas. Esse tem sido o papel de Ruy ao longo de sua jornada profissional. Inspirar as pessoas a repensarem processos e comportamentos. Somente assim é possível desenvolver novas culturas e criar ambientes de trabalho saudáveis.
“O que que era uma boa empresa? Opa, uma empresa grande, uma empresa segura, estável, que desse uma carreira cheia de degraus … hoje, isso dificilmente alguém fala nesses termos. Então, hoje não importa se a empresa é grande, pequena — aliás, talvez daqui a pouco não tem mais empresa, tem conexão de propósitos, de objetivos com pessoas que podem apoiar o desenvolvimento desse propósito”.
Para este “empreendedor em série”, cuidar da saúde mental dos seus profissionais foi um dos desafios que a pandemia trouxe às empresas e seus líderes. Por que se um colaborador é diagnosticado com burnout isso está ligado à empresa e deixa de ser um problema apenas da pessoa. É responsabilidade da organização criar mecanismos para detectar esses riscos. Foi, aliás, diante da necessidade de criar estratégias capazes de identificar como está a saúde mental da equipe de trabalho, que a Great People criou a Jungle — uma das dez empresas do ecossistema. Uma das soluções desenvolvidas foi, a partir do uso da neurociência, a criação de uma análise, com mais de 200 variáveis, baseada em textos escritos pelos funcionários, que permite antecipar problemas de transtorno ou fragilidade:
“A gente detectou casos de atenção da saúde mental e detectamos casos graves. O fato de ter detectado no momento adequado permitiu que isso fosse encaminhado a um especialista para ser tratar. Agora, imagina você não dá atenção para isso, o que vai acontecer é que uma hora explode uma hora tem uma crise”.
O futuro do trabalho transformou-se em presente com a pandemia, de acordo com Ruy Shiosawa, e uma das discussões que se aceleraram foi o modelo de trabalho que a empresa deve seguir: remoto, presencial ou híbrido. Para ele não existe resposta única porque isso dependerá das pessoas que compõem aquele grupo de trabalho que chamamos de empresa.
Há realidades diversas e demandas que não são compatíveis, o que pode levar a empresa a perder talentos se não souber conjugar essas diferenças. Alguns têm família e gostariam de ter mais tempo para os filhos, outros preferem ficar na sua casa na praia, onde se sentem mais produtivos e livres, e há quem busque ambientes colaborativos e de aproximação. Os líderes têm de entender que atualmente valoriza-se muito a possibilidade de as pessoas organizarem seu próprio tempo e conciliarem vida pessoal e profissional. Portanto, é preciso flexibilidade.
“E aí qual é o ponto de atenção, como que a gente resolve isso? Liderança! Desenvolver pessoas que gostem de pessoas. E comunicação! Lembrando que comunicação é uma via de mão dupla”.
Diante disso, os métodos de feedback nas empresas ganham importância e precisam ser mais bem desenvolvidos. Chamar o profissional uma ou duas vezes por ano, cumprindo tabela proposta pelo RH, não é suficiente para entender as pessoas e desenvolver os profissionais. De acordo com Ruy, a experiência da Great People, pelo trabalho iniciado no Great Place To Work, comprova que a ferramentas do feedback é uma das mais poderosas para melhorar o ambiente de trabalho. Líderes que ouvem mais seus profissionais, através de feedbacks mais frequentes, conseguem resultados superiores do que aqueles que restringem esse canal de comunicação.
Para conhecer outras estratégias que podem engajar mais os profissionais, desenvolver as pessoas e preservar um ambiente saudável no trabalho, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo com Ruy Shiosawa, CEO da Great People.
Ops, antes de pular para o vídeo: talvez você tenha percebido que em todo o texto não tivemos uma resposta exata para a pergunta inicial sobre a extinção das empresas. Se você quiser uma certeza, sim, em breve, estarão extintas as empresas da forma como são, mantendo hierarquias rígidas, com equipes “presas” dentro de escritórios, sem promover melhores relacionamentos entre os times e líderes afastados dos problemas que impactam seus profissionais.
O Mundo Corporativo tem as colaborações de Priscila Gubiotti, Guilherme Muniz, Renato Barcellos e Bruno Teixeira.
Toda feita de madeira nobre e trabalhada, enfeitava a sala..
A Menininha. Curiosa.
Na pontinha dos pés, como bailarina, ensaiava os primeiros passos e tentava desvendar o mistério da caixa que falava.
Foi assim anos a fio e todas as noites. A caixa falava (com chiado, é verdade!) e a menininha adormecia, embalada pelas ondas do rádio. Transcorria a década de 50.
A família reunia-se em torno dela (a caixa) para ouvir os intermináveis discursos do pai dela(da menininha), então presidente da Câmara Municipal de Lins.
E, ao som das ”ondas” do rádio que proseava sem parar, a menina adormecia.
O tempo voou e a caixinha mágica ficou menor, libertou-se dos fios e acompanhou a adolescente que ouvia os Beatles e os Rolling Stones, sem imaginar fazer parte de uma geração icônica.
Geração que libertava a jovem mulher de amarras seculares. Década de 60.
No embalo da Jovem Guarda, ouvia atentamente programas que ofereciam música aos apaixonados. Suspiros, fantasias e muitos sonhos surfavam nas ondas do rádio.
Ah! A lua da jovem apaixonada ficava mais perto. Sempre ele, o rádio, a nos informar.
“Um pequeno passo para um
homem, um grande salto para a Humanidade.”
A jovem dá um grande passo na década seguinte: universidade, casamento, filhos… anos 70, 80, 90…
Ganhos, perdas e algumas conquistas.
Avizinhava-se o novo século, novas tecnologias, infinitas possibilidades se descortinavam. A fiel caixinha mágica, de onde as palavras saltavam e bailavam, acompanhava a jovem mãe nas noites intermináveis, em claro, ninando as crianças com músicas para relaxar.
Virada do século, o velho amigo, agora guardado como recordação, fora substituído por outro que cabia na palma da mão. A mãe torna-se “mãe de sua mãe” já muito idosa e frágil.
Noites e dias em que os sonhos misturavam-se aos pesadelos da dura realidade. Novamente o rádio, companheiro inseparável, aplacava a angústia e informava. Era a rádio que tocava a notícia, no sem-tempo para leituras.
E foi num desses dias, na segunda década do novo século, que a menina-jovem-mulher-e já avó ouve o chamado para enviar um texto para o programa “Conte sua história de São Paulo”. Já corria a década de 2010.
A emoção de ouvir um texto, sonorizado com esmero, lido com a voz inconfundível do âncora, Milton Jung, foi mágica! Acontecia o inusitado encontro da caixinha proseadora com a prosa literária daquela que ama conversar com o leitor e ouvinte.
Nascia a escritora que havia engavetado suas escritas ao longo de muitas décadas.
As ondas do rádio, agora saídas também da palma da mão que carrega o celular, inundaram e fertilizaram a criatividade da vovó. 2022.
Incentivada pelos textos acolhidos e divulgados, a avó ainda surfa nas ondas do rádio. Ondas que a levaram além mar… Escreve nas nuvens, literalmente, a caminho de Lisboa. Vai lançar seu livro na maior feira lusófona do mundo: a 92a Feira do Livro de Lisboa. Ensaia os primeiros passos no mundo literário… mas precisa escrever sua história com o rádio!
Gratidão ao rádio e a Rádio CBN, que toca notícias, corações, e proporcionou à menininha do passado navegar por ondas e “mares nunca dantes navegados”.
Marina Zarvos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem dessa cidade. Escreva seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
“Empresas que tem mais mulheres, e mais mulheres na liderança tem 30% a mais de lucro e têm mais chance de sair de uma crise”.
Cláudia Securato, advogada
“Filha única” de uma família de quatro irmãos, com uma pai “complicado” – seja lá o que isso possa significar -, e sem jamais ter acatado a ideia de que cuidar da casa é coisa de mulher. Cláudia Securato levou à advocacia o legado desse desafio que se impôs em criança. Hoje, lidera um escritório que é predominantemente feminino e se dedica a estudar o tema da igualdade de gênero – ela é sócia do Securato & Abdul Ahad Advogados. Foi esse o foco de seu mestrado de Direito na FGV, em São Paulo, e o assunto da nossa conversa no Mundo Corporativo, da CBN. Que fique claro, Cláudia está à frente de tantas outras causas jurídicas quantas forem possíveis e interessantes, assim como jamais imaginou ser advogada de uma “nota só”. Porém, especialmente depois da maternidade entendeu que havia a necessidade de ajudar às pessoas a se conscientizarem da existência das diferenças de tratamento e da importância de combatê-las:
“Eu vi mulheres brilhantes desistindo de tudo, desistindo exatamente por sentir as discriminações, por sentir os assédios, por sentir as microagressões, por sentir que não iam conseguir lidar com essa desigualdade”.
O desrespeito não aparece necessariamente no salário que homens e mulheres com funções e responsabilidades iguais recebem. Nesse caso, a folha de pagamento da empresa deixa explícita a desigualdade. A discriminação é menos perceptível no cotidiano do trabalho, no comportamento que as pessoas dedicam, na falta de espaço para a fala da mulher e nas promoções que são realizadas. A maternidade, por exemplo, segue sendo uma barreira para muitas profissionais, especialmente as com menos escolaridade. De acordo com o IBGE, 40% das mulheres com 14 anos ou mais de estudo não têm filhos; enquanto apenas 20% das mulheres com três anos de estudo não têm filhos. A medida que têm mais conhecimento, essas mulheres preferem deixar a maternidade de lado para seguirem crescendo profissionalmente.
Outro ponto que aflige às mulheres, de acordo com Cláudia, são os assédios sexual e moral, que mesmo coibidos por lei não deixam de se realizar nos ambientes de trabalho. Apesar de haver jurisprudência na punição a esses atos, ela diz que são centenas de juízes e desembargadores que podem dar decisões completamente diferentes conforme a queixa — centenas de juízes e desembargadores homens, faço questão de lembrar, para deixar evidente como os vieses, inconscientes ou não, pesam nessas decisões, em prejuízo às mulheres.
“Sem dúvida, existe viés de gênero e nas decisões judiciais existe inclusive um protocolo de julgamento com perspectiva de gênero que é uma recomendação do CNJ – Conselho Nacional de Justiça para que os juízes magistrados entendam e olhem com outras lentes as questões que envolvem raça, gênero, diversidade religiosa e todas as outras questões que a gente vem tratando por aí. Então, existe sim um movimento para isso, mas também não é uma obrigação. O CNJ recomenda que exista uma tela, um olho para igualdade de gênero e para raça nos julgamentos”.
O Governo Lula apresentou no dia 8 de Maio projeto de lei que reforça o direito a igualdade salarial entre homens e mulheres e pune o empregador com multa equivalente a dez vezes o maior salário desembolsado pelas empresas. Multa que dobra diante da reincidência. Cláudia, no entanto, alerta: esse valor vai para o cofre da União e não para a mulher discriminada. Mesmo considerando que esse dinheiro deverá ser usado nos programas de amparo ao trabalho, ela defende que parte desse valor beneficie a mulher que foi vítima da desigualdade. A despeito de melhorias que a legislação precisa, Cláudia vê de forma positiva a criação, por exemplo, de um grupo de trabalho no governo, com participação da sociedade civil, que poderá avançar nos aspectos que ainda impedem que a igualdade de gênero se realize.
Alguns números que surgiram na nossa conversa e gostaria de compartilhar com você:
O Fórum Econômico Mundial identificou que existe uma diferença salarial entre homens e mulheres de 40%, no mundo;
As mulheres levarão 70 anos para alcançar a igualdade salarial, conforme estudo da Universidade de Coimbra com a OIT — a Organização Internacional do Trabalho
Um estudo global diz que empresas que têm mais mulheres e mais mulheres na liderança têm 30% a mais de lucro e tem mais chance de sair de uma crise (sim, eu já escrevi isso lá no alto, mas repito para não esquecer)
E se nada disso o convence da necessidade de juntos lutarmos por essa igualdade, pense no dinheiro que seu negócio está perdendo: mulheres são 54% da força de trabalho no Brasil e são grandes consumidoras;
Algumas dicas de como eu e você podemos participar desta transformação:
Olhe as pessoas que estão trabalhando com você
Entenda o sentimento delas no ambiente de trabalho
Exercite a escuta ativa (talvez você não tenha percebido, mas há microagressões se realizando aí na sua empresa)
Conscientize-se da necessidade de mudar este cenário
“Endereçar o tema! Eu acho que a conscientização é mais importante. A pessoa que está preocupada com isso, ela tem muito mais chance de acertar do que a pessoa que tá achando que isso é desnecessário, que a gente já tá em 2023 e não precisa mais falar disso, que as mulheres já chegaram lá. Não é verdade!”
Para saber mais, assista agora à entrevista completa do Mundo Corporativo que tem as participações do Renato Barcellos, do Bruno Teixeira, da Priscila Gubiotti e do Rafael Furugen:
O carteiro da minha rua chamava-se Valter Alito. Durante toda a minha infância, eu o vi diariamente subindo ou descendo a rua de terra em que morávamos, no bairro do Jaçanã. As rajadas de vento faziam levantar nuvens escuras de um pó fino e pegajoso, que travava a garganta; e quando chovia, a rua desaparecia em um imenso lamaçal.
Ele fazia parte da rua, pois com chuva ou sol, lá vinha ele assobiando, vestindo sua farda surrada, com passos decididos e uma pesada bolsa de lona nos ombros. Tinha a habilidade de transformar aquele trabalho aparentemente ruim em algo bom e divertido. Penso que o Valter nasceu para ser carteiro.
Eu olhava com admiração para aquele homem franzino, rosto minúsculo, nariz fino, olhos da cor da distância e olhar amigo, afinal ele usava quepe; que eu era louco para colocar na minha cabeça.
Não foram poucas as vezes que, para o delírio da molecada, ele se meteu em nossas peladas de futebol. Dois ou três dribles, um chute certeiro, e lá ia o Valter, agora com os sapatos sujos, para cumprir o resto de sua jornada.
O Valter era responsável por encurtar distâncias e construir pontes entre pessoas, trazendo notícias de parentes e amigos. Conhecia os moradores pelo nome, e não raras vezes parava para um dedo de prosa com o meu pai. Falavam de política, comentavam sobre a carestia ou algum acontecimento no bairro. Todos o respeitavam e o tratavam como autoridade. E o era, pois nem os cachorros da rua ladravam com ele.
Foi o Valter Alito que trouxe o telegrama avisando da morte da minha avó, em um sete de setembro cinzento. Também era ele que entregava as cartas de parentes, que às vezes deixava a minha mãe triste e preocupada. Eu não entendia bem por que, mas sabia que aquelas cartas sempre traziam más notícias. Mas o Valter também trazia agradecimentos, afetos, conselhos, pedidos, sentimentos e saudades, dentro de envelopes.
O tempo passou, o carteiro deixou de ter a mesma importância para as pessoas, e eu não sei onde foi parar o Valter, mas jamais esquecerei a forma como ele tratava as pessoas. Com certeza, ele já não entrega cartas e cartões de Natal. Pena porque me restou uma pergunta não feita: o que será que o Valter pensava de nós?
Luiz Alves e o carteiro Valter são personagens do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Seja você também mais um personagem de São Paulo. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, viste o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.
A fábula “a Piúva e o Jabuti” foi escrita por Monteiro Lobato
“Jabutis e marcas não ficam fortes da noite para o dia. Obedeça ao ciclo imposto pela biologia das marcas e da sua natureza!”
Jaime Troiano
Que o Jaime é um ótimo contador de história já sabemos. Quem ouve o Sua Marca ou o conhece pessoalmente já foi absorvido pelos casos que conta quase sempre relacionando-os ao branding. Desta vez, ele nos deliciou com uma fábula que leu ainda criança. Foi escrita por Monteiro Lobato e publicada pela primeira vez no livro “Fábula de Narizinho”, em 1921:
Brigaram certa vez o jabuti e a piúva.
– Deixa estar! – disse esta furiosa – deixa estar que te curo, meu malandro! Prego-te uma peça das boas, verás…
E ficou de sobreaviso, com os olhos no astucioso bichinho que lá se ria dela sacudindo os ombros. O tempo foi correndo… o jabuti esqueceu-se do caso; e um belo dia, distraidamente, passou ao alcance da piúva. A árvore incontinente torceu-se, estalou e caiu em cima dela.
– Toma! Quero ver agora como te arrumas. Estás entalado e, como sabes, sou pau que dura para cem anos…
O jabuti não se deu por vencido.
Encorujou-se dentro da casca, cerrou os olhos como para dormir e disse filosoficamente:
– Pois como eu durmo mais de cem, esperarei que apodreças…
Moral
A paciência dá conta dos maiores obstáculos.
As marcas se parecem muito mais com jabuti, nos ensinou Jaime com a concordância de Cecília Russo. Para eles, a consciência fundamental é de que as marcas não são entidades perecíveis. E a ação do tempo serve muito mais para testá-las e adaptá-las a novas conjunturas do que para imobilizá-las e destruir sua vida interna.
Três lições da fábula “A piúva e o jabuti”:
O movimento frenético e grandes ações acrobáticas, como fez a piúva, não é o que de mais importante podemos fazer pelas marcas que administramos. Elas exigem muito mais serenidade e a visão de médio e longo prazo do jabuti.
“Não me parece que a pressão de mídia, a pressão digital apenas resolvam. São coisas que inflam mas não constróem marcas fortes. Cessado o efeito imediato da pressão de mídia e digital, elas murcham”.
Cecília Russo
2. O jabuti tem casco duro e uma resistente vida interna. O importante é a consciência de que, se por um lado o casco é suficientemente forte para aparar a pancada que vem de fora – dos concorrentes, dos inimigos – por outro, a vida interna da marca é o que dá certeza de que ela continuará a existir.
“Vocês já se deram conta de quantas piúvas já caíram sobre o “casco” de Omo, ou do Itaú, ou da Sadia? E quantas ainda vão cair?
Cecília Russo
3. O valor da marca está muito associado à sua longevidade. Os jabutis não são eternos nem as marcas tampouco. Porém, também não são seres efêmeros. Imediatismo é o tipo de coisa que não combina nem com marcas nem com jabutis.
Ouça o comentário completo do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso que foi ao ar, sábado, às 7h50 da manhã, no Jornal da CBN, com sonorização de Paschoal júnior:
No Conte Sua Historia de São Paulo, uma homenagem a Rita Lee, nascida em 1947 e vivida, boa parte de seu tempo, na Vila Mariana. Morta na segunda-feira, dia 8 de maio, aos 75 anos. Rita era apaixonada pela cidade. Selecionamos um dos capítulos do livro RITA LEE: UMA AUTOBIOGRAFIA para expressar essa relação dela com a capital paulista, quando escreve sobre as visitas que a família dela, a familia Jones, fazia ao parque do Ibirapuera:
Floresta encantada
Antes de virar parque, a floresta do Ibirapuera era o lugar perfeito para os piqueniques dos Jones, domingo sim, domingo não.
Socadas no Jeep com Charles pilotando, as seis mulheres equilibravam cestas de comidas e ferramentas de jardinagem.
Estacionávamos em frente ao Instituto Biológico e de lá seguíamos a pé dois quarteirões até a entrada da floresta.
A imensidão do lugar nos convidava a abrir pequenas clareiras em pontos diferentes, onde montávamos um pequeno acampamento.
Cada um de nós escolhia uma árvore ou planta para “tomar conta”, limpando ervas daninhas, juntando folhas mortas e batizando as plantas, por exemplo: pela exuberância, samambaias eram doñas Mercedes; eucaliptos eram Horácios, um primo nosso alto e magro com pele descascada; Carmens Mirandas eram as bromélias. Flores levavam nossos nomes por “usucapião estético”; e Ritas, claro, eram as marias-sem-vergonha.
A família Buscapé plantava milho, cana, melancia, café, banana, verduras, legumes. Podia-se dizer que vários cantinhos do Ibirapuera viraram uma feirinha para chamar de nossa.
O sonho acabou no quarto centenário de São Paulo, quando grande parte da floresta virou asfalto, cimento e construções de gosto duvidoso. Charles, inconsolável, se recusou a comparecer à festa de abertura. O harém foi, ficamos encantadas com as flâmulas prateadas que os aviões despejavam sobre o povo e tristes de ver nossas hortinhas destruídas.
Quando chegamos em casa, Charles disse: “Vocês por acaso sabem o que significa a palavra Ibirapuera em guarani? Ibirá = árvore, puera = lugar onde havia. Ou seja: lugar onde havia árvore. Os índios previram essa catástrofe e vocês foram lá aplaudir”. Um minuto de silêncio vergonhoso.
RITA LEE é nossa personagem no Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Claudio Antonio. Seja você também uma personagem da nossa cidade. Escreva seu texto e envie agora para contesuahistoria@cbn.com.br Para ouvir outros capitulos da nossa cidade visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua Historia de São Paulo.
Adriana Martinelli em entrevista ao Mundo Corporativo, em foto de Priscila Gubiotti
“A gente tá muito pautado hoje em dia para construir esses novos futuros em posturas diferenciadas, mas posturas que não vão conseguir fugir de processos de escuta, de processo de empatia e de um trabalho colaborativo”
Adriana Martinelli, Bett Brasil
Em um país em que sites de apostas proliferam e muitas vezes são vistos como a esperança para um futuro melhor de parcela da população — mesmo que isso seja apenas uma ilusão, triste ilusão —, preciso começar este texto fazendo o seguinte esclarecimento: Bett Brasil, nome da empresa que nossa entrevistada no Mundo Corporativo representa, é “bett” mas não tem nada a ver com aposta. Seu nome remete a origem britânica de uma série global de eventos voltados para o setor educacional que tem versão brasileira e se realiza nesta semana, em São Paulo, com o tema “Educação e trabalho para novos futuros”. Portanto, aqui não falaremos de aposta mas de investimento no futuro. Ou nos futuros, como explica Adriana Martinelli:
“Educação e trabalho para novos futuros indica que existem vários caminhos para que a gente possa chegar lá e não só um. Mas para isso é necessário a conversa, o diálogo para que a gente consiga articular todos esses agentes e desenhar atitudes eficientes e práticas hoje, porque senão a gente nunca vai chegar na realização desse futuro”.
A diretora de conteúdo da Bett Brasil entende que a despeito do futuro que se apresente é preciso voltar a conjugar educação e trabalho, temas que se distanciaram por uma série de preconceitos e prepotências dos mais diversos setores da sociedade. O resultado desse abismo que existe entre os dois mundos é que a falta de engajamento e interesse leva 45% dos jovens a ficarem distantes do trabalho e dos estudos.
“As pessoas estão saindo formadas das universidades e se deparam com o mundo real diferente do que foi ensinado dentro da sala de aula .. a gente ainda tem uma educação superior muito pautada em teorias, muito pautada no que está no livro; e pouca prática, pouca realidade”.
Apesar de olharmos o ensino superior até aqui, é preciso esclarecer que a ideia de pensar educação e trabalho em trilhas comuns e não antagônicas precisaria ser considerada desde os primeiros anos das crianças na sala de aula. Não necessariamente ensinando um emprego ou uma atividade, mas preparado-as nas habilidades socioemocionais que se farão essenciais no futuro.
Outro aspecto que deve servir de reflexão aos que se dispõem a pensar na educação é o da ampliação de horizontes para os alunos que geralmente são “preparados” para o vestibular quando há uma quantidade enorme de oportunidades no ensino técnico.
Considerando isso que Adriana Martinelli falou no programa, lembro da conversa que tive com Clarissa Sadock, CEO da AES Brasil, no episódio anterior do Mundo Corporativo. A empresa ao abrir vagas para mulheres em uma usina eólica encontrou candidatas com cursos de pós-graduação e mestrados buscando emprego em funções que exigem o ensino técnico. Isso ocorre em vários setores da economia. No agronegócio, por exemplo, operadores de máquinas conseguem salários bastante superiores a advogados, engenheiros ou arquitetos.
Voltando a entrevista com a Adriana. Um ponto interessante lembrado por ela foi ensinamento de Jacques Delors, economista e político, que apresentou o que entendia ser os quatro pilares da educação, na época em que atuou na Unesco: o aprender a ser; o aprender a conviver; o aprender a conhecer; e o aprender a fazer.
“Quando a gente começa a entender essa visão mais completa e integral do ser humano, tanto na perspectiva da educação quanto na perspectiva do trabalho, consegue talvez ajustar — eu gosto dessa palavra, principalmente em relação à proposta do novo ensino médio que ela é necessária, ajuste sempre — em relação ao nosso propósito maior”.
Tem muito mais para aprendermos e pensarmos sobre a relação educação, trabalho e futuro na entrevista que você assiste agora com a Adriana Martinelli, da Bett Brasil.