Mundo Corporativo: Rijarda Aristóteles diz que conhecimento e convicção deram protagonismo às mulheres

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“O conhecimento é algo que liberta. Talvez seja a única forma que nós, individualmente, temos de nos libertarmos”. 

Rijarda Aristóteles, Clube Mulheres de Negócios de Portugal

Construir cenários, identificar oportunidades e entraves, e analisar as perspectivas nos mais diversos setores. Esse exercício, aprendido na formação em Relações Internacionais, foi essencial na decisão de Rijarda Aristóteles trocar o Brasil por Portugal, em 2014 — um país pelo qual se apaixonou, depois de ter descartado Itália, França e Inglaterra. Foi lá, também, que deparou com um considerável número de mulheres brasileiras que desistiram de dar seguimento às suas carreiras profissionais, assim que deixaram o Brasil. Incomodada com essa situação e percebendo que eram pessoas com um tremendo potencial e baixa autoestima, Rijarda passou a se reunir com essas mulheres, sempre com a intenção de incentivá-las a serem protagonistas através do conhecimento.

“Não é o conhecimento por osmose, como eu digo. É o conhecimento profundo, o conhecimento pesquisado, conhecimento que você para e vai ler 500 vezes aquela frase até entender o que realmente quer ser dito ali.  É nisso que eu eu acredito, nisso que está a a nossa liberdade, a liberdade de ser que é muito mais do que a de ter”.

Rijarda Aristóteles é a primeira convidada de uma série de entrevistas que o Mundo Corporativo levará ao ar, neste mês, quando se comemora o Dia Internacional da Mulher. Movida por aquela tentação de traçar cenários, ela  fundou o Clube Mulheres de Negócios de Portugal, em março de 2020. Sim, o clube foi uma reação de mulheres empresárias e empreendedoras diante do enorme desafio que se iniciava com a pandemia:

“Nós tivemos que ressignificar muita coisa, muitas verdades. Nós tivemos que repensar tudo. Por exemplo, a questão emocional. As emoções começaram a ter um protagonismo que há muito era latente e que havia sempre um movimento para abafá-las, como se  fosse algo de menor importância, como se ter emoção ou expressar emoção, fosse algo frágil e por consequência algo feminino”. 

Doutora em história, Rijarda entende que, independentemente de função que exerça, cargo que ocupa e autoridade que tenha, todos nós fomos levados a repensar a forma como nos relacionamos. Houve a necessidade de uma revisão nos valores que moviam as pessoas, não apenas no ambiente de trabalho, mas um olhar para dentro:

“Percebemos que a finitude era palpável. Aquela ideia de que não tínhamos tempo de parar para pensar e seguíamos adiante; que nós éramos seres quase infinitos. Que não morreríamos. A morte foi muito latente nesse período”.

Na mudança de comportamento ou, ao menos, na revisão de comportamento, ganhou-se do ponto de vista pessoal. Uma vitória com impacto coletivo, na avaliação da empresária brasileira, nascida em Fortaleza, mãe de Artur e esposa de Giovanni, como se apresenta em redes sociais. No ambiente de trabalho, os líderes foram levados a avaliar melhor sua relação com os colaboradores, pois perceberam quão estava defasada a ideia de que o funcionário está na empresa para servir e, em troca do serviço, recebe salário. Foi um basta no utilitarismo:

“Hoje em dia, nós temos que pensar o funcionário como um ser humano que passou assim como eu por todo esse esse processo. Ninguém ficou  impune pelo que nós passamos”. 

Esse novo olhar, que considera a saúde emocional dos profissionais, também pautará os planos de retorno ao ambiente de trabalho que, na avaliação de Rijarda, não será mais 100% home office, porque nem todos os negócios das empresas estão adaptados para essas condições. Seja híbrido ou seja presencial, ela recomenda que os colaboradores sejam chamados para participar desse debate, pois o ambiente de trabalho é dele, devendo se transformar em um espaço de bem-estar que permita que todos cresçam profissionalmente e de forma saudável. 

O Clube Mulheres de Negócios de Portugal é uma plataforma que une mulheres que falam a língua portuguesa e torna acessível o conhecimento e a realização de negócios. As mais de 100 integrantes, que são identificadas como embaixadoras, que estão em oito países e quatro continentes, terão a oportunidade de se encontrar presencialmente, nessa semana, nos dias 7 e 9, em Porto e Lisboa. Oportunidade para avançarem no debate sobre o protagonismo feminino no cenário corporativo que, para Rijarda, é uma realidade sem volta, porque as mulheres não permitirão esse retorno. 

As transformações vieram pela convicção e pelo conhecimento, explica Rijarda, a medida que as mulheres estão mais bem preparadas, estudam mais, têm mais mestrado e doutorado, e publicam mais artigos:

“Se você empresário não pensa na mulher como uma parceira, do ponto de vista da equidade, para que seu negócio cresça, você está dando tiro no pé”.

Assista à entrevista de Rijarda Aristóteles ao Mundo Corporativo.

O Mundo Corporativo vai ao aos sábados, no Jornal da CBN, e aos domingos, às 10 da noite, em horário alternativo. O programa é gravado às quartas-feiras, 11 horas da manhã, quando você pode assistir pelo canal da CBN no Youtube, no Facebook ou no site da CBN. Colaboram com o Mundo Corporativo: Renato Barcellos, Priscila Gubiotti e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: o rádio que me aproxima da família paulistana

De Lucimar de Souza Fernandes  E. Santo

Ouvinte da CBN 

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Minha história com São Paulo começou quando, ainda bem criancinha, morava com a família em Belo Horizonte, onde vivo até hoje. Meu pai, um cidadão da pequena cidade de Santa Maria de Itabira, no interior de Minas, foi trabalhar em São Paulo com alguns irmãos, levado pela mesma motivação que até hoje muitos brasileiros o fazem: ganhar dinheiro para melhorar a vida. Ingressou na construção civil, na região de Santo Amaro. As preocupações com a família e a saudade falaram mais alto e ele voltou —  decepcionado com a cidade, pois a única irmã havia morrido atropelada nas comemorações do aniversário da grande metrópole. Ele nos trouxe presentes que até hoje ainda temos. 

Muitos anos depois, eu já uma jovem, quando retornava de um dia cheio de trabalho, sinto meu coração bater diferente e mais forte ao me encontrar por acaso, se é que ele existe, com um jovem rapaz, portador de um ar interessante que também esperava o ônibus. Conversa vai, conversa vem e adivinhem onde o rapaz nasceu? “Sou de São Paulo, nasci em Santo André”. A família dele havia se mudado para Belo Horizonte. 

Como a política do café com leite funcionou durante muito tempo aqui estamos hoje com 32 anos de casados. E São Paulo, desta forma, entra definitivamente na minha vida.

Em uma das viagens à cidade, nosso filho caçula, naquela época na fase do desfralde, nos fez parar na Avenida Paulista em busca de um banheiro para que ele pudesse se “aliviar”. Eu não tinha a menor noção do que essa avenida representava para os paulistanos e a sua grande importância na cena cultural e na economia de nosso país. 

O tempo passou, os filhos cresceram. Meu primogênito, então, escreveu mais um capítulo da nossa história com a cidade. Engrossou a fileira dos milhares de profissionais que fazem com que São Paulo se consolide como uma grande metrópole, com todos os problemas inerentes a elas, mas que também parece nos dizer: “venham… venham.. venham crescer e se desenvolver; aqui sempre cabe mais um, que queira trabalhar e superar as dificuldades de viver no coração econômico da América do Sul” . 

Hoje, ele está casado com uma mineira. Meus dias são mente e coração divididos entre Belo Horizonte e São Paulo. A melhor estratégia para equilibrar tudo isso é ouvir a CBN, em São Paulo, para saber como estão as coisas no bairro onde trabalham e moram meu filho e minha nora. 

As notícias sempre nos rendem alguns assuntos em família. Para mim, ouvir a rádio dá a sensação de que em alguma medida estou mais próxima deles e até compartilho do seu dia a dia: já sei como está o tempo, o trânsito, a política e o cotidiano. Isso ameniza a minha saudade e nos aproxima. Mesmo com todos os recursos tecnológicos disponíveis tenho a sensação que a rádio segue sendo um elo importante para quebrar a barreira de cada um viver em um lugar tão diferente e distante do outro. 

Lucimar S. F. E. Santo é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capítulo da nossa cidade: escreva para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outras lembranças, visite agora o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca: 1922 o ano que não aconteceu no branding

Cartaz da Semana de Arte Moderna de 1922. Foto: Reprodução/ SMC de SP

“As repercussões dos ares de 1922 praticamente nunca chegaram à nossa vida em marketing e branding”  

Jaime Troiano

Havia um tom de lamento. De exaltação, também. Havia uma mistura de sentimentos quando Jaime Troiano e Cecília Russo propuseram uma conversa, no último programa de fevereiro, sobre o impacto da Semana de Arte Moderna de 1922 no marketing e no branding. O estrangeirismo que permanece a identificar essas duas matérias diz muito sobre as influências que realmente foram significativas na prática, aqui no Brasil. 

“Somos herdeiros diretos na mentalidade americana e europeia de como fazer branding. Os livros, os cursos, os treinamentos, os exemplos vêm sempre de lá”.

Cecília Russo

Mário de Andrade, Anita Malfatti, Menotti del Picchia, Oswald de Andrade, e Villa Lobos, dentre outros, causaram espanto na sociedade e se surpreenderam com a dimensão que tomou esse movimento realizado em três dias oficiais de atividades, em São Paulo No Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, Jaime exaltou  a influência da Semana que completou 100 anos e as raízes deste movimento que penetraram profundamente em manifestações culturais, mesmo muitos anos depois.

Lembrou o tropicalismo de Gil, Caetano e Gal, que chegou 45 anos depois também com a intenção de redescobrir o Brasil, a partir de um olhar próprio, sem vergonha de trazer referências internacionais. Jaime identificou ainda a ruptura da Bossa Nova, comparada com a época dos sambas-canção e músicas de dor de cotovelo, como herdeira na busca de algo que fosse autenticamente brasileiro.

E o branding? A gestão de marcas? 

“Tudo, ou quase tudo que se faz em Branding, é fruto de uma inspiração técnica, metodológica, conceitual do que aprendemos e do que vimos os americanos, em primeiro lugar, fazer. Em segundo lugar, com alguns países da Europa, talvez Inglaterra mais do que os demais. E em áreas como design há algumas, não muitas pistas, que vieram de países asiáticos”.

Cecília Russo

Uma crítica? Não, uma constatação, a partir de uma realidade que pode ser vista pela ótica de Eduardo Giannetti. O economista, professor e autor do livro “Tropicos Utópicos” discute o quanto nosso destino como nação oscila entre o modelo Mimético e o Profético. 

O Mimético é o que tem inspirado até hoje a nossa história, na busca pelo desenvolvimento, reproduzindo o caminho que aprendemos com países ocidentais avançados. O Profético é aquilo que é criado pelas nossas próprias tradições, pelo estilo próprio de nossa cultura sincrética de tantas origens que se mesclaram em nosso país. 

“O Profético depende de um olhar corajoso para si mesmo, para nós mesmos, como fizeram os protagonistas da Semana de 1922 nas artes. Creio que o Giannetti está sugerindo em seu livro, não é abrir mão de uma das duas visões, simplesmente. Mas a verdade é que o peso da visão Mimética tem sido absolutamente predominante, no branding”. 

Jaime Troiano

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso com Jaime Troiano e Cecília Russo; e sonorização de Paschoal Júnior

O Sua Marca Vai Ser Um Sucesso vai ao ar no Jornal da CBN, aos sábados, às 7h50 da manhã.

Mundo Corporativo: Ricardo Guerra, CIO do Itau, diz que a transformação digital começa na mudança de cultura da empresa

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“Aprender o que a tecnologia de hoje significa, como é que ela é utilizada, como é que ela faz parte do business, propriamente dito: esta é, sem dúvida nenhuma, o grande desafio para as empresas”

Ricardo Guerra, Itau

Sabe o cara da TI? Mudou de cara! Antes era o jovem que você chamava para dar um jeito no computador da empresa que estava lento, ajudar a baixar um programa e, quantas vezes, resolver uma questão crucial para começar o trabalho: “esqueci minha senha”.  Não que esse cara não esteja lá para dar aquela força, mas a tecnologia da informação, há muito tempo, mudou seu perfil: de área de suporte para a de estratégia.  Falei do assunto com Ricardo Guerra, CIO do Itau, instituição que atua no setor bancário um dos que sofreram maior impacto com a transformação tecnológica.

“Se voltarmos uns 20 anos, até menos, a tecnologia era vista pelas empresas como uma área de apoio. As empresas terceirizavam a tecnologia. Era uma grande fábrica de projetos. Eu tenho uma ideia e a tecnologia me entrega para que esta se torne realidade”

Das mudanças que surgiram, Ricardo pontuou o fato de as empresas terem passado a usar a tecnologia como vantagem competitiva, especialmente aproximando-a do cliente:

“ … para que a tecnologia entendesse qual o problema do cliente, onde estão as oportunidades e como é que ela trabalha para agregar valor pra organização no fim do dia”.

Toda esse progresso exige muito mais dos profissionais de tecnologia de informação. Um aprofundamento em temas que pareciam distantes da área como a antropologia, porque no momento em que se pensa em soluções para as pessoas é preciso entender o comportamento delas. O Ricardo, nosso entrevistado, assistiu a essa evolução dentro do próprio Itau, onde trabalha desde 1993. Para ter ideia, o grande passo tecnológico naqueles anos iniciais foi a implantação do primeiro site do banco na internet brasileira:

“Foi em 1995. Foi uma experiência incrível, porque foi uma inovação tecnológica gigantesca para gente. Não tínhamos o conhecimento para isso. Muitos de nós, tiveram que parar para estudar que tipo de tecnologia a gente estava falando. Era desconhecido! Tivemos que parar para profissionalizar o uso da internet para que a gente pudesse levar isso até o cliente. Foi um momento de carreira muito interessante de muito aprendizado”.

A complexidade da transformação tecnológica — termo usado pelo Ricardo na nossa conversa —- impõe desafios aos líderes que estão à frente das equipes de trabalho, como é o caso dele que assumiu o cargo mais alto na área da tecnologia do banco, o de Chief Information Officer. Na entrevista, o CIO do Itau identificou três ações importantes que os líderes devem realizar. O primeiro movimento foi uma mudança de metodologia de trabalho mais ágil, mais integrado, mais colaborativo e mais próximo do cliente e do negócio. Apenas com essa mudança cultural foi possível dar o segundo que foi um processo mais agressivo de mudança tecnológica. E o terceiro passo foi a integração da tecnologia com as diversas áreas do negócio.

“E tudo isso embasado por uma grande mudança cultural de empoderamento, de menos hierarquia, de mais leveza no trabalho. Aqui tem uma série de elementos de mudança de ambiente de trabalho, de mudança de como os líderes falam e incentivam as pessoas, inspiram as pessoas”.

No começo da nossa conversa, Ricardo não aceitou o título de o “cara da tecnologia”, disse que o setor depende de dezenas de outras pessoas, do trabalho em equipe e da colaboração. Agora, com certeza, ele tem a cara dos novos profissionais de tecnologia, porque apesar de ter iniciado sua carreira há 29 anos, soube mudar sua forma de atuar, pensar e liderar equipes.

Assista à entrevista completa com Ricardo Guerra, CIO do Itau, no Mundo Corporativo, que está completando 20 anos: 

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos. 

Conte Sua História de São Paulo: meu time de amigos da rua Tupi

De Hélio Roberto Deliberador

Ouvinte da CBN

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Cheguei em São Paulo, em 1961, vindo da cidade de Londrina, norte do Paraná, onde nasci. Era vizinho da família do Prof. Mário Sergio Cortella, de quem me tornei amigo, quando nos encontramos na PUCSP. Nessa universidade, estudei e me tornei docente. Até hoje, tenho o privilégio de frequentar o bonito prédio, que a cidade conserva, nas terras altas de Perdizes.

Quando chegamos em São Paulo, eu, então um garoto de 6 anos, e minha família fomos morar em um pequeno prédio na Rua Tupi, no bairro do Pacaembu. Havia sido construído por um senhor imigrante, que sonhava com uma cidade de prédios baixos, valorizando a paisagem urbana. Esse prédio tem uma arquitetura que lembra construções de velhas cidades da Europa e, entre seus moradores, ainda vive umas das filhas (quase centenária), desse construtor, guardando a memória de outros tempos dessa cidade. No prédio foram gravadas cenas da série da TV, Segunda Chamada.

Assim, recém-chegado, passei a viver naquele espaço de São Paulo, uma cidade que crescia, e ainda era amistosa para as crianças. Fiz amigos na rua, que eram vizinhos. Ali, fui crescendo e aprendendo as brincadeiras compartilhadas pelas crianças da época. Para dizer da amabilidade paulistana daqueles tempos, contarei a vocês nossas experiências de infância como jogadores de futebol da rua. Treinávamos na Tupi e o gol era delimitado pelo poste da esquina com a Rua Dr Veiga Filho, uma íngreme ladeira, onde, no alto, fica o Hospital Samaritano, também prédio ainda preservado na cidade e bastante bonito de se ver. 

O meu time mandava seus jogos nos jardins de frente do Estádio Municipal do Pacaembu, na Praça Charles Miller.

Eram tempos dos jogos do Santos de Pelé e Cia. E, nós, garotos, ingenuamente, sonhávamos um dia também sermos jogadores profissionais. Às vezes, assistíamos aos jogos no estádio, para o que pedíamos a torcedores pagantes que nos acompanhassem para entrarmos de graça. Na época, o Pacaembu exibia a Concha Acústica, onde depois foi construído o Tobogã, recentemente demolido. 

O time era composto por mim – zagueiro central, pelos filhos do dono da mercearia de secos e molhados, que ficava na esquina da Tupi com Veiga Filho, Ninão e Neto. Ninão era craque e nosso capitão. Tinha ainda  o Júlio, o Dinei, o Marcelo… Nomes de que ainda lembro, passados mais de  50 anos. Tínhamos um admirador: um homem morador de rua, que apelidamos de Zóinho. Mais tarde, vim saber que era um advogado que se desiludiu com a esposa, se entregou ao álcool e à vida naquela rua Tupi. Nossas famílias doavam roupa e alimento ao Zóinho, colaborando para sua sobrevivência, em uma espécie de agradecimento por seu apoio ao time dos garotos.

Na mercearia dos pais de Ninão, comprávamos pão e leite, pagos, ao fim do mês, conforme o registro manuscrito na caderneta. O leite vinha em garrafas de vidro. Eram retornáveis e devolvidas em engradados de arame para o caminhão que toda madrugada, trazia o leite de cada dia para o nosso cafés da manhã.

No fundo do hospital Samaritano, havia um grande terreno de árvores frutíferas, onde brincávamos de mocinho e bandido. Por vezes, o zelador ralhava com a molecada e de posse de uma espingarda de pressão, dava tiros de sal, que ardiam nas ágeis pernas, com que fugíamos do inimigo. Brincávamos ainda de empinar pipa, jogar bolinha de gude, bater figurinhas, jogar queimada, carrinho de rolimã e taco. Enfim, muitas brincadeiras e histórias desse tempo que vai longe… Tempo de São Paulo,  da cidade amiga das crianças.

Hélio Roberto Deliberador é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Sua Marca Vai Ser Um Sucesso: a Belina, o branding, o mocinho e o vilão

 

Anúncio de revista da Belina Ford 1987

“Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente?”

Jaime Troiano

Quem já teve carro a álcool  — álcool raiz, não esse etanol moderno que temos hoje — sabe o drama que era ligar o motor nas manhãs de inverno. Precisava injetar gasolina, tentar uma ou duas vezes, torcer para não forçar a bateria e, às vezes, deixar o motor ligado por algum tempo para não sair titubeando pelo caminho. 

O Jaime, nosso colega do Sua Marca Vai Ser Um Sucesso, teve um Passat – Passat raiz, não este alemão e chique que roda hoje em dia. Era a álcool e câmbio mecânico. Dureza! Um dia, um amigo deu-lhe  carona em uma Belina à gasolina e automática. “Ainda vou ter uma dessas”, pensou Jaime, que assim que chegou ao trabalho esqueceu da promessa que fez a si mesmo. Algumas semanas depois, abriu a revista Quatro Rodas e deparou com o anúncio da Belina a espera dele. Mas sabe como é …. projeto pra entregar, família pra cuidar. Deixa o desejo da troca de carro para outro dia. Duas semanas depois, ele passou diante da concessionária Ford e voltou a ver a Belina dos sonhos. Entrou, negociou, barganhou e levou. 

Ouça o Sua Marca Vai Ser Um Sucesso e descubra qual foi o destino da Belina do Jaime Troiano

O que o fez comprar: a necessidade de um carro mais moderno, a experiência que teve com o amigo, o anúncio na revista ou a fachada da loja no caminho de casa?  Ele próprio responde: a mistura de desejo e necessidade. É assim que costuma funcionar nossa jornada de compra, do carro (nem álcool nem gasolina, eu sonho com um elétrico) à camisa; do computador ao sapato. Quem faz a gestão de marcas sabe como isso funciona, tem estratégias para conquistar o cliente mas precisa ter consciência de que não pode criar armadilhas. 

A história e a reflexão que se seguiu surgiram no Sua Marca Vai Ser Um Sucesso depois que perguntei ao Jaime Troiano — o dono da Belina — e a Cecília Russo — que não sei se algum dia pegou carona no carrão dele — se o branding é mocinho ou vilão do consumidor. 

“É uma questão que invade o território ético. Será que somos nós os culpados de criar desejos antes ainda inexistentes, e contribuir para o consumo pouco consciente? Já refletimos muito sobre isso, e nossa conclusão é que essa dualidade, mocinho e bandido, não faz muito sentido.”

Cecília Russo

Quando profissionais de branding fazem seu trabalho a partir de marcas sérias e comprometidas com suas entregas, produtos e serviços, estão atuando dentro de limites éticos e atendendo a necessidades das pessoas, explicam Jaime e Cecilia. Um exemplo, para ir além da Belina, é quando sentimos sede. Não é  a marca quem provoca essa sede. A sede nos leva a marca. E aí sim entra o trabalho do branding: direcionar a pessoa que sente sede para um determinado produto. 

“Seres humanos somos uma fábrica de desejos. Eu já os tenho dentro de mim e são esses desejos que me levam ao consumo. As marcas fazem parte daquela equação que já falamos no programa: o que eu sou mais alguma coisa que me falta, é uma soma, digamos assim, que me conduz ao que eu quero ser, ao meu eu ideal”. 

Cecília Russo

Leia aqui mais sobre a equação citada por Cecília Russo

Estar comprometido com a transparência e desenvolver o projeto de branding baseado na verdade da marca e em um profundo conhecimento das pessoas a quem elas se destinam é uma responsabilidade que os profissionais da área têm de assumir.  

“Branding não é uma máquina de vendas. É um caminho para criar significados autênticos para as marcas satisfazerem necessidade e desejos igualmente autênticos nos consumidores”

Jaime Troiano

Mundo Corporativo: Flávia Ávila, da InBehaviorLab, fala do frete grátis e do comportamento do consumidor

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“Quanto mais você entende você, mais você consegue fazer coisas efetivas para o outro”

Flávia Ávila, InBehaviorLab

Foi nosso colega de CBN, Thassius Veloso que, brincando com seus seguidores no Twitter, escreveu dia desses que duas expressões que ele adora ouvir é “eu te amo” e “frete grátis”. Thassius sabe do que fala. Entende muito do cenário digital e acompanha o crescimento do comércio eletrônico no mundo, tanto como profissional quanto como consumidor. Para as reações diante da primeira expressão, recomendo a leitura do livro “Por que amamos”, do filósofo Renato Noguera. Para nosso comportamento frente a entrega de graça, sugiro a entrevista com Flávia Ávila, da InBehaviorLab, no programa Mundo Corporativo. 

Flávia é mestre em Economia Comportamental, pela Universidade de Nottingham, na Inglaterra; organizou o primeiro Guia de Economia Comportamental e Experimental, do Brasil; e criou a InBehavior Lab — consultoria em que aplica o conhecimento e a experiência desenvolvidos ao longo de seus estudos e carreira. Aliás, a tese de doutorado dela foi sobre o frete grátis, inspirada na observação de que, na época em que estudava em Londres, livrarias já vendiam livros na loja ou na internet pelo mesmo preço, não cobravam o valor da entrega:

“A teoria racional diria que poderíamos cobrar um valor pequeno para a entrega, que o consumidor nem sentiria. Depois de ter estudado o assunto, aprendi que quando o consumidor já planejou a compra e vê aquele frete, por menor que seja, pensa: será que não tem outro mais barato?”

A Economia Comportamental ensina que nós sempre comparamos as coisas e quanto menos comparações nós tivermos, mais rapidamente vamos agir. No caso, fechar a compra. Ensinamentos que surgem a partir de uma série de experimentos e instrumentos de medição de comportamento que ajudam na elaboração de estratégias do comércio – e não apenas o eletrônico. 

Flávia destaca uma das ferramentas que usa na consultoria que é o experimento de campo, aplicado, por exemplo, em uma ação da Heineken para reduzir o número de motoristas que consomem álcool. Os pesquisadores promoveram nos bares pequenas intervenções que levavam o motorista a parar e pensar no hábito de misturar bebida e direção. Uma das medidas foi convidá-los a assinar o “juramento do motorista” e em troca ganhavam uma porção de batatas fritas. Mesmo que informal, ao colocar o nome no papel, o motorista assumia com ele próprio o compromisso de não beber. Resultado: nos locais em que houve a intervenção reduziu-se em 25% o número de motoristas que bebiam.

Os estudos sobre o comportamento do ser humano também servem para que o consumidor tenha mais consciência das atitudes que adota, evitando alguns padrões que podem ser prejudiciais e oferecendo a possibilidade de escolhas melhores:

“A gente observa que, quando tem uma coisa muito incerta como agora, tendemos a exacerbar, amplificar, o que chamamos de vieses: essa tomada de decisão mais impulsiva, instintiva, emocional. Por quê? Porque a gente está sobrecarregado mentalmente e algumas decisões tomamos de forma corriqueira e sem consideramos (seus efeitos)”.

Por falar em vieses. Flávia alertou para a influência que os vieses de confirmação e o de ancoragem geram nas nossas decisões. O primeiro se caracteriza diante da busca de certificações que apoiem a nossa ideia. Porém, como estamos crentes na escolha que fizemos, a mente é incapaz de absorver qualquer mensagem que vá na contramão da nossa hipótese. O segundo, se dá a partir da autoridade que construímos diante de nossas equipes de trabalho ou grupos de convivência, que, em algum casos, confiam tanto na decisão que, mesmo desconfiando de seu resultado, são incapazes de se contrapor. É preciso ter consciência desses padrões de comportamento para permitir que novas ideias — contrárias, especialmente — surjam no cenário. 

Na conversa com Flávia, aproveitei o conhecimento dela para tratar do consumo de um produto que tem se disseminado na sociedade contemporânea —- quando deveria ser banido: a desinformação, batizada de fake news. E ela não tem uma notícia boa, não! Estudos mostram que a notícia verdadeira nem sempre é captada pelo nosso cérebro, porque ela é normal, não é absurda. Diante de uma notícia falsa, escandalosa, inédita — por exemplo, 90% das pessoas não se vacinaram — o cérebro entra em modo de atenção e capta a informação. Mesmo que reconheça ser falsa,  já está na mente e pode influenciar os processos decisórios, inconscientemente.

“Um dos pontos é fazer uma ‘dieta cerebral’. Ter noção de que mesmo quando é mentira, captamos a informação. E evitar de pegar (informação) de fontes que não são confiáveis, que vão afetar nossa decisão de agora e a nossa decisão futura”.

Assista a entrevista completa com Flávia Ávila, CEO e fundadora da InBehaviorLab, no Mundo Corporativo: o frete é grátis.

O Mundo Corporativo tem a colaboração de Bruno Teixeira, Renato Barcellos, Débora Gonçalves e Rafael Furugen.

Conte Sua História de São Paulo: roupa alinhada e sapato engraxado para passear na cidade

Aristeu de Campos Filho

Ouvinte da CBN

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Nos tempos de garoto sempre que se necessitava ir ao Centro dizia-se: “vou à cidade”. Especulo que devia ser por causa da paisagem diferente da região central, já povoada de prédios, grandes lojas e trânsito intenso, que se contrapunha ao aspecto bucólico dos bairros onde eu vivi na Zona Norte. Ali era uma paisagem quase rural: galinhas, cabras, cavalos, alguns bois; havia casas simples e térreas, vez por outra dividindo espaço com pequenos comércios; ruas de terra onde a criançada podia brincar tranquilamente; os veículos praticamente inexistiam,.

Vai daí que nossas idas à região central da Capital eram  eventos, por alterarem substancialmente nossa pacata rotina.  Ariovaldo e eu vestíamos cada qual a melhor roupa e calçávamos o melhor par de sapatos, devidamente engraxado e lustrado pelo Seu Aristeu.

Meu pai era bancário e o antigo IAPB – Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Bancários tinha um corpo médico excelente, que atendia na sede da Conselheiro Crispiniano, quase na esquina com a Sete de Abril.  Minha saúde era problemática – devido à bronquite que me afligia praticamente desde a saída da maternidade, felizmente curada aos dez anos – e frequentemente a Dona Cida, minha mãe, me levava até lá para consultas. 

Para chegar havia duas alternativas. Algumas vezes descíamos do 56-Vila Gustavo/Anhangabaú (linha de ônibus operada pela Empresa Auto Ônibus Parada Inglesa) nas proximidades da Ponte Grande – como então era chamada a Ponte das Bandeiras – na Praça dos Esportes, ao lado da Associação Atlética São Paulo e defronte ao Clube de Regatas Tietê, dois dos muitos clubes que margeavam as águas limpas e navegáveis do Rio Tietê. Embarcávamos no ônibus Norte-Sul, da finada CMTC – Companhia Municipal de Transportes Coletivos e descíamos nas proximidades do Teatro Municipal, perto do consultório. Quando o dinheiro estava ainda mais curto, usávamos o 56 até o Anhangabaú, nas proximidades da Senador Queirós  e caminhávamos bastante na ida e na volta do consultório.

Nessas ocasiões o infalível pastel era degustado na Rua Capitão Salomão, entre o Largo do Paiçandu e a Praça do Correio.

Meu pai trabalhava no Banco de Crédito Pessoal, na Galeria Califórnia, e, por vezes, aproveitava o horário de almoço para acompanhar-nos na consulta. Sempre que seu apertado orçamento permitia substituíamos o pastel por um bauru, feito no pão Pullman bem torrado,  acompanhado por um Guaraná Brahma, servido na lanchonete, em frente ao consultório.

O trajeto e o ritual eram repetidos quando necessitávamos tirar uma foto para documento ou para alguma ocasião especial, como formatura do primário ou primeira comunhão.  As fotos eram tiradas na Rua São Caetano, perto da Igreja de São Cristóvão. Depois da sessão de fotos, o pastel era o da Pastelaria Chinesa, na mesma calçada do estúdio fotográfico.

Para comprar roupas visitávamos o comércio popular da Rua José Paulino e adjacências, no Bom Retiro. Descíamos do 56 em frente à Pinacoteca do Estado, na Avenida Tiradentes e dali fazíamos o percurso caminhando. 

Alguns anos depois, quando já morávamos na Vila Ede, a Dona Cida passou a frequentar o Brás, na região da Rua Maria Marcolina. Vez por outra, se aventurava nas ruas Direita e São Bento, mas saía sempre de mãos vazias, pois os preços eram muito altos para o nosso padrão de vida. As vitrines das lojas tinham para nós o mesmo efeito que uma máquina de assar frangos tem para os cães: somente podíamos olhar e babar.

Muito tempo se passou e felizmente eu progredi na vida, respaldado na luta de meus avós, meus pais, minha amada companheira Teresa e sem falsa modéstia no meu próprio esforço. 

Tenho 70 anos e sinto saudades. Não da vida dura de outros tempos, mas da delícia que era “ir à cidade”.

Aristeu de Campos Filho é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Escreva você também o seu texto e envie para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos da nossa cidade, visite o meu blog miltonjung.com.br e o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Mundo Corporativo: André Dratovsky, da Elleve, investe em cursos de alto impacto para mudar vida de jovens

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“Hoje a informação está muito latente. O conhecimento é muito perecível. Então para os profissionais de hoje em dia, o conhecimento precisa estar mais acessível, mais rápido e mais pontual”.

André Dratovsky, Elleve

Pode ser um curso de mecânico automotivo. Pode ser de cientista de dados. A despeito da área, o que importa é que o aluno ao ter acesso a esse conhecimento esteja capacitado a assumir funções que o mercado de trabalho mais necessita. Foi essa ideia que moveu André Dratovsky e seus sócios a criarem a Elleve, uma fintech dedicada ao financiamento estudantil de cursos livres, técnicos e profissionalizantes A plataforma conecta o estudante diretamente com as instituições de ensino e com o mercado de trabalho, ajudando na evolução da carreira profissional. 

André foi entrevistado pelo Mundo Corporativo, programa que está completando 20 anos, em 2022. A educação sempre foi uma crença do nosso trabalho, pois sabemos que é através dela que podemos desenvolver pessoas – e desenvolvê-las não apenas profissionalmente. Nós investimos na educação com a disseminação da boa informação; a Elleve, o faz oferecendo crédito especialmente a alunos de baixa renda:

“Nós pensávamos: como é que a gente cria um impacto na vida das pessoas que seja perene, que seja duradouro, e que seja autossustentável. A resposta para isso não foi muito difícil, nós chegamos nela através da educação. Na educação baseada em competências e que trouxesse no curto prazo aquilo que as pessoas precisam para inserção ou para o crescimento profissional”.

Nem todo aluno tem condições de encarar quatro ou cinco anos de uma formação superior, devido a aspectos econômicos e a necessidade de manter uma jornada de trabalho intensa. A solução é investir em cursos de curta duração e alto impacto. Um exemplo que André trouxe ao programa:

“Até hoje, se você queria trabalhar com marketing digital com vendas digitais e e-commerce,  a formação mais tradicional era a de administração de empresas, que te leva através de um currículo de quatro anos, bastante denso, mas muitas vezes desnecessário para aquela atividade que você precisa fazer”.

A Elleve foi fundada em 2020 e está com cerca de 6 mil alunos financiados que pagam taxas que variam de 0% a 2%, ao mês, dependendo do programa. André conta que o modelo permite acesso aos jovens, independentemente da condição financeira dele, gera emprego e renda no futuro. Quanto as instituições de ensino, têm uma captação mais de alunos, risco menor de evasão escolas e garantia de pagamento das mensalidades.

“Se o curso tem muito sentido para aquele perfil de jovem, se a escola tem um bom histórico de empregabilidade dos seus alunos egressos, e se o mercado de trabalho está buscando profissionais com aquelas características daquele aluno pós-formado naquela escola, por mais que aquele aluno tenha problemas financeiros, ainda assim a gente consegue aprovar o crédito daquela pessoa”.

Conheça mais sobre a história da Elleve e como você pode usufruir dos benefícios da plataforma que conecta estudantes e escolas, assista à entrevista completa do Mundo Corporativo:

Colaboraram com o Mundo Corporativo: Bruno Teixeira, Débora Gonçalves, Rafael Furugen e Renato Barcellos.

Conte Sua História de São Paulo: o Cine Bijou dos meus sonhos

Ailton Santos

Ouvinte da CBN

Fotógrafo Aurélio Becherini, Acervo da Casa da Image de São Paulo

Das montanhas de Minas para as “montanhas de luzes” de São Paulo, entrei de ônibus na Pauliceia, numa noite de janeiro de 1970. Deixava o curso de direito na federal, em Belo Horizonte, para fazer teatro. Só desafios. Tudo novo. Sem limites.

A primeira noite, sono agitado num hotelzinho perto da antiga rodoviária. Depois, a pensão de uma prima. Quarto com dois beliches e uma cama de campanha. Cinco primos cheios de sonhos. E muita agitação.

O dinheiro curto. No domingo, só almoço. E bananas e mais bananas para todos até o dia seguinte.

O primeiro emprego, na revisão de O Estado de São Paulo. Das dez da noite às seis da manhã. 

Só descobertas! Tumultos. E muito barulho. No jornal, no quarto, na casa, nas ruas. Como dormir? Quando dormir? Me pegava dormindo no ônibus, de pé, segurando o pegador que pendia do teto. O joelho falhava, eu quase caia. No elevador do Estadão, um vaivém do andar da revisão ao andar do restaurante. E eu dormindo, ainda em pé, pra baixo e pra cima, no intervalo da jornada.

Certa tarde, em desespero, com a dor aguda de semanas sem dormir, passei diante do Cine Bijou, na Praça Roosevelt. Filmes de arte, para driblar a ditadura. Que descoberta!

Sessões do meio-dia até a madrugada. “Gaviões e passarinhos”, de Pasolini. Nem pensei. Entrei. E mal joguei o corpo na poltrona vermelha, já estava de olhos fechados. Acordei no fim da primeira sessão. No meio da outra, com o personagem Totó caminhando por uma estrada sem fim, com uma gralha falante e um garoto. E de novo só despertei – dormido e descansado – antes da sessão das dez. Pronto para o trabalho.

Dias e noites, a penumbra encantada do Cine Bijou embalava meu sono e meus sonhos, até a hora de trabalhar. Não sem antes saborear o imortal sanduíche de pernil acebolado no bar de frente do jornal.

Outros filmes vieram, para salvar-me da tortura dos barulhos da pensão. E do mundo. Continuei fiel ao berço do Bijou. Até que Carlitos  recebeu-me com as luzes encantadas do seu “Circo”. A angústia de Totó dá lugar ao lirismo de Carlitos, dançando na sala de espelhos, perseguido por um policial. 

Durmo, sonho. E acordo ainda sonhando com aquela magia. Dias e noites. Noites e dias. Até hoje.

Agora que o cinema foi reinaugurado, reacendeu suas luzes, espero reencontrar Totó e Carlitos nas telas do Bijou ou caminhando pelas calçada da Praça Rosevelt. Porque eu continuo a sonhar. Agora com o sono (e os sonhos) em dia.

Ailton Santos é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Conte você também mais um capitulo da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para conhecer texto, visite meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.