Ação ou Reação?

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Reveja seus últimos meses de trabalho, convívio familiar, relacionamento amoroso… O que mais você vê: ação ou reação?

Ação: você pensa, elabora ideias, tem intenções e objetivos, escolhe que atitudes tomar e executa.

Reação: você percebe uma cobrança externa, um risco de perder algo ou alguém, uma crítica… qualquer situação que te incomoda ou te assusta e, então, dá uma resposta a isso, como uma defesa ou um contra-ataque.

Por fora, para quem está assistindo, parece tudo a mesma coisa – um ser humano fazendo movimentos, falando, indo ou voltando, iniciando projetos, e por aí vai.

Mas, por dentro… muda tudo. Por dentro, a motivação que inicia a atitude diz se estamos construindo, conscientemente, a vida que queremos viver, a reputação que queremos ter, o impacto que geramos no mundo; ou diz se estamos tampando buracos, apagando incêndios, empurrando como dá.

Reagir nos coloca em estado de alerta constante, porque estamos sempre vigilantes, resolvendo problemas, tentando provar que somos capazes, nos esforçando pra não perder o que (de repente) lembramos ser importante.

Viver de reações, de tentativas de responder rápido ao que percebemos não estar funcionando, é exaustivo – porque nos deixa com medo de perdermos, sermos descobertos em nossas faltas e falhas… uma escravidão sem fim.

Em sentido aposto, agir nos coloca no comando, porque temos clareza do que fazemos, o porquê fazemos, para onde pretendemos ir. Viver de ações nos dá segurança, confiança, firmeza em nós mesmos e na nossa história.

Ação ou Reação – projete seus próximos meses de trabalho, convívio familiar, relacionamento amoroso, vida… e me diga: escolherá qual caminho para você?

A Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é psiquiatra, psicoterapeuta e sócia fundadora da LuxVia Health Center.  Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Quando a vida te diz: Não!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

Foto de Kaboompics.com

O desejo é um bichinho inquieto e guloso… está sempre com uma fome nova, muitas vezes de algo difícil de conseguir… coloca a gente em agitação, incomodados com a falta daquilo.

O desejo é um bichinho insatisfeito… você dá o que ele quer e, pronto, logo ele já nem saboreia mais aquilo e já parte pra outra vontade.

É o que temos – desejos. Desejos e mais desejos. Mil vozes na nossa cabeça: “Quero isso. Preciso daquilo. Olha, que legal, que vontade!” Existe férias da mente?

Essa intensidade cansa, mas ruim de verdade… é o tal do: Não!

“Não é pra você. Não dará certo. Não irão te ajudar. Não gostaram do que você fez. Não lhes interessam o que você pensa ou faz.”

Na mesma facilidade que o desejo pula, o Não vem. Às vezes da gente mesmo, às vezes de outras pessoas… Muitas vezes, da vida, que parece “não querer que aconteça”.

Então, não dá pra parar de desejar? Porque esse tal de Não dói pra caramba… A mente pensa: “A partir de agora, a ordem é não querer, deixa a vida me levar”.

Pois é, mas e quando vem o Sim? E quando nosso desejo é atendido… Que sensação mais gostosa! Uma comida, uma conquista material, um elogio de alguém, um amor… Desejos atendidos jogam luz em qualquer dia cinzento!

Então, quando a vida diz: Não! … Uma saída é dizer pra ela: Sim!

Sim, você comanda, você decide…

Sim, meu poder é limitado…

E, Sim, vou seguir aqui, porque vai que você me surpreende qualquer dia desses e me faz, ainda que momentaneamente, feliz?!

A vida diz Não, a gente diz Sim…

E que venham os desejos!

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve a convite do Blog do Mílton Jung.

Sinta raiva!

Dra. Nina Ferreira

@psiquiatrialeve

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“Sentir raiva é pecado”, “Raiva é um veneno”, “Raiva mata”.

Então… já pequei, já fui envenenada, já morri. 

E, vez ou outra, faço tudo de novo.

Você já sentiu raiva?

Se sim, me conta: você teve escolha?

Te pergunto porque do lado de cá, na minha mente e no meu corpo, a resposta é… não.

A raiva nunca me perguntou se poderia chegar, entrar, ficar. Ela sempre me atropelou tipo um trator desgovernado. É assim até hoje.

Revolta, incômodo, angústia… explosão. 

Raiva é emoção pura, visceral, animal. Não existe escolha.

Fome, sono, respiração… Natureza mostrando quem manda. A raiva está nesse grupo aí – é espontânea e independente da nossa vontade.

A raiva é seu corpo e seu cérebro te dizendo:

“Presta atenção, estão te invadindo, estamos sob ameaça, olha o ataque!” 

No fim, ela quer te proteger. Pra você sobreviver, ela te enche de noradrenalina e de cortisol e te faz uma máquina potente, pra lutar ou pra fugir, mas morrer – jamais.

Então… Sinta a raiva! 

Quando ela aparecer: perceba que ela chegou; dê nome pra ela; ouça de qual ameaça ela está te alertando.

Depois: dê um tempo, enquanto convoca seu córtex frontal, a “Sra. Razão”; construa um diálogo entre os dois.

Uma hora a Raiva fala, em seguida a Razão argumenta… a Raiva se revolta, a Razão pondera…

Pronto. A partir daí, a decisão está tomada – enumere as atitudes, uma a uma, que vão te levar ao resultado que você precisa: se distanciar, conversar num outro momento, tentar outro caminho (porque soltar é mais eficaz que insistir)…

Seja o que for, a Raiva chegou, fez o papel dela – te alertou do perigo – e se foi.

Não precisa temer. A Raiva não é inimiga, nem pecado, nem veneno e, muito menos, morte.

A Raiva é a Vida querendo sobreviver.

Sinta a Raiva. Depois, chame a Razão. E, depois, crie seu plano e caminhe pelo mundo, orgulhoso do seu autoconhecimento e do seu autodomínio.

Os fortes, os sábios, os bons… sentem Raiva, mas fazem dela um motor de Vida.

E então, me diz… Você faz o quê com sua Raiva? Foge… ou sente e vive?

Dra. Nina Ferreira (@psiquiatrialeve) é médica psiquiatra, especialista em terapia do esquema, neurociências e neuropsicologia. Escreve este artigo a convite do jornalista Mílton Jung

De estresse


Por Maria Lucia Solla

Ouça De estresse na voz da autora

São Paulo 31.12.2009

Olá,

estamos todos à beira de um ataque de nervos
homens mulheres crianças e animais
de todas as raças e classes sociais
correndo risco de perder o equilíbrio

a cada passo
o sabor de descompasso

Todos estressados.

Alguns não conseguem mais esconder, outros ainda andam na corda-bamba do esconde-esconde e de vez em quando dão bandeira, mas todos apresentamos sintomas do desequilíbrio que deixa esburacado e escorregadio o terreno onde pisamos. Que destrambelha saúde, trabalho, relacionamentos, e ainda sequestra o sono da gente.

O estresse, que leva a matar e a morrer, tem duas mãos e é invisível. Na hierarquia dos desequilíbrios, está acima dos males comuns. É causador e orquestrador dos mais diversos sub-desequilíbrios, mas estamos redondamente enganados ao considerarmos o estresse, vilão. Estresse não é vilão coisa nenhuma. Ele é consequência natural, lógica e automática da vida que levamos, das palavras que dizemos, dos nossos pensamentos e atos, e num grau elevadíssimo, de nossa omissão. Nossas escolhas e crenças – ou a falta delas – é que estão nos matando.

passamos a adorar a sociedade em que vivemos
mas nunca chegamos a alcançar o que dela queremos

pagamos uma fortuna por sapatos que deformam os pés
em oferenda à moda
para sermos amados
já que nossa definição de amor está doente
e escolhemos continuar enganados

Crianças desrespeitam seus pais, que exibem sorrisos amarelos e os chamam de meus amores e meus anjinhos.

filha xinga pai
filho mata mãe
ai

O estresse já começa no berço:

– Está na hora de mamar, acorda o bebê.
Como assim na hora de mamar! o pequerrucho está a nanar! você não vê?
– Mas…
– Não tem mas nem menos mas, e faça silêncio para o reizinho não acordar.

Aí o pequerrucho, que viveu nesse paraíso pirata, com essa liberdade de meia-tigela, tendo tudo o que queria, na hora que queria, cresce.

aí o reizinho quer um copo-d’água
não se mexa meu filho adorado
deixa que a mamãe pega o-que-você-quiser
para você a mamãe nunca está cansada

aí o reizinho cresce mais e se estressa no banco da escola
porque ninguém lhe passa quando quer a bola
porque colegas e professores não o cobrem de gentileza
ao não perceberem nele a suposta realeza

e entre frustração e mágoa
o estresse no adulto se instala
porque a relação do indivíduo com o meio
não passa de fingir-após-fingir no banco da sala

o ódio é hoje corrente oração
e a certeza nossa maior prisão

Somos todos um bando de crianças mimadas, nos jogamos no chão e esperneamos quando não temos o que queremos, quando o outro não se comporta, ou não diz o que queremos que diga.

nos consideramos vítimas
e nossas queixas legítimas

eu aqui do meu pedaço
vou driblando o meu do meu jeito
e você, o que tem feito?

Pense nisso, ou não, e até a semana que vem.

Maria Lucia Solla é terapeuta, professora de língua estrangeira e realiza curso de comunicaçao e expressão. Aos domingos escreve no Blog do Mílton Jung, o que eu espero não lhe cause nenhum estresse.