Conte Sua História de SP 468 anos: o realejo da rua do Tesouro

Por Hylda de Albuquerque Pina

Ouvinte da CBN

Rua do Tesouro, 23. Parei em frente ao prédio apoiada no braço de minha filha, Mônica. Estou com 84 anos hoje. Depois de uma consulta médica que durou menos de cinco minutos, ela me convenceu a dar um passeio pela Praça da Sé para comprar fios de ovos. Comentei que, quando jovem, tinha trabalhado por ali.  Sim, depois de mais de 50 anos, estava de volta ao endereço do escritório das Lojas Interoceânicas. 

Consegui o primeiro emprego por indicação de uma amiga. Quando soube que era no centro, fiquei preocupada. Eu não sabia andar por lá. Aos 18 anos, conhecia o bairro onde havia nascido, o Ipiranga. Minha família tinha uma pensão na rua Clemente Pereira, onde serviam refeições para funcionários do comércio e para operários dos arredores, a turma das indústrias da família Jafet, da fábrica das Linhas Corrente, das Meias Marte .… 

Para ir para o Centro, precisaria pegar um bonde até a Praça Clóvis ou um ônibus até o Parque Dom Pedro. As duas opções me assustavam, mas tomei coragem e comecei no novo trabalho. Com uma hora e meia de almoço, podia comer em casa e retornava em tempo de dar uma volta na região. Muitas vezes me perdia e chegava em cima da hora para o expediente da tarde. 

Esses passeios solitários ampliaram meus horizontes de menina de bairro. Passeava em frente ao auditório da Rádio Record, na Quintino Bocaiúva, e me admirava com a fila de moças que esperavam para assistir ao programa Só Para Mulheres. 

Nas vitrines do Mappin, da Americanas, das lojas de tecidos, de roupas e calçados, o olhar se distraía. Nem sempre eu sabia o melhor caminho para voltar e lá estava eu, de novo, perdida no Centro.      

O coração sossegava quando enfim, avistava a bonita fachada da loja Sönksen, que vendia chocolates e balas, e ficava no prédio em frente ao do meu trabalho. Bem na porta da Sönksen, toda tarde, se instalava um velhinho com seu realejo.  A música chegava ao escritório, no sexto andar. De vez em quando, só de farra, os rapazes que trabalhavam comigo telefonavam para a bomboniere, reclamando do barulho do realejo. Depois, corriam para a janela, só pra ver a moça da loja mandar o velhinho embora…  

Agora, parada por um instante, aqui na Rua do Tesouro, acho que consigo ouvir de novo a música do realejo. Que depois de tanto tempo, me traga boa sorte…  

Hylda de Albuquerque Pina é personagem do Conte Sua História de São Paulo. A sonorização é do Cláudio Antonio. Você ainda pode participar das comemorações dos 468 anos da nossa cidade. Envie seu texto para contesuahistoria@cbn.com.br. Para ouvir outros capítulos, visite o meu blog miltonjung.com.br ou o podcast do Conte Sua História de São Paulo.

Conte Sua História de São Paulo: O periquito do realejo

 

A ouvinte-internauta Paula Calloni de Souza descreve a emoção provocada pelo som do realejo que encontrou no passeio com os filhos. O texto foi publicado no livro Conte Sua História de São Paulo, lançado pela Editora Globo:


Ouça o texto de Paula Calloni Souza sonorizado pelo Cláudio Antonio

Junho de 2006. Estava caminhando pelo meu bairro, Campo Belo, em uma manhã de sol, com meus filhos André, de 9 anos e Adriana, de 7. O céu, muito azul, fazia um belo quadro com os ipês rosa e amarelo, cujas pétalas dão cor ao asfalto, nessa época do ano. De repente, escuto ao longe uma melodia mágica, que não ouvia desde criança, 30 anos atrás. Pego as mãos dos meus filhos firmemente e aperto o passo, atrás daquela música. Eles não entendem nada e eu só digo:

– Vamos rápido, preciso mostrar isso a vocês.

Algumas quadras depois, estava ele: o realejo. A fisionomia do velhinho era familiar. Seria o mesmo que me encantava quando criança? Não, não era possível. Meus filhos ficaram hipnotizados, fascinados. Eu, também. Por algumas moedas, lá estava a alegria, simples, de ver aquele periquito verde-amarelo, pegando no bico os papeizinhos, com o destino e a sorte das crianças. “Há de ser um grande homem”, lia-se num deles. “Terás uma linda missão”, lia-se noutro. Talvez fossem as mesmas frases, em todos os pedacinhos de papel. Mas o que isso importa? O fundamental era reviver aquela emoção de criança e mostrar a “novidade” para os pequenos.

Despedi-me do homem, agradecida . Ainda ia dar um último aceno, mas quando olhei para trás, ele já tinha ido embora. As crianças contaram a história para os colegas. Nenhum deles sabia o que era um realejo. São pequenas emoções, cada vez mais raras, da velha São Paulo. Capazes de encantar até hoje a quem tiver a sorte de reencontrá-las.