Avalanche Tricolor: É campeão! É campeão!

Grêmio 3×0 Santa Cruz

Recopa Gaúcha – Arena Grêmio

A Recopa é nossa, em foto de Lucas Uebel/Grêmio FBPA

O almoço dominical em família ainda não estava servido e o Grêmio já havia levantado mais um troféu. Na transmissão da TV, rolou vinheta com o título de campeão e sobe som do hino. Em campo, montaram palanque, teve entrega de medalha e fumaça colorida para erguer o troféu. O segundo no ano. 

Sei que o título não é daqueles que vira DVD, filme no cinema ou será lembrado para sempre nas conversas com os filhos. Mas ganhar é sempre bom, mesmo que o adversários seja o humilde e honesto Santa Cruz —- time que vem de uma terra famosa pelas plantações de fumo e, pessoalmente, pelos tradicionais e, às vezes, violentos embates que meu time de basquete encarava sempre que enfrentávamos a equipe da cidade,  que leva o nome de Corinthians.

O Grêmio teria compromisso importante pelo Campeonato Brasileiro, mas o destino nos permitiu o adiamento da rodada e o agendamento da decisão regional. Providencial adiamento. Estamos com 11 integrantes do elenco contaminados por Covid-19: de goleiro a atacante, de lateral a técnico — sem contar os dois convocados para a seleção olímpica. Tantos desfalques seriam fatais. Não para essa final, quando pudemos selecionar apenas os mais jovens ou os menos aproveitados do grupo.

Dos que entraram em campo, Fernando Henrique, o volante pifador, foi talvez a melhor das notícias na manhã deste domingo.

Com uma personalidade rara para a idade, distribuiu jogo de um lado e do outro com talento e precisão no passe. Ainda arriscou-se a chutar de fora e quase marcou o que seria o terceiro gol gremista. Não por acaso, ganhou lugar de destaque na foto do título, sentado atrás do troféu e tendo Geromel — nosso líder —- como guarda-costa.

Havia uma expectativa grande quanto ao desempenho do lateral esquerdo Guilherme Guedes, jovem da base que está voltando à ativa depois de uma série de problemas físicos. Cumpriu bem o seu papel e deu demonstrações de que sabe bater bem na bola, na única falta em que teve oportunidade de cobrar.

Os jovens atacantes Guilherme Azevedo, Léo Pereira e Jhonata Robert —- esse tendo entrado apenas no segundo tempo —- deixaram suas marcas, com tentativas de dribles, sendo agressivos no ataque e marcando cada um o seu gol.

Ninguém ficará para a história devido ao Bi da Recopa Gaúcha, mas é provável de que alguns dos que vestiram a camisa gremista nesta manhã de domingo estejam começando a escrever sua passagem pelo tricolor —- e que bom que comecem essa história de maneira vitoriosa.

Avalanche Tricolor: o dia em que o futebol ficou sem graça

 

Grêmio 6×0 Avenida
Gaúcho/Recopa — Arena Grêmio/Porto Alegre-RS

 

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Jogadores e Renato prestam homenagem aos meninos mortos no Flamengo Foto LUCAS UEBEL/GRÊMIOFBPA

 

Tinha taça em jogo. E taça a gente quer ganhar sempre. Em campo, estava o que havia de melhor à disposição de Renato — e ao longo da partida ainda entraram alguns jogadores que, provavelmente, deixarão o time ainda melhor. O toque de bola era o que aprendemos a gostar. A categoria do passe se fez presente desde o minuto inicial. A movimentação intensa abriu caminho para o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto e o sexto gol —- e que baita gol foi esse último. Aliás, difícil escolher o mais bonito. De cabeça. De cavadinha. Com dribles. Com força. No ângulo. Gol para todos os gostos. A torcida assoviou para dar ritmo à equipe. Bateu palmas no mesmo compasso do futebol jogado. Cantou seus cantos. E relembrou o grito de “é campeão”!

 

Tinha tudo para ser um jogo perfeito. Mas foi sem graça. Uma graça que se perdeu na morte de dez garotos, vítimas da tragédia no Ninho do Urubu, na sexta de madrugada. Garotos que, como muitos daqueles que vestiram, vestem ou vestirão a camisa do Grêmio, só queriam ter o direito de jogar futebol. De sorrir pelo drible bem dado. De comemorar nos braços do torcedor o gol bem feito. De levar para a família a alegria de uma vida mais bem estruturada.

 

Um gurizada como Everton e Luan —- que começa na base a construir sua própria história e ser protagonista da história do seu time de coração. Que abre mão da infância e da adolescência —- aceita a rotina de treinos intensos, a distância da família e as condições que lhe oferecem para dormir, comer e morar — porque sabe que seu talento está prestes a abrir-lhe às portas para uma vida mais digna. Com o respeito dos outros. A admiração de muitos. O olhar orgulhoso da mãe e do pai, quando o tem. Dos parentes e amigos, também.

 

Os meninos do Flamengo são meninos como os nossos. Imaturos por adolescentes que são. Inseguros diante de uma vida que mal está começando. Ao mesmo tempo, corajosos. Capazes de superar qualquer dificuldade porque só assim terão espaço no campo do futebol. Sabem que os ídolos nos quais eles se inspiravam também tiveram de trilhar essa caminhada. Só não sabiam o que o destino havia reservado a eles. Destino? Talvez caiba melhor nessa frase a irresponsabilidade, o descaso, o desrespeito, a crença de que nada vai dar errado … essas coisas que se transformaram em lugar-comum nesse país que assiste aos seus jovens morrerem queimados em boates e alojamentos, suas famílias serem soterradas pela lama da mineração e sua gente ser levada pelas águas das enchentes. Tão comum quanto a impunidade que se segue a essas tragédias.

 

Bem que tentei sorrir a cada gol marcado pelo meu Grêmio. Mas o som dos trompetes militares entoando o toque fúnebre, na cerimônia que se realizou antes da partida, ficou em meus ouvidos e me fez lembrar a cada minuto de jogo que um daqueles dez meninos mortos poderia um dia estar ali na Arena do Grêmio fazendo aquilo que tanto desejavam em vida: dar alegria ao torcedor.