Ano novo: tudo de novo!

Por Simone Domingues

@simonedominguespsicologa

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“Minha mãe me deu ao mundo
De maneira singular
Me dizendo a sentença
Pra eu sempre pedir licença
Mas nunca deixar de entrar”

Tudo de novo – Caetano Veloso

Na mitologia romana, Janus é a divindade que possui duas faces, uma sempre voltada para a frente, contemplando o futuro, e a outra para trás, olhando o que já passou. Nesse sentido, sua representação simboliza as transições, o caminho entre dois pontos e as dualidades do universo.

O deus romano costumava ser cultuado durante os períodos de colheita, em rituais de celebração nos quais se desejava o sucesso na renovação de um ciclo de plantio, e em eventos que marcavam mudanças nas fases de vida humana. Além disso, era o deus guardião das portas e dos portais de entrada e saída por onde passavam os soldados romanos em tempos de guerra.

Essa representação do passado e do futuro, e a vinculação às celebrações de início e encerramento de ciclos, fizeram com que o deus Janus fosse fortemente associado com as simbologias do ano novo, que remetem a mudanças, recomeços e esperança.

E não seriam esses os desejos que nos invadem nessa época do ano?

Desejamos que a vida nos permita recomeços. Desejamos uma vida com mais conexão, com mais encontros, com mais oportunidades e, porque não dizer, com mais felicidade.

Desejamos que as mudanças aconteçam e nos permitam uma vida melhor, mas buscamos do lado de fora o que possivelmente se alcança apenas dentro de nós mesmos. As portas que tanto desejamos que nos sejam abertas, possuem fechaduras internas.  Por vezes, elas aparecem com o nome de novos caminhos; por outras, emolduram novas pessoas e culturas, novos olhares e novas ideias.

Cabe a cada um de nós decidir se vamos ou não abri-las. Se não abrirmos, nos manteremos seguros no lugar que já conhecemos, na famosa “zona de conforto”. É menos arriscado? Talvez. Mas restaremos atrás da porta, ignorando um horizonte repleto de novidades que está ali adiante. 

É o desafio entre ter vivências ou ter certezas…

Gosto de acreditar que sempre temos os nossos recomeços, que sempre temos a oportunidade de encerrar um ciclo e começar uma nova etapa. É assim na natureza, é assim em nós: ciclos, estações, fases da vida… o nome pouco importa.

Gosto de pensar na fé como a sabedoria que nos permite reconhecer a impermanência das coisas, boas ou ruins.  

Gosto de pensar na esperança como aquela força propulsora que nos encoraja a construir novos caminhos.

Gosto de pensar num novo ano com recomeços, com fé e esperança.

E eu desejo isso a você!

Que o passado e o futuro estejam diante dos seus olhos, assim como era para Janus, e que suas decisões permitam que você faça boas colheitas.

Por fim, busco na dualidade de Caetano Veloso o que espero para o ano novo: tudo de novo!  Inspirada por sua música, desejo que você tenha coragem para abrir as portas que estão à sua frente. Peça licença, mas nunca deixe de entrar.

Simone Domingues é psicóloga especialista em neuropsicologia, tem pós-doutorado em neurociências pela Universidade de Lille/França, é uma das autoras do canal @dezporcentomais, no YouTube. Escreveu este artigo a convite do Blog do Mílton Jung. 

Lixo está migrando de São Paulo

 

Pedro Campos Fernandes


Desde domingo passado, 4 de outubro, a cidade de São Paulo passou a exportar 13 mil toneladas diárias de seu lixo urbano para aterros sanitários de outros municípios. Este número representa nove vezes o que a região do Alto Tietê, fora Guarulhos, gera por dia.

O último aterro sanitário em funcionamento, o São João, em São Mateus, na zona leste, terá a operação encerrada. A EcoUrbis, que administra o local, diz que o plano de encerramento já foi aprovado pelo Consema – Conselho Estadual do Meio Ambiente.

Estas informações divulgadas no dia 2 de outubro pela AE – Agência Estado – deixam evidente que nem a capital do Estado possui uma política voltada para esta questão, o que a torna mais grave e de urgente a solução.

Como imaginar carretas com 15, 20 toneladas de lixo transitando pelas ruas e avenidas? Um acidente com uma delas causaria prejuízos incalculáveis para as pessoas e para o meio ambiente. Além do mais, já existem carros demais; carretas lotadas de lixo circulando por aí é o que menos precisamos.

Diversas soluções já existem, testadas e aprovadas. Na Itália, segundo pudemos verificar “in loco”, o lixo de uma população de um milhão de habitantes é confinado em imensas cápsulas de borracha de até 800.000 m³, forradas com uma grossa camada de argila.

Os maciços de material orgânico são lacrados por capas de placas de borracha, e regularmente descobertos para serem umedecidos, possibilitando que a produção de gás metano seja perene, de forma controlada.

Acoplada ao aterro, uma usina transforma o metano em energia elétrica que é repassada à empresa responsável, gerando “créditos-eletricidade” para o empreendimento e para a municipalidade.

A parte seca do lixo, depois de separada por máquinas instaladas no próprio aterro, é encaminhada para outros locais de seleção dos materiais para depois ser reaproveitada por indústrias de cada setor envolvido.

Uma tecnologia coreana apresentada à AMAT também se mostrou muito interessante e viável. Todo o lixo urbano é triturado, desumidificado e compactado ao extremo. Nem de uma usina se trata mais, mas de uma indústria.

Este processo não gera o metano, gás 22 vezes mais poluente que o carbônico. Depois de passar por alguns estágios, o lixo urbano é transformado em pequenos “pellets” de 4 cm. O chorume, líquido altamente poluente que sobra do material orgânico, é decantado até poder ser devolvido à natureza.

O “pellet”, o novo material que surge do lixo, é de alta combustão e pode ser usado para produzir eletricidade e alimentar caldeiras da indústria metalúrgica, substituindo o carvão, o diesel e o gás natural.

Para que uma dessas soluções possa ser adotada, precisa ser oficializada uma tríade constituída pelo Consórcio Público do Alto Tietê – em vias de formação -, pelo empreendimento que vai industrializar o lixo e pela empresa detentora da tecnologia a ser implantada.

O segundo ato será o de constituir uma Comissão Financeira, para captar os recursos nos diversos Ministérios, bancos nacionais e internacionais, privados e públicos. Segundo especialistas, há grande possibilidade de tudo sair a custo zero para as administrações municipais.

A gravidade da situação apresenta agora o seu lado positivo: não dá para esperar, não há mais como protelar uma saída.

Perdro Campos Fernandes é Secretário-Executivo da AMAT – Associação dos Municípios do Alto Tietê e enviou este artigo após acompanhar discussão sobre o lixo exportado de São Paulo