Avalanche Tricolor: dos tempos da Semana Gre-Nal

 

Grêmio 1×0 São Paulo (RS)
Gaúcho – Arena Grêmio

 

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Maicon faz de pênalti único gol da partida

 

 

Começo essa Avalanche revelando a idade: 54 anos. E com todo orgulho. A passagem do tempo é da natureza do homem, portanto não há motivos para fugir dela. Só não passa o tempo quem já morreu. E quero viver por muitos anos ainda. Basta que tenhamos capacidade de nos adaptarmos às transformações. E esse tem sido meu esforço.

 

As confidências do primeiro parágrafo, posso garantir, não foram influenciadas pela presença, na noite de ontem, na Arena, do técnico Ernesto Guedes que, aos 68 anos e 57 clubes depois, ainda tem disposição de ficar em pé ao lado do gramado, gritando com seus jogadores na esperança de posicioná-los melhor em campo, mesmo ciente da baixa qualidade técnica do time que tem para comandar.

 

Guedes já era experiente nos tempos em que fui repórter esportivo, nas rádios Guaíba e Gaúcha, de Porto Alegre, na metade dos anos de 1980. Sempre foi dado a frases de efeito e comportamento provocativo com o objetivo de motivar seu time e seus torcedores. É daqueles entrevistados bons de conversar porque dele sempre se tira aspas de destaque  que podem render uma boa manchete (aspas é como chamamos as declarações que são transcritas palavra por palavra no jornal).

 

Não falo de minha idade por causa de Guedes, mas tenho certeza que se fossem outros os tempos e no comando de um dos times da dupla Gre-Nal, ele estaria abrilhantando o noticiário com suas afirmações, às vésperas do primeiro clássico da temporada.

 

Lembro dos meus 54 anos porque, assim como Guedes, eu também sou dos tempos em que a imprensa gaúcha dedicava enormes espaços para falar da “Semana Gre-Nal”.

 

Sim, naqueles tempos, respeitava-se uma semana inteira sem jogos para que os grandes do Rio Grande do Sul se preparassem para o clássico, os lesionados se recuperassem e – em alguns casos – os suspensos tivessem a chance de serem perdoados nos tribunais.

 

Era a oportunidade de se contar as histórias dos principais personagens de um lado e de outro: muitos dos nossos heróis tiveram sua imagem construídas dessa maneira. Alguns, inclusive, eram bem maiores na página do jornal do que dentro de campo.

 

Em reportagens que sempre traziam o selo “Semana Gre-Nal”, havia comparação do desempenho de jogadores, análise com lupa das estratégias dos técnicos e a lembrança de duelos épicos.

 

Antigamente, se andava pelo centro de Porto Alegre e se percebia um clima diferente. Um excitação que levava todos a falarem mais alto na Rua da Praia por onde ecoava uma provocação que incomodava tanto quanto era respeitada. 

 

Aqueles, porém, era outros tempos. 

 

Atualmente, joga-se sábado ou domingo, depois volta-se a jogar na segunda, na quarta ou na quinta e a rotina segue no fim de semana. Falta tempo para digerir o resultado do jogo que mal acabou e já é preciso promover a próxima partida.

 

Ontem à noite, o Grêmio ainda não havia deixado o gramado, depois de mais uma vitória no Campeonato Gaúcho, contra o time treinado por Ernesto Guedes, e o repórter já perguntava sobre o clássico. Não havia tempo a perder porque o Gre-Nal é logo ali e outros tantos podem se seguir dependendo da combinação de resultados.

 

Menos mal que deu tempo para ver Arthur voltar ao gramado, dominar a bola com a elegância que marca seu futebol, de cabeça erguida, com o corpo sempre voltado em direção ao gol e o olhar em busca de um companheiro mais bem colocado. Ter nosso volante à disposição renderia uma ótima reportagem nos tempos da Semana Gre-Nal.

 

Em forma, ele poderá ajudar e muito o Grêmio a vencer o clássico no domingo. Até porque se tem alguma coisa que não mudou com o passar do tempo foi o nosso desejo de vencer sempre o Gre-Nal.

Avalanche Tricolor: para lembrar das peladas jogadas na Saldanha

 

 

São Paulo 1×0 Grêmio
Gaúcho – Aldo Dapuzzo/Rio Grande

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Uma luta contra a bola, na foto de LUCASUEBEL/GRÊMIOFBPA


 

 

Tem um posto Ipiranga ali na esquina. Aqui próximo, um galpão com calhetão. E do lado de lá das cabines de rádio e TV, um muro ocupa o espaço que deveria ser de arquibancada. Em meio a tudo isso, o pessoal mantém um campinho de futebol que intercala grama com buraco. Às vezes, a turma chuta a bola meio alta, seja por falta de habilidade seja por intercorrências do campo, e vai parar lá em cima do telhado. Por sorte, o telhado é inclinado e a bola volta para alegria da gurizada.
 

 

Foi assim, diante destas cenas e com todo o respeito a história do time da casa que assisti ao jogo da noite de ontem, o último do Grêmio pela fase de classificação do Campeonato Gaúcho. Tinha cara de várzea apesar da pompa e circunstância no início da partida. E apesar da importância do jogo para o adversário que precisava de um bom resultado para não cair à Segunda Divisão.
 

 

Ao Grêmio, no máximo, definiríamos o confronto da próxima fase, pois a classificação entre os quatro primeiros já estava garantida, por isso levou-se time “alternativo” a campo – ao péssimo campo em Rio Grande, que, aliás, foi um dos motivos da dificuldade na troca de passe, além da falta de entrosamento e alguma limitação técnica.
 

 

Talvez a falta de ambição do time tenha me dado tempo para olhar para a partida com todas as peculiaridades descritas no primeiro parágrafo – sim, tudo aquilo acontecia em um jogo de futebol oficial e com a chancela da Federação Gaúcha – e me levado a lembrar dos tempos do futebol no campinho perto de casa.
 

 

Lá no Menino Deus não tinha posto de gasolina, mas tinha a porta de ferro do açougue do Seu Bernardo que servia de goleira. Tinha a venda do seu Ernesto na outra esquina, onde bebíamos água no intervalo da pelada. Tinha um bordel, tratado com todo o respeito pela gurizada que jogava bola. E tinha muros para tabelar e telhados sem inclinação que mantinha a bola refém como pena pelo chute mal chutado.
 

 

Bons tempos aqueles do futebol jogado lá na Saldanha Marinho, bem do ladinho do saudoso Olímpico. Tempos em que aos grandes do Rio Grande bastava jogar bola para estar na final. Hoje, tem gente que quase nem se classifica à próxima fase.

Avalanche Tricolor: foi uma várzea só!

 

São Paulo 2 x 1 Grêmio
Gaúcho – Aldo Dapuzo (Rio Grande)

 

 

A mais de 300 quilômetros da capital, Porto Alegre, e bem ao extremo do Estado, Rio Grande é cidade com vida própria, personalidade conquistada talvez pela posição geográfica e pela força econômica proveniente do porto. Foi, aliás, a primeira capital do Rio Grande do Sul. Lembro das viagens até Rio Grande na época em que jogava basquete pelo Grêmio, que só não eram mais desgastantes do que enfrentar o Ipiranga, time que levava o nome da petrolífera instalada na cidade e de relevância no esporte gaúcho. É de lá, também, o mais antigo clube de futebol em atividade no Brasil, o Sport Clube Rio Grande, fundado em 1900, vinte três dias antes da Ponte Preta, de Campinas. Apesar do feito histórico, o Rio Grande disputa, atualmente, a segunda divisão do Campeonato Gaúcho e o time de destaque na cidade é o São Paulo, assim batizado para homenagear o estado de origem de um de seus fundadores. Foi campeão gaúcho em 1933, coincidentemente vencendo o Grêmio por 2 a 1, mesmo placar da partida disputada no sábado de Carnaval. Pela qualidade do estádio e do campo, imagino que ambos sejam patrimônio daquele época também, pois há muito tempo não assistia a um jogo disputado em local tão impróprio e capaz de colocar em risco a integridade de atletas profissionais.

 

As arquibancadas acanhadas e abertas para oito mil torcedores não chegam a ser um escândalo, pois devem estar a altura do público que costuma assistir às partidas dos dois principais clubes da cidade. No sábado, foram pequenas para tanta gente, especialmente os gremistas que moram na cidade e queriam ver o clube pela primeira vez em 20 anos. Não conseguiram ver muita coisa, além de estar próximo de seus ídolos, já que o alambrado fica encostado na linha lateral, e, se agiram como eu diante da televisão, torceram tanto por uma vitória quanto para que nenhum dos nossos atletas deixasse o campo machucado. O gramado, não bastasse estar enxarcado pela chuva, tem uma quantidade inimaginável de buracos que impedem a troca de passe e surpreendem os goleiros a cada chute a gol. Há um trecho da intermediária em que a grama simplesmente morreu e levou junto a qualidade técnica do futebol jogado, o que talvez explique a dificuldade que o São Paulo está tendo para escapar da zona de rebaixamento. Verdade que ambas as equipes perdem diante deste palco, mas não há como pedir aos jogadores do Grêmio, que tem pretensões que vão muito além do Campeonato Gaúcho, que se exponham a riscos. Aliás, era de se rever a escalação da equipe neste sábado, pois atletas importantes para a campanha da Libertadores estiveram em perigo.

 

Dizer que o jogo foi disputado na várzea não é exagero. Campos de futebol na periferia de São Paulo, e creio que em Porto Alegre, também, têm gramado em melhores condições do que aquele. Sem contar a presença de um árbitro que parecia estar deslumbrado com o fato de apitar jogo do Grêmio e ter entrado em campo com a pretensão de aparecer em cima do time grande da capital. Era agressivo nas marcações de falta, cobrava de forma exagerada bom comportamento dos jogadores e inventou um pênalti que deu a vitória para o São Paulo. Para a várzea ficar completa, o Canal Premier FC, a quem pago para ver às partidas do Grêmio, passou a transmitir o jogo do Atlético Paranaense quando ainda faltavam os três minutos de acréscimo. A imagem só voltou à Rio Grande no lance final de partida.

 

Uma várzea só!