Dia 1º de abril: a mentira que a sociedade permite


Por Beatriz Breves

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O dia 1º de abril é consagrado como o Dia da Mentira. Nessa data, as pessoas se autorizam a mentir e ainda se divertem com o “caiu no 1º de abril”, quando suas vítimas acreditam no que é falso. No entanto, mentir é uma prática socialmente censurada. Quem nunca ouviu frases como: “mentir é feio”, “diga sempre a verdade”, “a verdade dói, mas ainda é melhor que a mentira”, “cuidado, a mentira tem perna curta”?

Talvez isso nos seja ensinado porque, diante da mentira, predomina o sentimento de traição — algo profundamente doloroso, por envolver a quebra da confiança e, portanto, a ruptura de um vínculo. Dependendo do grau de investimento afetivo, essa ruptura pode doer muito. Além disso, mentir também implica questões éticas e morais.

Entretanto, parece haver uma tendência humana a mentir. Será?

Importante ressaltar que não estou me referindo a pessoas que vivem imersas na mentira, o que já seria algo da ordem psicopatológica. Refiro-me, sim, àquelas pessoas que, no dia a dia, mentem — digamos — por bobagens, criando justificativas para atenuar suas mentiras, com denominações alternativas. E aqui convido: atire a primeira pedra quem nunca disse uma “meia-verdade”, a tal “mentira do bem”, quem sabe “alguma mentirinha” ou mesmo uma “falsa verdade”.

A pergunta que talvez devêssemos fazer é: por que, diante de uma atitude tão censurada, cria-se um dia em que a pessoa não só está autorizada a mentir, como sua mentira se torna motivo de risos — tanto para o mentiroso quanto para sua vítima?

Para tentar responder, recorro primeiro a Freud. Em O Futuro de uma Ilusão (1927), ele propõe que a civilização impõe três grandes sofrimentos ao ser humano: reconhecer a superioridade da natureza; admitir a fragilidade do próprio corpo; e, por fim, submeter-se às normas sociais. Segundo Freud, os dois primeiros sofrimentos são aceitos com relativa facilidade, mas o terceiro não — o ser humano estaria constantemente tentando burlar as regras que a sociedade lhe impõe.

Sob essa perspectiva, as mentiras cotidianas poderiam ser entendidas como pequenas tentativas de transgressão das normas sociais.

Mas recorro também ao psicanalista Heinz Kohut, que vê o senso de humor como expressão de amadurecimento pessoal. Como escrevi em Uma Introdução à Psicologia Psicanalítica do Self — a teoria de Heinz Kohut desde as suas origens em Sigmund Freud: “o verdadeiro senso de humor só é atingido quando o indivíduo consegue vivenciar com humor as suas próprias limitações” (2001, p. 39).

Por essa visão, aceitar com senso de humor as limitações impostas pelas regras da sociedade estaria demonstrando amadurecimento pessoal.

Unindo essas duas perspectivas — a tendência humana de burlar regras e a capacidade de senso de humor diante das próprias limitações —, torna-se mais fácil compreender o Dia da Mentira: um dia em que, por meio do humor, a pessoa experimenta a sensação de libertar-se, ainda que ilusoriamente, de seu aprisionamento social. E essa ilusão é divertida, por produzir a sensação de força e poder. Afinal, não é todo dia que se pode transgredir uma norma social e ainda ser celebrado por isso.

Beatriz Breves é presidente da Soc. da Ciência do Sentir. Psicóloga, bacharel. licenciada com Esp. em Física (FAHUPE). Mestre em Psicologia (AWU/USA). Psicanalista (SBPRJ/IPA). Psicoterapeuta de Grupo (SPAG–E.Rio). Sócia tit. Pen Clube do Brasil. Publicou O Eu Fractal e outros livros, pela ed. Mauad.

Dez Por Cento Mais: Gabi Roncatti fala do poder transformador do riso nos hospitais

Foto Divulgação


“O hospital é um palco pouco iluminado, mas grandiosamente iluminado pelo resultado que ele dá.”

Gabi Roncatti

Pode um nariz azul abrir portas que uma expressão séria jamais conseguiria? Para Gabi Roncati, atriz, humorista e fundadora do projeto Humor Riso, essa é uma certeza construída em anos de trabalho em hospitais, onde a arte se transforma em companhia, escuta e cuidado. Gabi leva o riso como terapia a pacientes em situação de fragilidade, transformando ambientes marcados pela dor em espaços de acolhimento. Essa experiência foi o centro da conversa com Abigail Costa no programa Dez Por Cento Mais.

Nariz azul, escuta ativa e um show particular

Formada em risoterapia, Gabi desenvolveu um modo próprio de atuação nos corredores hospitalares. Tudo começa com o respeito: “A gente sempre vai pedir licença para entrar no quarto. Se o paciente disser não, a gente agradece e vai embora. Isso devolve a ele o direito de dizer o que quer.” É o primeiro passo de uma abordagem sensível, pensada em cada detalhe — da maquiagem suave ao nariz azul — para não assustar, mas conectar.

A escuta ativa, mais do que o riso em si, é um dos pilares do trabalho. “Tem dias em que a pessoa só precisa falar. O desabafo já é um alívio enorme. E quando você vê, já está batendo um papo muito mais risonho do que no começo.” Gabi entende que, antes de provocar uma gargalhada, é preciso se fazer presente: “A presença ativa também cura.”

Cada encontro é único. Não há roteiro. “O riso é singular, é cultural. O que funciona com um não funciona com o outro.” É por isso que Gabi prefere dizer que sua metodologia é intuitiva, alimentada por conhecimentos em psicologia, neurociência, arte e espiritualidade. “Eu testo tudo em mim antes de testar nos outros. Acordar sorrindo muda o seu dia. Eu garanto.”

Felicidade é treino

Segundo Gabi, o riso é uma musculação da alma. “Você precisa praticar. Ele pode ser provocado, mesmo sem estímulo externo. Seu cérebro não distingue se é uma risada genuína ou forçada — os benefícios são os mesmos.” E completa: “Se você escolher encarar seus problemas com mau humor, seu dia vai ser insuportável. Se encarar com bom humor, ele vai ser muito mais leve.”

Essa filosofia a acompanha mesmo diante dos momentos mais difíceis. Como quando visitou uma menina em estado terminal que, com esforço, sentou na cama e sorriu. “A mãe dela chorava, emocionada por ver a filha brincar mais uma vez. Isso me marcou profundamente. Às vezes, o que a gente faz ali é só permitir que o último sorriso aconteça.”

Assista ao Dez Por Cento Mais

O Dez Por Cento Mais, apresentado pela jornalista e psicóloga Abigail Costa, pode ser assistido, ao vivo, às quartas-feiras, ao meio-dia, pelo YouTube. Você pode ouvir, também, no Spotify.